E Agora?

1 Capítulo Único


"Eu quero a sina de um artista de cinema
Eu quero a cena onde eu possa brilhar
Um brilho intenso, um desejo, eu quero um beijo
Um beijo imenso, onde eu possa me afogar
[...] Moça donzela, mulher, dama, ilusão
Na minha vida tudo vira brincadeira
A matinê verdadeira, domingo e televisão
Eu quero um beijo de cinema americano"

Vanessa estava ouvindo a música "Lisbela" de Los Hermanos, quando ouviu o som da campanhia. Embora não estivesse esperando ninguém, simplesmente imaginava quem poderia ser. Quem adorava te fazer surpresas daquele tipo. Levantou da cama, e andou tranquilamente até a porta.

– Olha só o que eu trouxe! — Bianca mostrava em suas mãos um refrigerante, e um saquinho de pipoca de microondas.

– Já decidiu o filme que vamos ver? — Perguntou Vanessa, enquanto abria o portão da casa.

– Você chegou a baixar a lista que eu pedi?

– Sim.

– Então vamos escolher juntas.

As duas foram até a cozinha, e colocaram a pipoca no microondas. Enquanto isso, Vanessa se adiantou ao fogão para fazer um brigadeiro. Bianca separou dois copos, e pôs refrigerante neles. Juntas, e finalmente com tudo em mãos, elas entraram no quarto, e deitaram na cama relaxadas.

Ficaram escolhendo no pen drive o filme que poderiam assistir. A lista era imensa, desde filmes de ação à romances, ou até mesmo filmes de terror. Por fim, decidiram por uma comédia romântica. O clima daquele lugar estava tão leve, não valia a pena estragar com cenas de ação ou terror. Escolheram o filme Love Hapens ("O Amor Acontece"), com Jennifer Aniston e Aaron Eckhart. Enquanto as cenas passavam, elas começaram a mordiscar a comida que haviam trazido.

Mesmo antes do final do filme, apenas metade do brigadeiro restava para contar a história. Afinal, elas tinham ficado enjoadas diante de tanto doce. Bianca se aproximou de Vanessa, e deitou em seu colo, coisa que sempre fizera. E, assim, assistiram ao resto do filme.

Segundos mais tarde, após o filme finalmente terminar. Ainda deitadas na cama, Bianca aproximou-se da amiga.

– Acho que já vou indo. — Disse, imediatamente antes de dar um beijo no rosto da Vanessa.

Quando ela estava retornando à posição original, Vanessa a segurou, e as duas se entreolharam paradas, e sérias, por alguns instantes. Vanessa finalmente sorriu, e lhe deu outro beijo no rosto como resposta, e então Bianca a puxou para um abraço apertado.

Porém, diante da posição em que elas se encontravam, Bianca simplesmente ficara apoiada na parte direita do corpo da amiga. Diante daquela proximidade, Bianca sentira uma estranha onda de calor percorrendo o seu corpo, que resultou em uma intensa sensação de arrepio. Dera um pequeno suspiro próximo ao ouvido de Vanessa, que ouvira, e não pôde deixar de sentir o que a outra sentira.

Sem pensar, Vanessa afastou um pouco seu rosto para encarar o olhar desconcertado de Bianca e as duas ficaram ali, um bom tempo, apenas se entreolhando.

Bianca se lembrou da letra de uma música que sempre adorara. "Kissing" de Bliss.

"A luz vermelha do sol, descendo lentamente.
O céu é tudo que posso ver,
isto nunca vai acabar.
Podemos voar,
Você e eu,
Numa nuvem,
nos beijando, nos beijando.
O vento brinca com as folhas,
o tempo fica frio. [...]
Numa jornada do coração,
há tanto para ver.
E quando o céu estiver escuro,
você continuará bem aqui,
ainda comigo..
Beijando, beijando..."


Quando os rostos já estavam finalmente se aproximando, sucumbidos pelo desejo daquele momento, o telefone tocou. Bianca se levantou, em um pulo, e foi até a porta do quarto, como se quisesse ficar o mais distante possível de Vanessa, que aproveitou o momento para atender o telefone. Não faria mal nenhum fugir do olhar assustado da amiga.


– Alô. [...] Sim, pai. Vou aparecer. [...] Que horas mesmo? [...] Tudo bem... Deixe comigo.

Vanessa desligou a chamada, e olhou para Bianca que parecia paralizada na porta do quarto.

– Bianca, eu...

– É melhor eu ir embora. — Disse, adiantando-se até a porta em evidente nervosismo.

