E então eu chorei

1 Havia mãos roxas em sua parede.


Notas iniciais
Uma vida vida em 10 atos.

Para todos aqueles que já tiveram um amigo...

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Ainda estava cedo, mas as paredes estavam pintadas.

Então eu chorei.

I

— Vermelha ou azul?

Você sorriu para mim enquanto oferecia as tintas, e eu podia ter certeza que seus olhos haviam brilhado como nunca. Era felicidade e ansiedade que brilhavam ali, na profundeza de olhos negros como ébano. O traço da sua boca, reto — e você nunca notou o quão contrastante ele era com seus olhos tão redondos como os de uma boneca. — curvou-se com dentes de leite branquinhos à mostra.

— Acho que você quer a azul, então fico com a vermelha. — respondi, apanhando o pote.

Eu pensava sempre em você em primeiro lugar. Ainda não sei dizer se era porque você pensava apenas em você — tinhas o costume de ser egoísta, e eu, de ser altruísta demais. — ou se eu não conseguia pensar em outra coisa que não fosse você.

— Não quero a azul, quero a roxa.

— Não tem roxa, Ellie.

Com um sorriso de satisfação, você abriu os dois potes, sujando cada mão com uma cor. Vermelho e azul se uniram quando suas mãos se esfregaram, e eu já soube o que viria quando as abriu.

Era roxo.

Sorri, e você não precisou dizer mais nada.

— Prepare-se.

Sujei minhas duas mãos de tinta vermelha. Era um vermelho escuro, no tom da cor da rosa de plástico que tinha em cima de sua mesa de desenho. Você não via diferença na rosa de plástico para uma rosa normal. Era cheirosa — você passava perfume nela todos os dias — e sempre estava bem molhada — você fazia questão de hidratá-la, pois ela estava viva, assim como eu.

Suas mãos estavam roxas e não me lembrei de nada roxo como aquela cor, então era apenas roxa. Minhas mãos eram vermelhas como a rosa, e seu sorriso era singelo como seu sorriso.

Carimbamos a parede, dois pares de mãos.

Dois.

II

Sua mãe chegou em casa e a encontrou no quarto, as mãos e o rosto sujos de tinta, assim como sua blusa, calça e carpete. Eu comprimi os lábios e me preparei para ouvir o sermão, mas você ainda estava feliz e sequer se importou.

Sua mãe, aquela bela mulher de pele cor de oliva e olhos meio caídos, esfregou a têmpora um pouco irritada, mas sabíamos que ela não estava mesmo com raiva. Era daquele jeito que ela era, e nós dois amávamos ela por causa disso.

Mas ainda assim ela era mãe, então puxou-a pela orelha e lhe deu um sermão no caminho para o banheiro. E eu fiquei ali, sentando no chão e sujo de tinta — ao mesmo tempo em que não estava nem sujo, nem sentado.

Olhei para a nossa arte na parede.

Então sorri.

III

Eu era seu melhor amigo, e isso era o que você sempre me dizia.

Eu a conheci há tanto tempo — você era ainda menor do que era hoje, e tinha o péssimo costume de chorar por tudo — que você não se recorda, e, logicamente, eu também não. Desde então me disse que meu nome era Andy, porque esse era o nome do seu irmão que havia viajado para um lugar bem distante, entre as colinas ou algo assim. Me disseram que lá era um lugar muito bonito, onde fadas bondosas lhe serviam morangos maduros no fim da tarde e duendes hiperativos dançavam em frente a uma fogueira e tocavam arpa para que ele caísse no sono. Fiquei feliz por ele ter viajado a um lugar tão belo.

Depois de um tempo — os anos passaram e as coisas começaram a mudar — você me disse que ele havia ido para o céu, um lugar onde havia anjos e divindade. Tudo lá era belo e elegante. Não soava como algo melhor que as colinas, mas já era algo, então ainda assim estava feliz por ele.

No entanto, algum tempo depois, os anos passaram a te mudar muito, tanto que num dia qualquer você me disse que Andy apenas havia morrido e estava enterrado no cemitério Groowod.

Nunca mais comentou o assunto.

Eu preferia a versão das colinas. Acho que sempre irei preferir.

IV

Você crescera rápido.

Os anos cada vez pareciam correr mais e a cada dia eu via você crescer e crescer. A garotinha que prendia o cabelo em um rabo de cavalo havia virado uma moça muito bela, com cabelos muitíssimos enrolados e cheios, soltos, com pele cor de canela e pernas tão compridas quanto deveriam ser as pernas de uma menina de 14 anos.

Nossas conversas eram curtas, e eu já sabia, no dia em que notei o quanto havia crescido, que já não era seu melhor amigo.

Nem sei se amigo eu era.

— Tchau, Andy.

Você se despedia, você me cumprimentava.

E só.

V

Eu soube, algum tempo mais tarde, que não devia jamais ter reclamado das poucas conversas que tínhamos.

