E Ainda Assim, Amor
22 Capítulo 22 – Dias Comuns
Maio instalou-se em Hogwarts com uma tranquilidade quase irónica. Os jardins começavam a recuperar plenamente do inverno, a relva surgia verde e macia junto ao lago, e o ar trazia aquele cheiro leve a terra aquecida pelo sol. À primeira vista, tudo parecia mais simples, mais leve.
Mas dentro do castelo, o ambiente era outro.
Os exames finais aproximavam-se rapidamente e a tensão tornava-se palpável. A biblioteca permanecia cheia desde cedo até muito depois do jantar. Alunos de todas as casas ocupavam mesas, degraus e até o chão, rodeados de livros, pergaminhos e frascos de tinta. As conversas tornaram-se mais baixas, mais raras, substituídas pelo virar nervoso de páginas e pelo som apressado de penas a riscar pergaminhos.
Harry e Lucy não eram exceção.
Os dias deles passaram a organizar-se em torno de horários rigorosos: aulas, estudo, refeições rápidas e, sempre que possível, algumas horas juntos. Muitas vezes sentavam-se lado a lado na biblioteca, sem trocar palavra durante longos períodos, concentrados, mas confortáveis na presença um do outro.
Havia algo de íntimo naquele silêncio partilhado.
— Se eu tiver de rever Poções mais uma vez hoje, juro que enlouqueço — murmurou Harry numa tarde, deixando cair a testa sobre o livro aberto.
Lucy sorriu, fechando o seu próprio caderno de apontamentos.
— Diz isso agora, mas vais agradecer quando estiveres no exame.
— Preferia agradecer depois de dormir uma semana inteira — respondeu ele, arrancando-lhe uma gargalhada suave.
Apesar do cansaço, aqueles momentos davam-lhes força. Caminhavam juntos entre aulas, aproveitando os corredores menos movimentados. Às vezes sentavam-se junto ao lago, mesmo que apenas por quinze minutos, para respirar fundo antes de regressarem ao castelo.
Lucy gostava particularmente desses momentos. O som da água, o reflexo do céu, o silêncio quebrado apenas pelo vento… tudo aquilo a ajudava a acalmar a mente.
Ainda assim, sentia-se estranhamente mais cansada do que o normal.
No início, ignorou. Era natural. O sétimo ano não dava tréguas, e a pressão de terminar Hogwarts pesava mais do que alguma vez admitiria em voz alta. Mesmo assim, havia dias em que o corpo parecia não acompanhar o ritmo imposto pela mente.
Acordava com uma sensação de peso nos ombros, como se não tivesse descansado o suficiente, mesmo depois de uma noite inteira de sono. Por vezes, levantava-se da cama e precisava de ficar parada alguns segundos, apenas para garantir que o chão não se movia sob os seus pés.
— Dormiste mal? — perguntou Hermione certa manhã, ao vê-la mais silenciosa do que o habitual.
Lucy encolheu os ombros.
— Um pouco… acho que é tudo junto. Exames, stress, preocupação.
Hermione assentiu de imediato.
— Estamos todos no limite. Vai passar quando isto acabar.
Essa resposta bastava-lhe.
Ao longo do mês, começaram também pequenas alterações no apetite. Havia dias em que mal tocava na comida e outros em que sentia fome fora de horas. O cheiro dos pratos no Grande Salão parecia mais intenso do que antes, quase avassalador em certos momentos.
Numa dessas ocasiões, afastou o prato ainda meio cheio.
— Tens a certeza que estás bem? — perguntou Harry, observando-a com atenção.
— Sim — respondeu rapidamente. — Só estou cansada. Acho que o meu estômago anda sensível com o stress.
Harry aceitou a explicação, embora não deixasse de a observar discretamente ao longo do resto da refeição.
Lucy também começou a notar pequenas tonturas ocasionais. Nada grave, nada que a fizesse parar — apenas momentos breves, sobretudo quando se levantava demasiado depressa ou passava horas sem fazer pausas entre o estudo.
— Preciso mesmo de aprender a descansar — murmurou para si própria numa noite, enquanto fechava os livros já depois da meia-noite.
No dormitório, deitava-se exausta, mas nem sempre adormecia de imediato. Ficava a olhar para o teto, os pensamentos a girar entre datas de exames, feitiços complexos e preocupações difusas. Às vezes, levava a mão ao abdómen sem perceber bem porquê, num gesto quase automático, e depois afastava-a, confusa consigo mesma.
— É só ansiedade — dizia em voz baixa. — Só isso.
Harry, por sua vez, sentia o peso dos exames de forma mais direta. O estudo exigia-lhe concentração constante, mas mesmo assim dava por si atento a Lucy mais vezes do que gostaria de admitir. Notava-lhe o cansaço, os silêncios mais longos, o modo como por vezes fechava os olhos por breves segundos, como se estivesse a reunir forças.
— Promete-me que, quando isto acabar, vais descansar a sério — disse-lhe certa tarde, enquanto caminhavam à beira do lago.
Lucy apoiou a cabeça no ombro dele.
— Prometo.
— Sem livros — acrescentou ele.
— Sem livros — repetiu ela, sorrindo.
Esses pequenos gestos, esses momentos simples, eram o que os mantinha equilibrados. Jantares rápidos, visitas ocasionais a Hagrid quando conseguiam libertar uma tarde, conversas sussurradas antes de regressarem aos respetivos dormitórios.
Tudo parecia normal.
Demasiado normal.
Enquanto o mês avançava e Hogwarts se preparava para os exames finais, Lucy continuava convencida de que tudo o que sentia tinha uma explicação lógica.
Stress. Cansaço. Pressão acumulada.
Nada mais.
E assim, sem suspeitar de nada, caminhava dia após dia para uma descoberta que esperava pacientemente pelo momento certo para se revelar.
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