– Você não quer conversar? — Perguntou Vanessa, enquanto seguia a outra até o portão.

– Não, é melhor eu ir embora. Já está ficando tarde, de qualquer forma.

Bianca, tentando aparentar normalidade, puxou Vanessa para um rápido abraço, mas sentira uma sensação de choque com aquele toque e se afastou bruscamente, deixando-a no ar novamente.

Vanessa voltou para o quarto e tirou o cd que estava ouvindo do pause, e dessa vez tocara a música "O Amor é Filme", do Cordel do Fogo Encantado.

"O amor é filme
Eu sei pelo cheiro de menta e pipoca que dá quando a gente ama
Eu sei porque eu sei muito bem como a cor da manhã fica
Da felicidade, da dúvida, dor de barriga
É drama, aventura, mentira, comédia romântica
Um belo dia a a gente acorda e hum...
Um filme passou por a gente e parece que já se anunciou o episódio dois
É quando a gente sente o amor se abuletar na gente tudo acabou bem,
Agora o que vem depois?"

Bianca desceu, e parou no carro. Estava muito confusa. Tudo que tinha sentido, nunca havia lhe acontecido antes. Por que de repente sentiria algo assim pela melhor amiga? Uma mulher, para piorar a situação. Nunca havia sido uma pessoa preconceituosa, na verdade pelo contrário, sempre soubera da orientação sexual da amiga e nunca ligara pra isso.

E o marido? Não pôde deixar de sentir um certo alívio por ter uma relação aberta com Marcos. Os dois não eram impedidos de fazer nada, contanto que tudo fosse conversado entre eles. Mas como falaria de algo assim pra ele? Sempre fora heterossexual, e de repente, estava sentindo-se atraída pela melhor amiga? A mesma que teria sido a madrinha no casamento deles, e que mantinha uma boa relação de amizade com Marcos. A culpa voltou a lhe atormentar. Acabaria mentindo por covardia?

O que teria acontecido lá em cima? Quase a beijara... E Vanessa estava correspondendo. Estaria apaixonada? Bianca colocou as mãos sobre a cabeça e pressionou-as de leve contra o volante. Ela inspirara o perfume dos cabelos de Vanessa, mesmo a jovem não estando alí. Aquele abraço a acordou de alguma forma. Despertou sensações que nunca havia sentido antes, por Vanessa. E agora? Bianca não sabia o que deveria fazer diante daquilo, mas de uma coisa tinha certeza, não poderia simplesmente fingir que nada aconteceu.

Enquanto isso, Vanessa olhava no computador algumas fotos das duas. Tudo havia acontecido tão de repente, de um dia para o outro havia se descoberto apaixonada por Bianca. Mas sempre havia se controlado e disfarçado muito bem sua atração, até aquele momento. Bianca também sentiu alguma coisa, e isso rompera seu auto-controle totalmente. Não sabia nem se ainda iria vê-la depois do que aconteceu, naquela altura Bianca provavelmente já deveria estar pensando em uma viagem bem longa, só para não voltar a vê-la.

Foi quando a campanhia tocou novamente. Fora até a porta a passos lentos, e não pôde deixar de ouvir a música "Pensando em você" de Claudinha Leite, que havia acabado de colocar no computador:

"Tava satisfeita só em te ter como amigo
Mas o que será que aconteceu comigo?
Aonde foi que eu errei? [... ]
Se fica muito tempo sem me ligar
Arranjo uma desculpa pra te procurar
Que tola, mas eu não consigo evitar
Porque eu só vivo pensando em você
E é sem querer
Você não sai da minha cabeça mais
Eu só vivo acordada a sonhar
Imaginar nós dois
Ás vezes penso ser um sonho impossível,

uma ilusão terrível. Será?
Eu já pedi tanto em oração
Que as portas do seu coração
Se abrissem pra eu te conquistar"

Vanessa parou de frente ao portão, e viu Bianca ali parada e, diferente da cena anterior, ela agora parecia tensa, e agitada. Abriu para a amiga, sem saber muito o que dizer. Bianca foi entrando na casa, e dirigiu-se sozinha para o quarto de Vanessa ainda a tempo de ouvir a música que estava tocando, e a pasta de fotos que estava aberta na barra de ferramentas no desktop da amiga.

Vanessa entrou no quarto, tensa, e sentou o mais distante que pôde de Bianca. Tinha medo de não conseguir se controlar novamente, e perder a amiga para sempre.

– Por que você não disse que gostava de mim? — Perguntou Bianca, de sopetão.

A música que tocava agora era "Anjo mais Velho" de Teatro Mágico.

