E... de Novo
8 Cobras a solta
Notas iniciais
— Como estamos hoje? – Dr.Waren perguntou com um sorriso certa manhã.
Agora completava uma semana desde o acidente.
— Por favor, eu gostaria que o senhor não usasse esse tom de voz comigo. Eu não sou criança e não quero ser tratado como tal – Ryuzaki falou rudemente. Mas o sorriso do médico não vacilou.
Raito suspirou. Ryuzaki estava, como pode-se dizer... Facilmente irritável nos últimos dias. Por mais que o doutor disesse que era por causa da batida da cabeça, que irritabilidade era um sintoma muito comum, Raito sabia que não era esse o motivo. Talvez tivesse a ver sim, mas o rapaz sabia que o principal motivo era a falta de doces.
Dois dias após o acidente, o detetive não apresentava mais sinais de confusão, e apesar da persistente dor de cabeça, ele estava bem melhor.
Mas ele não estava conseguindo comer. Nem doces e muito menos, comida.
Assim como a dor de cabeça, a náusea também persistia.
— Como está? – Raito perguntou assim que o médico se retirou, sentando ao lado do mais velho na cama.
— Eu quero os meus doces – reclamou.
Raito sentiu vontade de rir. Não só porque o outro estava agindo feito criança, mas também porque havia sido exatamente desse jeito que ele agiu quando ficou doente, tantos meses atrás. Quando tudo havia começado...
— Dr.Waren disse que isso só deve durar por mais alguns dias – Raito passou um braço pelos ombros do mais velho, o puxando mais para perto – Aí você poderá ter seus doces de volta.
Ryuzaki resmungou algo inaudível, mas logo depois perguntou – E quanto ao caso?
— Deixe isso para depois. Quando você sair daqui eu o atualizo sobre tudo.
— Raito, eu posso muito bem trabalhar. Não será um mero acidente que me manterá afastado do meu trabalho.
— Sua cabeça ainda dói? – Raito perguntou inocentemente.
O momento de hesitação que Ryuzaki levou para responder estragou sua negativa.
— Como eu disse, depois.
Raito não gostava daquilo. Tinham conversado sobre o caso uma única vez na última semana, mas não havia sido nada produtivo. Primeiro porque ficar refletindo sobre tudo aquilo aumentava a dor de cabeça de Ryuzaki, e ele só revelou esse “pequeno” detalhe quando não conseguiu segurar um baixo gemido de dor. E segundo, era perceptível que a memória e a concentração do mais velho foram afetados pelo ferimento.
Na verdade ele felizmente já estava recuperado da questão da memória agora, mas ainda assim Raito não queria que ele voltasse ao trabalho até estar 100% recuperado.
— Espere um pouco – disse para o detetive, levantando de sua cama, quando seu celular começou a tocar e vibrar no bolso interno de seu casaco.
Ryuzaki observava, impaciente e entediado, Raito falar com alguém pelo aparelho. Já fazia uma semana, então deviam ter encontrado outro corpo. E com certeza Raito o deixaria ali e iria sozinho.
E como se para comprovar seus pensamentos, Raito apenas falou rapidamente- Ryuzaki, mais tarde eu volto – e se foi.
Como estava odiando aquilo!
Raito saiu rápido do hospital. Mais um corpo havia sido encontrado, e desta vez em um zoológico.
Ryuzaki podia estar praticamente bem agora, mas isso não mudava o fato dele ter se machucado. E por culpa de alguns doentes quaisquer. Coincidência talvez. Mas não conseguia evitar de se irritar com isso.
O homem que bateu o carro com certeza era uma das vítimas “ABC”. Em um bloco de notas encadernado encontrado no porta-luvas do carro estava escrito, ocupando uma folha inteira:“Isaac”. E após analisarem o veículo, constataram que os freios haviam sido cortados. Mas novamente não foram deixadas para trás nem digitais nem qualquer pista que pudesse levá-los até os culpados.
Chegando no zoológico, Raito foi direto para a área dos répteis.
— Quando recebemos o chamado, cheguei a pensar que o vidro havia sumido e reaparecido do nada, deixando alguém preso no lugar da cobra – o policial que guiava Raito brincou.
— Não acho que esse seja o momento para piadas. Um garoto morreu aqui – Raito falou sério, deixando o policial extremamente sem-graça.
Se sentiu como seu pai agora, quando ele chamava a atenção de Matsuda.
...
Seu humor melhoraria assim que Ryuzaki saísse do hospital.
“Johnny” havia sido escrito bem grande com spray vermelho em um dos vidros, e em meio a um amontoado de cacos de vidro, estava um rapaz de16 anos.
Os vidros haviam sido quebrados e as cobras, libertadas. As marcas das picadas preenchiam boa parte do corpo do rapaz, que repousava no chão gelado e agora manchado.
— Já pegaram os vídeos de segurança? Eu quero dar uma olhada – Raito disse ao policial, que saiu quase que imediatamente para ir buscá-las.
Para todos os policiais, aquele jovem inteligente de cabelos castanhos era um dos responsáveis pelo caso por ordem de L, assim como o outro de cabelos escuros que recentemente se acidentara e que...
