Notas iniciais
Cinco páginas no word yey

Nina ajeitou a alça da bolsa no ombro, observando o enorme prédio à sua frente. Tinha tantos andares que parecia alcançar as nuvens, com janelas uniformes ficando menores com a distância. Sobre uma porta de vidro, lia-se em um letreiro enfeitado “O Céu”.

Tomou um grande fôlego, e então entrou.

Um segurança mal-encarado de pelo menos dois metros a olhou de cima a baixo e então suspirou.

– Carteira de identidade. – sua voz era ríspida e cansada. Aquele homem, que Nina já conhecia das outras vezes que viera, chamava-se Arthur. Costumava ser uma pessoa muito contente, seu sonho era trabalhar como artista plástico, mas infelizmente não foi aceito na escola de arte e, devido à seu porte, foi convidado a trabalhar como segurança.

– Aqui está, Arthur. – Nina estendeu o documento com um enorme e simpático sorriso. O homem levou alguns segundos checando, e então devolveu para a mulher.

– Meus pêsames pela perda, senhora Fech, pegue uma senha e dirija-se à sala de espera. Seu número será chamado e a senhora poderá subir ao andar desejado. – a falta de animação em sua voz denunciava que aquela frase, com leves alterações, era pronunciada várias vezes ao dia.

Nina assentiu e pegou a ficha de número 305, seguindo para uma pequena sala no fundo do cômodo. Haviam vários sofás brancos ali dentro, o chão igualmente branco refletia as luzes dependuradas no teto, também brancas, tal qual as paredes. Tudo – ou praticamente tudo – era branco naquele cômodo.

Algumas pessoas estavam sentadas confortavelmente ali. Um homem de terno e gravata com a cara amarrada, uma adolescente de no máximo 15 anos com os fones plugados e uma música alta tocando, uma mulher e sua filha, que chorava alto, um senhor de idade de olhos inchados e tristes.

Nina ajeitou-se ao lado da loira que tinha uma criança no colo. A pequena garotinha chorava descontroladamente, esperneando e esfregando os olhinhos inchados. A mulher que a tinha no colo, no entanto, parecia nem estar ouvindo os gritos da menina, já que mantinha seus olhos cansados em algo ao longe.

– Oi pequenina. – Nina sorriu, acenando para a garotinha. Sim, Nina era uma mulher bem-sucedida de 26 anos que amava se meter na vida dos outros. A menina passou a chorar um pouco mais baixo, entreabrindo os olhos e piscando-os de forma curiosa.

– O-Oi... – o choro aos poucos passou, e Nina esperou esse tempo pacientemente.

– O que aconteceu, querida? – a menina contorceu o rosto novamente, e Nina queria bater em sí mesma por esquecer da regra número um de como fazer crianças pararem de chorar: Nunca – NUNCA – toque no assunto que causou o choro.

– É-é que a mamãe fez a Sarah comer brócolis. – apontou para sí mesma, com aquela expressão chateada, negando com a cabeça – E a Sarah odeia brócolis. Hoje é o dia especial da Sarah, quando ela vê o papai, e aí a mamãe fez ela comer brócolis.

– Oh, Sarah, calma. É porque você tá com gosto ruim na boca, é?

– A Sarah ‘tá com gosto de brócolis na boca. – assentiu.

– Coitadinha. – riu. Abriu sua bolsa, onde carregava as mais variadas bugigangas e de lá tirou uma caixa de chicletes. – Pega um aqui, princesa.

A menina sorriu verdadeiramente, pegando um chiclete cor-de-rosa e lançando-o dentro da boca. O sabor tutti-frutti espalhou-se por sua língua, e ela riu, afagando as próprias bochechas.

– Sarah diz obrigada, titia.

– De nada, Sarah.

Uma mulher surgiu do outro lado da sala. Seus cabelos negros iam até os ombros, e a franja estava presa por uma presilha cinzenta. Seu uniforme branco e o crachá escrito “Ana” denunciava ser uma empregada do lugar. Ana nem ao menos olhou para os presentes. Mantinha sua atenção na prancheta em suas mãos.

