E Ainda Assim, Amor
26 Capítulo 26 – Fragmentos de Queda
Ginny Weasley encontrou Oliver Preston num dos corredores menos movimentados do castelo. O encontro não foi casual; tinha sido planeado ao pormenor, como tudo o que vinha acontecendo nas últimas semanas. Combinaram encontrar-se assim que o plano fosse executado. Oliver encostava-se à parede de pedra, braços cruzados, um sorriso satisfeito a curvar-lhe os lábios antes mesmo de falar.
— Resultou — disse, sem rodeios.
Ginny sentiu o coração disparar. Aproximou-se mais, certificando-se de que ninguém os ouvia.
— Conta-me tudo.
Oliver riu-se em surdina, claramente a saborear o momento.
— Ela acreditou em cada palavra. Pensou que era ele desde o início. A Sala Precisa fez o resto. — Fez uma pausa, os olhos a brilharem. — E quando o verdadeiro Potter apareceu… foi perfeito. A cara dele… nunca vou esquecer.
Ginny levou a mão à boca por um segundo, um misto de choque e excitação a percorrê-la.
— E ele acreditou?
— Sem hesitar — respondeu Oliver. — Viu-nos juntos. Viu-a nos meus braços. Ouviu falar do bebé. Estava destruído.
— Bebé? -perguntou
— Sim, ela está grávida dele — disse Oliver — Mas não te preocupes, ele pensa que é meu.
Ginny fechou os olhos, respirando fundo. Quando os abriu, havia um sorriso tenso, quase febril.
— Então acabou.
— Acabou — confirmou Oliver. — Agora é só empurrar mais um pouco.
Ginny soltou uma pequena gargalhada nervosa.
— Ele vai acabar por perceber que eu sempre estive lá. Que eu nunca o traí. Que nunca lhe menti.
Oliver inclinou-se ligeiramente, a voz mais baixa.
— E eu fiquei com o que queria.
Separaram-se pouco depois, cada um com a sensação amarga e doce de vitória.
Lucy não saiu da Sala Precisa durante todo o dia.
Hermione ficou com ela desde o amanhecer, sentada no chão, junto ao sofá onde Lucy permanecia encolhida, o olhar perdido, as mãos pousadas instintivamente sobre o ventre.
— Eu não consigo respirar sem doer — murmurou Lucy, a voz quase inaudível. — Tudo dói, Hermione. Tudo.
Hermione segurou-lhe a mão com força.
— Isto não é o fim. Não pode ser.
— Ele olhou para mim como se eu fosse uma estranha — sussurrou Lucy, as lágrimas a escorrerem-lhe sem resistência. — Como se nunca me tivesse amado.
Passaram horas assim. Em silêncio. Em choro. Em palavras quebradas. De noite voltaram para o dormitório quando já todos estavam a dormir. Naquela noite Lucy não queria ver ninguém.
No dia seguinte, o castelo acordou com a excitação do jogo. Grifinória contra Lufa-Lufa. O último jogo do ano. O título em jogo.
Lucy levantou-se com dificuldade. Hermione tentou convencê-la a ficar na cama, mas ela precisava sair, precisava tentar.
Encontrou Harry à saída do salão comunal.
— Harry… — chamou, a voz trémula.
Ele parou por um segundo. Não a olhou.
— Não — disse apenas. — Não hoje. Não nunca.
E afastou-se.
Lucy ficou ali, imóvel, até as lágrimas lhe turvarem a visão. Hermione envolveu-a num abraço apertado, mas Lucy já estava a desfazer-se por dentro.
— Eu não consigo ir ver o jogo — disse. — Não consigo vê-lo.
Voltou para o dormitório e fechou as cortinas. Ficou sentada na cama, abraçando a almofada, sentindo o bebé mexer ligeiramente, como se reagisse à dor da mãe.
Antes do jogo, Harry encontrou Oliver nos balneários.
— Precisamos falar — disse Harry, a voz baixa, controlada à força.
Oliver sorriu, como se estivesse à espera.
— Claro. Sobre a Lucy?
Harry sentiu o estômago revirar-se.
— Diz-me a verdade.
Oliver aproximou-se, fingindo hesitação.
— A verdade? — suspirou. — Nós sempre estivemos juntos. Ela só se aproximou de ti por causa da fama. Do “Menino Que Sobreviveu”. Era tudo um jogo para ela.
Harry sentiu algo rasgar-se dentro do peito.
— Estás a mentir.
— Gostava que fosse — respondeu Oliver. — Mas não é. Pergunta-lhe quantas vezes esteve comigo antes de ti. Quantas vezes te usou, ela ia enganar-te e dizer que o filho é teu para ter direito à herança.
-como assim -perguntou Harry.
-Ela ia fazer-te casar com ela e depois matava-te, fazendo parecer um acidente e quando isso acontecesse tudo o que é teu passava a ser dela -diz Oliver divertido por dentro ao ver a expressão de Harry.
Harry afastou-se, o rosto pálido.
— Sai da minha frente.
Durante o jogo, Harry estava irreconhecível.
Falhou movimentos simples. Reagiu tarde. A snitch passou-lhe diante dos olhos duas vezes sem que conseguisse acompanhá-la. A mente estava longe — presa à imagem de Lucy nos braços de outro, às palavras de Oliver, à ideia de ter sido enganado desde o início.
Lufa-Lufa marcou pontos decisivos.
Quando a snitch finalmente apareceu, Harry hesitou. Um segundo. Dois.
Foi o suficiente.
O apanhador da Lufa-Lufa agarrou-a.
O jogo terminou.
Sonserina era campeã.
O estádio ficou em silêncio.
No salão comunal, mais tarde, a tensão era palpável.
Lucy entrou devagar, o rosto pálido, os olhos vermelhos. Harry estava lá.
— Precisamos falar — disse ela, a voz a tremer.
— Não há nada para falar — respondeu ele, frio.
— Estás a acreditar em mentiras!
— Mentiras? — Harry riu-se, amargo. — O erro foi termos estado juntos. Foi um erro enorme. Eu devia ter escolhido a Ginny. Ela nunca me teria feito isto.
Lucy sentiu o mundo desabar.
— Harry… — tentou, mas a voz falhou.
Ele virou-lhe as costas e subiu para o dormitório masculino.
Lucy saiu a correr.
Andou sem rumo pelos corredores, o peito apertado, a respiração descontrolada. As pernas falharam-lhe de repente. Caiu.
Sentiu dor. Medo. Um calor húmido.
Quando abriu os olhos, estava na enfermaria.
— O bebé está bem — disse Madame Pomfrey, firme. — Mas precisa de repouso absoluto.
Lucy chorou em silêncio, olhando para o teto.
Tudo estava a ruir.
Mas o bebé… ainda estava ali.
E isso, por agora, teria de ser suficiente.
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