Dívidas

1 Capítulo Único


Notas iniciais
:x

Dívidas

O barulho do salto contra piso de mármore não poderia ser abafado pelo barulho da chuva a fora. À primeira vista, os passos pareciam raivosos, apressados. Mas o homem que os ouvia aguardou pacientemente, sabendo que cedo ou tarde viriam ao seu encontro.

Dados como mal presságio por aqueles que os ouvem e também o horário de sua vinda, os passos poderiam atemorizar qualquer um. Mas não aquele ouvinte. Desenhando ao invés de escrever, o homem deslizava suas belas palavras no papel amarelado com a uma graciosa pena. E ele sequer interrompeu seu raciocínio ao ouvir os passos.

Quando percebeu que a mulher já entrara em seu escritório e provavelmente o fitava com as belas pupilas castanhas, por uma fração de segundo – sendo ela totalmente duvidosa — , Jericho Swain levantou seus olhos. Como que para apenas certificar-se de sua presença, os olhos vermelhos voltaram rapidamente a encarar o papel, como se sequer tivessem se mexido.

A mulher exibiu a linha de um sorriso, duvidando daqueles atos.

Não terei a noite inteira. – Ele disse. – O que tiver que falar, fale de uma vez.

Ela se moveu rápido, como um trovão, quase imperceptível aos olhos. Aparecendo sentada em cima da longa mesa de madeira, LeBlanc encostava o seu dedo mindinho no pequeno pote contendo tinta preta, e também quase tocava na mão direita de Swain.

Parando de escrever no mesmo momento, ele insinuou soltar a pena. Mas aquela mulher gostava de provocar, ele sabia. Por isso, não foi uma surpresa ao ver a tinta preta escorrendo lentamente do pote virado. Consumindo toda a sua delicada caligrafia, espalhava-se apagando em preto tudo.

Sentindo falta de atenção? — Swain perguntou-lhe ainda sem a olhar, com um rápido sorriso amargo em seus lábios camuflados.

Separando o papel de alguns outros que estavam abaixo – e que não estavam manchados – , ele o amassou e garantiu que a tinta não vazaria mais antes de jogá-lo no lixo.

Swain sentia o clima da insatisfação no ar, pairando sobre ele e fazendo-o, por fim, olhá-la.

Assim está bom. – Não houve nenhum sorriso em seu rosto ao dizê-lo. – Não deveria ficar irritado por um simples pedaço de papel manchado. Também não é como se eu não soubesse o que você escrevia ali.

Suas observações são sempre falhas quando se trata de mim. — Swain a respondeu, levantando-se da cadeira e a olhando por cima. – Não sente seu orgulho queimar? — Ele franziu o cenho enquanto perguntava, a face sendo terrivelmente sombria quando séria.

Eu deixo o orgulho para quem vive dele. – Os lábios pintados silabaram as palavras, mostrando um pouco dos dentes brancos. Ela cruzou as pernas nuas, quase tocando seu salto nas calças escuras de Swain. – No meu caso, eu devo ser flexível.

Está falando de você hoje. — Ele sorriu debaixo do pano, sabendo que ela não poderia ver. – Mas creio que está confundindo orgulho com honra.

O riso de LeBlanc pairou pelo ar, soando mais a descrença do que como a graça.

Diga o que quer. — Swain voltou a repetir. Pela primeira vez, seus olhos vermelhos largaram dos dela, encarando o corpo a sua frente mecanicamente, aproveitando as frações dos segundos em cada parte observada. – Não viria aqui para esconder-se da chuva.

Sobre os mesmos olhos vermelhos, LeBlanc voltou a percorrer o escritório, encostando-se contra a estante de livros. Jericho Swain sabia perfeitamente em como não confiar em seus próprios olhos na presença daquela mulher. Suas ilusões eram previstas, e nem na primeira vez que a viu o causou espanto.

Eu quero que você pague suas dívidas. – Ela sussurrou ao pé de seu ouvido. Fazendo-o rapidamente a olhar pelo canto dos olhos, mas recompondo-se de volta. – Não é sempre por causa delas que os homens perdem a cabeça?

Podia sentir o calor da respiração em sua orelha, acompanhado da maneira que já podia sentir o momento do qual os lábios também o tocariam, apesar de ainda estarem a poucos milímetros de sua pele.

Beatrice crocitou, lembrando-o de sua existência naquela sala.

Batendo as negras asas, ela levantou-se da poltrona onde descansava. Jericho Swain acompanhou o movimento da ave até a porta por onde LeBlanc entrara, sabendo exatamente para onde ela iria.¹

LeBlanc apareceu atrás da porta, desfilando enquanto a fechava sem desviar seu olhar.

Agora que estamos sozinhos... — O sorriso brincou em sua boca de forma cintilante. E novamente as ilusões tomaram os seus olhos, e ela voltou para cima de sua mesa, agora com o bico de seus saltos esfregando na perna de Swain.

Pergunto-me o que é tão importante ao ponto de expulsá-la. – Ele disse sorrindo, mas novamente ela não o veria.

Eu já disse... — LeBlanc levantou uma das pernas nuas, tocando habilmente a cintura de Swain como se o cortasse ao meio. – dívidas. — Ela sussurrou, e Swain teve certeza absoluta de ver a textura suave de sua voz pairando pelo ar.

Rapidamente, ele moveu-se até parar entre as pernas nuas dela, colocando-as de lado e fazendo-as serem apoiadas na estante atrás de si. Sem tocar nos lisos cabelos azuis, ele pegou o rosto jovem pela bochecha, segurando a nuca firmemente com seus dedos longos e frios.

Sem sequer desviar seu olhar, ele passou o dedão sobre o lábio inferior com pressão, levando para a pele pálida o batom roxo com seu movimento.

Saiba que não há oportunidades para você me enganar. — Ele sorriu, sabendo que dessa vez ela veria pela proximidade.

LeBlanc inclinou seu corpo para o dele, enquanto uma de suas mãos subia pelo braço rumo ao ombro. Já desvencilhada da mão de Swain, ela quebrou o contato de seus olhos, voltando a aproximar sua boca do ouvido.

Ela riu, fazendo o cenho de Swain tremer por milésimos de segundos.

Você está ficando velho, Jericho Swain... — Ela levantou a cabeça, levemente o olhando por cima. – Não deveria confiar em pessoas novas...

Aquele sorriso ainda brincava em seus lábios.

Ao senti-la se afastar, Swain viu com clareza as correntes mágicas, acorrentando suas duas mãos. Não pode deixar de afiar o olhar vermelho, mas não transpareceu a surpresa.

As correntes de LeBlanc eram para aqueles que não queriam as ver. Mas com Jericho Swain, aquilo era totalmente diferente: elas só estavam justamente ali porque ele queria.

Evaine. — Ele afirmou o seu nome, sabendo que em vez de se soar como um aviso, soaria como uma súplica para os ouvidos daquela mulher.

Ela rapidamente abaixou o lenço que cobria a sua boca, pressionando o dedo indicador contra ela, o impedindo de falar. Por trás do sorriso branco, a língua brincava em nananinanão, enquanto ela balançava a cabeça negativamente.

Notas finais
A Shi vai me matar por esse final, mas eu amo torturar. :~ 1. Acho que vou deixar pra Shi imaginar pra onde ela vai.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!