E Ainda Assim, Amor
40 Capítulo 40 – Uma tarde inesperada
Harry ajustava a gravata antes de bater à porta do gabinete de Hermione. Tinha convidado a amiga para almoçar, queria conversar sobre assuntos do Ministério, mas também gostava de a ver, de ouvir a sua opinião sobre algumas decisões recentes.
— Harry! — disse Hermione, levantando os olhos dos papéis. — Que bom ver-te, mas… olha, não posso almoçar contigo agora. Vou ver os meus afilhados, acabaram de sair do hospital.
— Ah…mas eles estão bem— perguntou Harry, interessado, tentando não parecer demasiado ansioso.
— Sim — respondeu Hermione, sorrindo. — O Ron não pode ir comigo, foi tratar de assuntos da loja com o irmão noutra cidade. Queres vir comigo?
Harry hesitou. Um almoço tranquilo no Ministério seria mais simples, mas acompanhá-la significava também estar perto dos gémeos e de Lucy. Depois de uns segundos, concordou:
— Está bem, vou contigo.
Aparataram até à porta de casa dela. Hermione explicou que os bebés ainda estavam frágeis, mas Lucy estava a cuidar deles com toda a atenção. Harry ouvia, absorvendo cada detalhe, sentindo o coração apertar-se com a expectativa.
Quando chegaram, Lucy abriu a porta com um sorriso cansado, mas caloroso:
— Olá, Hermione! E tu, Harry… que surpresa — disse, surpresa mas controlando a emoção.
— Olá, Lucy — respondeu Harry, contido. — Espero não incomodar.
— De todo! Entrem, são muito bem-vindos. — Lucy guiou-os até à sala de estar. — Os miúdos estão a dormir, podemos ficar por aqui sem os acordar.
O silêncio era confortável. Os gémeos dormiam enrolados nas mantas, pequenos e indefesos,adoravam fazer sestas no sófa e Harry sentiu algo mexer-lhe no peito ao vê-los. Sentou-se ao lado de Hermione, tentando não fazer barulho.
De repente, James mexeu-se, abriu os olhos sonolentos e, ao ver Harry sentado ao lado, levantou a cabecinha e, sem hesitar, deitou-a nas pernas dele.
Harry ficou imóvel, surpreso, mas deixou que o menino permanecesse ali. Não sabia bem como reagir, mas sentiu uma estranha paz ao sentir o pequeno peso sobre si.
— Ele… parece gostar de ti — sussurrou Hermione, sorrindo.
— Parece… — respondeu Harry, acariciando cuidadosamente o cabelo do filho de Lucy. — Não sei se devia estar a sentir isto…
Lucy observava a cena, sorrindo suavemente. Lily mexeu-se e murmurou baixinho, e Lucy colocou-a no colo, acariciando-lhe a cabecinha com ternura.
— Eles são… incríveis — murmurou Lucy. — E estão tão crescidos.
Harry respirou fundo, observando-os em silêncio, sentindo-se ligado àquele momento, a aquela família. O tempo parecia ter parado por alguns minutos, apenas eles e os bebés, num silêncio cheio de significado.
— Vou deixar-vos aqui sossegados — disse Hermione, sorrindo, percebendo que o momento era especial. — Tenho de ir tratar de mais algumas coisas, mas foi bom ver-vos.
— Obrigada, Hermione — respondeu Lucy abraçando a amiga e sussurando. — E obrigada por trazeres o Harry.
— De nada, Lucy — disse Hermione, piscando-lhe o olho antes de se dirigir à porta.
Quando ficaram só os três, Harry continuava a observar os gémeos, fascinado pelo seu comportamento, pelos pequenos gestos e sorrisos adormecidos. Lucy sentiu um aperto no coração, sentou-se ao lado dele, sentindo o calor da sua presença sem precisar de palavras. Por alguns instantes, permaneceram assim, em silêncio, partilhando a calma e a ternura daquele momento.
