E Se Fosse Verdade? 3 - A Batalha do Labirinto
21 Newt dá uma de "Filho de Apolo"
Eu pensava que Ben estava se recuperando desde a última vez que eu o vira no quarto, na Sede. Mas, agora, vendo-o de perto, parecia estar pior. Não usava nada, a não ser um calção esfarrapado no corpo esquelético pálido. As veias inchadas e verdes espalhando-se sobre o corpo, como teias de aranha. Os olhos, injetados de sangue e arregalados, nos fitavam, como se a gente fosse a sua presa.
Thomas, Percy e eu ficamos um perto do outro, apavorados demais para fazer alguma coisa.
— Hã... olha cara. — Percy ergueu as mãos em sinal de rendição. Ele havia guardado a sua espada quando vira que ela não havia feito nada contra o sujeito maluco. — É... não sei como você ficou desse jeito, mas... — seus olhos me fitaram. — Podemos ajuda-lo se quiser.
Ben não respondeu nada. Ele se agachou, preparando-se para saltar sobre a gente outra vez. Sua mão tirou algo afiado de dentro de seu calção. Uma faca. Meu estômago gelou. Aquilo não podia estar acontecendo.
— Espere! Por favor! — exclamei, tentando fazer a voz ficar firme. — Não faça isso! Por que quer nos matar? O que fizemos?
Quando alguém gritou da entrada do cemitério.
— Ben!
Olhamos em direção da voz. Ben fez o mesmo.
Newt estava lá, postado na entrada do cemitério, apenas uma silhueta negra de seu corpo na semi-escuridão do ambiente. Estava com um arco e uma flecha nas mãos, pronto para ser disparada. Junto dele, havia mais dois outros garotos.
Um alívio encheu-me.
— Ben! — Newt voltou a gritar. — Não faça isso! Volte agora mesmo para a Sede, ou não vai gostar do que irá acontecer.
O sujeito voltou-se a olhar para nós. Sua língua se projetou entre os lábios para umedecê-los.
Por que ele está fazendo isso? Pensei, atônito. O que fizemos?
De repente, uma vaga lembrança da minha antiga vida (pelo menos era o que eu achava.) me veio à mente.
Eu, em um navio de cruzeiro enorme, no meio da noite.
Em meio àquela situação, me perguntei se antes eu fora um garoto rico. Por que, o que eu estaria fazendo em um navio de cruzeiro?
No entanto, Ben me tirou de meus pensamentos, quando grunhiu para Newt:
— Se você me matar, vai acabar com a pessoa errada. — ele apontou um dedo ossudo para nós. — Esses são os garotos que você quer matar.
— Não seja idiota! — disse Newt. — Eles não fizeram nada, e ainda são novatos por aqui. Não tem com o que se preocupar. Você ainda está sentindo os efeitos da Transformação. Agora... arraste esse seu traseiro magrelo para a Sede, ou coisas ruins irá acontecer com você.
— Eles não são um de nós. — a voz de Ben estava desequilibrada. Apontou para Thomas. — Ele não é um de nós. Eu... o vi. Ele é mau.
— O-o quê? — balbuciou Thomas, confuso. — Eu sou...? Do que está falando?
— Cale essa boca! — gritou Ben. Do canto de sua boca escorria saliva, a qual espirrava a cada vez que ele gritava. — Cale essa sua boca horrível de traidor!
— Ben! — Newt gritou, apontando a flecha para ele. — Deixe isso com os Encarregados! Volte para a cama agora, seu cara de mértila!
— Ele vai nos levar para casa! Vai querer que deixemos o Labirinto! Seria melhor saltarmos do Penhasco.
— Do que está falando? — perguntei, completamente atordoado.
Ele olhou para mim, o que enviou um calafrio por meu corpo. Apontou para mim e Percy.
— Quanto a vocês dois... a culpa é de vocês. Vocês são os culpados do que está acontecendo. Ele me falou de vocês. Eu os vi. — virou-se para Newt. — Monstros vem para cá por culpa deles. Monstros horríveis! Melhor seria mata-los. Deixe que eu arranque as tripas deles. Eles são maus!
Newt ainda estava com a flecha apontada para o garoto maluco.
— Ben, se você não voltar agora para a Sede...
— Eles são maus. — sussurrava. — Maus, maus, maus, maus!
