E Ainda Assim, Amor
32 Capítulo 32 – O Tempo a Abrandar
O início de dezembro trouxe consigo um frio mais insistente, daqueles que se infiltra na roupa e obriga o corpo a mover-se devagar. As ruas do vilarejo começavam a mudar de aparência: pequenas luzes surgiam nas montras, ramos de pinheiro eram pendurados nas portas e o cheiro de canela e madeira queimada misturava-se com o ar gelado das manhãs.
Lucy sentia cada uma dessas mudanças de forma intensa.
Entrava no oitavo mês de gestação e o corpo já não lhe permitia distrações. Os movimentos eram mais cuidadosos, a respiração mais consciente. A barriga pesada puxava-lhe a postura para a frente, lembrando-a constantemente de que carregava duas vidas e que o tempo, agora, tinha outro ritmo.
Mila, por sua vez, parecia viver numa excitação constante.
— Natal está a chegar — anunciou numa manhã, já com um pequeno ramo de azevinho nas mãos. — Casa precisa de alegria. Bebés vão gostar.
Lucy riu-se, sentando-se com cuidado à mesa da cozinha.
— Ainda falta algum tempo, Mila.
— Falta pouco — insistiu a elfa, convicta. — Frio chegou. Isso é sinal.
Lucy deixou-a fazer. Observou-a pendurar pequenas decorações simples, cantarolar baixinho enquanto arrumava a sala e abrir as janelas apenas o suficiente para “deixar o espírito do Natal entrar”. A casa começava, aos poucos, a ganhar calor — não apenas do lume aceso, mas de algo mais profundo.
Ainda assim, Lucy continuava a ir à escola de Poções.
Aquela escola, mais pequena e especializada, exigia aulas práticas longas, cheiros intensos e concentração constante. Até ali, conseguira aguentar. Mas naquele dia, sentiu desde o início que algo estava diferente.
A sala estava mais fechada do que o habitual. As janelas apenas entreabertas, o caldeirão já aquecido quando Lucy entrou. O professor Alaric Fenwick, um homem alto, de barba escura e olhar atento, distribuía os ingredientes com precisão.
— Hoje vamos trabalhar uma poção de ativação sensorial — anunciou. — O odor é forte. Recomendo cautela.
Lucy respirou fundo, tentando preparar-se.
Mas bastaram poucos minutos.
O cheiro espalhou-se rápido — uma mistura agressiva de raízes maceradas, resina quente e algo metálico. O estômago de Lucy revolveu-se de imediato. O calor subiu-lhe pelo peito, a boca encheu-se de saliva, e ela soube, sem margem para dúvida, que não conseguiria continuar.
Levantou-se abruptamente, levando a mão à boca.
— Professor… — murmurou, pálida.
Fenwick olhou para ela e não hesitou.
— Vá apanhar ar. Agora — disse num tom firme, mas preocupado. — Não discuta comigo.
Lucy saiu da sala, apoiando-se na parede do corredor frio. Inspirou profundamente, várias vezes, até o mundo deixar de rodar. Só então conseguiu endireitar-se.
No fim da aula, o professor chamou-a ao gabinete.
— Sente-se, Lucy — disse ele, fechando a porta com cuidado.
Ela obedeceu, nervosa.
— Sei que está grávida — continuou ele, com naturalidade. — E sei que são gémeos.
Lucy assentiu.
— O seu desempenho tem sido excelente — disse Fenwick. — Mas hoje foi claro que o seu corpo está a impor limites.
Houve um silêncio breve, pesado.
— Sugiro que se afaste das aulas práticas a partir de agora — continuou. — Não por falha sua, mas por prudência.
Lucy sentiu um aperto no peito.
— E… quando poderia regressar?
Fenwick pousou as mãos na secretária.
— Depois do nascimento, quando se sentir pronta. Se quiser aproveitar os primeiros meses com os seus filhos, pode regressar no fim de abril. As portas estarão abertas.
Lucy baixou os olhos para a barriga. Pela primeira vez em dias, não sentiu medo — apenas um alívio profundo.