Harry continuava imóvel, deixando que James repousasse a cabeça nas suas pernas. Lily mexeu-se no colo de Lucy e abriu os olhinhos azuis, piscando lentamente, como se estivesse a acordar de um sonho. Lucy sorriu, acariciando-lhe os cabelos e mantendo a voz baixa:
— Olá, pequena, dormiste bem?
James murmurou algo incompreensível e enroscou-se ainda mais, enquanto Harry se limitava a observá-lo com atenção, sentindo um misto de surpresa e ternura que não sabia bem como explicar.
— Estão a portar-se muito bem hoje — disse Lucy, olhando para os dois.
O relógio na parede marcava o início da tarde. A luz do sol entrava pelas cortinas, iluminando suavemente o sofá e refletindo-se nos cabelos morenos dos bebés. Harry olhou à volta da sala, reparando nos pequenos detalhes: os livros de poções empilhados na prateleira, as plantas mágicas a mexerem-se suavemente com a brisa da janela, e o aroma a chá recém-feito que ainda pairava no ar.
— Queres que eu te ajude a colocar a mantinha? — perguntou Harry, ainda sem se mexer demasiado.
— Sim, obrigada — respondeu Lucy, sorrindo. — É que eles ainda se mexem muito enquanto dormem.
Com cuidado, Harry ajustou a mantinha sobre James, certificando-se de que não cobrira o rosto do menino. Lily repousava tranquilamente no colo de Lucy, e ela suspirou suavemente, sentindo o calor do momento. Não havia urgência, nem pressa. Apenas o silêncio confortável de uma tarde calma, onde o tempo parecia abrandar.
— Eles… parecem tão pequenos — murmurou Harry, quase para si próprio. — Mal consigo acreditar que cresçam tão rápido.
Lucy assentiu, sem precisar de dizer mais nada. Um sorriso contido apareceu nos seus lábios enquanto observava Harry interagir com os filhos. Era um momento simples, mas carregado de significado, de ternura e de pequenas descobertas.
O silêncio voltou à sala, interrompido apenas por um breve piar de coruja que entrou pela janela e pousou na mesa. Lucy estendeu a mão e abriu a carta cuidadosamente. Era uma mensagem rápida da sua ajudante da loja, a confirmar os próximos pedidos de poções para entrega. Lucy sorriu para Harry, mostrando que estava tudo sob controlo. Ele assentiu, voltando a olhar para James, que agora parecia mais desperto, piscando e apertando levemente a mão de Harry.
— Acho que já se habituou a ti — disse Lucy, divertida. — Não costumam estar assim tão tranquilos com outra pessoa.
— Ele… parece gostar de mim — respondeu Harry, ainda em choque, mas sorrindo discretamente.
Lucy riu baixinho, balançando a cabeça. — Só precisas de paciência, Harry. Eles vão ensinar-te muitas coisas, se deixares, e ele é igual a ti.
Enquanto isso, James começou a murmurar pequenas palavras, e Harry respondeu com atenção, sorrindo para cada som que saía da boca do menino. Lily, curiosa, esticou o bracinho para Harry, e ele segurou-lhe delicadamente a mão, sentindo o toque pequeno e quente da menina.
Lucy observou, silenciosa, sentindo um misto de orgulho e emoção. Não havia necessidade de lágrimas, nem de dramatismo; apenas a realidade de uma vida que se construía devagar, com cuidado, e com a presença de pessoas que, de forma inesperada, se tornavam importantes.
O silêncio voltou à sala. Os gémeos, finalmente, pareciam adormecer novamente, e Harry continuou ali, imóvel, a observar cada detalhe, cada expressão. Lucy respirou fundo, sentindo-se leve. Aquela tarde tinha sido mais do que esperava — simples, tranquila, mas carregada de pequenos momentos que, sem perceber, ficariam guardados para sempre.
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