Ele se mexia para trás e para frente, sussurrando, quase como se estivessem em transe. Segurava a faca firmemente em suas mãos. Os olhos grudados em nós o tempo todo.
— Irá se arrepender se não fazer o que estou mandando agora. — advertiu Newt.
No entanto, Ben deu um sorriso que transbordava loucura, ergueu a mão com a faca e saltou sobre nós com um grito, dando um golpe com a lâmina.
— Não! — gritei, erguendo as mãos para proteger-me.
Quase imediatamente, ouviu-se um estalido seco. O ruído de um objeto cortando o ar. Seguido por um som oco do objeto encontrando seu alvo. A cabeça de Ben pendeu violentamente para o lado. Todo o seu corpo girou com o impulso. Ele caiu de barriga no chão, onde ficou imóvel.
Aterrorizado, cambaleei em direção ao corpo do garoto. A flecha havia atravessado a sua bochecha. O sangue escorria do local, preto como petróleo, na escuridão. A única coisa que se movia era o seu dedo mínimo. Aquela visão fez meu estômago revirar. Coloquei a mão na boca, tentando controlar a ânsia de vômito.
— Vamos. — disse Newt, virando-se para ir. — Os embaladores cuidarão dele de manhã.
Estava perplexo com a frieza de Newt quanto aquela situação. Estava horrorizado com o que acabara de ocorrer.
Sem dizer nada, saímos dali o mais rápido que podíamos.
Com tanto tempo na escuridão, a luz do sol cegou-me completamente. Não enxergava nada. Me sentia completamente perdido, desesperado e assustado. Tentei esquecer a imagem de Ben morto, mas ao invés disso, ela veio a minha cabeça. A flecha atravessando seu rosto. O sangue escorrendo. O som do impacto da flecha contra a cabeça do garoto.
Aquilo foi a gota d’água. Meu estômago não aguentou.
Caí de joelhos no chão e coloquei tudo para fora. A barriga se contraindo terrivelmente enquanto vomitava e tossia, expelindo os últimos vestígios de comida. O gosto desagradável daquilo na garganta me fez vomitar ainda mais. Meu corpo tremia inteiro.
Quando parou, respirei fundo várias vezes e limpei a boca com as costas das mãos. Me sentia horrível. Péssimo. Pela milionésima vez, queria sumir daquele pesadelo de lugar. Não queria mais viver ali.
Percy ajudou-me a levantar, e murmurou:
— Não faça isso na minha frente. Eu quase vomito também.
Quis dar-lhe um soco na barriga, mas não tive força pra isso.
Á noite, para melhorar meu estado de espirito, tive de dormir ouvindo os gritos torturantes de Alby, que sofria com a Transformação. Por mais que eu tampasse os ouvidos, não parecia funcionar. Além disso, ficava me perguntando toda hora o que Ben queria dizer com: Ele me falou de vocês. Eu os vi. Quem havia falado da gente? Isso fazia me lembrar de Gally, que dizia que já tinha me visto antes.
Percy estava comigo ao meu lado, junto com Chuck, em seu saco de dormir. Ele não falou nada desde o acontecimento. Eu o compreendia. Aquilo havia sido muito horrível.
Chuck, por outro lado, insistia em querer que falássemos algo.
— Digam alguma coisa. — falava ele.
Nenhuma resposta.
Não estava com saco para conversar. Queria ficar ali, encolhido em meu saco de dormir, e não acordar mais.
Monstros vem para cá por culpa deles. Monstros horríveis! Melhor seria mata-los.
Aquilo que Ben dissera me incomodava quase tanto quanto a morte dele. Por que havia dito isso? Será que era verdade?
Lembrei-me do que a mulher-cobra havia me dito quando lutava contra ela.
Não sssei o que essstá fazendo essscondido nessste lugar. Mas ssseja o que for, não adiantou. Ainda podemosss sssentir o ssseu cheiro, sssemideusss.
Como assim sentir o meu cheiro? E ela havia me chamado de semideus. O que era um semideus?
Senti um estranho formigamento em meu corpo. Tinha a sensação de que estava chegando perto de alguma informação importante. Alguma coisa importante sobre a minha antiga vida.
Acampamento Meio-Sangue.
Essa palavra fincou-se em minha mente.
Foi nesse momento que tive uma certeza. Eu precisava descobrir o que isso tudo significava. Precisava ir atrás de todas as informações possíveis sobre isso.
Amanhã, iria começar a busca desse Acampamento.
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