E Se fosse verdade? 2
13 Sou observado
Notas iniciais
Aquele não era um ótimo dia para acampar ao ar livre. Minha cabeça latejava, como se um aríete estivesse dentro, batendo e batendo, tentando sair. Minha testa estava grudenta por causa do sangue que secara. O corte estava cicatrizando depois de eu comer um pedaço de ambrosia que tinha gosto de pedaços de chocolate.
Entramos dentro dos matos desviando-se de galhos e mosquitos que zumbiam em nossos ouvidos.
— Ótimo. — resmungou Percy. — Acampar no mato mais uma vez.
Kayro pigarreou.
— Quíron uma vez me disse que os monstros sentem o nosso cheiro.
— E dai?
— E dai? Estamos à mercê deles, não?
Annabeth suspirou enquanto andava.
— Não se preocupe. Estamos juntos.
Ficamos andando até nos deparamos com uma clareira. Havia pedaços de latas de refrigerantes jogados, papéis de balas e sacos de lixos. Achei estranho que, num lugar agradável com aquele, pudesse ter tanto lixo. Talvez as pessoas fizessem os seus piqueniques aqui.
— Vamos ficar aqui. — disse Annabeth. — É o melhor lugar, só para passar a noite. — ela enrolou os cabelos loiros e sentou-se no chão. Percy sentou-se perto dela pegando-lhe na mão. Kayro e eu ficamos juntos, segurando vela.
— Nunca pensei que vocês passassem por isso nas missões. — murmurou Kayro. Ele pegou seu travesseiro, colocou-o no chão, e pôs sua cabeça sobre ele.
Fiquei olhando para o céu, contemplando as estrelas. As nuvens estavam com uma cor alaranjada. Um vento fresco e agradável passou pela a clareira.
Suspirei. Só agora eu realmente notei que estávamos em outra missão, mais uma missão desenfreada pelo o mundo. Fiquei pensando em Grover e Igor em cima do Monte... Qual era mesmo o nome? Tá mais paz? Não, Tamalpais. É isso. Aqueles dois caras que os estavam mantendo presos, quem era eles? Só de pensar que eles queriam a máscara já me dava um arrepio.
— Raphael. — chamou Annabeth. — Sobre a missão, você sabe de alguma coisa?
Olhei para ela.
— Só sei que tem dois caras usando meus amigos como reféns.
— Por que sequestraram Grover? — perguntou Percy confuso. — O que ele tem haver com isso?
— Grover é o sátiro, não é? — murmurou Kayro.
— Sim, é o sátiro.
— O que eu não gosto — comentou Annabeth. —, é de estar indo outra vez para aquela montanha. Só de pensar no que eu passei... — ela estremeceu.
— E o que você passou? — perguntei.
— Você não vai querer saber.
— É verdade. — resmunguei. — Estou perguntando por que eu não quero saber.
Ela cruzou as pernas.
— Só digo que eu fui forçada a segurar o céu.
Um silêncio encheu a clareira.
— Está brincando, né?
— Não. — disse ela.
Kayro ergueu-se do chão.
— Você foi forçada a segurar o céu?
— Sim.
Eu achava aquilo impossível. Como alguém segura o céu? Imaginei Annabeth em tamanho gigantesco segurando o céu com as mãos, e com um sorriso orgulhoso no rosto. Não dava para acreditar.
— E... Você conseguiu pegar algumas estrelas? — falei. — Sabe... Só para ter lembrancinhas.
Ela fez uma careta.
— Não tem graça.
— E a lua? — continuei. — Você conseguiu...
— Ok, chega cara. — interrompeu Percy.
Kayro estava do meu lado rindo.
— Então... — falei, tentando não ser ignorante. — Você tem mais travesseiros nessa sua mochila mágica?
Ele assentiu.
— Claro. Me preparei bem antes de vir. — Ele tirou três travesseiros de dentro da mochila. Foi estranho.
— Obrigada. — disse Annabeth pegando o seu.
Coloquei meu travesseiro embaixo de minha cabeça. A grama pelo menos era fofa. Senti uma coisa incomodando em meu bolso. Coloquei a mão e tirei a máscara. Quase, quase eu ia deixando-a cair novamente em cima de mim. Tive um mini ataque cardíaco.
Então de repente tive uma ideia. Eu poderia me livrar dela. Poderia jogá-la bem longe para nunca mais me incomodar. Perfeito!
Levantei-me sem ninguém perceber. Todos já estavam deitados e dormindo. Andei um pouco para longe, com a máscara nas mãos. Ergui meu braço pronto para jogá-la, quando um pensamento me atingiu. Até que ela poderia ser útil. Poderia usá-la quando estivermos em alguma enrascada difícil de sair. Além do mais, os caras que sequestraram Igor e Grover queriam a máscara. Se não estiver com ela, quem sabe o que eles poderiam fazer com meus amigos.
Suspirei. Voltei ao meu lugar sentindo-me chateado. Deitei-me novamente e coloquei a coisa embaixo do meu travesseiro e resolvi dormir. Como sempre, com o sono vem uma porção grátis de sonhos.
Vi-me novamente no Monte Tamalpais. Lá de cima dava para ver boa parte da Califórnia e da baía de São Francisco. A vista até que era deslumbrante, se não fosse pela a tempestade troando a minha esquerda. Olhei e vi o mesmo homem musculoso segurando um tornado de nuvens cinzentas sobre os ombros. Agora eu sabia quem ele era: Atlas. O titã que segura o céu.
Não pude deixar de me perguntar por que falam que ele segura o céu. Pelo o que eu estava vendo, ele estava segurando apenas um rodopio de nuvens.
