"Eu vou lutar sozinho, eu vou morrer sozinho".

Esse sempre foi o seu lema. Você sempre se isolava dos outros e parecia fazer questão de ser desagradável — mas você se esqueceu disso completamente enquanto abraçava Mitsutada e checava que ele estava vivo e bem; enquanto lágrimas fluíam de seus olhos quase que sem perceber por alívio de vê-lo com aquele sorriso estúpido para cima de você; enquanto você percebia e tentava negar o quanto você o amava e precisava dele.

Porque você quase o perdeu de novo, e você não suportaria uma segunda separação.

***

Você cochilava um sono leve e superficial perto da entrada da casa, esperando a noite cair — porque, afinal, havia se tornado o capitão do time de expedições noturnas. Ter se destacado um pouco mais fez você ser nomeado, mas você não achava nada além de chato por sempre precisar esperar os outros retornarem para poder ir para o campo de batalha.

E você esperava (você era bom nisso, não?), e o sol quase sumia no horizonte. O outro time estava demorando, mais do que o comum, e você sentiu uma inquietação desagradável tomar conta de si.

Ao longe, você conseguiu ver algumas espadas montadas em cavalos e outras a pé. Você estreitou o olhar para tentar enxergar melhor, o sol de fim de tarde atrapalhando sua visão.

Você conseguiu ver também a preocupação estampada em seus rostos e uma certa urgência ao se aproximarem.

Kuninaga guiava um cavalo pelas rédeas, alguém desfalecido em cima da montaria.

Nagasone, Urashima, Taroutachi, Tonbokiri...

Era Mitsutada em cima do cavalo.

Era Mitsutada--

Você não notou quando se levantou, nem como chegou tão rápido para perto do grupo, nem que empurrava as outras espadas para chegar até o companheiro.

E empalideceu com a visão de Mitsutada envolto em faixas improvisadas que tentavam inutilmente estancar o sangue que escorria de suas costas, um corte diagonal que se estendia do ombro direito até a cintura oposta.

Você não era muito paciente, mas não costumava levantar a voz para ninguém; por isso que você assustou as outras espadas ao gritar para não tocarem nele quando ofereceram ajuda para retirar a Tachi desacordada da montaria. Mas uma raiva misturada com desespero era o que te movia naquele momento, e você nem notou que gritou.

Você tentava ajeitar o outro em suas costas para carregá-lo, mas Tsurumaru — ah, Tsurumaru, essa garça maldita e inconveniente — segurou-o por debaixo do braço, dividindo o peso com você. Você lançou um olhar nada amigável para ele (nada que ele não estivesse acostumado, na verdade), mas acabou aceitando o auxílio até conseguirem levar Mitsutada para seu quarto.

***

Muitas espadas preocupadas estavam reunidas perto do fusuma, mas todos te conheciam o suficiente para não ultrapassarem os limites da entrada.

(Como se você gritando para se afastarem e abrirem passagem não tivesse sido o suficiente).

Você tinha o kit de primeiros socorros ao seu lado e tentava manejar os equipamentos para sutura. Em vão: suas mãos tremiam e estalava a língua em frustração, os olhos embaçando por algum motivo.

Tsurumaru pousou uma mão sobre as suas, como se para te acalmar, e tomou o fio e a pinça delas. As sobrancelhas dele estavam franzidas em preocupação e concentração, mas ele tinha um ar mais calmo e controlado que o seu. Passou a costurar a pele já marcada de Mitsutada com uma mão estável e precisa enquanto você estava de joelhos ao seu lado, observando atentamente a operação, as mãos nervosas amassando o tecido das calças sem que você notasse.

Curativos feitos, Tsurumaru soube dar espaço para vocês dois, levantando-se para sair do último quarto do corredor.

Mas você o segurou pelo pulso, mantendo o olhar baixo por uns instantes antes de encontrar os olhos questionadores sobre si.

Você nem sempre expressava gratidão, mas sentiu que Tsurumaru, mesmo sendo Tsurumaru, merecia algo vindo de você.

