E agora?

10 Conversas inconclusivas.


Laura

Achei muito estranho Maurício aparecer assim, de repente, do nada, como se não soubesse onde Alexia estava. Ela havia me dito que ele teria compromissos no fim de semana, por isso não veio, mas não parece que foi o que aconteceu.

Os dois estavam muito estranhos quando sentamos à mesa, para continuar o almoço, pareciam frios e distantes, apesar de eles nunca terem sido o casal mais amoroso que eu conheci, contudo, não era daquele jeito, pressenti um certo mal-estar, uma sensação incomoda. Porém, naquele momento, eu estava muito ocupada em evitar Nathan, não queria ser grossa, afinal, ele não tinha culpa de ser, possivelmente, meu irmão, mas precisava ser firme, não podia esmorecer de jeito nenhum, e não estava sendo nada fácil. Pelo menos, alguém estava animado, Tim contava histórias antigas sobre o seu passado naquela fazenda, falando de um monte de gente, entre elas, minha mãe. Que estranho, a memória dele se avivar assim tão subitamente. Eu fiquei atenta, querendo pescar alguma dica que ajudasse a desvendar o mistério, se ele era o meu pai ou da minha irmã. No entanto, os relatos eram muito vagos, em nenhum momento, ele citou um romance ou algo mais picante, pareciam só histórias de um grupo de jovens que gostava de se divertir no meio do mato.

Depois do almoço, só queria voltar para o meu bangalô e me esconder, deixei Alexia com Maurício, mas Nathan veio atrás de mim, todo gentil.

— Ei, moça, está fugindo de mim?

Sim, estou.

— Não, eu sou estou um pouquinho indisposta, sabe como é, coisas de mulher.

— É uma pena, que esteja se sentindo assim.

— Por que não me disse que era filho de Tim? – perguntei de um jeito acusador.

— Porque eu nunca conto isso para os hóspedes, para não misturar as coisas, mas eu cresci nessa fazenda, até meus pais se separarem.

Nós dois andávamos devagar, pelo caminho de terra, em direção ao meu quarto.

— Eu lamento muito pela separação dos seus pais, deve ter sido muito difícil para você.

— Na época foi, mas, atualmente, está tudo bem, já faz muito tempo, e sou bem grandinho, para entender quando uma relação não dá certo, que nem todo mundo pode ser feliz para sempre. Mesmo assim, quando podia, eu estava com meu pai, aqui na fazenda. Acho que ele ama esse lugar mais do que amou minha mãe.

— Não diga isso! É algo muito duro para se dizer do próprio pai.

— Só estou sendo realista. Tim é um cara legal, um bom pai, mas não foi um bom marido.

— Ele traía a sua mãe? – Estava sendo indiscreta, mas vi aí a minha oportunidade de conseguir alguma pista, pois, pelo que eu calculava, Nathan deveria ter próximo a minha idade, talvez, fosse só um pouco mais velho.

— Que eu saiba não, mas Tim era um tanto indiferente com ela, o que a deixava muito infeliz, depois, que se separaram, ele nunca mais se casou. Claro, que teve uma ou outra namorada, mas, nada sério.

Aquelas informações não me ajudaram em nada, talvez, Nathan não soubesse dos casos do pai, com certeza, desconhecia que ele teve uma filha fora do casamento e que poderia ser eu.

Chegamos na frente do meu bangalô, Alexia não estava lá, sentamos no degrau da varanda, o calorzinho da tarde dava uma preguiça gostosa, uma moleza, olhávamos o horizonte, sem vontade de falar. Em outra circunstância, eu o convidaria para entrar no meu quarto e em mim e, depois, cochilaríamos abraçadinhos e pelados, contudo, até esclarecer toda a história, realizar esse desejo seria inconcebível.

Alexia

Depois do almoço, todos sumiram, a maioria corria para os quartos a fim de tirar uma soneca, assim, me vi sozinha com Maurício, andando pelo campo, sem destino, nos afastando da casa principal, para uma conversa mais reservada, era tão difícil ficar ao lado dele, exalando toda aquela indiferença e frieza por mim. Eu estava meio sem jeito, desejará aquele momento, tantas vezes, desde que ele foi embora e, agora, não sabia o que dizer. Foi ele que começou.

— Então, afinal de contas, como vocês duas vieram parar nesse lugar?

Não era a conversar que queria ter, porém, já foi um começo.

— Bem, eu e Laura descobrimos um segredo na nossa mãe... – Agora, teria que relevar que minha mãe foi uma adultera com eu.- Entre os guardados dela, havia algumas cartas. – Ele me interrogou com o olhar, curioso. – Cartas de um antigo amante, falando de uma filha que teve com ela.

