E Se Eu Fosse Semideus?
4 Cap. 4 - Cheira a Espirito de Morte
Esse com certeza foi o pior cochilo da minha vida, não foi por que a cama era dura ou algo do tipo, foi o pesadelo, só de imaginar já me dá uma pontada de pavor, poucas vezes senti um medo tão agudo e isso me fez pensar muito naquele sonho terrível, não o contei para as meninas por que não quis preocupa-las, mas aqui é diferente, então lá vai:
No pesadelo eu estava preso por correntes, não por correntes normais, mas por correntes de ouro puro, era noite e o vento batia no meu rosto com uma força anormal, minha vista estava embaçada e meu peito doía, só então notei o estranho ferimento em forma de cruz que eu tinha no peito.
Minhas roupas estavam novamente rasgadas e sujas só que, dessa vez não eram as que eu costumava usar, eu usava um jeans escuro e uma camiseta do Acampamento Meio-Sangue, a própria camiseta estava empapada de sangue e eu tremia muito, muito provavelmente pela perda de sangue.
Ao fundo eu podia notar a ponte metálica e o mar, eu estava no litoral mas não sabia em que local específico, olhei ao redor me esforçando o máximo que pude e minha visão não foi das melhores, na verdade foi uma visão assustadora para alguém como eu, era como se aquilo apenas piorasse a dor que eu estava sentindo.
Vi minhas amigas Samya e Alice acorrentadas ao meu lado, ambas tinham o mesmo ferimento em forma de cruz no peito e sangravam na mesma intensidade que eu, elas estavam desacordadas e pareciam estar à beira da morte, aquilo me deixou seriamente enjoado, mas como tudo pode ficar pior, veio aquela que era a pior coisa do pesadelo inteiro.
Aquela gargalhada macabra, parecia como uma navalha na minha mente, era terrível, simplesmente terrível, da gargalhada nasceu uma voz igualmente macabra, uma voz arrastada e pesada afastando qualquer bom sentimento ou sinal de felicidade que eu pudesse ter, uma voz que não só me assustou como me deixou triste.
Me lembro apenas de uma frase, uma única frase dita pela voz, pode parecer pouco mas é o bastante para fazer você passar algumas noites em claro.
- Criança do Olimpo....você e seus amigos insignificantes não vão conseguir....por que eu.....eu anuncio as suas mortes.
E mais uma vez a gargalhada voltou a dominar minha mente, foi nesse momento que acordei e sentei na cama, eu tremia de pavor, estava suando frio e respirava muito rápido, fiquei tentando me acalmar por alguns minutos, tentei pensar em algo que me deixasse calmo e alegre.
Pensei nos meus pais, em como eles me faziam sentir conforto com um simples abraço, uma simples palavra carinhosa, pensei em todos os meus outros amigos, em como sempre é divertido estar com eles e poder simplesmente brincar com a cara deles, rir de todas as bobagens e histórias absurdas que eles contavam.
Aquilo funcionou melhor do que eu esperava, após alguns instantes eu já estava retomando o meu ritmo normal, então a calmaria que eu esperava chegou e eu me senti muito melhor, já podia me levantar e ir procurar as meninas, pelo tempo que dormi imaginei que já seria quase a hora de partir então apenas vesti a camiseta do Acampamento e pus a mochila nas costas e saí do quarto.
Percorri os corredores com uma velocidade que surpreendeu até eu mesmo, em um momento já conseguia ver a luz do quarto onde as meninas estavam, quando entrei elas não pareciam surpresas, estavam ocupadas demais repassando estratégias de combate, imaginei se elas sempre planejavam tudo tão antecipadamente, mas dei de ombros.
Fiquei pensando no que poderíamos encontrar pelo caminho até o Acampamento quando algo me incomodou, uma sensação, na verdade duas sensações, uma era de extrema ansiedade e outra de puro medo, não sei qual a mais forte, mas apenas levantei da cama e disse:
- Tem alguma coisa vindo, e muito, muito rápido.
Aquilo fez as meninas me olharem com uma expressão pasma, elas se olharam como se trocassem mensagens mentais, então minha prima Alice se levantou e disse com o tom de voz mais suave que pode:
- Calma primo, é impossível que algum monstro ou coisa parecida esteja vindo, se estivesse eu e a Samya já teríamos sentido a presença, sente-se e relaxe, isso pode ser apenas um efeito da pancada que você levou.