– 287, por favor dirija-se à próxima sala.

A mulher que tinha Sarah no colo levantou-se calmamente, dirigindo um rápido sorriso para Nina e seguindo para o cômodo indicado.

Nina então manteve-se calada, observando o relógio na parede à sua frente passar o tempo. Os ponteiros corriam devagar, o tempo passava devagar, e tudo porque ninguém ali parecia especialmente pronto para ter uma conversa sobre qualquer coisa que fosse. E isso deprimia Nina tanto, que os ponteiros passavam a torturá-la, andando vagarosamente ao invés de vencer a maratona, como antes.

Uma, duas, três horas passaram e finalmente 305 era o próximo número.

Nina apertava as juntas e suspirava incansavelmente.

Finalmente, Ana voltou ao cômodo.

– 30...

– Sou eu! – Nina ergueu-se do sofá em um pulo e seguiu para a sala atrás da mulher.

Era uma espécie de escritório, mas tudo seguia bizarramente branco. Uma mesa com duas cadeiras, uma poltrona, uma estante e uma pilha de livros estavam dispostos pelo ambiente.

– Por favor, sente-se. – Ana apontou para uma das cadeiras, e Nina rapidamente ajeitou-se. Puxou uma folha de papel e a colocou sobre a mesa – Qual o seu nome completo, senhora?

– Marina Fech Tavarez. – escreveu isso em alguma parte da folha.

– Qual a sua idade, senhora Fech?

– Tenho vinte e seis anos.

– Quem a senhora veio visitar?

– Na verdade, eu vim visitar mais de uma pessoa, Ana... – a mulher ergueu as sobrancelhas.

– Olha, senhora Fech, não se pode ver mais de um paciente por visita e...

– Não dá pra abrir uma exceção pra mim, só dessa vez? Hoje é o meu único dia livre, eu não moro na cidade, e realmente preciso falar com mais de uma pessoa... – Ana suspirou e então abriu um sorriso simpático.

– Certo. Só dessa vez. Então, quens a senhora veio visitar?

– Nádia Tavarez Lopes e Eduardo Fech.

– Qual é o seu parentesco com eles, senhora Fech?

– Nádia é a minha mãe, e Eduardo é... era o meu marido.

– Não é mais? – Nina sorriu, divertida, e apontou para o anelar esquerdo livre de aliança.

– Válido somente até a morte.

– Faz sentido. – Ana escreveu mais alguma coisa no papel, e então acenou com a cabeça – Senhora Fech, como a senhora visitará duas pessoas e isso é contra as regras, vou ter que reduzir seu tempo de visita. Quinze minutos com cada paciente.

– Ok. – Nina levantou-se, mas a mulher fez sinal para que continuasse sentada.

– É a sua primeira vez em nosso departamento, senhora Fech?

– É, o prazo de um ano de pós-morte deles termina hoje. – sorriu.

– Bom, senhora Fech, não sei qual é o caso dos pacientes que a senhora vem visitar hoje, não sei a causa da morte deles, não sei de nada. Sou até proibida de saber algo. Mas grande parte dos que estão aqui, dos que aguentaram até aqui não estão completamente lúcidos. A morte é uma coisa pesada demais para o limitado cérebro humano suportar, e nem todos reagem da mesma forma. Existem casos que os pacientes passam sem sequelas pela experiência, mas isso ocorre somente em casos de morte por velhice, ou doenças que não destroem o corpo. Se o paciente faleceu por um tiro no peito, por exemplo, haverá um corte constantemente aberto no peito dele. Nós temos um enfermeiro em cada quarto para limpar a ferida de tempo em tempo, mas às vezes o paciente pode ter ficado... Deformado. Ou talvez tenha virado um lunático psicótico. A morte pode romper aquela fronteira fina entre a lucidez e a loucura. Não tenho permissão para te ceder nenhuma informação específica antes da senhora vê-los, então, se a senhora resolver seguir com a visita, apenas peço para que prepare-se.

