E essas Faíscas?
6 Meio Diferente
Eu estava faminto. Porque você acha que ela viria à minha cabeça? Ei, será que esta tão na cara assim?
Enfim, passou cinco, passou dez minutos e nada de alguém aparecer pra me dar comida. Pecado deixar criança passando fome!
Tentei dormir, mas até que enfim mamãe e a enfermeira entraram no quarto. Graças aos deuses ela tinha comida na bandeja. Ta, a comida do hospital não é a das melhores, mas quando se está com fome, aquela comida de morto forra seu estomago de uma forma, que cara...
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E até quem enfim, minha estadia no hospital acabou. Realmente essa vez foi mais rápida que as outras. Apenas dois dias. Como sempre, nenhuma visita diferente. Na verdade, só mamãe, papai, Dinda, seu marido e meu primo.
Nesses dois dias, Melina não saía de minha cabeça. No começo foi uma sensação estranha. Não sei como é a dor da cólica feminina ao certo, mas pelo que a minha mãe me contava, era uma dor muito forte onde se localiza o útero. Como não tenho útero, considerava uma dor de barriga. Foi uma angústia esses dois dias, e eles pareceram eternos.
Enfim voltei pra casa. Tive mais um dia de repouso, porém eu já estava ficando perturbado, e nunca havia querido voltar tanto pra escola quanto naquele dia.
É foi estranhamente estranho pra mim, porque (1) eu odiava acordar cedo, (2) o povo da minha sala já havia me cansado com aquelas brincadeiras sonsas do tipo que ninguém quer ouvir em plena sete da matina e (3) eu não tinha realmente um porquê de ir pra escola. É realmente eu não tinha, no passado. Mas agora, com Melina na minha sala sentada do meu lado, e 100% exatas, eu literalmente tinha um porquê de ir pra escola
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E então eu dormi profundamente naquela noite, e tive um sonho maravilhoso. Meu medo era acordar no dia seguinte e ter outro ataque.
Mas não, tudo correu bem. Nenhuma febre, nada de tonturas. Não senti vontade de vomitar, e estava com muita fome, tipo, muita mesmo. Levantei, e sentei na cama pra ver se não sentiria tontura. “Ok, nada, tudo certo” pensei. Calcei meu chinelo, que por algum motivo era do Capitão América, e me dirigi até o banheiro. Me olhei no espelho, o que não é habitual, e me senti bonito. Realmente parecia que aquele dia seria bom. Resolvi até tomar um banho, o que não é normal de acontecer de manhã comigo. Peguei uma roupa e toalha no meu quarto, e vi no relógio que ainda eram cinco e quinze da matina. Pra você ter noção, eu até lavei o cabelo!
Ao sair do Box, me senti renovado. Me vesti, escovei meus dentes. Fui até o quarto de meus pais, peguei o perfume mais cheiroso de papai e passei em mim. Peguei minha mochila em meu quarto, tirei o celular do carregador e desci as escadas.
Enquanto descia, liguei meu celular. Chegando à bancada da cozinha, vi que mamãe havia preparado meu café, e deixado um bilhete ao lado me desejando um bom dia e avisando que ela havia saído pra “correr” com papai (sim, entre aspas, porque você não conhece realmente meus pais.). Tomei meu café, que estava maravilhoso. Minhas lindas, redondas e maravilhosas panquecas e um gostoso e macio cupcake. Escovei de novo meus dentes, peguei meus cinco reais, e sai de casa.
Saindo de casa, fui até a panificadora e comprei um chiclete, daqueles do tipo Trident que as pessoas compram antes de se encontrarem com certas pessoas. Não que eu fosse necessariamente me encontrar com alguém, mas qual o problema de gostar desses tipos de chiclete?
Ta, OK. Eu assumo. Sim, já estava planejando algo com a Mel. Não que fosse dar certo, mas...
Ao sair da panificadora, olhei em volta com uma ponta de esperança de que a Mel passasse. Via pessoas de todos os tipos passando por mim, as mesmas pessoas que eu vejo desde criança. As árvores em volta, os comércios, tudo no lugar de sempre. E ai me dei conta que era melhor ir andando, senão chegaria atrasado no meu segundo sexto dia de aula.
A todo instante olhava pra trás só pro acaso de Mel estar lá. E só tive conhecimento de que ela não estaria atrás, quando a encontrei na porta da escola conversando com as meninas.
Quando o pessoal da sala percebeu que eu havia voltado, vieram em minha direção, e eu já estava preparado pra ouvir mais uma vez os mesmos comentários de sempre.
“Ah graças a Deus você está bem!”
“Cara, voce perdeu esses três dias de aula. Na moral, foram os melhores!”
“Porra, não me mate do coração de novo sem avisar seu cabrito!”
“Essa vez tu voltou mais rápido né?”
Olha, é cada coisa que eu tenho que aguentar das pessoas da minha sala, que Meus Deuses.
Pelo que pude perceber, Melina estava sem entender muito bem o que havia ocorrido, mas também não veio perguntar.
Entramos na sala, e aquele seria um dia legal. Teríamos Matemática e Física nos quatro primeiros horários, e pra descontrair, nos dois últimos, Educação Física.
As aulas antes do intervalo foram bem suaves. Infelizmente, o professor barbudo de Matemática, Sr. Haley havia faltado, e tivemos que ficar realizando aquelas listas toscas, porém quilométricas de exercícios, e na nossa primeira aula de física antes do intervalo, ficamos lendo e relendo os capítulos da apostila. Mas eu li só uma vez, e nos quarenta minutos restantes, fiquei olhando pro campo de futebol que ficava do outro lado da janela.
A paisagem estava bonita. A grama aparada, as árvores altas em contato com os raios de sol criando sombra e luz. Tava realmente bonito, tirando os marmanjos da sétima serie que estavam desfilando atrás da bola que nem um bando de gays.
Acho que a professora chamou minha atenção umas três vezes, mas so me dei conta quando Melina me cutucou, fazendo-me lembrar de que eu estava na aula. A professora me olhava com aquele olhar do tipo: “vire-se, cale a boca e leia antes que eu te ponha pra fora.”. É, eu entendi perfeitamente aquele olhar e tornei a ler.
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