— Aceito — disse, com a voz suave.
Fenwick sorriu.
— É a decisão certa.
Nos dias seguintes, Lucy ficou em casa.
As manhãs tornaram-se mais lentas. O frio instalava-se nas janelas, e Mila assumira oficialmente a missão de transformar a casa num pequeno refúgio natalício. Luzes simples surgiram na sala, ramos verdes decoravam os cantos e um cheiro constante de chá quente e especiarias preenchia o ar.
Lucy passava mais tempo sentada junto à lareira, mãos pousadas sobre a barriga, sentindo os movimentos dos bebés com uma mistura de espanto e ternura.
O mundo exterior continuava a girar — aulas, compromissos, pessoas — mas ali, naquele espaço, o tempo começava finalmente a abrandar.
E pela primeira vez em muito tempo, Lucy permitiu-se simplesmente estar.
Sem pressa.
Sem exigências.
À espera.
O silêncio da casa tornara-se um companheiro constante.
Lucy acordava mais cedo do que gostaria, não por insónia, mas porque o corpo já não lhe permitia longas horas na mesma posição. As manhãs eram lentas. Sentava-se à mesa da cozinha com uma chávena de chá quente entre as mãos, observando o vapor subir enquanto Mila se movimentava de um lado para o outro, sempre atarefada, sempre com algo novo para acrescentar à casa.
— Lucy precisa de descanso — dizia a elfa, empurrando suavemente uma almofada para as costas dela. — Bebés crescem. Precisam de calma.
Lucy sorria, obedecendo.
Passava longos períodos junto à janela da sala, olhando o vilarejo a transformar-se. As ruas estavam agora oficialmente decoradas. Pequenas coroas de ramos verdes pendiam das portas, fitas vermelhas surgiam nos candeeiros, e à noite as luzes refletiam-se no empedrado húmido, criando uma espécie de brilho suave que parecia envolver tudo.
Era estranho como o mundo parecia mais bonito quando se andava mais devagar.
Às vezes, Lucy pousava as mãos na barriga e falava-lhes em voz baixa, quase um segredo.
— Vocês vão nascer numa época fria… — murmurava. — Mas prometo que nunca vos vai faltar calor.
Os movimentos tornavam-se mais frequentes, mais definidos. Já não eram apenas sensações vagas, mas empurrões claros, respostas quase conscientes ao toque. Havia noites em que Lucy ficava acordada apenas a senti-los, lágrimas silenciosas a escorrerem-lhe pelo rosto sem que soubesse explicar bem porquê.
Não era tristeza.
Era excesso de amor.
Havia, claro, momentos em que o pensamento fugia para caminhos mais difíceis.
Harry surgia-lhe na mente sem aviso. Não como raiva, mas como uma presença distante, quase etérea. Perguntava-se se ele pensaria nela. Se alguma vez pensaria nos bebés. Se sentiria, em algum momento, o mesmo aperto no peito que ela sentia ao imaginar o futuro sem ele.
Mas não se permitia afundar.
Endireitava-se, respirava fundo e lembrava-se de que agora havia algo maior do que qualquer dor antiga.
Os dias até meio de dezembro passaram assim.
Lucy deixou de contar o tempo em semanas e começou a contá-lo em sensações: dias em que os bebés se mexiam mais, noites em que o cansaço era maior, manhãs em que o cheiro do pão quente a fazia sorrir sem motivo.
Mila começou a falar de um pequeno pinheiro para a sala.
— Pinheiro não pode ser grande — explicou, séria. — Mas tem de ser verdadeiro.
Lucy riu-se.
— Vamos ver isso, Mila.
Naquela casa, onde antes houvera silêncio e espera, começava agora a instalar-se algo novo. Não era apenas a antecipação do Natal. Era a certeza tranquila de que, mesmo depois de tudo o que fora perdido, algo estava a ser cuidadosamente construído.
E Lucy, sentada junto à lareira, com as mãos pousadas sobre o ventre e o frio a bater suavemente nas janelas, soube que aquela espera — lenta, silenciosa, profunda — era também uma forma de esperança.
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