E Ainda Assim, Amor

30 Capítulo 30 – O Que Começa Depois do Fim


A casa da professora recebia Lucy com a mesma serenidade discreta que sempre tivera.

Não era um lugar exuberante nem particularmente grande, mas havia nele uma sensação rara de abrigo — como se as paredes soubessem quando falar e quando se manter em silêncio. Lucy pousou a mala à entrada e respirou fundo, sentindo o corpo finalmente desacelerar depois de semanas em tensão constante.

— Fica no quarto do fundo — disse a professora com um sorriso suave. — Não precisas de te preocupar com nada agora.

Lucy agradeceu em silêncio. Já aprendera que aquela mulher oferecia apoio sem exigir explicações, e isso era exatamente o que precisava.

Nos primeiros dias, Lucy quase não saiu. Dormia mais do que o habitual, acordava cedo demais, passava longos minutos sentada à mesa da cozinha com uma chávena de chá esquecida entre as mãos. Hogwarts ainda lhe surgia na mente com demasiada nitidez — os corredores, a Sala Precisa, o olhar de Harry. Tudo estava demasiado próximo, demasiado vivo.

Havia momentos em que o aperto no peito era tão intenso que precisava de parar, fechar os olhos e respirar devagar. Nesses instantes, a mão descia instintivamente até ao ventre, num gesto que já começava a reconhecer como natural.

— Está tudo bem — murmurava para si própria. — Eu estou aqui.

O bebé era a sua âncora. A razão pela qual se levantava todas as manhãs, mesmo quando o peso parecia excessivo. Ainda lhe custava acreditar naquela realidade — uma vida a crescer dentro dela enquanto tanta coisa ruíra à sua volta. Sentia medo, claro. Mas também uma força nova, silenciosa, que não pedira permissão para nascer.

Com o passar das semanas, Lucy começou a reencontrar algum equilíbrio.

A professora regressou a Hogwarts no final de agosto, deixando Lucy sozinha na casa. Não foi um abandono — fora algo combinado, natural — mas ainda assim marcou uma nova etapa. Lucy passou a organizar os dias com pequenos hábitos: caminhadas curtas pela vila, leituras prolongadas, cartas ocasionais a Hermione. Foi também nesse período que tomou uma decisão que vinha amadurecendo desde o início do ano.

A casa dos pais.

Desde a morte deles, em janeiro do ano anterior, a casa permanecera fechada. Não por esquecimento, mas porque a dor ainda era demasiado recente, demasiado crua. Não passara assim tanto tempo — pouco mais de um ano —, mas para Lucy parecera uma eternidade suspensa, como se tudo tivesse ficado congelado naquele dia.

Ainda assim, percebeu que era ali que queria viver.

Não como uma tentativa de apagar o passado, mas como uma forma de o honrar.

Mandou iniciar a reforma com cuidado, explicando que não queria transformar a casa, apenas devolvê-la à vida. O soalho antigo foi recuperado, as paredes ganharam tons claros, as janelas voltaram a deixar entrar a luz. Escolheu um quarto pequeno no andar de cima e, pela primeira vez, pensou nele como o quarto do bebé. Decidiu que só o começaria a decorar quando soubesse mais — havia coisas que precisavam de tempo, e Lucy aprendera a respeitar isso.

Em setembro, iniciou os estudos na escola avançada de Poções.

O edifício impressionava pela sobriedade. Os alunos vinham de vários lugares, muitos mais velhos do que ela, e todos partilhavam a mesma dedicação quase obsessiva à arte das poções. Lucy gostava da precisão exigida, do rigor, da concentração absoluta que afastava pensamentos intrusivos. Ia e vinha pela rede floo, tornando a viagem curta e prática, quase irrelevante.

Estudar ajudava-a a manter a mente organizada.

O corpo, por sua vez, começava a dar sinais mais claros da gravidez. O cansaço surgia com maior frequência, e Lucy passou a escolher roupas mais confortáveis. Ainda assim, havia dias em que se surpreendia a sorrir sem motivo aparente — não porque estivesse tudo resolvido, mas porque já não se sentia em queda livre.

Ron apareceu numa tarde inesperadamente.

Bateu à porta com um ar hesitante, como se não soubesse se tinha direito a estar ali. Lucy não lhe deu tempo para falar — abraçou-o de imediato, sentindo algo dentro de si alinhar-se de novo.

Conversaram durante horas. Ron falou de forma desajeitada, mas sincera. Disse que pensara muito, que juntara detalhes, que começava a perceber que nada fazia sentido. Admitiu que lhe custava aceitar que Harry tivesse fechado os olhos daquela forma.

— Eu sei que houve uma armadilha — disse por fim. — E sei que tu foste a vítima.

Lucy assentiu, sentindo um nó a desfazer-se lentamente no peito.

Hermione veio dias depois. Trouxe livros, chá e aquele olhar atento que sempre parecera ver mais longe do que os outros. Sentaram-se juntas no sofá, sem pressa.

— Ele não quis ouvir — disse Hermione, com tristeza. — Mas isso não muda a verdade.

Lucy fechou os olhos por um momento.

— Eu sei.

Harry permanecia ausente. Lucy não perguntava por ele, e os amigos respeitavam esse silêncio. Ainda assim, havia noites em que se permitia lembrar-se — não do fim, mas do que fora bom. O riso, a cumplicidade, a forma como ele a fazia sentir-se segura.

Essas memórias já não a destruíam.

Doíam, sim. Mas já não a impediam de avançar.

À noite, deitada, Lucy pousava a mão sobre o ventre e fazia promessas silenciosas. Não de perfeição, mas de presença. De amor honesto. De coragem.

O futuro ainda era incerto. Havia medos, dúvidas, estradas por desbravar.

Mas, pela primeira vez desde Hogwarts, Lucy sentia que não estava apenas a sobreviver.

Estava a construir.

E algo dentro dela crescia também — tranquilo, resiliente — enquanto o passado ficava, finalmente, no lugar onde podia existir sem a ferir.

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