– Kuninaga... Obrigado.

Você pôde ter quase certeza de que aqueles olhos dourados brilharam, mas a Tachi normalmente sem noção soube se conter, contentando-se a apenas te dar um sorriso suave em resposta antes de se retirar.

***

No primeiro dia, Mitsutada teve febre e não acordou.

No segundo dia, a febre baixou, mas não acordou.

No terceiro dia, a febre desapareceu completamente, mas mesmo assim não acordou.

E você ficou de guarda, sentado ao lado dele todo o tempo. Não dormia, só comia e bebia o que Tsurumaru te trazia de tempos em tempos (e o que o seu estômago permitia diante da situação).

(Ele se ofereceu para ficar de olho em Mitsutada também mas, teimoso como é, você só aceitou quando foi tomar banho).

***

O cansaço começou a tomar conta desse seu corpo humano e cochilava sem perceber, acordando em um pulo sempre que se via dormindo. Passou os dias preocupado em limpar e trocar os curativos, em checar a febre, em passar os remédios que recomendaram — e fazia questão de não dormir, velando por Mitsutada.

(Às vezes, para se manter acordado, você passava a mão pelos cabelos dele, tentando ajeitá-los. Porque ele era tonto o suficiente para se preocupar com a aparência, e provavelmente se preocuparia com isso assim que acordasse.

E às vezes ele delirava em febre e chorava, e você se perguntava se ele sonhava com chamas e terremotos, e não sabia o que fazer para confortar esta dor.

E às vezes você passava a mão de leve nas costas dele, sobre as cicatrizes que já estavam ali e que ele odiava tanto. Pensava no passado triste dele enquanto sentia a textura da pele sob as pontas dos dedos, e ficava triste também. E se perguntava se o novo ferimento iria deixar uma cicatriz, e se ele a odiaria também.

Você o acharia lindo de qualquer jeito.

E talvez você devesse dizer isso a ele).

***

Na madrugada do quarto dia, em um dos cochilos, você ouviu uma voz grave, porém suave, dando uma risada quase despreocupada.

Você arregalou os olhos, encontrando o único olho de Mitsutada o observando entre os cílios, o corpo apoiado em um dos braços ao tentar se sentar, um sorriso estúpido e cansado adornando os lábios.

– Aah, Kuri-chan, você está com uma cara péssima.

Você franziu o cenho como reação automática às palavras dele (você odiava aquele apelido graças à certa espada alva, e é claro que você estaria com uma cara péssima), mas suavizou o olhar logo em seguida, abraçando-o com uma mão firme em sua nuca antes que pensasse na ação.

– Mitsutada. Mitsutada, Mitsutada... — Você chamava o seu nome baixinho, de novo e de novo, como se subir o tom da voz fosse fazê-lo desaparecer; confirmando que ele estava ali e acordado e o ouvia e estava bem e--

A Tachi ferida te abraçou de volta uns instantes depois (provavelmente por causa do choque de você mostrar tanto afeto, você pensou), aplicando pouca pressão por causa dos ferimentos.

– Kuri-chan. Me desculpe, Kuri-chan... — Sussurrava, realmente sentido. Você sentiu sua roupa umedecer e ser agarrada quando ele escondeu o rosto na curva de seu pescoço, e soube lhe dar um tempo para que as lágrimas parassem e ele tivesse coragem de se abrir para você.

Mas era Mitsutada, e ele nunca hesitou em se abrir para você, ainda que você não fizesse o mesmo por ele. Uma pontada de culpa te afligiu de repente, mas você disfarçou enquanto apertava os lábios assim que ele começou a falar novamente.

– Kuri-chan...– Ele pousou a mão na sua bochecha, como se tentasse trazer mais firmeza à voz trêmula e levemente envergonhada; você fechou os olhos em resposta, pousando sua mão na dele. O toque era quente, como de costume, e isso te trouxe conforto.

Era Mitsutada, e ele estava bem.