– Eu... Eu quero ir.

– Muito bem, então só espere um pouco que eu tenho que achar os arquivos deles. – Ana abriu uma gaveta e passou os papéis rapidamente, correndo os olhos pelos nomes escritos com letras grafais.

– Er... Ana, eu tenho uma pergunta.

– Diga.

– Por que não deixam seus pacientes saírem? Por que vocês mantêm esse prazo de que só se pode visitar alguém depois de um ano de pós-morte? E por que só se fazer outra visita um mês depois da primeira?

– Boas perguntas. – a mulher seguiu procurando os arquivos, mas sorriu – A dor foi feita para ser sentida. O medo da morte, do desconhecido, perderia totalmente o seu sentido se a pessoa morresse o no dia seguinte já pudesse ver a sua família. E a família também não sentiria saudades do morto, já que o veria em seguida, e funerais e choradeira seriam descartados. Nossos pacientes não podem sair, porque assim ninguém teria medo de morrer. Não deixamos nenhuma informação vazar sobre o tratamento daqui. Não sabem se os enfermeiros batem nos pacientes, se a comida é boa, por exemplo. Fora que a extinção seria um futuro certo para nós todos.

– Mas não somos... imortais? Quer dizer, os pacientes estão vivos, né?

– Cada vez que alguém morre, – Ana jogou um arquivo sobre a mesa, mas manteve seus dedos passando os seguintes – o corpo dessa pessoa fica mais fraco quando acorda para a pós-morte, e depois de algumas pós-mortes o corpo simplesmente não acorda mais. Os pacientes estão, de certa forma, vivos, mas não sabem disso. E nem podem saber. – suspirou e sorriu, largando sobre a mesa o segundo arquivo – Achei.

Ana levantou-se e convidou Nina com a mão para fazer o mesmo. As duas seguiram por um corredor estreito depois de uma porta cinzenta. No final dele havia um elevador e uma mulher bem-vestida.

– Daqui em diante, eu não posso ir. – Ana sorriu, dando tapinhas nas costas de Nina – Aqui, Judite, são esses dois. Abri uma exceção pra ela, mas são só quinze minutos em cada um. – entregou os arquivos para a mulher, e então voltou-se para Nina uma última vez. – Meus pêsames pela perda, senhora Fech. Aproveite bastante.

– Obrigada.

Judite fez sinal para que Nina entrasse no elevador, e assim que as duas estavam dentro, as portas de fecharam. A mulher pressionou o botão onde lia-se 109, e então abriu um sorriso largo destinado à Nina.

– Então, senhora Fech, o que a senhora faz da sua vida?

– Eu sou estudante de sociologia e trabalho em uma lanchonete. E você, é... Judite?

– Eu sou secretária de um dos médicos daqui. – Nina manteve os olhos na mulher, que manteve o sorriso por pouco tempo. Logo em seguida, abaixou o olhar e fitou seus próprios pés em silêncio, com uma expressão séria. – Hoje é o meu dia 22.

– Como é?

– Quer dizer, é o dia 22 dele. – riu baixinho – Meu marido. Ele faleceu, vítima de um assassinato de assalto.

– Mas você não tem permissão para vê-lo?

– Só depois de um ano. Sou uma pessoa como qualquer outra, afinal. – suspirou – Estou me sentindo meio solitária sem ele pra me fazer companhia. Ele era o único que eu tinha, e isso me faz sentir tão fria... Ah, por Deus, os meus problemas não lhe interessam. Desculpe, eu falo demais, sem nem perceber. Os médicos me disseram que é uma espécie de ansiedade, mas eu não concordo, porque ansiedade não... Oh, esqueça.

Nina riu.

– Tudo bem, não tem problema nenhum.

Ficaram em um silêncio desconfortável o resto da viagem.

