E Se Eu Fosse Semideus?
8 Cap. 8 - Amor e Morte Andam Lado a Lado
Tudo bem, eu sei, pode não ter parecido uma ideia muito boa um Semideus sem treinamento ou muita experiência como eu ter saído do Time Argos, mas minha confiança foi ferida, e isso não é algo muito bom, principalmente para alguém que tem um certo nível orgulho e gosta de mantê-lo intacto.
Não consigo acreditar que pessoas que me conhecem tão bem como a Alice e a Samya sejam capazes de desconfiar de mim, de me achar perigoso, de confiar naquela garota-morte e não em mim, nós já passamos por tantas coisas juntos, achei que merecia algum tratamento superior, algum "voto de confiança" ou coisa do tipo.
Por mais difícil que tenha sido para mim, tentei não ouvir as palavras da Alice me pedindo para ficar, para permanecer no Time Argos, tentei não olhar para trás quando fui embora, mas no momento em que fraquejei e olhei pude ver que elas choravam, principalmente a Alice, ela podia ser meio dura e mandona mas tinha um grande coração.
Quando a minha raiva passou eu já estava muito longe, não podia mais voltar, não depois de ter dito aquilo tudo, quando eu estava longe o suficiente para não ouvir mais a Alice gritar, eu me arrependi de verdade, mas não podia, simplesmente não podia abaixar a cabeça e esperar uma recepção calorosa caso voltasse, então apenas segui em frente.
Eu estava muito confuso, simplesmente andava sem destino algum, eu não tinha um mapa ou uma direção que quisesse seguir, só sabia que tinha que ir em direção ao litoral, era de lá que partiríamos para o Acampamento, então meu objetivo era chegar lá vivo, e bem vivo de preferência, mas eu não tinha ideia de como, eu estava numa cidade que provavelmente estava repleta de hordas de monstros.
Eu não sei como fiz isso mas, tentei esconder minha presença ou meu cheiro, minha esperança foi uma coisa que ouvi de uma das meninas: "Seu cheiro se torna mais forte à medida que seus poderes aumentam", bom, eu não me julgava poderoso, apesar do que a Karolayne disse, então pensei que meu cheiro seria bem fraco.
De inicio eu estava certo, não atraí nenhum monstro por algum tempo, uns quarenta minutos para ser mais exato, depois desse "tempinho de folga" eu podia sentir cada um deles vindo, sentia seus cheiros e suas presenças e era assustador, não era apenas um ou dois, eram hordas, cada uma das hordas com pelo menos dez deles, aquilo me deu pavor, de verdade, eu não queria morrer daquele jeito.
Tentei me esgueirar pelas ruas e avenidas de Fortaleza com o pouco conhecimento que eu tinha sobre a cidade, eu sabia que tinha que ficar longe do centro, algo me dizia que era lá que todos eles se reunião e eu não queria entrar no esconderijo dos monstros, com certeza o líder deles iria me fatiar com um só golpe. Eu estava conseguindo me virar naquela cidade, eu podia chegar até o litoral.
Eu estava mortalmente errado, o dia até que foi relativamente fácil, mas a noite, foi horrivelmente assustadora, não consegui dormir, sempre que tentava eu sentia alguma coisa, algum cheiro ou alguma presença e aquilo me despertava no mesmo instante, eu não queria admitir mas sentia tanta falta da Samya e da Alice.
Eu havia ficado dependente delas e isso me irritava muito, eu tinha que saber sobreviver, eu não as teria para sempre, por mais que a minha decisão de sair do Time Argos fosse precipitada, ela era extremamente precisa para mim, era a oportunidade perfeita para aprender a sobreviver.
Consegui passar a noite em uma praça, eu não sabia qual era a praça mas era bonita e parecia segura, eu já havia ido ali com a minha mãe uma vez, acho que era próxima a uma igreja ou coisa assim, não importa, o importante é que escondido naquela praça eu consegui passar a noite de maneira quase calma, eu não dormi mas consegui descansar um pouco.
Faltava pouco tempo, de acordo com a Samya a passagem no litoral fecharia em cinco dias e já haviam se passado três, apesar disso eu sabia que não deveria ter pressa, algo viria eu sabia, tinha certeza disso, uma voz suave na minha cabeça dizia para que eu levasse o tempo que fosse preciso, que alguém como eu não poderia ser apressado.
Eu iria me virar, ainda tinha a bolsa que os Deuses me deram de presente, e eu sabia que aquela seria a hora certa de abrir, puxei a bolsa azul para mais perto de mim e a abri, eu esperava bem mais do que encontrei, havia apenas alguns maços de dinheiro, algumas moedas de ouro, dracmas, ambrosias, um kit de primeiros socorros bem básico e um apito.
Como eu usaria aquele apito eu não sei, mas sabia que precisaria dele mais cedo ou mais tarde então o coloquei no bolso da calça e fechei a mochila, peguei apenas um pouco de dinheiro e alguns dracmas para casos de emergência extrema, eu iria mandar uma mensagem de Íris para a Alice, mas rezava para não ter que fazer isso.
Passei mais um dia fugindo de monstros, me esgueirando por ruas que eu não sabia onde dariam e por becos e vielas que eu nem sequer imaginava existir, minha maior preocupação era o centro, eu tinha que me manter afastado de lá, eu sabia que se fosse parar lá eu dificilmente conseguiria sair vivo.
Eu sabia que estava mortalmente encrencado quando de algum jeito cheguei na praça do Ferreira, naquele momento eu sabia que seria atacado a qualquer minuto e isso fez meus sentidos ficarem totalmente em estado de alerta, tentei andar normalmente entre as pessoas, mas sempre que alguém olhava para mim eu ficava com medo, estava ficando paranoico.