— Ryuzaki! O que está fazendo aqui?! – Raito exclamou completamente surpreendido ao ver o mais velho vir andando em sua direção.
— Vim trabalhar – respondeu simplesmente.
— Tra... Você deveria estar no hospital! E como você soube onde era a cena do crime? – perguntou abaixando o tom repentinamente, lembrando-se de que Ryuzaki ainda estava com dor de cabeça. Mas só depois de pronunciá-la é que Raito percebeu o quão aquela pergunta soou idiota. Bastava uma ligação para Ryuzaki saber onde era a cena do crime.
— Já que Watari parece estar de acordo com você em me manter em absoluto estado de tédio, eu tive que vir de táxi. Eu sempre quis dizer “siga quele carro” – falou conforme andava para mais perto do corpo.
— Você não deveria ter vindo – Raito suspirou. Por que ele precisava ser tão teimoso?!
Ryuzaki se agachou ao lado do corpo, inclinando-se sobre ele, procurando qualquer coisa que pudesse vir a ser útil. Raito deu um passo para se juntar a ele, mas o policial de antes reapareceu com alguns cd’s em mãos, fazendo-o parar.
— Obrigado – Raito falou pegando os cd’s e logo em seguida indo até o detetive — Ryuzaki, aqui estão os vídeos de segurança dos últimos dias. Será que os assassinos seriam descuidados o suficiente para deixar algo?... Ryuzaki? – Raito agachou-se ao lado do detetive, estranhando o estado silencioso em que este se encontrava.
O detetive estava inclinado para frente, sobre o corpo, e com isso as mechas negras cobriam o rosto pálido, impedindo Raito de ver a expressão dele. Mantinha o mais absoluto silêncio, e o mais novo novamente começava a ficar seriamente preocupado com isto. Havia um cheiro estranho ali também ,mas Raito estava concentrado demais no mais velho para dar atenção.
Até que, ao invés de falar, Ryuzaki se levantou abruptamente e andou apressado para longe dali.
— Ryu... Ryuzaki! — Raito o seguiu, assustado.
— O que houve? — Raito perguntou quando o mais velho finalmente parou.
Tinham ido parar em um canto deserto, ainda na área do répteis, onde não havia nenhum animal preso nem vidros quebrados espalhados. Ryuzaki parou de andar e apoiou as costas em um dos vidros que não revelavam nada mais do que um ambiente bem organizado apenas esperando algum pobre animal para ali mantê-lo em cativeiro.
Respirou fundo uma vez, uma das mãos pressionando levemente seu estômago, tentando conter o mal-estar.
— Álcool — falou em resposta à pergunta de Raito, que esperou pacientemente até que o outro se recuperasse. Não demorou muito.
— Ahn? — seria aquele cheiro que havia sentido?
— O rapaz. Está fedendo a álcool — e então fez uma careta — Corpo em início de decomposição mais vodca barata é uma péssima combinação — olhou diretamente nos olhos castanhos — Sabe o que isso significa, não sabe?
— Finalmente temos algo — Raito respondeu, ainda com certa preocupação em seu olhar, mas seguindo a linha de raciocínio.
— Ele deve ter passado a noite interia bebendo para o cheiro estar impregnado até agora.
— E um adolescente não passa a noite bebendo sozinho.
— Ou seja, temos possíveis testemunhas desta vez.
"Agora," pensou Raito "eu mesmo não me aproximei o suficiente do corpo para perceber, mas como é que nenhum dos que estavam bem ali ao lado não haviam notado o cheiro de álcool?!"
— Vamos verificar primeiro quem estava com a vítima na última noite e depois checamos os vídeos de segurança — Ryuzaki falou, já totalmente recuperado do passageiro mal-estar, desencostando-se do vidro. Mas Raito o impediu de avançar.
— Raito, precisamos ver isso logo para... — começou a protestar pela mão do mais novo em seu braço, impedindo-o de andar.
— Um minuto — Raito o interrompeu, a expressão séria e a voz baixa — Ryuzaki, eu te amo e me preocupo com você. Eu não conseguiria pôr em palavras o medo que eu senti quando soube do que aconteceu, nem a raiva de quando foi comprovada a causa do acidente. Agora, mais do que nunca, eu estou decidido a pegar esses desgraçados. Então será que você pode ter um pouco de consideração por mim e por favor, descansar?
Ao invés de uma resposta, o detetive colou seus lábios nos de Raito, em um beijo lento e aprofundado.
— Não — disse ao se afastar, ainda sentindo sua respiração misturada com a do mais novo e ainda meio abraçados — Eu te considero. Muito. Mas eu não quero, e nem vou, ficar mais tempo afastado desse caso. Eu acabei me envolvendo em uma das mortes, e o que me garante de que você também não será? Me manter com esse receio, me deixando longe dos acontecimentos, é egoísmo de sua parte, não acha?
Raito sorriu minimamente, sentindo sua derrota — E você também não está sendo egoísta?
Ryuzaki também sorriu — Somos ambos egoístas. Fazer o quê — e o beijou mais uma vez.
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