Dúbia
17 Capítulo 17
Algumas coisas nunca mudam. Quando acordei o dia estava diferente. Eu estava só, mas não me era nenhuma novidade. Demorei mais tempo que o comum para levantar da cama no escuro do quarto. Quando cambaleei para fora do breu, minha cabeça girou. Eu acertei com força minha coxa em uma quina qualquer e empurrei a porta sobre seus trilhos com mais força do que devia. Ela bateu fazendo um estrondo pelo apartamento. Apoiei meu braço na porta e senti meu estômago revirar.
– Estela, você está bem? – falou Frank em um tom estranho. Eu não o tinha percebido, achei que estivesse só.
– Eu... – o vômito me subiu pela garganta e azedou minha boca repentinamente. Engoli-o. Frank saltou do sofá e agarrou meu braço antes que eu caísse de joelhos no chão, passou a mão pela minha cintura e me deitou sobre o sofá.
– O que foi?
Continuei calada. Parecia que eu vomitaria caso eu abrisse a boca, então eu fiquei com meus olhos bem abertos e a boca bem fechada. Eu respirava rápido tentando me manter oxigenada tempo o suficiente para a tontura passar. Eu não sabia o que estava acontecendo.
– Quer que eu chame um médico? – ele perguntou, se dando a resposta em seguida – Chamarei Thomas.
– Não – eu puxei o celular da mão dele. Ele me olhou nos olhos, confuso.
– Sim – tomou-me o celular. Enquanto eu tentava fixar meu olhar em algum ponto, ele discava e apertava minhas costas contra o sofá para que eu não levantasse. Eu chiava como um gato. Meu estômago revirava-se.
– Oi? Thomas?
Acertei um chute na costela dele mais forte do que eu desejava. Os olhos verdes ascenderam e se abriram por inteiros quando ele revirou os lábios e me fitou com os olhos enfurecidos.
– Não, esqueça. Não é nada – ele desligou o telefone. – Olha aqui – segurou meu pulso. –, eu estava tentando ajudar. Você me machucou, sabia?
– Eu pedi para não ligar.
A expressão dele caiu, como uma máscara. A raiva passou rapidamente, ele deu um sorriso fraco no canto da boca.
– Ninguém consegue se zangar com você, não é mesmo? É por isso que você tem meu irmão nas mãos. Você está melhor?
Eu não estava, minha cabeça doía latejando. – Sim.
– E o que foi aquilo? – ele disse, dando espaço entre nós. Começou a caminhar de um lado ao outro como um guarda costas, como se vigiasse algo.
– Não sei... – balancei a cabeça tentando dispersar algum pensamento. Então ele se sentou novamente no sofá, passou a mão pelo meu pulso, onde uma marca vermelha se estendia no formato de dedos.
– Sinto muito, eu não queria...
Puxei meu pulso. Ardia levemente, apenas pelo esforço que fiz para me soltar. – Não tem problema.
Tinha problema sim. Tinha vários problemas ali. Ele ia se aproximando, mais e mais, até ter o rosto perto do meu. Beijou-me e eu quis dizer pare, mas a verdade era inegável: alguma coisa nos atraía. A culpa não era minha, eu acho. Ou era. Eu sempre tive uma péssima consciência e eu nunca soube dizer realmente de quem era a culpa quando duas pessoas cediam seus corpos. Eu poderia culpá-lo, mas eu estava ali, embaixo dele, enquanto ele apertava os lábios macios sobre os meus. Eu poderia culpá-lo, e então eu enterrei meus dedos em suas costas com força e arranhei, de cima a baixo.
Antes de dizer qualquer coisa, ele se afastou de mim. Eu fiquei imóvel sobre o sofá com os olhos brilhantes e uma expressão cínica, ele colocou as mãos dentro da camisa e apalpou as próprias costas. Lágrimas vieram aos olhos de Frank quase tão rápidas quanto tiros. Ele estremeceu o corpo, sentou sobre a pernas e cobriu o rosto com a palma das mãos, como uma criança. Logo ele soluçava.
– Eu... eu não quis te machucar – eu disse, levantando e indo para o quarto, fechando a porta e voltando para o escuro. Aquilo nunca podia ter acontecido. Coisas como essas sempre vem à tona algum dia, num jantar em família ou em um bar em qualquer esquina. Esse tipo de coisa gera desconfiança e, depois de um tempo, devora tudo, mesmo depois de mil perdões e um anel de diamantes. Aquilo não podia ter acontecido, mas aconteceu.
Meu telefone tocou e eu atendi o mais rápido que pude. Thomas tinha um tom esquisito, como se estivesse preocupado, e só então me veio a cabeça o que havia acontecido antes. Eu estava passando mal, houve um telefonema.
– Não, nada. Na verdade, você acabou de me acordar – menti.
– Estranho. Ele me ligou, como se tivesse algo muito importante para dizer, e então disse que não era nada e desligou. Verifica como ele está para mim?
– Claro. Retorno a ligação em dez minutos.
– Te amo.
Atravessei o portal, sentei ao lado dele, ele continuava com os soluços e a posição de criança sobre o tapete. Segurei cada pulso suavemente e afastei as mãos dos olhos. Os espelhos brilhavam em lágrimas e estavam vermelhos como se algo tivesse caído neles.
– Ei, está tudo bem.
– Não, não está. Eu te contei sobre o que aconteceu das outras vezes só que... Meu Deus! Eu não tenho culpa. Eu só...
Dessa vez eu o beijei. Passei a mão por onde as lágrimas corriam e os soluços pararam. Ele parecia desenhar minhas costelas com os dedos, passando-os suavemente por cima do pijama e tocando-as como se fossem cordas de violão. E depois estávamos nus, e depois estávamos caídos. E ele tinha uma expressão perdida e eu tinha meu coração na mão.
A porta do apartamento se abriu quando Thomas nos olhou assustado. Frank deu um salto, correndo até a porta e puxando Thomas para perto. Pensei que Thomas fosse chorar. Ele empurrou o irmão com força contra a bancada, apertou seu queixo e abaixou o olhar para mim. Eu estava com os olhos de quimera fixos e uma expressão vazia. Ele voltou a olhar para o irmão.
Antes que pudesse socá-lo, o soltou e entrou para o quarto sem dizer nada. Frank caminhou até mim e deu meio sorriso entristecido. Eu cobri meus seios.
– Tarde demais – eu falei. Levantei, vesti a blusa de pijama e caminhei até o banheiro, trancando a porta ao entrar. Meu Deus, como o mundo pareceu me esmagar. Eu sentei sobre o sanitário e apoiei meu rosto sobre meus cotovelos, olhando para o meu reflexo no pequeno espelho. Pois ali estava ela, a quimera.
Engraçado que, quando comecei a acreditar no amor, tudo pareceu ficar mais fácil. Mas agora entendo porque os poetas sempre tiveram dificuldades em definir. O amor é um confuso sentimento abstrato. Uma mistura de todos os outros. Porque ele é capaz de trazer a felicidade repentina e o desespero avassalador na mesma proporção, e é capaz de existir para mil pessoas diferentes, em mil intensidades diferentes, sem nunca ser maior para ninguém. Eu amava meus pais e meu irmão. Eu dizia que não, mas eu sabia que sim. Eu dizia que não e abria todos aqueles livros e tentava provar para mim que não, não existia. Negar a existência de algo não o torna imune a ele. E é assustadora a ideia de estar amando alguém.
Tremulei em calafrios quando voltei a observar meu rosto no espelho.
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