E Ainda Assim, Amor
25 Capítulo 25 – A Verdade em Ruínas
O sábado à noite em Hogwarts tinha uma estranha quietude, como se o castelo inteiro pressentisse que algo estava prestes a quebrar-se. O Salão Principal estava menos barulhento do que o habitual; os alunos jantavam sem grande entusiasmo, divididos entre a ansiedade dos exames iminentes e a expectativa do último jogo de quadribol do ano.
Harry sentava-se à mesa da Grifinória com Ron e Hermione, empurrando distraidamente a comida no prato. O corpo ainda sentia o treino intenso da tarde, os músculos doridos, os braços pesados, mas era o coração que mais lhe doía — um aperto constante, incómodo, difícil de ignorar.
Havia horas que não via Lucy.
E isso não era normal.
Harry levantou os olhos, percorrendo o salão à procura dela, quase por instinto. Nada. O desconforto cresceu-lhe no peito.
— Viram a Lucy hoje? — perguntou de repente, quebrando o silêncio à mesa.
Ron ergueu o olhar, surpreendido, enquanto Hermione pousava lentamente os talheres, o semblante a fechar-se por um segundo demasiado rápido para passar despercebido. Mas antes que qualquer um deles pudesse responder, uma voz surgiu ao lado.
— Ouvi a Lucy dizer que ia para a Sala Precisa esperar por ti.
Ginny Weasley acabava de chegar, a bandeja ainda nas mãos. O tom era casual, quase inocente.
Harry franziu o sobrolho.
— A Sala Precisa? — repetiu. — Mas… eu não combinei nada com ela.
Ginny encolheu ligeiramente os ombros.
— Talvez tenham falado e tu esqueceste. Andas com a cabeça cheia por causa do jogo.
A explicação parecia lógica. Harry ficou alguns segundos a pensar, tentando puxar pela memória. Não se lembrava de nada, mas a verdade era que ultimamente os dias tinham passado depressa demais. Treinos, estudos, exames, expectativas…
Talvez Lucy quisesse surpreendê-lo.
O coração deu um salto estranho — uma mistura de curiosidade e nervosismo.
— Vou ver — disse, levantando-se de imediato.
Hermione abriu a boca para dizer alguma coisa, mas fechou-a logo a seguir. Havia algo no ar que não gostava, uma sensação de desconforto que não sabia explicar.
Harry saiu do Salão Principal a passo rápido. À medida que avançava pelos corredores, a inquietação crescia. As tochas lançavam sombras longas nas paredes de pedra, e cada passo ecoava alto demais no silêncio da noite.
Pensava em Lucy. No sorriso dela. No jeito como lhe segurava a mão quando estava nervosa. No futuro que tinham começado a imaginar juntos.
Jamais lhe passou pela cabeça que aquele caminho o levaria ao momento mais devastador da sua vida.
Quando empurrou a porta da Sala Precisa, o mundo parou.
Lucy estava deitada numa cama que sempre fora deles. O corpo enroscado, vulnerável. A cabeça repousava no peito nu de Oliver Preston.
Harry sentiu o chão desaparecer sob os pés.
O ar fugiu-lhe dos pulmões. O coração bateu com violência, como se quisesse rebentar-lhe o peito. A visão ficou turva por um segundo, mas a imagem não desapareceu.
Era real.
— O que é que se está a passar aqui?! — gritou, a voz rasgada pela dor, pela raiva e pela incredulidade.
O som ecoou pela sala.
Lucy acordou sobressaltada. O coração disparou-lhe no peito quando reconheceu a voz. Virou-se bruscamente — e o choque foi imediato. Não era Harry que estava ao seu lado.
Era Oliver.
— Harry…? — murmurou, confusa, o pânico a subir-lhe à garganta. — Eu… eu não sei…
Tentou afastar-se, mas o corpo tremia-lhe. A cabeça rodava, como se o mundo estivesse fora de lugar.
— Eu não sei como ele chegou aqui — disse, desesperada. — Eu pensei que eras tu…
Oliver sentou-se com calma excessiva, um meio-sorriso nos lábios. Não parecia surpreso. Não parecia arrependido.
