E Ainda Assim, Amor

6 Capítulo 6 — Ginny


Ginny saiu do Três Vassouras com o coração pesado, tentando engolir a raiva e a mágoa que a apertavam por dentro. A neve caía lentamente, cobrindo a rua com uma camada fina e silenciosa, mas nenhum floco parecia suficiente para acalmar o turbilhão que sentia. Cada passo que dava afastando-se do café parecia arrastá-la mais para o próprio caos de pensamentos.

“Não devia sentir isto”, murmurou baixinho, encarando os flocos que se depositavam nos seu casaco. Mas a raiva misturava-se com ciúme, e este com a frustração. Ela lembrava-se de cada gesto de Harry: o toque do casaco em Lucy, o sorriso contido, o olhar prolongado. E sentia-se deslocada, invisível, como se estivesse a perder uma parte do que sempre lhe pertencera.

Ginny respirou fundo, tentando organizar a confusão dentro de si, mas os pensamentos não lhe davam trégua. Ele está a olhar para ela… e eu fico aqui, só a olhar. Sentiu um aperto no peito, misto de dor e raiva, e forçou-se a continuar a caminhar, afastando-se das lojas movimentadas e das pessoas distraídas pelo frio.

De repente, ouviu passos atrás de si. Hermione e Ron aproximavam-se com rapidez, preocupados.

— Ginny… — Hermione chamou suavemente. — Estás bem?

Ginny ergueu os olhos, forçando um pequeno sorriso que não chegava às palavras.

— Estou… só precisava de ar. — A voz saiu mais seca do que queria.

Ron olhou-a de lado, atento. — Claro… se precisares de falar, estamos aqui.

Ela balançou a cabeça, sem conseguir pronunciar o que realmente sentia. Mas no interior, os pensamentos continuavam a girar como uma roda sem freio: Por que ele olha para ela assim? Não é justo… Não posso mostrar que estou magoada… mas dói.

Hermione e Ron caminharam lado a lado com ela, deixando um espaço silencioso e respeitoso, e Ginny sentiu que, por mais que quisesse gritar ou chorar, não podia perder o controlo. O frio do ar ajudava a clarear a mente, mas não apagava a mistura de emoções que se acumulava.

Ela observou a neve, tentando encontrar sentido naquilo tudo. Não queria odiar Lucy — isso seria injusto e inútil — mas não conseguia evitar a sensação de deslocamento, a insegurança de perder o lugar que sempre tivera ao lado de Harry. Um fio de raiva passou pelo seu peito, dirigido a si própria, a Harry, à situação inteira.

Mas no fundo, Ginny percebeu algo essencial: não podia fugir do que sentia. Cada passo que dava era uma decisão silenciosa de enfrentar a própria vulnerabilidade, mesmo que não soubesse exatamente como.

Ela apertou o casaco contra o corpo, respirou fundo e decidiu continuar a caminhar com os amigos, sabendo que cada floco de neve que caía naquele dia era uma pequena lembrança da força que precisava para lidar com os sentimentos — por mais confusos e dolorosos que fossem.

Decidiram então voltar lentamente para o castelo, deixando que o ar frio lhes limpasse um pouco a mente e ajudasse a controlar o nó na garganta. Ginny fazia um enorme esforço para não chorar, para não deixar transparecer o turbilhão de sentimentos que a corroía por dentro. Cada passo parecia pesado, mas precisava manter-se firme, pelo menos até chegar a um lugar seguro.

Ela não era parva; por mais que Harry e Lucy ainda não tivessem percebido, Ginny já via algo a nascer entre eles. E essa consciência corroía-a, como se cada gesto, cada olhar trocado, lhe lembrasse que estava a perder algo que sempre considerara seu. A dor e a raiva misturavam-se num turbilhão silencioso, mas ela obrigava-se a respirar fundo, a manter-se presente, a não deixar que ninguém percebesse o quanto estava magoada.

Quando finalmente chegaram, Ginny dirigiu-se para um dos seus lugares preferidos no castelo — o corujal — e ali ficou absorta nos seus pensamentos enquanto recordava momentos passados com Harry desde a primeira vez que o vira no primeiro ano dele até ao primeiro beijo na sala precisa quando descobriram o armário sumidouro, que mais tarde Draco usara para infiltrar comensais no castelo com a intenção de matar Dumbledore.

Chorou como nunca tinha chorado e quando as lágrimas secaram decidiu ir dormir, afinal amanhã seria um novo dia.