Chegou o dia em que você já não tínhamos nenhuma. Chegou um dia em que você simplesmente já não me via.

Eu sabia que não poderia evitar, que você se iria e que era assim que as coisas eram e tinham que ser. Sabia que a garota que antes entrava em uma caixa de papelão e fantasiava ser um carro já não existia. Você tinha um carro de verdade agora, embora ache o de papelão muito mais eficiente.

Você também tinha um namorado e três melhores amigas que constantemente estavam ali em casa. Eu também ficava lá, no canto, escutando suas conversas aleatórias sobre filmes e livros.

Você crescera tanto. Crescera muito. Eu também cresci, ao menos até os 15 anos, pois foi só até a essa idade que eu pude te acompanhar — que você me deixou te acompanhar. Depois disso eu apenas ficava lá, parado no tempo, vendo como ele passava e que cada vez mais eu ficava pra trás.

Ficava ali, olhando a parede que ainda tinha o carimbo de mãos.

Mas adivinhe?

Apenas havia um par.

VI

— Não faça isso! Pelo amor de Deus, Ellie, pare!

Você não escutava. Você não via.

Eu escutava, via, gritava, afundava, queimava.

Apenas não queimava tanto quanto aquele cigarro.

VII

Você não parou de fumar depois de provar do tabaco, no entanto posso dizer que uma mínima felicidade estava comigo por você ter se controlado e já não fumar tanto quanto antes.

Eu tinha 15, você tinha 18.

Estávamos tão distantes.

— Oh, você cresceu tanto! — sua mãe a abraçou com força e você bateu em suas costas levemente, sorrindo — Não posso realmente acreditar que está indo.

Eu também não acreditava. Mas você realmente estava se indo, faculdade, independência, início de vida.

Início de sua vida, fim da minha.

VIII

O tempo resolveu se arrastar por 4 anos. Eu me definhava por 4 anos.

Estava sentado no chão do seu quarto, na verdade era só ali que eu ficava, sempre, assim como a sujeira que se acumulava. A única diferença é que sua mãe não conseguia me limpar ou me tirar dali, porém, eu estava indo embora também, pouco a pouco, dolorosamente. Uma memória esquecida, uma recordação morta.

Num dia de fim de ano, sua mãe entrou no quarto. Veio fazer aquela limpeza que sempre fazia de duas em duas semanas, um pouco envolta de solidão e cansaço no rosto já com rugas da velhice. No entanto, desta vez, ela parou de aspirar o carpete repentinamente e sentou-se na cama. Ficou ali, me encarando com um olhar meio bobo, e eu, por um momento tão bobo quanto, achei que ela estava me vendo.

Ela sorriu, cantarolando uma música baixa e voltando à limpeza.

Percebi então que ela olhava para a marca das suas mãos acima de minha cabeça — eu já não tinha forças para olhar ou me mexer, mas fiquei preenchido de felicidade ao ver que ela tinha notado.

IX

Três dias depois, sua mãe veio ao quarto com um homem de macacão azul. Ele carregava um rolo de papel e um latão de tinta bege, assim como alguns pincéis grandes.

— Já devia ter feito essa reforma há anos — ela sorriu meio hesitante, passando a mão pelo cabelo.

Soube imediatamente o que me esperava, e respirei fundo, aguardando meu fim, o fim de uma memória perdida, morta, despedaçada. Fim de um amigo, companheiro e confidente. Era isso que eu era de você, era isso que eu sempre seria e que jamais me arrependeria de ser.

Lembrei de você correndo pela casa com o cabelo cheio de shampoo. Dos dias em que enchíamos a pia de bolhas de sabão e ficávamos lá, brincando. Das vezes em que a ajudei a subir na macieira com formigas que tinha na casa do vizinho — ele nunca entendia porque suas maçãs sempre sumiam. De quando botávamos um documentário sobre tubarões na TV da sala e nos encolhíamos no sofá, e de como depois ficávamos repetindo tudo o que aprendíamos, mas que logo depois já esquecíamos.

E então, uma das últimas memórias realmente boas me veio. E novamente eu nos vi ali, sujando as mãos de tinta. Vi a rosa de plástico que já não existia, vi seu sorriso reto que agora possuía batom e dentes amarelados, vi o roxo da sua tinta, e só então pude compará-lo ao roxo da sua mala, e do dia em que você se foi.

E, então, o homem de macacão pintou a parede. A mão roxa sumiu.

E eu chorei.

X

Eu pensei que morreria no momento que a última memória se fosse. Que o amigo imaginário se tornasse o amigo inexistente e despedaçado, mas, por algum motivo, não me fui.

Eu fiquei sem entender porquê. Estava ali no chão, e ali fiquei por mais dias até a chegada do natal. Estava meio vazio, meio avulso e confuso, mas estava ali. Vivo ao meu próprio modo.

