E Ainda Assim, Amor

31 Capítulo 31 – Duas Batidas no Mesmo Coração


Lucy acordou devagar, ainda meio envolta num sonho indistinto, quando um cheiro doce lhe chegou ao quarto.

Franziu ligeiramente o sobrolho.

Panquecas?

Demorou alguns segundos a lembrar-se. Um pequeno sorriso surgiu-lhe nos lábios. Sentou-se na cama com cuidado, sentindo o peso familiar da barriga, já impossível de ignorar. Caminhava para os seis meses de gestação e o corpo lembrava-lho em cada movimento mais lento, mais consciente.

Vestiu-se sem pressas e desceu as escadas, guiada pelo aroma quente que vinha da cozinha. Junto ao fogão estava Mila, a elfa doméstica que vivia com ela desde que se mudara para a casa dos pais. Usava um vestido simples e limpo e mexia a frigideira com movimentos rápidos e atentos.

— Lucy já acordou — disse Mila de imediato, virando-se. — Mila fez panquecas. Panquecas boas. Lucy precisa de comer bem.

Lucy apoiou-se no balcão, observando-a com ternura.

— Bom dia, Mila. Cheira mesmo muito bem. Obrigada.

A elfa endireitou-se, claramente satisfeita.

— Mila fica feliz. Lucy gosta das panquecas de Mila.

Hermione quase chorara de emoção quando soubera que Lucy insistira em dar salário à elfa, dias de descanso e um quarto só seu no andar de cima. Mila aceitara tudo com uma alegria contida, orgulhosa do pequeno espaço que agora chamava de seu.

Lucy sentou-se à mesa enquanto Mila lhe colocava um prato à frente com cuidado excessivo.

— Lucy tem consulta hoje? — perguntou a elfa, inquieta.

— Tenho, sim — respondeu Lucy, cortando a primeira panqueca. — Na clínica do vilarejo. Vou a pé, é perto.

— Então Mila aquece chá quando Lucy voltar — disse prontamente. — Chá bom. Chá que faz bem ao bebé.

Lucy sorriu. Aquele cuidado simples aquecia-lhe o peito.

Pouco depois, pegou no casaco e saiu. O ar fresco da manhã envolveu-lhe o rosto enquanto caminhava pelo vilarejo ainda tranquilo. A clínica bruxa ficava a poucos minutos de distância, e Lucy avançava devagar, respeitando o ritmo do corpo. Era quase o fim de setembro. As consultas anteriores tinham sido tranquilas, sem qualquer indicação fora do normal.

Ainda assim, como sempre, sentia um nervosismo leve ao entrar.

A curandeira pediu-lhe que se deitasse e iniciou o exame com atenção cuidadosa. Houve silêncio durante alguns minutos — um silêncio que Lucy já conhecia bem.

— O desenvolvimento está muito bom — disse a mulher por fim. — Tudo dentro do esperado.

Lucy suspirou, aliviada.

Então a curandeira inclinou ligeiramente a cabeça e voltou a observar com mais atenção.

— Curioso… — murmurou.

O coração de Lucy acelerou.

— O que foi?

A curandeira sorriu, tranquila.

— Nada de errado. Pelo contrário. Nas consultas anteriores não foi possível perceber, mas agora está bastante claro.

Fez uma pausa breve, como se desse tempo às palavras.

— Lucy… não é um bebé.

O mundo pareceu inclinar-se.

— São dois.

Lucy ficou completamente imóvel.

— Dois…? — repetiu, num sussurro.

— Gémeos — confirmou a curandeira. — Ambos fortes. Ambos bem e pelo que vejo são um menino e uma menina.

Lucy levou as mãos ao ventre. Um riso nervoso escapou-lhe, misturado com lágrimas quentes.

Dois.

Saiu da clínica como se estivesse a aprender a andar outra vez. O caminho de volta pareceu diferente, mais curto, mais intenso. Cada passo trazia uma nova consciência: duas vidas, dois corações, duas presenças silenciosas.

Em casa, subiu diretamente ao andar de cima e entrou no quarto que escolhera meses antes. O quarto do bebé. Do que agora sabia serem bebés.

Sentou-se no chão, encostada à parede, e chorou.

Mas não era um choro de dor. Era cheio. Profundo. Um choro de espanto e gratidão.

Nos dias seguintes, Lucy começou finalmente a decorar o quarto.

Escolheu cores suaves, luz natural, móveis simples. Duas pequenas camas lado a lado, iguais, alinhadas com cuidado. Cada gesto era feito com uma atenção quase sagrada. Falava-lhes em voz baixa enquanto trabalhava, como se eles pudessem ouvir.

— Ainda não sabem — murmurava —, mas já mudaram tudo.

Quando tudo começou a ganhar forma, decidiu contar aos amigos.

Convidou Ron e Hermione para almoçar num domingo. Cozinhou desde cedo, algo simples mas feito por si, deu folga a Mila, ela queria ficar a ajudar mas Lucy insistira para que descansasse. Queria que aquele momento tivesse verdade. Quando eles chegaram, a casa encheu-se de vozes e risos.

Sentaram-se à mesa. Conversaram. Lucy observava-os, aguardando o instante certo.

— Tenho uma novidade — disse por fim.

Hermione endireitou-se de imediato. Ron pousou o copo.

— São gémeos — disse Lucy, sorrindo.

O choque foi imediato.

Hermione levantou-se e abraçou-a com força, emocionada. Ron ficou parado um segundo, depois juntou-se às duas.

— Isso é… uau — disse ele, ainda incrédulo.

Quando se sentaram novamente, Ron inclinou-se para a frente.

— Já pensaste em nomes?

Lucy assentiu, sem hesitar.

— Sim. O menino vai chamar-se James Lupin Lane.

— E a menina, Lily Lane.

Hermione levou a mão à boca e lembrou-se de Harry, se ele soubesse a bonita homenagem que Lucy preparou...

— Lucy… é lindo.

Lucy respirou fundo antes de continuar.

— E gostava que fossem padrinhos. Dos dois.

Hermione respondeu de imediato.

— Claro que sim.

Ron assentiu, com os olhos a brilhar.

— É uma honra.

Algumas semanas depois, encontraram-se em Hogsmeade num fim de semana tranquilo. Sentaram-se junto à janela, chá quente à frente, o movimento da vila a passar lá fora.

Hermione remexia-se na cadeira nervosa.

— Temos uma novidade — disse por fim.

Lucy sorriu, já a pressentir.

— Vamos casar — disse Hermione.

— Não será para já — apressou-se Ron a explicar. — Mas não quis esperar mais para fazer o pedido.

Lucy levantou-se e abraçou-os aos dois.

— Fico mesmo feliz por vocês.

Ao regressar a casa nesse dia, caminhou devagar, a mão pousada no ventre, sentindo-se inteira.

A vida não seguira o caminho que imaginara.

Mas dera-lhe mais do que ousara pedir.

Duas batidas.

Dois futuros

Nada tinha acontecido como Lucy previra — e, ainda assim, nunca se sentira tão inteira, com a certeza de que, independentemente do que tivesse acontecido, nunca deixaria os filhos sentirem a sua dor.