– Né, Kuri-chan. Você sempre diz que pode lutar sozinho. E você é mais do que capaz disso. Mas eu... — Deu uma risada frustrada que te fez abrir os olhos e focar nele.

A orbe dourada estava cheia de lágrimas novamente, a dor estampada nela. Mas ele não desviou o olhar de você nem por um instante.

– Eu me acostumei com a sua presença no campo de batalha. Nós estávamos sempre lutando juntos, protegendo um ao outro. Mas agora o Kuri-chan é capitão do esquadrão noturno, né? — Um sorriso fraco, e você teve a sensação de que ele tentou, mas não ficou feliz por você. — Era a minha primeira missão separado de você... Eu baixei a guarda só por um instante, mas quando percebi que você não estava lá para proteger minhas costas do Kebiishi... — Deixou a frase morrer na língua, pois você já sabia o resultado.

Ele deslizou o polegar pela sua bochecha de uma maneira que você pôde sentir todo o afeto dele por você, e você sentiu seu peito esquentar.

– Eu sou tão fraco sem você, Ookurikara.

Esta frase despertou algo em você que você não soube nomear; fez você ter vontade de dizer a ele que estava tudo bem, que você estaria com ele sempre, que ele também era muito capaz de lutar sozinho, que você sentia muito por não estar lá, que você morreu de medo com a possibilidade de perdê-lo, que você...

O amava. Que você realmente o amava, e também precisava dele.

Mas nada disso saiu dos seus lábios.

Em vez disso, veio a sensação horrível dos cantos dos olhos arderem e, quando piscou, as lágrimas quentes encharcaram seu rosto.

(Você não se lembrava de ter chorado antes).

Você tentava enxugá-las com as costas das mãos, e Mitsutada sorriu para você como se tivesse entendido todas as palavras não ditas.

Ele te abraçou novamente, brincando com seus cabelos mais longos da nuca, e agora foi sua vez de molhar as roupas dele com lágrimas.

Um longo momento se passou e Mitsutada, obviamente, foi quem quebrou o silêncio com uma voz chorosa.

– Aah. Desculpe, mas... Eu estou feliz, porque o Kuri-chan está chorando por mim.

Você franziu o cenho de uma maneira que você só fazia quando estava encabulado, sentindo o rosto esquentar.

– Cala a boca. — Você viu o olho dele se arregalar com o tratamento mais bruto, e mais ainda quando você se aproximou do rosto dele de uma forma nada delicada também. Você pressionou seus lábios contra os dele com provavelmente mais força do que o necessário, segurando em seus cabelos escuros com as duas mãos, mas não se importou: você nunca foi bom com palavras — e se assim você conseguiria transmitir a intensidade de seus sentimentos por ele, assim seria.

Ele demorou mais do que a sua impaciência gostaria para se acostumar com o beijo e responder seus avanços, mas você achou completamente justificável nesta situação. Era até adorável como ele se esforçava para tentar acompanhar seu ritmo.

Você sentiu seu corpo esquentar enquanto o guiava, a respiração de vocês dois acelerando e se confundindo à medida que o beijo se aprofundava. Você sabia o que vocês queriam, o que seus corpos imploravam...

Mas teria que ficar para depois, porque Mitsutada estava chorando de novo.

Você se sentiu idiota, muito idiota, forçando algo assim quando Mitsutada estava tão ferido. Se perguntou se ele chorava por causa da dor; você não conseguia mensurar a intensidade do que ele devia estar sentindo com aquele corte extenso.

E devia estar com uma cara muito idiota também, porque ele deu uma risada sem fôlego assim que abriu o olho.

E ele parecia saber exatamente o que se passava em sua mente (ele fazia isso mais frequentemente do que você consideraria normal, era inquietante), porque respondeu a pergunta que você não fez.

– Não, não é de dor, Kuri-chan, não se preocupe. — Ele deu um sorriso vazio, mas lindo mesmo assim. Suspirou. — É que...

Você era realmente bom em esperar, e esperou que ele juntasse coragem, que achasse as palavras certas, enquanto o olhar dele dançava.

