E Ainda Assim, Amor
23 Capítulo 23 – Entre Luz e Sombra
O final de maio trazia consigo um cansaço diferente. Não era apenas físico, mas emocional, como se Hogwarts inteiro estivesse a prender a respiração à espera dos exames finais. Os corredores fervilhavam de ansiedade contida, os salões estavam cheios de alunos debruçados sobre livros, e as noites tornavam-se cada vez mais curtas.
Lucy sentia isso no corpo de forma intensa.
Naquela manhã de quinta-feira, acordara com o estômago embrulhado e uma estranha sensação de peso no peito. Sentou-se na cama do dormitório durante longos minutos antes de se levantar, respirando fundo, convencida de que era apenas mais um dia difícil.
— Vais ficar bem — murmurou para si própria, enquanto se vestia. — É só stress.
Hermione reparou de imediato no tom pálido da amiga.
— Tens a certeza de que consegues ir às aulas?
Lucy forçou um sorriso.
— Tenho. Não posso faltar agora.
A aula de Runas Antigas decorria num silêncio quase solene. Apenas Lucy e Hermione estavam presentes, sentadas lado a lado, rodeadas de símbolos antigos gravados na pedra. O professor explicava a complexidade das runas compostas, mas Lucy mal conseguia acompanhar. As linhas no pergaminho confundiam-se, a cabeça parecia pesada.
O enjoo veio sem aviso.
Lucy levou a mão à boca, sentindo o coração acelerar.
— Hermione… — sussurrou, antes de se levantar bruscamente.
Hermione nem hesitou. Pediu licença ao professor e seguiu-a rapidamente para fora da sala. Lucy mal conseguiu chegar à casa de banho antes de se ajoelhar junto à sanita, o corpo a reagir com violência.
Hermione segurava-lhe o cabelo, murmurando palavras tranquilizadoras.
— Respira… estou aqui…
Quando finalmente se afastou, Lucy tentou levantar-se. O mundo girou. As pernas falharam.
— Hermione… — foi tudo o que conseguiu dizer antes de desmaiar.
O destino quis que, nesse instante, a professora McGonagall entrasse na casa de banho. O cenário foi suficiente para agir sem perguntas. Poucos minutos depois, Lucy era levada para a enfermaria.
Quando recuperou a consciência, estava deitada numa cama branca, envolta num silêncio estranho. Hermione estava ao seu lado, os olhos cheios de preocupação. Madame Pomfrey e McGonagall conversavam em voz baixa ao fundo da sala.
Os exames foram rápidos, mas minuciosos. O tempo pareceu suspenso até Madame Pomfrey falar.
— Senhorita Lane…a senhorita está grávida.
As lágrimas vieram antes das palavras. Lucy chorou sem conter, as mãos a tremer, o coração a bater de forma descompassada. Hermione abraçou-a com força, emocionada.
— Vou ser mãe… — sussurrou Lucy, como se dissesse algo impossível.
McGonagall aproximou-se, a expressão séria suavizada por uma ternura rara.
— A partir deste momento, a sua saúde é prioridade. E não está sozinha. Nunca.
Lucy passou o resto do dia na enfermaria. Madame Pomfrey insistiu em descanso absoluto. Hermione ficou com ela o máximo que pôde, até ser obrigada a sair para uma aula.
Quando ficou sozinha, Lucy fechou os olhos, uma mão pousada instintivamente sobre o ventre ainda liso.
Um bebé.
O pensamento encheu-a de uma felicidade serena, quase assustadora. Imaginou um futuro simples: Harry a rir, uma casa reconstruida em Glenshire, uma criança a correr pelo jardim. Sentiu lágrimas voltarem, mas agora eram quentes, doces.
Harry apareceu à porta da enfermaria ao final da tarde, visivelmente preocupado.
— Lucy… — chamou, aliviado ao vê-la acordada.
Madame Pomfrey foi firme.
— Foi apenas stress e exaustão. Precisa de descansar mais.
Harry segurou-lhe a mão, preocupado.
— Assustaste-me.
Lucy sorriu, guardando o segredo com cuidado.
— Estou bem… prometo.
No dia seguinte, Lucy acordou melhor. McGonagall autorizou uma saída curta a Hogsmeade, acompanhada de Hermione. Quando Harry sugeriu ir com elas, Hermione foi rápida.
— Não, não… vamos tratar de um assunto para a diretora.
Lucy confirmou com um aceno.
— Depois contamos tudo.
Harry aceitou, embora intrigado e decidiu seguir para a biblioteca com os outros alunos para estudar.
Hogsmeade estava tranquila naquela manhã. As duas caminharam devagar, aproveitando o sol suave. Entraram numa pequena loja discreta, afastada da rua principal. Lucy percorreu as prateleiras em silêncio até escolher uma pequena roupinha clara, simples, perfeita.
Segurou-a com cuidado, como se fosse de cristal.
— É mesmo a tua cara — disse Hermione, sorrindo – simples e delicado.
Lucy sentiu o coração transbordar.
— Quero contar-lhe em breve. Quero que seja especial.
Hermione sorriu, percebendo a intensidade do momento. As duas amigas passaram a manhã inteira entre lojas, parando apenas para um lanche numa pequena pastelaria, conversando em sussurros sobre o futuro e sobre pequenos sonhos. Lucy sentia o coração cheio, cada passo carregando um misto de nervosismo e felicidade.
Voltaram a Hogwarts com o segredo bem guardado.
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