E Se As Matérias Fossem Mulheres?
1 Capítulo Único
Notas iniciais
E se as matérias escolares fossem mulheres?
...
O quê?
Sim, isso mesmo! Imagine se todas as matérias que você gosta (e não gosta) se transformassem magicamente em mulheres, cada qual com a sua personalidade específica?
Foi isso o que aconteceu com o Oliver.
Ele estava estudando há cerca de dez horas seguidas, pois precisava passar no vestibular. Ele estudou tanto que acabou tendo uma alucinação, em que as matérias escolares para as quais estava estudando eram... Mulheres?!
A Matemática era a mais metida e arrogante de todas. Cismava porque cismava que o homem que se apaixonasse por ela tinha que entendê-la da cabeça aos pés, senão não tinha chance. E se ele errasse alguma coisa com ela, erraria todo o resto e o resultado seria desastroso. Ela era um bicho estranho, usava óculos maiores do que a cara, tinha o cabelo amarrado num coque e um chicote na mão. Cismava que castigaria com chicotadas todos os que não compreendessem o que se passava com ela. Problemática e folgada que só ela, queria que todos resolvessem os seus problemas e se ferrassem pra lá com eles, enquanto ela ficava numa boa, deitada numa rede, tomando água de coco e lendo um livro.
_Quanto é seis vezes oito? – perguntou a Matemática a Oliver, com uma seriedade ameaçadora no olhar, já exibindo o seu clássico chicote.
_Quarenta e... E... E nove?
_ERRADO! – bradou a Matemática, chicoteando o Oliver, até que a outra mulher, a História, a impedisse.
A História era a mais aventureira de todas. Viajava por todas as partes do mundo, presenciava os fatos mais incríveis, anotava tudo e sempre voltava com uma bagagem cultural imensa e um monte de histórias para contar. Ela era bem velhinha, inclusive usava uma bengala. Ela era a gentileza em pessoa, mas o problema era que ela falava demais. Tagarela que só ela, era a maior faladeira que poderia existir. Contava um caso atrás do outro. Com certeza ela fazia jus ao seu nome: História.
_Então, Matemática, vamos parar de chicotadas, nós não estamos no tempo da bisavó em que as coisas se resolviam assim – disse a História, censurando o comportamento da ciência exata.
_Ora, ora, ora... Se não é a mentirosa! – bradou a Matemática.
_Mentirosa? Eu?
_É! Você vem sempre com essas histórias de pescador! Você disse que viu Jesus Cristo ser crucificado, que viu Dom Pedro I gritando: “Independência ou morte”, que conheceu Napoleão Bonaparte, que esteve no Movimento dos Caras Pintadas e agora vem contar mais um dos seus contos da carochinha: Que nos tempos atuais as coisas não se resolvem mais no chicote! Quem te disse isso? Hein? Você não tem provas, não é? Tudo na Matemática se justifica, mas na História quase sempre as coisas se reinventam e vão se modificando conforme os fatos vão sendo descobertos, ou seja, quem te garante que o que você sabe agora não passa de uma mentira?
_É melhor se reinventar do que ser sempre a mesma coisa. Não é entediante ser sempre tão exata, Matemática?
De repente ouve-se um grito:
_Alguém falou em exatas?
Física e Química, que eram primas da Matemática, deram as caras. Elas eram tão feias quanto a Matemática, que bichos estranhos. A Física era uma mulher muito estranha: Tinha os olhos esbugalhados, era magrela e em de vez de um chicote, portava uma navalha. Soava ainda mais ameaçadora do que a Matemática. Já a Química parecia mais boazinha, mas ainda assim, devia-se tomar cuidado com ela. Ela era o tipo de mulher que as pessoas subestimavam no início, mas depois viam que era mais complicado entendê-la do que desembolar fone de ouvido. Bom, pelo menos ela não tinha um chicote, nem mesmo uma navalha.
_Qual a raiz quadrada da distância em polegadas da Terra até Júpiter? – bradou a Física.
_Mas... Mas... Mas é inútil saber isso! – gaguejou o Oliver, morrendo de medo de ser cortado pela navalha da Física.
_Ah, é? A única coisa inútil aqui é você! Você sabe o que eu vou fazer com você, você sabe? – a Física já parecia ainda ameaçadora do que antes.
_Acalme-se, amiga! – falou a Química, segurando a Física pelos braços – Deixe-me perguntar algo pra ele também... O que é um elétron?
_Ah, isso é fácil! É a parte negativa do átomo.
_Certo! Você viu, dona Física? Ele não é tão burro assim! Ainda há esperança!
_Hunf, isso porque a sua pergunta foi fácil! – resmungou a Física.
O Oliver já estava sem entender nada. Quantas mulheres, quantas dúvidas!
_Olá! Cheguei atrasada? – a Biologia finalmente apareceu – Prazer, eu sou a mais importante das matérias! Quantas doenças já não foram curadas por minha causa? Pois é, eu domino, eu sou a tal! – aquela matéria era um pouco narcisista, mas até que era gente boa, apesar de vez ou outra usar uns termos muito estranhos nas suas conversas. Ela, tipo, amava falar difícil. No dia em que ela resolveu falar de mitose e meiose, ficou umas cinco horas falando disso, matando todo o mundo de tédio. E mesmo assim ninguém entendeu nada do que a danada disse. Continuaram sem saber o que de fato diferenciava os dois tipos de divisão celular. Para eles era tudo a mesma coisa. Para a Biologia não.
