Londres, 28 de setembro de 2011.


Querido Aaron,

Uma vez me disseram que para nos desculpar, devemos fazer por onde. Eu me sentiria a pior pessoa do mundo se escrevesse um simples "Me desculpe" e depois fingisse que tudo estava bem. Quando te conheci — há 24 anos atrás —, pensei que talvez houvesse algo certo em minha vida. Que talvez pudesse haver algo certo. Estava certo, não é? Quando escutei sua voz pela primeira vez, tive de usar toda minha força de vontade para não elogiá-la. Pelo simples fato de, aos meus ouvidos, elas soarem como notas angelicais. Sempre me repreendi por sentir aquilo; não era certo. Ou, aos olhos de uma maioria inflexível, não era. Qualquer conceito fora do normal era tratado como uma doença e por muito, muito tempo, tive de esconder o que pensava ou sentia. Minhas frases eram calculadas e sempre defensivas, diretas.

No segundo dia de aula em nossa faculdade (eu tinha 17 e você 19), acabamos nos esbarrando em um dos corredores. Meu material caiu no chão e você me ajudou a pegá-lo, pedindo desculpas. Eu tentava evitar qualquer contato com as pessoas, com receio do que poderia acabar falando, mas ao ver seu sorriso, senti algo diferente. Lembro que mesmo após dias, eu continuava pensando nele. Comecei a te analisar melhor: seus cabelos eram de um tom castanho-avermelhado e seus olhos brilhavam com um tom verde esmeralda. Nós eramos quase da mesma altura, mas além disso, não tínhamos nada em comum. Eu era moreno-claro, olhos negros e cortava o cabelo rente, como se não gostasse de deixá-lo crescer. E realmente não gostava. Eu era totalmente inseguro; qualquer sentença dirigida a mim me causava um temor excruciante; você, ao contrário, sabia contornar as situações facilmente. Sempre pôde.

Por semanas, tentei reavaliar o que estava sentindo. Toda vez que você se aproximava, era como se meu controle fosse sendo perdido, arrancado de mim, e logo mais me vi falando e expressando coisas que nunca jamais considerei dizer. Coisas simples, embora para mim, um jovem tão confuso e quieto, fossem como uma trama complexa e restrita somente aos confins da minha mente. E você conseguiu, com seu sorriso e paciência, mostrar um lado de mim desconhecido por todos. Até por mim mesmo. Seu sorriso era um combustível para mais um dia; sua voz era o remédio para qualquer dor. Passamos a nos ver mais, a estudar juntos e a sair juntos... e enfim, soube que estava completamente apaixonado por você. Acabei aceitando que não adiantava tentar esconder ou repassar esse sentimento outra e outra vez, tentando de alguma forma alterá-lo, pôr-lo em um padrão mais normal. Podemos domar os mistérios da mente, porém nunca os do coração.

Alguns meses depois, quando eu completava 18 anos, você fez uma festa surpresa para mim. Estavam lá reunidos várias pessoas com a qual eu costumava conviver: Allie, Richard, Emma e tantos outros... No momento em que vi tudo aquilo, corei tão forte que virei o rosto. Mas vocês — principalmente você — deram de me fazer sorrir e aproveitar a ocasião, como era para ser vivida. Quando todos já tinham ido embora, acabou por restar somente eu e você no jardim da sua casa, onde a festa fora preparada. Você se aproximou e disse: "Eu queria te dar um presente." Eu respondi que não precisava, pois já estava feliz com tudo o que tinha acontecido. Mas você insistiu. Quando eu perguntei o que era, você disse: "Apenas uma coisa, que eu gostaria que você também sentisse tão forte quanto eu sinto." Depois, o que aconteceu foi completamente estarrecedor. Nos seus braços, acabei perdendo qualquer resistência. Fora um beijo demorado e longo; o meu primeiro, que arrisco dizer, foi o melhor. Seus olhos brilhavam à luz do luar, mas já estava tarde. Você me levou até a minha casa de carro e quando chegamos lá, me beijou novamente. Não como costumamos ver no mundo de hoje e sim algo espetacular, ardente e ao mesmo tempo respeitoso.

Daquele dia em diante, admiti que te amava de todo o coração. De todo o coração e alma. Fiz tudo o que pude para nos manter juntos, mas há certas coisas que nós, meros humanos, não podemos prever. E as vezes a vida não é justa. Só espero que você esteja feliz, seja onde for.


Eu te amo,

Raphael.


○ ○ ○

Não pude ir até onde ele estava. Ali não era seu lugar. Não poderia ser verdade. As lágrimas não cessavam de correr por meu rosto; por mais que eu tentasse, por mais que tudo já tivesse se tornado passado, o fato de aceitar que não veria-o nunca mais era demais para mim. Era o sexto ano após a morte Aaron, e meu coração novamente parecia à beira de um colapso. A morte teria sido mais misericordiosa do que aquela dor lancinante. Sentei-me na grama do cemitério e olhei Allie por a carta sobre o memorial. Ela também estava chorando, embora eu soubesse que estava bem melhor do que eu. O estado lastimável em que eu me encontrava era fruto de um acontecimento irreversível e de uma esperança cega e sem fundamentos de que, de alguma forma, um dia ele iria aparecer e me abraçar, dizendo que isso tudo fora apenas um pesadelo. Mas não era.

Allie se aproximou e ajoelhou-se ao meu lado, dando-me um beijo na testa. Mal escutei suas palavras, embora soubesse do que se tratava. Todos diziam para eu superar. Todos achavam que, hora ou outra, tudo isso ia passar. Mas quem eram eles para julgarem meus sentimentos? Eu, somente eu sei que não vai. Não vai ficar tudo bem. Já passava da meia-noite quando levantei-me com câimbras nas costas e nas pernas. Não bebia nem comia há quase 10 horas. Meus olhos já estavam secos, e eu não quase não podia falar. Andei cambaleante até a placa com o nome de Aaron e sussurrei, novamente, um doloroso "eu te amo". Sai dali andando, sem pensar em nada. A dor era tão pungente que eu agia como um zumbi, andando para onde meus pés me levassem. Pois não havia mais motivos para continuar a se levantar.

Não sem ele ali. Pois, quando eu pensei que não havia volta, que não haveria uma luz, a vida me deu um presente. Algo tão bom que teve a capacidade de me mudar completamente; essa transformação foi tão drástica que logo, todos conheceram um novo Raphael — que não compartilhava dos mesmos medos e anseios que o antigo. É engraçado e doloroso pensar em como a vida nos dá algo tão grandioso, forte, para depois simplesmente desmanchar tudo, como se os desejos e os sentimentos não significassem nada para Ele ou seja lá quem controle nossos destinos.

Sinceramente? Não acredito que haja algo assim tão cruel. Sempre refutei a ideia de que algum Deus pudesse nos controlar por puro prazer e mesmo que muitos afirmassem sua graça e capacidade de perdoar, é simplesmente impossível esquecer o que me foi tirado. A parte de mim que morreu junto com Aaron.

E por isso, talvez eu possa nunca perdoar um ser tão cruel que pode ou não existir.

Notas finais
Bem, é o primeiro capítulo, então por favor não me atirem pedras >
E também é o primeiro que tenho coragem de publicar. Aguardo opiniões. õ/