Lucy acordara naquela fria manhã de setembro mais cedo do que o habitual. Ainda estava escuro lá fora. Tomou o seu banho, vestiu-se e desceu para o salão comunal.

O salão estava vazio, afinal eram cinco e meia da manhã, tinha tido outro pesadelo sobre a guerra, mais um.

Decidiu então ler um pouco para passar o tempo porque ainda era cedo e estavam todos a dormir.

Lucy estava sentada sozinha junto à janela, o olhar perdido nas montanhas. A luz do sol da manhã iluminava o seu rosto, mas não conseguia dissipar o peso que sentia no peito. Por um instante, todas as memórias dolorosas vieram à superfície, como se quisessem atravessar o tempo e encontrá-la ali, naquele momento seguro.

Foi então que se lembrou daquela noite que mudara tudo.

O fogo dos feitiços iluminava os corredores da sua casa. Ethan e Eliza, os seus pais, morreram à sua frente, deixando um vazio impossível de preencher. Quando parecia que tudo estava perdido, Remus Lupin e os restantes membros da ordem apareceram. Com feitiços precisos e coragem silenciosa, afastaram os comensais e Remus envolveu Lucy num abraço firme, transmitindo-lhe segurança como ninguém mais conseguia.

— Está tudo bem agora, Lucy. Estás segura — disse Lupin, com a calma que sempre tivera.

Depois daquela noite, Lucy viveu com Lupin e Tonks, que já eram casados e tinham o pequeno Teddy. A casa deles tornou-se o seu refúgio, onde começou a reconstruir-se, aprendendo a lidar com a dor e a solidão. Mas a guerra cobrou o seu preço: Lupin e Tonks morreram na Batalha de Hogwarts, Teddy foi acolhido por sua avó, Andromeda, e Lucy encontrou abrigo na casa de Minerva McGonagall.

Minerva dividia-se entre a sua casa e a reconstrução do mundo mágico, Lucy por sua ver dedicara-se aos estudos e aproveitava o resto do tempo para fazer caminhadas junto ao lago que existia ao lado de casa da professora. Lucy ser-lhe-ia eternamente grata por tudo o que a professora estava a fazer por si.

Apesar das perdas, essas memórias ensinavam-lhe algo essencial: a força para continuar e a coragem para enfrentar o futuro. Cada vez que se lembrava de Lupin, Tonks, dos pais ou de Teddy, sentia uma mistura de dor e gratidão, e percebia que a sua vida, embora marcada pelo sofrimento, ainda podia ser construída com esperança.

Lucy estava sentada junto à janela do salão comunal, o livro pousado no colo, mas sem conseguir ler uma linha. O olhar vagueava pelas montanhas cobertas de neve, absorvendo a paisagem, mas a mente estava longe.

Foi então que sentiu um movimento do outro lado da sala. Ergueu os olhos e viu Harry a entrar no salão. Ele movia-se lentamente, os passos cuidadosos, como se não quisesse perturbar o silêncio. O olhar dele vagava pelo espaço, mas por um instante, pareceu fixar-se em algo — ou alguém.

Lucy congelou, sem perceber porquê. O coração acelerou-lhe o ritmo. Ele estava a olhar para ela.

Quando os olhos deles se encontraram, o tempo pareceu abrandar. Harry piscou, ligeiramente surpreso, mas não desviou o olhar. Havia ali reconhecimento, uma ligação silenciosa que nenhuma palavra conseguiria explicar. Lucy sentiu algo profundo mexer dentro dela, uma mistura de curiosidade, apreensão e algo que ia muito além do simples interesse.

— Bom… bom dia — disse Harry, a voz suave, quase um sussurro, como se temesse quebrar a magia do momento.

Lucy engoliu em seco, sentindo o calor subir-lhe às faces.

— Bom dia — respondeu, a voz baixa, mas firme. — Não… não esperava ver-te tão cedo.

Harry sorriu, pequeno e hesitante.

— Eu também não… mas… parecia errado não dizer olá.

Uma lágrima silenciosa escorreu pelo rosto de Lucy, mas Harry apenas manteve o olhar, sentindo uma vontade quase incontrolável de se aproximar e abraçá-la. O silêncio que se seguiu não era vazio; estava cheio de significado, de memórias não ditas e de promessas invisíveis.

Quando finalmente desviaram os olhares, cada um soube que algo havia mudado naquele instante. Algo que nem a distância, nem o tempo, nem a guerra poderiam apagar.

Harry continuou a observar Lucy por mais um instante antes de afastar os olhos, tentando controlar o turbilhão de sentimentos que aquele olhar despertara. Não era apenas curiosidade ou afeição, havia algo mais profundo, algo que lhe apertava o peito. Sentia-se como se tivesse encontrado uma peça que sempre faltara, mas que estava ali, diante dele, e que podia quebrar ou completar tudo.