_Olha só, a dona Biologia, como vai? – perguntou a História, dando um louco abraço nela. Elas eram grandes amigas, pois a Biologia de vez em quando ajudava a desenterrar fatos históricos, o que deixava a dona História muito feliz. Um exemplo disso eram os fósseis. Sem a Biologia estudando os fósseis, a História não entenderia nada sobre aquele período.
_Aff, as duas BFFs, Biologia e História, ninguém merece! – resmungou a Matemática.
_Você só é problemática porque ninguém gosta de você! – disse a História, fazendo uma careta para a Matemática.
_Dona História, não me venha com historinhas, porque como você disse, eu já estou cheia de problemas! – gritou a Matemática.
_Percebe-se... – disse a Biologia, num tom cínico.
_PAREM! – gritou uma nova voz. Quem era? A Geografia! Uma gordinha de óculos, baixinha e com a voz doce, mas firme. Ela era uma mulher de muitos mistérios, mas quem ousasse desbravá-la, conseguia. Não era como a Matemática: Um bicho estranho impossível de ser entendido em toda a sua totalidade. A Geografia era bem mais receptiva, contudo sabia muito bem como puxar o tapete de quem a subestimasse. Ela sempre andava com o mapa-múndi debaixo do braço sem qualquer motivo aparente. Talvez para não se perder no seu mundo de possibilidades. – Será que vocês só sabem brigar? – disse ela num tom de reprovação.
_Não. Nós também sabemos fazer contas. – falou a Química – Exceto a Biologia e a História. Aliás, falando no que nós sabemos fazer, eu acho que a História não serve pra nada! Pra que estudar o que já aconteceu e não tem jeito de mudar? Mas que grande perda de tempo! A gente tem que ter olho no futuro, não no passado!
_E como podemos construir o amanhã se não sabemos quem fomos ontem? – filosofou a História.
O Oliver deu uma risadinha discreta. A História ownou a Química direitinho e esta última ficou completamente sem palavras.
E falando em palavras...
_Gente, gente, gente! – falou o Oliver – Ok, a Matemática, a Física, a Química, a Biologia, a História e a Geografia estão aqui, mas cadê...
A dona Português chegou!
Ela era a mulher mais bonita que Oliver já havia visto na sua vida. Os seus cabelos eram longos e lisos, a sua pele branca e os seus olhos castanho claro. Usava um lindo vestido vermelho. Estava descalça.
_Como vai, Oliver?
_Você sabe o meu nome?
_Todas nós sabemos. Você nos estudou tanto... Obviamente nós te estudaríamos também. – respondeu ela. A sua voz era grave e poderosa.
_Sabe, Português sempre foi a minha matéria preferida!
_Hunf, galanteador! – bradou a Geografia – Cuidado aí, amiga, esse cara quer o seu corpo nu!
A dona Português ficou toda vermelha:
_Cuidado aí, Geografia! As palavras ditas não podem ser tiradas e isso aí que você disse foi muito, muito constrangedor!
_Ai, ai, ela é tão certinha! – falou a Biologia, um pouco incomodada com a dona Português. Na verdade ela nunca gostou dela, das suas próclises, ênclises e mesóclises; sempre achou concordância e gramática um saco. Preferia mesmo as mitoses e meioses, enfim, a sua citologia maluca que só ela entendia. Em sua opinião uma base hidrogenada de DNA era muito mais interessante do que uma oração subordinada.
_Então estude muito a minha matéria! – disse a dona Português ao Oliver, sem se importar com as provocações da Biologia – Quem sabe assim você não se torna um jornalista, um publicitário, ou um...
_Um escritor! – disse o Oliver.
_Oh! Você quer ser um escritor? Então seja um escritor. Siga o seu sonho e não importa o que aconteça – disse ela se aproximando do rosto dele – não deixe que ninguém o tire de você! Ninguém mesmo! As pessoas vão tentar te desacreditar pelo caminho, mas nunca perca o brilho no olhar e a inspiração no coração. Você vai ser um escritor sim, com certeza, você pode apostar! – ela beijou a sua testa, deixando-o absolutamente encantado – Eu acredito em você! De verdade mesmo!
_Pff, ela já ganhou um paquera – resmungou a Matemática.
_Amor, ninguém merece! – alfinetou a Física.
_Vocês são tão exatas que nem sabem amar, não é? – questionou a História.
_Que amor, que nada! – falou a dona Português – Deixa de história!
_Deixa de história? Isso foi algum tipo de trocadilho com o meu nome? – perguntou a História.
_Não, eu estou falando sério! – falou a Português.
_Se você está dizendo, não é? – disse a Química, dando de ombros.
_Agora adeus, Oliver, boa sorte no vestibular! E que você consiga ser um escritor! – despediu-se a Português.
_Eu serei! Eu juro que eu serei! Adeus!
_Adeus...
De repente todas elas sumiram. Ele saiu do transe da alucinação e falou:
_No dia em que eu virar um escritor, vou escrever um livro sobre o que eu vivi com essas mulheres, mas eu duvido que alguém vá acreditar!
E aquela dona Português...
Ô moça bonita...
Agora ele amava aquela matéria ainda mais!
Será que ele e ela se veriam de novo?
Quem sabe, quem sabe...
Talvez, talvez, talvez... Tão somente talvez.
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