"O dia mente a cor da noite
E o diamante a cor dos olhos
Os olhos mentem dia e noite a dor da gente"

– Eu não... — Vanessa ainda tentou desconversar, mas foi impedida por Bianca que parecia decidida a esclarecer aquela história.

– Vanessa, eu te conheço o suficiente para saber quando você está mentindo. Te fiz apenas uma pergunta. Me responda.

Vanessa respirou fundo, pausou a música que estava tocando no computador, pegou o violão, e finalmente respondeu.

– Eu não quis estragar nossa amizade. Simplesmente aconteceu.

Começou a tocar no violão a música "Versos Simples" de Chimarruts, levando Bianca a ficar em silêncio, observando-a.

"Sabe, já faz tempo
Que eu queria te falar
Das coisas que trago no peito [...]

Não te trago ouro
Porque ele não entra no céu
E nenhuma riqueza deste mundo
Não te trago flores
Porque elas secam e caem ao chão
Te trago os meus versos simples
Mas que fiz de coração"


Vanessa sempre tivera uma voz linda, e Bianca simplesmente adorava vê-la cantar. Embora ainda preocupada com tudo que estava acontecido, e especialmente com tudo que estava sentindo, ela se deixou apreciar cada nota musical. Quando o som do violão finalmente parou, Bianca fechou os olhos e deu um profundo suspiro.


– Eu sou casada, Vanessa. Como eu posso sentir isso por você?

– Eu não queria nada disso, Bia. Já disse que simplesmente aconteceu.

– Acho que nós vamos precisar ficar um tempo longe uma da outra.

– Se você acha melhor. — Disse, simplesmente, visivelmente magoada. Saíra do quarto e fora até a porta. Sem graça, Bianca a seguiu, e fora obrigada a sair.

Bianca ainda poderia dizer tanta coisa... simplesmente não queria se despedir da amiga assim. Mas Vanessa praticamente a colocou para fora. Ela estava magoada pelo que havia dito sobre elas não se verem por um tempo. Havia magoado uma das pessoas que mais amava na vida.

Mas o que mais ela poderia dizer? Ela era casada realmente, e não tinha sido fácil pra ela descobrir que sente algo por mais alguém, que não seja o marido. Se ela se permitisse passar mais tempo com Vanessa, iria acabar deixando que algo acontecesse... Algo que elas poderiam vir a se arrepender amargamente depois.

Vanessa bateu a porta da sala, e voltou para o quarto irritada. No fundo, entendia o comportamento de Bianca, provavelmente também teria agido assim, se estivesse em sua lugar. Não queria atrapalhar o casamento deles, mas simplesmente não podia evitar mais sentir aquilo. Há muito tempo, ela já não conseguia mais se concentrar em nada, somente em Bianca, e ficar próxima a ela sem poder tocá-la, era um sofrimento sem tamanho. Talvez fosse melhor assim.

Suspirou fundo, e ligou novamente o DVD que estava tocando. Por fim, trocou a música para "Você não me ensinou a te esquecer", de Caetano veloso.


"Você bem que podia perdoar
E só mais uma vez me aceitar
Prometo agora vou fazer por onde nunca mais perdê-la
Agora, que faço eu da vida sem você?
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
E te querendo eu vou tentando te encontrar

Vou me perdendo
Buscando em outros braços seus abraços
Perdido no vazio de outros passos
Do abismo em que você se retirou
E me atirou e me deixou aqui sozinho"



Dias se passaram. Bianca não podia mais suportar aquela distância. Havia mandado algumas mensagens para Vanessa, que simplesmente não retornara. Ela conseguia ser bastante orgulhosa quando queria. Será que ela não entendia que a amiga estava em uma encruzilhada?


Ela não conseguia falar disso com o marido, mas também não queria mentir pra ele. O relacionamento dos dois era baseado na confiança, e Marcos sempre deixou isso claro: Ela poderia fazer o que quisesse, nunca tentaria tirar a sua liberdade, mas as coisas precisavam ser conversadas entre eles primeiro. E, de certa forma, Bianca já havia rompido essa regra, haja vista que se passaram dias desde que ela descobriu sentir coisas por Vanessa que não uma simples amizade, e nada foi dito ao marido.

Sentindo-se culpada e envergonhada pelo que quase teria acontecido, Bianca passou todos esses dias evitando os contatos íntimos de Marcos, que não entendia o seu comportamento. Toda vez que ele vinha beijá-la, ela simplesmente virava o rosto disfarçadamente, e ia fazer outra coisa. Amava o marido mais do que tudo, e sempre fora muito feliz com ele. Mas, de repente, sentia-se sem chão.