Enquanto se afastava lentamente, dirigiu-se a um banco próximo da lareira, onde a luz do fogo iluminava suavemente o seu rosto. Do canto do olho, ainda conseguia ver Lucy. Cada gesto dela — a forma como segurava o livro, o modo como a luz da manhã refletia no cabelo, a leve tristeza que parecia sempre pairar no olhar — penetrava-lhe a mente com intensidade. Era estranho, quase perturbador, mas de uma forma que ele não queria evitar.

Lucy, percebendo que ele ainda a observava, desviou finalmente os olhos para o livro. Harry sentiu um alívio silencioso: ela não o rejeitara, apenas hesitara. Havia ali confiança, mesmo que frágil, e algo que chamava a atenção de Harry como nunca antes.

— Vais conseguir lidar com tudo este ano? — perguntou Harry, baixinho, quase para si próprio, mas com a esperança de que ela ouvisse.

Lucy ergueu os olhos rapidamente, surpresa por ele lhe ter feito a pergunta, e o seu coração acelerou.

— Acho que sim… — murmurou, com um fio de voz. — Tento todos os dias.

Harry sorriu de novo, pequeno e contido, mas cheio de significado. Era como se apenas aquele sorriso pudesse transmitir tudo o que palavras não conseguiam. Por um instante, ambos permaneceram ali, presos num equilíbrio delicado entre o passado doloroso e a possibilidade de algo novo, algo que ninguém ousara esperar.

Harry encostou-se ligeiramente ao encosto do banco, ainda a observá-la, e sentiu uma vontade quase incontrolável de se aproximar, mas conteve-se. Apenas os seus olhos seguiam cada movimento de Lucy enquanto ela folheava lentamente o livro, os dedos a tocarem as páginas com delicadeza, como se cada palavra fosse preciosa.

E Lucy, embora ainda não o percebesse por completo, sentiu a mesma chama acender-se dentro dela. Uma chama de curiosidade, de ligação e de algo que poderia crescer, mesmo em meio às cicatrizes do passado.

Harry ficou alguns instantes ali, observando Lucy sem se aproximar. O silêncio do salão comunal parecia envolvê-los, mas não de forma opressiva — antes, como se cada segundo desse espaço para que ambos respirassem o que sentiam.

Ele respirou fundo e, com um leve movimento de cabeça, fez um gesto discreto em direção a Lucy: um pequeno aceno misturado com um sorriso contido, quase tímido, mas cheio de significado. Era um gesto silencioso, carregado de intenção, dizendo sem palavras: estou aqui, não estás sozinha.

Lucy ergueu o olhar do livro e encontrou novamente o dele. Desta vez, algo diferente nos olhos de Harry a fez sentir-se vista, compreendida, como se ele percebesse todas as cicatrizes que ela carregava e, ainda assim, não recuasse. O seu coração disparou, e um calor suave percorreu-lhe o peito.

— Bom dia — disse Harry, agora um pouco mais confiante, a voz baixa, mas clara.

Lucy sorriu, um sorriso quase tímido, mas genuíno.

— Bom dia — respondeu, e por um instante, parecia que o mundo à volta desaparecera.

Harry inclinou-se ligeiramente, como se quisesse encurtar a distância, sem se aproximar demais.

— Posso sentar-me aqui contigo? — perguntou, e a hesitação na sua voz tornava o pedido ainda mais sincero.

Lucy sentiu uma mistura de surpresa e alegria, mas assentiu ligeiramente, fazendo espaço no banco para ele.

— Claro… — murmurou, quase num sussurro.

Harry sentou-se, mantendo uma distância respeitosa, mas suficientemente perto para que cada gesto, cada olhar, transmitisse a conexão silenciosa que se formava entre eles. Por alguns instantes, ambos permaneceram ali, apenas a respirar o mesmo ar, partilhando um momento de cumplicidade silenciosa que nenhum dos dois queria quebrar.

O silêncio entre eles permaneceu mais alguns instantes, confortável e cheio de significado, até que um som vindo das escadas quebrou a magia do momento.

— Harry! — chamou uma voz familiar, ainda meio sonolenta. — Vamos tomar o Pequeno almoço!

Harry sorriu, relutante em abandonar o banco, mas levantou-se devagar, lançando um último olhar para Lucy. Ela devolveu o gesto, um sorriso tímido e cheio de promessas.

Enquanto caminhava em direção às escadas, sentiu uma estranha mistura de ansiedade e esperança. A manhã estava apenas a começar, mas algo lhe dizia que aquele último ano em Hogwarts seria diferente de tudo o que já vivera.

Lucy viu Harry abandonar o salão comunal acompanhado por Ginny e suspirou, não sabia o que tinha acontecido, nunca tinha sentido algo assim mas não podia negar que gostou. Era uma sensação nova, nunca sentira algo igual, mas naquele momento decidiu colocar esses pensamentos de lado e ir tomar o pequeno-almoço, seguindo os alunos que também já estavam a abandonar o salão, prontos para começar o primeiro dia de aulas.