Por alguma razão que não sei eu não consegui mais sair do centro, só ficava vagando pelas ruas e fugindo dos possíveis monstros, evitando as presenças e os cheiros, eu parecia um rato encurralado, eu sabia que viriam me caçar, mas não sabia quando e nem como, sentia que estavam brincando comigo.
Se eu estava paranoico durante o dia, tudo só piorou a noite, quando centro se acalma e as lojas começam a fechar e as pessoas começam a ir para suas casas, tudo muda, o mar de gente se dissolve e tudo fica extremamente macabro, eu não queria estar ali mas também não conseguia sair.
Eles estavam esperando o momento certo para me dar o bote, eu estava descansando, deitado em baixo de uma árvore em uma praça do centro, quando ouvi a voz da Alice pedindo socorro, não pensei duas vezes, corri para onde o som vinha, eu não podia deixar nada machucar a minha prima, nada mesmo, fiz uma promessa para minha mesmo que iria proteger ela e a Samya.
Quando cheguei ao local de onde a voz vinha fiquei assombrado, ela não estava ali, nenhuma delas estava, só haviam aquelas coisas com apenas um olho.....Ciclopes, muitos deles, eu não parei para contar mas deveriam ser pelo menos sete, fora aquelas mulheres-cobra, ao todo eram mais de quinze monstros, eu sabia que não poderia enfrentar todos eles e vencer.
Foi então que eu ouvi, aquele grito, mas não era um grito de pânico ou de medo, era um grito de excitação, algo como "Ei mundo, eu estou aqui e vou chutar a sua bunda!", e foi então que eu vi, em cima de um dos prédios, aquele garoto de camisa vermelha e moletom preto, usava uma calça estilo camuflada e parecia ser mais novo do que eu.
Aquele garoto com certeza não era normal, ele saltou do prédio com uma velocidade assombrosa, ele com certeza era louco, muito louco, ele aterrizou na cabeça de um dos Ciclopes que gritou e tentou agarrá-lo, sem sucesso é claro, foi quando ele puxou aquelas katanas e com um golpe rápido demais para descrever, derrotou o Ciclope.
Eu estava admirado, ele era com certeza mais rápido que a Karolayne, não parecia ser mais rápido que a Alice mas a velocidade com certeza era assustadora da mesma maneira, ele cortava os Ciclopes e as mulheres-cobra com uma velocidade tão grande que não dava nem tempo de contra atacar, ele era um monstro em combate isso eu tinha certeza.
Mas eram muitos até para ele, chegou um momento em que ele foi encurralado em um canto da rua e não conseguiria sair, foi quando a segunda presença se revelou, era uma presença tão forte e altiva que senti vontade de me curvar perante ela, era tão linda e tão pura, me senti quase que na presença de uma Deusa.
Ela derrubou os monstros que estavam ao redor do garoto com golpes rápidos, ela portava uma lança de ouro e manejava com tamanha habilidade que era difícil dizer se ela lutava ou bailava com a lança, a graciosidade e a força daqueles movimentos eram fora do comum, eu não sabia o que fazia, só senti vontade de me aproximar dela cada vez mais.
Foi quando o garoto com as katanas veio até mim e disse quase rindo:
- Ei cara, para de babar, se eu fosse você não me meteria com ela, sabe apesar desse rostinho bonito ela pode ser um demônio muito pior que qualquer um desses monstros, não deixe o charme dela te enganar, essa Filha de Vênus me assusta até hoje, ah sim, desculpe não me apresentar, meu nome é Lucas e sou filho de Hades.
A garota era linda, nada mais, nada menos, seus cabelos negros e lisos caiam perfeitamente sobre seus ombros e deixavam seu rosto com um ar de criança, o que era com certeza muito, muito lindo, ela usava jeans azul e uma camisa roxa escrita "Indo pra Júpiter" e usava óculos, ela era incrivelmente linda e habilidosa, era enfim a coisa mais linda que vi em toda a minha aventura até aquele momento.
Quando dei por mim, tudo estava acabado, os monstros estavam todos derrotados, todos retornaram ao pó. As pessoas que me salvaram agora estavam rindo e conversando de uma forma fora do comum, nem parecia que eles tinham enfrentado tantos monstros, estavam tão despreocupados que quase me senti confortável, como se tivesse voltado para casa.
Quando perceberam que eu estava fora do transe a garota linda mandou o garoto chamado Lucas falar comigo, ele expressava tanta confiança e despreocupação que me perguntei se ele era mesmo um filho de Hades, minha pouca experiência com filhos de Hades me dizia que eles eram meio.....fechados e chatos.....irritantes, mas ele era completamente diferente, era animado, era vivo.
- E ai cara, você ta bem? Eram muitos né? Essa foi demais, tô ansioso pela próxima caçada, ah sim, de quem você é filho cara? Você pareceu totalmente perdido no meio da luta....não teve treinamento né? Ei ei "garota veneno" ele pode ficar com a gente? Pode? Diz que pode! — ele falava tão rápido que minha cabeça doeu, me perguntei se ele tinha problemas com cafeina ou coisa do tipo.
- Eu....ér.......não sei de quem sou filho......ainda não fui reclamado....e nem nada do tipo......- disse isso ainda um pouco em transe, era tão boa a sensação, eu queria ficar nela por mais um tempinho.
A garota se aproximou e me olhou bem nos olhos, abriu um sorriso calmo e sereno, e disse:
- Tudo bem Sr.Desconhecido, seja bem vindo ao time, vai ser um honra descobrir tudo sobre você.
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