As manhãs de natal eram frias e o vento entrava congelante pela janela. Sua mãe sempre abria a janela do seu quarto de manhã, mesmo com o castigo da neve, e sempre fechava novamente após algum tempo, nada mais que 20 minutos. Eu poderia agradecê-la por isso, pois alguns flocos gélidos conseguiam entrar e eu provava a sensação fria que só conseguia provar nos natais.

Você foi pra casa naquele natal, e eu conseguia ouvir sua voz no andar de baixo, madura, adulta. Sentia um frio no que deveria ser minha barriga toda vez que sua voz se aproximava, que seus passos ecoavam no corredor, e, então, a porta se abriu.

Era você, Ellie.

Deveria ter o quê? 25? 26? Àquela altura eu realmente não era muita coisa, pois nunca saíra dos 15. Você estava com cabelos alisados. Eu não gostei, devo admitir, mas não me via em posição de reclamar sobre. Estava usando meias — fiquei feliz por sua mãe ter, como sempre, feito-a tirar os sapatos ao entrar na casa —, calça jeans e moletom azul. Foi com passos lentos e demorados que entrou no quarto, tirando um cigarro do bolso — um maldito cigarro! — e o levando à boca.

Não o acendeu.

Você andou pelo quarto um pouco, olhando em volta e fazendo careta ao ver a arrumação. Deve ter sido estranho entrar num ambiente assim após tantos anos, mas aposto que havia sido bom — ou assim espero.

Você deu um sorriso reto — e como feliz eu fiquei ao ver que ainda conseguia fazê-lo — e andou bem rápido até a cama, abaixando-se e puxando de lá uma caixa.

— Caixa amarela, certo? — murmurou para si mesma — espero que haja algo bom aqui.

Dobrou as pernas e começou a vasculhar. Eu ergui o pescoço e tentei analisar os papeis que você estudava. Eram desenhos de giz, lápis e tinta, e poderia ter se passado mais de uma década, mas eu ainda assim lembraria de cada um e de cada dia em que pintamos.

Havia o desenho de uma família ali, e eu sorri ao vê-lo, você também.

— Eu, mamãe e Andy — jogou-se de costa no chão, deitando-se, mas ainda olhando o desenho infantil — Andy?

Eu queria ter falado algo, mostrado que estava ali, mas não o consegui.

— Ah, sim, Andy! — riu. — Meu Deus, quase não me lembrei!

Se levantou bem rápido e voltou a mexer na caixa. Passou os olhos sem muito interesse em outros papéis e logo então tirou de lá a velha rosa de plástico, meio empoeirada, e a cheirou, mas logo torceu o nariz, voltando a procurar outros objetos.

Você achou dois potes de tinta, um azul e um vermelho, não pensando duas vezes antes de os abrir e ver se ainda prestavam. Bem, você parecia saber que estava vencidos, embolotados e duros, com um cheiro não normal de tinta, mas ainda assim sujou o indicador com a azul, esfregando-o com o polegar.

Seu olhar correu até a parede, acima da minha cabeça, e por um momento estranho e bobo como o de antes, eu jurei ter sido visto por você. Eu vi você andando em minha direção, olhando para mim, ajoelhando-se diante a meu rosto. Porém você, assim como sua mãe, estava ali pela parede e não por mim.

Lambuzou uma mão de azul e outra de vermelho. O vermelho já não era como a rosa e o azul estava degastado, e quando você misturou-os, o roxo que formou-se ali não fora como o roxo de antes, mas ainda assim não poderia compará-lo com o que quer que fosse. Era apenas roxo.

As mãos — de dedos agora longos —carimbaram a parede bem acima de mim.

Ficou quente de repente, e logo então notei que estava-me indo. Meus pés, lá embaixo, começaram a virar poeira e desaparecer no ar.

Você estava adulta, então meu tronco dissolveu.

Você tinha uma outra vida e logo meu peito e pescoço sumiram.

Eu já havia feito o que pude por você. Assim como você já havia feito o que pudera por mim.

— Acho que é um adeus. — sussurrei, fechando os olhos. — então adeus, Ellie.

Minha boca se perdeu na neve, nariz e olhos se foram como cinzas ao vento, e os mais persistentes foram os ouvidos, estes duraram um pouco mais, não muito tempo, mas tempo o suficiente para ouvir uma resposta.

— Adeus, Andy. Adeus.

E me fui, ainda escutando o eco de sua voz e do que eu sabia que viria a ser sua mãe reclamando do cheiro da tinta vencida. E então eu sorri, meio de lado e meio não sorrindo, já que não tinha boca para sorrir, apenas motivos. Também não tinha olhos, então não podia chorar.

Mas chorei. Lembrei das suas mãos na parede bege, e chorei.

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Espero que além das colinas seja tão agradável quanto você costumava dizer.

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... que se perdeu nas memórias.

Notas finais
Uma vida em dez atos, vida de Ellie ou de Andy?
Bem, espero que tenham gostado dessa história velhinha dei uma reformada básica nela antes de postar, acabou ficando maior do que eu esperava e mais enrolante do que costumava ser.
Bem, reviews? aksdnakndsa
Até!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!