- É Emmanuel relaxa, isso é chamado de estresse pós-trauma, normalmente se tem isso depois de um evento complicado ou depois de uma descoberta ou sentimento muito forte. — a Samya disse isso e percebi como ela parecia "Nerd" dizendo aquilo, realmente uma CDF do tipo que sofre bullying na escola e tudo mais.
Isso não me acalmou nem um pouco, mas sentei na cama e apenas esperei que a presença se aproximasse mais, talvez assim elas pudessem sentir e vissem que eu estava certo o tempo todo, peguei uma lança que estava no canto do quarto e simplesmente aguardei aquilo chegar.
Uma coisa que achei absurdamente estranha foi que mesmo sentido essa presença absurda se aproximando, eu também sentia outras duas igualmente grandes só que elas não pareciam perigosas, pareciam amistosas e vinham da direção contrária da presença que eu considerava "maligna".
Permaneci quieto e brincando com a lança, passando-a entre as mãos e a jogando para cima, isso pode parecer idiota mas naquele momento era o que eu tinha para me distrair, acompanhar as meninas repassando suas táticas de combate parecia algo extremamente chato, até por que eu não sou do tipo que segue planos.
Quando a coisa realmente chegou perto do esconderijo as meninas puderam sentir, elas me olharam com uma cara de assombro mas não disseram nada, apenas começaram a trocar olhares confusos e saíram do quarto, eu logicamente as segui, quando as alcancei elas estavam na sala de armas do esconderijo.
Samya foi a primeira a se armar, sacou uma faca de bronze da mochila e colocou uma cota mais elaborada que a anterior, essa era de um cinza vivo e tinha desenhos de corujas que pareciam reais, pegou também um pequeno elmo que tremeluziu ao toque, notei que era o mesmo elmo que a deixara invisível quando me salvou.
Logo em seguida foi a vez de Alice, ela não teve muito trabalho para se armar devidamente, pegou apenas sua espada com lâmina em forma de raio, sua armadura prateada e o assustador escudo com as faces de cachorro, que percebi ser Cérbero, o cão de estimação de Hades.
Elas saíram com tanta pressa para a entrada do esconderijo que tive que correr para alcança-las, quando saímos estamos em um campo aberto, com a grama relativamente alta e algumas árvores ao redor, percebi então que estávamos a poucos quilômetros do centro da cidade, algo como a zona rural.
Desde que me entendo por gente, nada chegou a me dar um susto tão grande quanto aquilo, por que não era simplesmente um monstro, não era algo que eu consideraria comum para um Semideus grego lutar, era algo muito maior e que eu julgaria bem mais poderoso, aquela coisa ia matar todos nos, era o fim.
Quando o Dragão dourado desceu do céu com um rasante, sua asa quase me atingiu, se não fosse pela Alice eu talvez já estaria morto e em direção ao Mundo Inferior, ela foi rápida o bastante para me empurrar e se erguer novamente para atacar a asa do Dragão, que se feriu ao imediato toque da lâmina em forma de raio.
O Dragão soltou um rugido alto e estrondoso, mas aquilo não surtiu o efeito esperado, serviu apenas para deixar o Dragão com ainda mais raiva e ele voltou a atacar, dessa vez tentei ataca-lo com a lança, mas foi ainda mais inútil, o Dragão quebrou a lança com um simples golpe com a pata, foi então que a Samya entrou na luta com tudo.
Ela havia ficado preparando um liquido azul estranho, que imediatamente lançou no Dragão, o liquido reluziu e explodiu ao encontrar a couraça do Dragão, que começou a arder em chamas, o Dragão balançou e rugiu ainda mais alto, ele com certeza não tinha ficado muito animado depois daquilo e demonstrou isso nos ataques seguintes.
Com outro rasante o Dragão conseguiu atingir Alice com a lateral da asa, ela rodopiou no ar antes de cair em um barranco alto, o som da sua queda foi alto mas ela se levantou rapidamente, seus olhos azuis elétricos demonstravam toda a raiva que ela sentia, ela partiu pro ataque mais uma vez, dessa vez cravando sua lâmina na pata esquerda do Dragão, que imediatamente levantou voo.
