Notas iniciais
O desafio de hoje, dia 30, envolvia três regras básicas: 800 palavras, duas palavras entre as presentes no Desafio de Novembro (as escolhidas foram espátula e corriqueiro), e três palavras também presentes no Desafio para inserir ao longo do texto (fita, graal e estranhar). Boa leitura!

Quando dirigiu seu olhar à massa de pizza, Addie conseguia sentir apenas orgulho.

— Incrível! — exclamou, com o azul dos olhos brilhando e as mãos nos quadris. A postura altiva contrastava com o rosto e avental sujos de farinha. — Ela mal começou, e já parece tão gostosa! Viu, Mika?! Podemos entrar pro masterchef!

O homem ao seu lado desviou o olhar da massa de pizza, fixando-o em Adiela enquanto escutava. Um sorriso gentil tomou-lhe os lábios.

— É realmente incrível. Mas, honestamente, eu não esperei que fosse ser diferente. — aproximou-se dela, aguardando que fechasse e ligasse o forno na temperatura indicada pela receita. Levou uma mão gentil às suas bochechas e, delicadamente, limpou parte da farinha que cobria o seu rosto. — Agora é só esperar.

O gesto afetuoso a fez abrir mais um sorriso e se inclinar para beijá-lo, suavemente, ignorando o gosto de farinha em seus lábios.

— É claro que não seria diferente. Somos chefs incompreendidos. — murmurou, logo sendo beijada de volta. Mikaru sempre a beijava com volúpia, e aquela vez não foi uma exceção. — A receita dizia 45 minutos! Temos tempo de sobra!~ — afastou um rolo aleatório de fita adesiva em cima da pia, encostando o garoto nela para abraçá-lo à vontade. Talvez por impulso, envolveu Adiela com os braços. — O que quer fazer?

— Tem alguma sugestão?

— Hmmmm. — ela fez um biquinho. — Podemos assistir alguma série, ler alguma coisa ou... Você pode me pegar de jeito. — apesar de não encará-lo, a piscadela que deu era imaginável. — Você já provou que 45 minutos são suficientes para me deixar satisfeita, Mika...

O quase-engasgo dele foi nítido. Falhou em disfarçá-lo, sortudo pela atenção dela estar em abraçá-lo, não em suas reações. Novamente, beijou-a, acanhado — ambos sempre sentiriam que eram o graal um do outro —, e recuou, agora podendo encará-la.

— Temos tempo, mas acho melhor não nos distrairmos demais. — concluiu, fazendo um cafuné experimental nos cabelos dela. — Quer ir para o sofá?

— U-hum. — esfregou a cabeça contra a palma de sua mão, como se pedindo por mais carinho. — Deve estar passando Passione de novo. Será que pegamos um episódio a tempo?

Por um instante, ele pareceu refletir sobre a pergunta. Adiela quase viu as engrenagens rodando dentro de sua cabeça, e sentiu vontade de rir.

— Acredito que sim. — disse, devagar. — Deveríamos conferir.

—————

Já na sala, ela foi a primeira a se jogar em cima do aconchegante sofá e abrir espaço para Mikaru se sentar. Mal tinha ligado a televisão, e ela já se aninhou contra ele, buscando afeto. Enquanto uma mão passava pelos canais, entediada, a outra obrigatoriamente se dirigiu à cabeça dela, passando os dedos pelas madeixas bem-cuidadas.

De fato, a novela estava passando, mas era um episódio bem menos tenso que o normal. Isso, combinado ao carinho, fez com que Adiela fosse rapidamente levada a um cochilo mais profundo que o normal.

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"Uhhh..."

Encarando o resultado de suas tentativas de fazerem algo, os dois só conseguiam franzir o cenho.

— Ehh, talvez não esteja tão ruim assim. — ela tentou amenizar, sorrindo em meio à preocupação. Porém, nem mesmo o raio de sol que a garota era conseguia deixar a pizza minimamente atraente. As bordas estavam queimadas por completo — resultado do cochilo, e da fácil distração de Mikaru numa situação confortável —, o centro parecia cru e parte da calabresa colocada por cima, ainda estava, de alguma forma bizarra, congelada.

— Sabe, eu sempre penso que às vezes, as coisas só precisam de um pouco de cor para ficarem melhores. — continuou, diante do silêncio. Completando o raciocínio, cortou um pedaço e temperou-o com ketchup e mostarda. Ao seu lado, Mikaru pareceu preocupado.

Na primeira mordida, toda a força de vontade foi pelo ralo. Por pouco não engasgando, engoliu um pedaço mórbido de massa crua, tossindo.

— ... Ok, cores não adiantam nesse caso. — admitiu, largando o pedaço junto do resto. Bateu as palmas sujas de farinha, afastando o pó. — Ao menos, nós tentamos! — disse, erguendo um punho no ar como sinal de vitória. A tensão breve no rosto de Mikaru sumiu. — Quer tentar de novo? Ou ligar pra pizzaria?

Ele hesitou, pensativo.

— Se quiser, podemos, mas não estou com muita fome... Ao menos, não pela pizza. — como se percebendo a dupla interpretação de sua frase, arregalou os olhos e piscou algumas vezes. De súbito, Adiela formou uma expressão maliciosa.

— Oooh, seu pervertido. — acusou, risonha. — Se eu soubesse suas verdadeiras intenções...

Derrotado por suas próprias palavras, aceitou a provocação, olhando para baixo momentaneamente. Incomodada pelo silêncio, Adiela se aproximou e jogou os braços ao seu redor.

— Vamos... Me leva pro quarto logo.~ — cantarolou.

———

... No fim das contas, não acabou em pizza. Acabou nos lençóis.

Entretanto, aquilo não era de se estranhar. Não com os dois.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!