Andei mais para perto. Pude ouvir seus gemidos agonizantes. Fiquei arrepiado. Fui para a parte mais escura do palácio destruído a fim de ver Igor e Grover. E os vi, mas estavam deitados com os olhos fechados, e uma mordaça sobre as suas bocas. Torci para que estivessem só dormindo.
— Eles devem se apressar. — sussurrou a mesma voz que antes eu ouvira. — Ou então esses dois estúpidos vão morrer. Se aqueles semideuses não trouxerem a máscara até o dia 25... — eu o senti virar-se para Igor e Grover. — Digam adeus para seus amigos. — ele riu, e depois resmungou irritado. — Onde está Deimos? Ele já deveria estar aqui! É a minha vez de sair desse monte.
Ao longe, Atlas gemeu:
— Me tire daqui seu idiota! Deixe-me sair.
— Cale a boca, Atlas! — respondeu a voz. — Você não faz parte do nosso plano.
Meu sonho foi interrompido por um barulho de galhos se quebrando. Acordei suando frio. Sentei-me, olhando em volta, respirando rapidamente. Esperei mais alguns minutos. Outro barulho de galhos quebrando-se. Tirei meu mini celular do bolso, pronto para puxar a antena. Quando uma voz abafada disse:
O que você espera? Ser atacado? Vamos logo acabar com isso!
Levei um susto. Olhei para os meus amigos, pensando que tivessem sido eles que haviam falado, mas não. Estavam dormindo. E eu já tinha ouvido aquela voz antes, no ônibus, no momento do ataque dos lestrigões. Mas agora ela veio de algum lugar abafado atrás de mim.
Olhei para meu travesseiro. Levantei-o e peguei a máscara. No fundo da minha mente eu me perguntava se foi mesmo ela que falou comigo. Mas é claro que não. Isso era impossível.
Crack!
Mais galhos quebraram-se, agora bem perto. Um terror se apossou de mim. Me levantei rapidamente e andei até Percy e Annabeth para acordá-los, mas no meio do caminho eu parei, ficando completamente paralisado de pânico.
Dois olhos amarelados me olhavam fixamente do meu lado direito. Senti meu coração parar. Minhas pernas fraquejarem. Minhas mãos pareciam que estavam com trombose, tremiam sem parar. Eu respirava ofegantemente. O medo me envolveu por completo. Não conseguia me mexer.
Eu olhava para aqueles dois olhos amarelados sem piscar. Meus olhos começaram a arder.
— P- P- P — tentei chamar o nome do Percy, mas eu mal conseguia. E quando pensei que tudo não podia piorar, piorou até de mais, por que mais seis pares de olhos se juntaram ao outro, me olhando fixamente. Um som esganiçado saiu da minha boca. Uma vontade enorme de ir ao banheiro tomou conta de mim. Minha garganta se fechou, apertando-se. Parecia que meu coração estava lutando boxe contra o meu peito, e estava ganhando, pronto para nocauteá-lo.
Por fim, não aguentei mais.
— PEERCYYYYYY!!! — gritei, liberando todo o terror. Minha garganta ardeu. O medo ainda estava em mim e eu não conseguia parar de gritar. — SOCORRO! MERDA ACORDA! PERCYYYYY!
Os três se levantaram de um salto, atordoados. Os olhos que antes me olhavam, vieram ao meu encontro saindo de dentro da mata. No inicio vi que aquela coisa era do tamanho de um ônibus, e tinha sete cabeças de réptil, todas horríveis, com uma fileira de dentes irregulares de tubarão. A pele era coriácea. Num impulso, eu saí correndo ainda gritando.
— Já vou mãe! — exclamou Percy levantando-se. Quando ele viu aquele monstro passando por ele, deu um grito e saltou para trás tirando a tampa de sua caneta. Contracorrente apareceu em suas mãos. Annabeth gritou e deu um mortal para trás. Kayro rolou para o lado e saiu gritando: Hidra!
As sete cabeças se viraram sibilando para a espada de Percy. O monstro tinha o corpo longo e as patas reptilianas.
— Como essa coisa chegou aqui? — perguntou Percy brandindo sua espada.
— Raphael! — gritou Annabeth.
Eu estava escondido atrás de uma moita, ainda em choque. A Hidra tentou abocanhar Annabeth, mas ela saltou para longe. Kayro pegou seu bumerangue e atirou contra uma das cabeças.
— Não! — gritou Annabeth.
O bumerangue atravessou uma das cabeças, cortando-a. A coisa caiu no chão rolando, enquanto havia um toco sem cabeça tremendo descontrolado. Então de repente o toco que antes estava sem cabeça, se dividiu originando agora duas cabeças. Ótimo. Agora temos uma Hidra com oito cabeças.
— Ah, parabéns gênio! — resmunguei para Kayro.
— Eu... Não sabia! — gritou ele.
Foi quando a Hidra começou a soltar jatos de gosma verde, que fumegava quando caia no chão. Percy se desviou de um, e tentou fazer um corte no corpo do monstro com sua espada, mas uma cabeça o golpeou como um touro, fazendo-o bater as costas em uma árvore. Annabeth pegou uma pedra e a jogou direto no olho da coisa. Ela grunhiu, e juntas, todas as oito cabeças jogaram gosma verde ácida sobre ela. Com um choque, pensei que Annabeth se fora, mas então uma árvore caiu. O tronco fumegando. Ouvi um grito dela.
— Chega! — gritei. Olhei para a máscara em minhas mãos. Sabia que era uma opção idiota, mais a Hidra não ia morrer se cortassem as cabeças dela. Respirei fundo. — Por favor, não quero matar meus amigos!
E num gesto rápido, coloquei a máscara sobre o meu rosto. Ela grudou e fechou-se em torno de minha cabeça.
Fale com o autor