E agora? Ela estaria apaixonada por Vanessa? Teria seu casamento ido por água baixa, por um simples momento de atração quase que magnética? Não conseguia deixar de sentir como se Vanessa fosse um ímã que a estivesse levando diretamente até ela, em um movimento involuntário. Mas ainda havia Marcos, tudo que eles viveram até então, e o amor que eles sentiam um pelo outro. Deus! Sua cabeça estava muito confusa.

Deitada na cama, Bianca colocou o seu mp3 no ouvido, e a música "Anjo Mais Velho" de Teatro Mágico, tocou novamente.

"A cena repete a cena se inverte
Enchendo a minha alma daquilo que outrora eu deixei de acreditar
Tua palavra, tua história
Tua verdade fazendo escola
E tua ausência fazendo silêncio em todo lugar
Metade de mim
Agora é assim
De um lado a poesia, o verbo, a saudade
Do outro a luta, a força,

e a coragem pra chegar no fim
E o fim é belo incerto... depende de como você vê
O novo, o credo, a fé que você deposita em você,
Só enquanto eu respirar
Vou me lembrar de você"

Bianca foi até a casa de Vanessa. Ficou no portão, decidindo se tocaria a campanhia ou não. Com as mãos trêmulas, finalmente pressionou. Vanessa estava escrevendo um romance baseado em um sonho que havia tido na noite anterior, quando ouviu o barulho. Sem nem pensar em quem poderia ser, fora até a porta.

– Bianca... O que está fazendo aqui?

– Posso entrar? — Perguntou, vendo a tensa reação de surpresa da outra.

– C-Claro. — Vanessa abriu a porta rapidamente, ainda estranhando a visita da amiga.

Mal Vanessa entrou no seu quarto atrás da jovem, Bianca a puxou para um apertado abraço, enquanto na rádio tocava a música "Confesso" de Ana Carolina.

"Eu tranco a porta, pra todas as mentiras [...]
A hora me lembra o tempo que se perdeu
Perder é não ter a bússola
É não ter aquilo o que era seu
E o que você quer, orientação.
Já sei olhar o rio por onde a vida passa
Sem me precipitar e nem perder a hora
Escuto no silêncio que há e mim e basta,
Outro tempo começou... pra mim agora
Vou deixar a rua me levar, ver a cidade se acender"

Quando finalmente se afastaram do abraço, as duas ainda se entreolharam por um bom tempo, enquanto Bianca continuava com seus braços enlaçados a Vanessa. A música continuara.

"É, mais tenho ainda muita coisa pra arrumar,
Promessas que me fiz e ainda não cumpri
Palavras me aguardam o tempo exato pra falar
Coisas minhas, talvez você nem queira ouvir"

Bianca deu um pequeno sorriso, e admitiu.

– Senti muito sua falta.

– Eu também.

– Vanessa, eu... não sei como lidar com isso. Esses sentimentos ...

– Eu sei... — Interrompeu

– Eu sou casada, e... não posso simplesmente terminar um relacionamento depois de tantos anos... Vou precisar de um tempo para elaborar tudo isso em minha cabeça... entender o que realmente sinto por vocês dois... E decidir o que eu quero realmente.

– Eu entendo — Falou, triste.

Vanessa fora até o computador e colocou novamente a música "O amor é filme" de Cordel do Fogo Encantado. Sempre que ela estava triste gostava de ouvir aquela música. Era bom imaginar um amor em que não houvesse desilusões, sofrimentos nem aborrecimentos.

Enquanto isso, Bianca ficou em pé, parada na porta, observando a amiga se afastar. Depois que a música começou a tocar, fora até ela.

– Mas eu preciso que você saiba de uma coisa.

– Do que?

– Nesse instante... — Disse, aproximando-se de Vanessa — tudo o que eu quero é você.

Instantaneamente, Bianca trouxe Vanessa para si e lhe roubara um intenso e longo beijo, e logo depois fizera com que a amiga caísse na cama, seguindo até ela. Por instantes tudo silenciara ao redor delas. Apenas o amor e o desejo gritavam, implorando por mais e mais.

Foi quando elas voltaram a ouvir a canção, que já estava finalizando.

"É quando as emoções viram luz, e sombras e sons, movimentos
E o mundo todo vira nós dois,
Dois corações bandidos
Enquanto uma canção de amor persegue o sentimento
O Zoom-in dá ré e sobem os créditos
O amor é filme, e deus o expectador...."


FIM

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