— Calma — disse, numa voz baixa, quase paternal. — Não te podes enervar por causa do bebé. Isso não faz bem.
As palavras atingiram Harry como um murro.
— Bebé…? — repetiu, incrédulo.
Lucy sentiu as lágrimas escorrerem-lhe pelo rosto.
— É verdade… estou grávida — disse, a voz a falhar. — Mas o bebé é teu, Harry. Juro-te. É teu.
Harry olhava para os dois como se estivesse a ver uma cena distorcida, impossível. Tudo dentro dele gritava que aquilo não fazia sentido. Lucy nunca lhe faria isto. Nunca.
Mas os olhos viam outra coisa.
— Eu estive a jantar no Salão Principal — disse, a voz dura. — Estive lá o tempo todo.
Lucy abanou a cabeça, em pânico.
— Não… não… tu estavas aqui comigo… eras tu…
Oliver soltou uma pequena gargalhada contida, desviando o olhar.
Harry sentiu algo partir-se dentro dele.
— Eu não consigo… — murmurou. — Não consigo olhar para isto.
Virou-se abruptamente e saiu.
Lucy soltou um grito contido, levando as mãos ao rosto.
— Harry, por favor!
Mas ele já tinha desaparecido pelo corredor.
Oliver levantou-se com calma, vestindo-se sem pressa, claramente satisfeito.
— A nossa noite foi incrível — disse, com ironia. — Quando quiseres repetir, sabes onde me encontrar.
Saiu, deixando atrás de si o silêncio mais cruel que Lucy alguma vez conhecera.
Ela caiu sobre a cama, soluçando, o corpo a tremer. Depois, arrastou-se até ao sofá junto à lareira quase apagada e encolheu-se, abraçando-se a si própria, como se isso pudesse impedir o coração de se desfazer.
Enquanto isso, Harry subia sozinho as escadas da torre de astronomia.
Cada degrau era um esforço. Cada pensamento uma ferida aberta.
Quando chegou ao topo, o vento frio atingiu-lhe o rosto. O céu estava limpo, as estrelas brilhavam indiferentes à sua dor.
Sentou-se na beira da torre e deixou-se cair para a frente.
— Como…? — murmurou, a voz quebrada. — Como pôde ela fazer-me isto?
As lágrimas vieram sem aviso. Chorou de raiva, de dor, de humilhação. Chorou porque, mais uma vez, perdera alguém que amava.
A mente traiu-o por breves segundos.
Ginny.
Pensou nela como alguém boa, pura. Pensou que talvez, se tivesse feito escolhas diferentes, nada disto teria acontecido.
Mas o pensamento não o consolou.
Lucy estava grávida. E tudo indicava que não era dele.
A dor era insuportável.
Na Sala Precisa, Lucy chorou a noite inteira. O corpo encolhido, a mão pousada no ventre, sussurrando pedidos de desculpa ao bebé que crescia dentro dela.
— Eu prometo que vou proteger-te — murmurava entre soluços.
Só adormeceu quando o cansaço venceu o desespero.
Na manhã seguinte, Harry desceu para o pequeno-almoço com o rosto marcado pelas lágrimas. Hermione e Ron repararam de imediato.
— Harry… — começou Hermione.
Ele contou tudo.
Cada palavra doía.
— Algo não está certo — disse Hermione, firme. — Eu já sabia da gravidez. E tenho a certeza absoluta de que o filho é teu.
Harry abanou a cabeça.
— Eu não consigo acreditar em mais nada.
Saiu, deixando Hermione com o coração pesado.
Ela foi à Sala Precisa.
Encontrou Lucy deitada em posição fetal, os olhos inchados, o rosto devastado.
— Lucy… — sussurrou, ajoelhando-se ao lado dela.
Lucy agarrou-se a Hermione como se ela fosse a última âncora no mundo.
— Eu não menti… — chorou. — Juro que não menti.
Hermione abraçou-a com força.
— Eu sei.
E naquele momento, entre lágrimas, silêncio e dor, ambas sabiam: a verdade tinha sido enterrada — mas não para sempre.
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