E Ainda Assim, Amor
15 Capítulo 15 Cartas e Silêncios
Ginny demorou vários minutos a começar a escrever. O dormitório estava mergulhado no silêncio da noite, interrompido apenas pela respiração tranquila das outras raparigas. A vela sobre a secretária lançava sombras inquietas nas paredes, e Ginny sentia-se estranhamente desperta, como se o corpo recusasse descansar enquanto a mente fervilhava. Dobrou o pergaminho uma vez. Depois duas. Tornou a abri-lo. Não estava a escrever como uma Weasley. Nem como uma amiga. Muito menos como alguém que desejava o bem de todos. Estava a escrever como alguém que já tinha decidido ir até ao fim. Molhou a pena no tinteiro. Ao senhor Marcus Hawthorne, Espero que esta carta o encontre bem. Não nos conhecemos pessoalmente, mas conheço a sua sobrinha, Lucy Lane. Estudamos juntos em Hogwarts. Escrevo-lhe porque acredito que o senhor merece saber certas verdades que lhe têm sido ocultadas. Ginny hesitou por um segundo. O nome do tio de Lucy soava-lhe pesado, quase cruel, mesmo antes de o conhecer verdadeiramente. Continuou. Lucy encontra-se envolvida emocionalmente com Harry Potter. Talvez o nome lhe diga algo. A relação tem-se tornado cada vez mais séria e, sinceramente, temo que Lucy volte a envolver-se em algo que não compreende totalmente. Tenho razões para acreditar que esta ligação acabará por lhe trazer mais dor — e consequências — do que ela imagina. Parou. Não mencionou amor. Não mencionou felicidade. Apenas consequências. Era assim que se plantava a dúvida. Dobrou o pergaminho com cuidado, selou-o e ficou a observá-lo durante longos segundos antes de o colocar de lado. O coração batia-lhe com força, mas não era medo. Era expectativa.
Harry sentia os músculos doridos quando baixou a varinha pela terceira vez. A Sala Precisa ajustava-se ao ritmo deles, como sempre fazia — alvos a desaparecerem lentamente das paredes, o ar a tornar-se mais quente, quase acolhedor, como se a própria sala soubesse que o treino estava a chegar ao fim.
Lucy pousou a varinha num banco de madeira, soltando um suspiro cansado, mas satisfeito.
— Acho que hoje já chega — disse ela, sorrindo. — Se lançar mais um Protego, começo a acertar em mim própria.
Harry riu-se, passando uma mão pelos cabelos despenteados.
— Estás a exagerar. Estás cada vez melhor.
Ela corou ligeiramente, como sempre fazia quando ele a elogiava daquela forma direta, sem filtros. Aproximou-se da lareira, estendendo as mãos para o calor, e Harry seguiu-a quase sem pensar. Havia algo naquela noite — talvez o silêncio, talvez o facto de estarem finalmente sozinhos, longe de olhares e expectativas — que tornava tudo mais intenso.
— Harry… — começou Lucy, hesitando.
Ele virou-se para ela de imediato.
— O que foi?
Lucy demorou a responder. Observava as chamas como se procurasse coragem nelas.
— Às vezes parece estranho… — disse por fim. — Depois de tudo o que passámos, da guerra, das perdas… estarmos aqui. A treinar. A rir. A sentir isto.
Harry compreendeu. Sentia o mesmo, mesmo que raramente o dissesse em voz alta.
— Também penso nisso — admitiu. — Durante muito tempo achei que não tinha direito a… a algo assim. A estar bem.
Lucy virou-se para ele. Estava perto. Mais perto do que momentos antes. Harry reparou no modo como os olhos dela refletiam a luz da lareira, suaves, atentos, sem medo.
— Eu sinto-me segura contigo — disse ela, quase num sussurro.
O coração de Harry acelerou.
Não houve um momento exato em que decidiu beijá-la. Apenas aconteceu. Um gesto natural, lento, como se ambos soubessem que aquele passo era inevitável. O beijo começou suave, hesitante, mas rapidamente ganhou profundidade, emoção contida a libertar-se pouco a pouco.
Harry afastou-se primeiro, a respiração irregular. Encostou a testa à dela.
— Lucy… tens a certeza?
Ela fechou os olhos por um instante, respirou fundo, e depois abriu-os, firmes.
— Tenho. Não porque estou confusa. Mas porque sei o que sinto.
Harry assentiu, como se aquela resposta lhe desse permissão para algo que já carregava no peito há muito tempo.
A Sala Precisa mudou novamente — o chão tornou-se mais macio, a luz mais ténue, o mundo exterior pareceu desaparecer. Não houve pressa. Cada gesto foi cuidadoso, respeitoso, carregado de significado. Para ambos, aquele momento não era apenas desejo — era escolha e eles escolheram entregar-se um ao outro de corpo e alma, naquela que seria a sua primeira noite de amor.
Naquela noite, Harry sentiu algo que julgara perdido: paz.
Adormeceram lado a lado, envoltos pelo silêncio protetor da sala, ignorantes do facto de que, noutro ponto do castelo, uma carta já seguia caminho. Uma carta que traria respostas. E silêncios. Muitos silêncios.
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