O queixo de Maurício literalmente caiu. Ele conheceu os meus pais e o relacionamento deles, não dava para enxergar ali, um outro homem, uma traição.

— E vocês descobriram que uma das duas não é filha do seu pai? – Sacudi a cabeça afirmativamente – Quem das duas?

— Não sabemos. É por isso que estamos aqui, para tentar descobrir. Laura ficou aficionada por essa história. Ela leu as cartas, minuciosamente, e pesquisou até encontrar esse lugar e o nome do amante de nossa mãe, Tim.

— Tim? O dono disso aqui?

— Ele mesmo, Laura está tentando descobrir a data desse caso, pois, assim saberíamos quem de nós duas seria a filha dele.

— E você, o que acha disso tudo?

— Eu não me importo – Dou de ombros. – Mas, você conhece Laura, quando ela cisma com alguma coisa. Ainda mais, que ela estava interessada no gerente do lugar, Nathan, até descobrir que ele é filho de Tim.

— Nathan? O cara com quem vou dividir o quarto? Ele pode ser irmão de uma de vocês?

— Isso mesmo. O pior que ela deu uns amassos nele.

— No possível irmão dela? – Concordei com a cabeça. Ele começou a rir. Rimos juntos, isso foi bom, me lembrou quando éramos felizes, aquilo doeu, então fiquei séria.

— Eu tentei falar com vocês várias vezes, Maurício. Precisamos conversar.

— Não sei se já estou pronto para essa conversa, nem sei porque estou ainda, aqui. Eu devia ir embora, não tenho nada a ver com essa história.

— Não, por favor, fique – peço, ele me olha por alguns instantes, refletindo.

— Eu vou ficar, mas não quero falar sobre a nossa relação, por enquanto.

— Será melhor assim, não contei a ninguém, Laura não sabe de nada sobre nós dois, acho melhor que continue assim.

Continuamos a caminhar em silêncio, ele encarando o caminho de terra e eu o horizonte. Pelos cantos dos olhos fitei o seu perfil, sem poder acreditar que Maurício estava ali, ao meu lado, seria o sinal que poderíamos ter uma chance, mínima que fosse?

Laura

— Você disse que seu pai teve outras namoradas, conheceu alguma delas? – perguntei a Nathan, tentando parece casual, após um longo silêncio, ouvindo um ou outro pássaro ao longe, o galo canta e alguns insetos sobrevoando a nossa volta.

— Sim, algumas.

— Então, por que você acha que ele não se casou de novo?

— Sei lá – Ele deu de ombros.

— Talvez, por causa de um grande amor, alguém que nunca esqueceu? – suponho, ele me olhou desconfiado.

— Que conversa esquecida, moça! Vou acabar achando que você está interessado em meu pai.

— De jeito nenhum! Nem pensar! – rebati, sacudindo a cabeça, aquela ideia me dava nojo.

— Então... – Ele colocou a mão sobre a minha coxa, me assustei e levantei em um pulo.

— Acho que vou tirar uma sonequinha – disse, me espreguiçando, ele ficou me olhando com um ar desolado, não podia ceder, tinha que ser forte – Até mais, Nathan.

— Até – Eu já ia entrando no quarto. – Laura! Depois, que você falou, eu me lembrei. Uma vez, há algum tempo atrás, eu e Tim estávamos tomando umas cachaças, já um pouco altos, quando ele veio com uma história sobre o grande amor da vida dele e como foi burro a deixando escapar.

Eu voltei para prestar atenção no que Nathan tinha para me dizer.

— E o que ele disse mais?

— Mais nada, se falou eu não me lembro, havíamos bebido demais.

— Sabe quando foi... esse grande amor?

— Acho que antes de eu nascer. Mas, por que quer saber sobre isso?

— Por nada, gosto de ouvir boas histórias de amor. Até mais tarde.

Nathan fez uma cara esquisita, antes de ir embora. Ou ele não estava acreditando em mim ou me achava uma doida ou, talvez, as duas coisas.

Deitei na cama, tentei dormir um pouco, mas fiquei me revirando de um lado para outro, sem parar de pensar na história que Nathan me contou sobre esse tal grande amor da vida de Tim, eu tinha certeza que era a minha mãe.

Onde está Alexia agora? Precisava dividir com ela as minhas desconfianças, porém minha irmã desapareceu com o marido. Hummm! Aquilo estava muito estranho, o clima não parecia nada bom. Haveria problemas no paraíso?

Não, não dava mais para ficar trancada ali dentro, o nosso tempo estava se esgotando, tinha que descobrir algo mais. Precisava saber se Tim era realmente o meu pai. E se fosse, o que faria? Contaria para ele, me apresentando como a sua filha bastarda? E Nathan, como se sentiria depois do que fizemos na outra noite?