As portas se abriram, e Nina desceu do elevador. Judite endireitou seu uniforme e sorriu de forma mais fria e profissional.

– Siga por aqui, são os quartos 1160 e 1161. Meus pêsames pela perda, senhora Fech.

– Obrigada.

Nina seguiu o caminho que devia, e bateu gentilmente na porta. Um homem vestindo roupas brancas abriu-a, e encarou Nina por um instante antes de deixá-la entrar.

– Senhora Tavarez, tem visita para a senhora.

– Quem é, meu rapaz?

Nina espiou, e viu que o quarto era todo branco, como todos os outros. Havia uma cama e uma mesa com duas cadeiras, um rádio sobre um balcão e um armário em um canto. Sentada na cama estava Nádia, a mãe de Nina. Quer dizer, aquela devia ser Nádia, mas havia algo de muito errado com ela.

O lado esquerdo da sua face estava quase todo em carne viva, os dentes amarelos aparentes, o olho fechado com o pouco que sobrara da pálpebra, a falta de sobrancelhas e os dois fios de cabelos que foram penteados para o lado. Fora isso, em suas mãos e pés viam-se queimaduras graves.

Nina respirou fundo, sentindo náuseas e uma forte vontade de chorar. O enfermeiro, percebendo o mal-estar súbito da garota pediu que ela se afastasse e esperasse um pouco.

– Se a senhora não quiser mais realizar a visita, tudo bem. – ele disse.

– Não, eu... Eu tenho que falar com ela.

Nina então entrou oficialmente no quarto, e sentou ao lado da mãe. Nádia a encarou e sorriu.

– Nina! Oh, minha filha, finalmente você apareceu! Deus ouviu as minhas preces! – abraçou a menina, que riu e abraçou a mulher de volta.

– Mamãe, eu amo você, eu senti tanto a sua falta, oh, meu Deus, nem acredito que isso está acontecendo, eu te amo, te amo, te amo.

– Eu também te amo meu bebê. Como vai a sua vida?

– Um inferno sem vocês. Odeio meu emprego, odeio a faculdade, sociologia é um péssimo curso, odeio a minha existência. Eu quero dar o fora logo. Mamãe, eu preciso da senhora, por favor, por favor volte pra mim. – Nina então, sem perceber, começou a chorar. Seus soluços eram altos e roucos, e ela não era mais capaz de fazê-los pararem.

– Senhora Fech, vou precisar pedir que a senhora se retire.

Depois de alguma relutância, conseguiu tirar Nina dali.

– Meus pêsames pela perda, senhora Fech. Sua mãe está em boas mãos aqui.

– Eu sei. – sorriu, dando as costas ao homem e seguindo pelo corredor.

– Ah... senhora, o quarto 1161 fica pra lá.

– Obrigada.

***

Nina apertou a alça da bolsa e respirou fundo. Deu um passo, e estava fora d’O Céu. Sentou-se no meio-fio, e chorou um pouco. Chorou por ter desmoronado na hora errada, chorou por ser uma boa mentirosa, chorou por ser uma covarde. Arthur, o segurança, Sarah, a menininha, Ana, a recepcionista, Judite, a secretária, Marcos, o enfermeiro. Nenhum deles tinha percebido. Nada, absolutamente nada estava certo. Mas Nina, a mentirosa, escondeu-se atrás de um sorriso e passou por todos.

E mesmo depois de tanta encenação, ela não aguentou. Parou diante do quarto 1161, pensou em bater, chorou, virou as costas e saiu. Não era capaz daquilo.

Mesmo que, na noite do acidente, tenha virado para o marido com um sorriso enorme “Eu vou te ver assim que eu puder, prometo.” Ela jurou. Jurou. Mentirosa.

– Sabe... – Nina murmurou, sozinha, com aquele sorriso triste costumeiro – Talvez visitar o céu não seja tão bom assim.

Notas finais
Ficou meio confuso, eu acho. Me perdoem.
Reviews são maneiros.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!