Ainda presa, Alice escalava a pata do Dragão enquanto eu ajudava a Samya a preparar mais do estranho liquido azul flamejante, ao perceber a convidada, o Dragão começou a fazer balançar em pleno ar, milagrosamente Alice conseguiu se manter segura a pata do monstro e continuava sua escalada, seu objetivo era muito claro, ir até as costas da coisa e cravar a lâmina naquilo.
Quando acabamos de preparar tudo, Samya me deu alguns frascos do liquido e me disse:
- Quando ele passar por aqui de novo, jogue com toda a força que conseguir, tente mirar nas asas e na cabeça, se ele for atingido em um desses locais, talvez tenhamos alguma chance de vitória.
- Certo, pode deixar, aquela coisa não me escapa. — eu disse aquilo da melhor forma que pude mesmo não havendo muita confiança na minha voz.
Aquilo não me animou muito, "alguma chance de vitória" parecia um pouco fraco, sem confiança, mas já era de se esperar, o nosso oponente era uma coisa absurda como aquela, talvez realmente conseguíssemos sair vivos daquela luta, de repente fiquei com medo, mas não deixei aquilo me abater, eu não ia deixar aquele lagarto gigante me matar, eu não podia morrer ali.
Quando finalmente conseguiu escalar até as costas do Dragão, Alice não conseguiu se equilibrar e foi derrubada pelo monstro, que soltou um urro pesado que pareceu um canto de vitória, a queda foi alta mas felizmente Samya conseguiu pega-la antes que batesse no chão, então eu fiz a única coisa que podia, joguei os frascos quando a coisa se preparava para dar outro rasante, dessa vez com a boca carregada de fogo.
Assim que o liquido azul entrou em contato com a boca do animal, as chamas do Dragão que antes eram de um vermelho vivo, se tornaram verdes e ele entrou em agonia, despencou de uma altura considerável e se debatia como se sentisse a pior dor do mundo, sua boca estava queimada e desfigurada e ele não conseguia mais abri-la.
O ruim era que ele ainda não estava derrotado, apenas eliminamos um de seus armamentos, ele podia não lançar fogo mas ainda tinha garras enormes e patas fortes que com certeza fariam um estrago muito grande caso o golpe pegasse em cheio.
Foi então que notei as presenças de novo, as amigáveis presenças que tinha sentido antes, elas estavam bem perto e aquilo me deixou inquieto, eu tentava procura-las mas não conseguia me orientar direito, as presenças eram fortes com certeza e chegavam rápido, numa velocidade maior que a do Dragão.
Enquanto Alice descansava, Samya sacou a faca de bronze e lançou-se ao ataque, ela era bem ágil e o Dragão já ferido não conseguia acompanhar todos os seus movimentos, com um golpe rápido ela cortou uma das patas do Dragão, o Dragão tombou e sua pata virou pó, a besta não podia urrar mas podia contra atacar, com um golpe rápido da cauda o Dragão lançou a Samya pelos ares, ela caiu perto de mim e vi que agora eu precisava lutar de algum jeito.
Peguei a faca da Samya e a lâmina em forma de raio da Alice e parti para o ataque, acreditem, eu não lido bem com armas pequenas então o resultado da minha investida não foi o esperado, em primeiro momento eu consegui alguns cortes rápidos nas patas do monstro, mas ele era esperto e começava a prever meus movimentos.
Quando finalmente consegui cortar suas asas, eu já estava no meu limite, estava completamente esgotado e suado, não aguentaria dar mais um golpe quando finalmente aquilo que eu mais esperava aconteceu, das trevas as presenças saíram e eu senti o cheiro de morte dominando o ar.
As garotas eram relativamente baixas, deveriam ter entre 11 e 16 anos, não sou muito bom com idades, a primeira garota que surgiu das trevas era tão rápida que o Dragão não a notou, ela correu cortou outra pata do Dragão com o que pareciam ser duas adagas negras, quando o Dragão desferiu o contra ataque era tarde demais, a garota já havia sumido e então o outro ataque atingiu a besta.