Você pousou devagar a mão sobre a bochecha dele, tentando encorajá-lo, do mesmo lado em que deveria ter um tapa-olho de couro cobrindo parte do rosto.

Você achou que ele colocaria a mão sobre a sua, mas elas só se esbarraram de leve quando ele tirou a franja comprida da frente do olho que não tinha, passando a mão pelos cabelos e segurando-a para trás. O olhar para baixo, como se tivesse muita vergonha, ou até mesmo asco, de estar te mostrando o rosto todo.

– ...É disso.

Você não entendeu exatamente, olhando confuso para as cicatrizes dele. A mão dele se fechou em raiva, apertando os próprios cabelos.

– Estas cicatrizes. Já tenho tantas pelo corpo... E agora devo ter ganhado mais uma. Por culpa minha. Hahah, que estúpido. — Ele fechou o olho, dando uma risada amarga.

Você cruzou os braços e estreitou o olhar, como se estivesse prestes a lhe dar uma bronca, mas ele falou mais rápido.

– Ookurikara. Me desculpe por te pedir isso, mas... — Abriu o olho, mostrando que estava muito sério, mas ainda desviando o olhar. — Fique comigo. Sei que é difícil me suportar enquanto minha aparência é feia assim, mas...

...Mas a sua paciência não te permitiu que ele terminasse a frase, cortando-a com um tom que seria ameaçador se Mitsutada não te conhecesse tão bem.

– ...Você é idiota? — Ele finalmente voltou o olhar para você, e você tomou isso como um sinal para continuar. — Eu arrastei você para o meu quarto, fiquei quatro dias sem ter um sono ou uma refeição decente, checando sua febre e seu machucado, cuidando de você, e você pede para eu ficar com você?

Você pressionou sua testa contra a dele, baixando o tom de voz, como se compartilhasse um segredo muito importante com ele.

– Eu estou com você, Mitsutada. Sempre.

O olho dele se encheu de lágrimas, e você teve vontade de sorrir — porque ele era um idiota mesmo, e mesmo assim ele era lindo.

E você se lembrou de dizer isso a ele.

– E nunca mais fale assim da sua aparência. Hmph. Não sei por que você tem que falar essas coisas... — Você soltou um suspiro forçado, para mostrar o quão inconformado você estava. E passou a mão pelos cabelos dele, para enfatizar o que iria dizer. — ... Você está lindo como sempre. Você é quem deveria saber melhor do que todo mundo que eu nunca te acharia menos que lindo. Então... Nunca mais fale assim de você.

Você se sentiu muito envergonhado ao fim da frase, mas o sorriso que você recebeu em resposta te fez sentir uma pontinha de orgulho por ter conseguido dizer isso.

(Talvez você devesse fazer mais isso.

Talvez não fosse tão difícil assim se abrir para ele).

E antes que ele dissesse algo embaraçoso sobre isso, você o beijou de novo.

E então desmaiou de cansaço, o corpo finalmente relaxado porque suas preocupações foram embora.

Era Mitsutada, e ele estava bem.

***

Você não deixou Mitsutada sair de seu quarto por uma semana a mais do que ele precisava para se recuperar, e todos da citadela (inclusive Tsurumaru Kuninaga) pareceram entender o recado.

Notas finais
Tentei um tipo de escrita diferente nesta fic, que parece estar se popularizando por aí, a escrita em segunda pessoa. Li algumas que achei bem interessante, e resolvi tentar também. Espero que não tenha ficado tão ruim e que as pessoas gostem ;3; Coloquei todas as palavras em japonês em itálico para se destacarem melhor, e algumas frases que quis enfatizar também. Também usei o headcanon que grande parte do fandom adota (inclusive eu) de que as roupas de Shokudaikiri Mitsutada servem para esconderem as cicatrizes que a espada real sofreu no Grande Terremoto de Kanto em 1923. (Porque angst: trabalhamos). Self-beta'd, então desculpem se tiver algum erro.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!