O segundo ataque não foi um golpe das adagas então percebi que não era a mesma pessoa que atacava, era um golpe de uma espada, ele raspou as costas do Dragão que caiu no mesmo instante, quando o animal se ergueu de novo pude ver as duas pessoas com mais clareza.
Uma era magra e portava as duas adagas negras, ela usava uma roupa preta com a estampa da banda My Chemical Romance e uma calça jeans também preta, seus sapatos eram All Stars com caveiras estampadas, o estranho era que as caveiras pareciam vivas, como se se mexessem pelo sapato.
Seus cabelos eram longos e lisos, estavam amarrados em uma trança que pendia ao lado da cabeça, seus olhos eram negros como o véu da noite e seu rosto, apesar de sério, era bonito e transmitia uma atmosfera de pânico, senti como se encarasse a própria morte, até que ela me lançou um sorrisinho.
A segunda pessoa era também uma menina, parecia ser mais nova do que a garota-morte, tinha um cabelo de cor clara e meio enrolado, seus olhos eram cinzas e ela transmitia confiança, era meio gordinha mas também era ágil e isso se provou com o golpe de espada que raspou as costas do Dragão.
Usava jeans azul e uma blusa do Acampamento Meio-Sangue, seus sapatos eram também All Stars, mas dessa vez eram vermelhos com listras pretas, usava uma tiara prateada e parecia séria como a garota-morte. Percebi que o próximo golpe das duas seria o final, o Dragão estava derrotado.
Para minha surpresa elas não atacaram juntas, a garota mais gordinha apenas sentou na grama e pareceu esperar algo com um sorriso no rosto, percebi que a garota-morte entoava algo em grego antigo e para minha surpresa a situação foi de tensa à macabra.
Quando a garota-morte acabou de entoar o canto, a atmosfera mudou, o ar ficou pesado e tudo parecia perder a cor e a felicidade, o chão se abriu e esqueletos se ergueram, não eram só alguns, eram uma dezena deles, todos armados até os dentes dos mais variados tipos de armas, de espadas à armas de fogo.
Então juntos, a garota-morte e os guerreiros esqueleto lançaram ataque ao Dragão que parecia ainda mais surpreso do que eu ou as meninas, com duas patas cortadas, o Dragão não pôde se esquivar e levou em cheio todos os golpes, ele caiu pela ultima vez e se transformou em pó, os guerreiros esqueleto brandiram as armas em vitória, depois voltaram para o buraco feito no chão, que se fechou depois que o ultimo esqueleto entrou.
A garota gordinha que estava sentada na grama se levantou com um pulo e um sorriso no rosto, então ambas as garotas, vieram na minha direção, eu estava cuidando da Samya e da Alice, então meu instinto foi protegê-las, segurei a lâmina em forma de raio o mais firme que pude e fiquei em posição de ataque.
Para a minha surpresa, Alice me segurou e fez um sinal de não com a cabeça, mas aquilo não foi o que mais me surpreendeu, o pior foi a reação da Samya, ela parecia surpresa e terrivelmente irritada ao mesmo tempo, ela se ergueu pisando forte no chão, eu nunca tinha visto ela com tanta raiva, ela simplesmente disse:
- Alexia o que você pensa que está fazendo aqui! Eu acho que fui bem clara quando disse para você ficar no Acampamento tomando conta do chalé!
A garota gordinha soltou um suspiro profundo e disse com uma voz igualmente firme:
- Se bem me lembro você não manda em mim, vim por que Quíron me mandou, ele disse que talvez vocês precisassem de ajuda, e ele realmente não estava errado, esse Dragão era forte, vocês quase não deram conta, deveria me agradecer por isso.
Samya fulminou Alexia com o olhar, e algo me dizia que elas não se davam bem, acho que foi a discussão, mas tive essa impressão, achei também que apesar das desavenças elas pudessem trabalhar juntas.
Alice então se levantou e foi em direção a menina-morte, elas se encaram por um momento até que ambas sorriram e deram um abraço, minha cabeça estava a mil, eu não entendia absolutamente nada daquilo, foi então que a menina-morte percebeu minha presença e se apresentou:
- Olá herói recém-descoberto, a garota gordinha com a camiseta do Acampamento se chama Alexia e é filha de Atena, e eu me chamo Karolayne, filha de Hades, prazer em conhece-lo.
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