Dê-me a sua mão
3 3. Bárbara
Notas iniciais
Um dos meus sonhos mais frequentes era com balanços. À medida que deles me aproximava, mais distante me encontrava. Hoje sonhei que havia um balanço de cordas na colina e ela me empurrava para que eu fosse mais alto e revivesse aquele delicioso frio na barriga com gosto de infância, estávamos juntas como se nada tivesse acontecido e a realidade fosse aquele amargo na língua.
Então, eu acordei. Por mais que tenha dormido por quase dez horas, o corpo não correspondeu às expectativas. A dor emocional revela-se tão cruel porque os mais incautos limitam o sofrimento a "frescura" e "mania de chamar atenção", porém mal sabem eles o tormento de uma emoção mal-resolvida ser tão poderosa a ponto de repercutir no aspecto físico.
A distância amplifica os incômodos ruídos da melancolia, ressalta meu desgosto pelo cinza e a solidão torna-se tão espaçosa quanto um móvel que destoa da proposta pensada para aquele ambiente. Aquilo que a alma cala, o corpo faz questão de expurgar.
Se eu quisesse chamar a atenção, criaria uma conta no Tik Tok para postar vídeos dançando funk e ralando a bunda até o chão. Um decreto já vigora entre mim e mim mesma e eu o internalizo para levar adiante: nunca invalidar a dor alheia, tampouco a sua. Não importa se fulano passa por coisas piores, se o seu mundo estiver um caos, você não tem que sentir culpa e minimizar o que te incomoda. Se você sente dor, angústia, raiva, fale sobre isso, anule essa crença que uma pessoa boa não pode sentir certas coisas. Pessoas boas são humanas e se irritarem, falarem um palavrão ou se revoltarem não apaga a beleza da alma, aliás, a reacende, porque beleza encantadora vai além de uma casca, transborda de dentro, encanta.
Deveríamos ser mais gentis uns com os outros. E não somos. Às vezes o nosso coração está tão quebrado que num dado momento nos tornamos um pouco egoístas, mas tudo bem, quando o mundo desmorona sobre a sua cabeça, só você sabe o quanto pesa nos ombros carregar todo esse entulho, todavia, é sempre bom ter alguém para compartilhar nossos sentimentos e para nos ajudar a enxergar a situação sob outro prisma, para isso servem nossos verdadeiros amores. Nossos pais, avós, irmãos, amigos (tão amigos que irmãos de alma são) e também as pessoas que nos fazem acreditar que vale a pena dar um passo adiante e cultivar esse sonho tão lindo de ter a nossa própria família, levando adiante aquilo que aprendemos para que os exemplos bons não feneçam. Que seja um círculo restrito de gente, mas valha a pena sofrer. Porque elas, diante de uma inevitável consternação, estarão presentes para te socorrer, cada um guarda a sua dor no bolso para acolher quem chora.
Sabe essa mãozinha nervosa que adora ler o texto alheio para caçar "erros" e me demonizar porque eu não sou uma reencarnação do Machado de Assis?
Então, segure-a.
Você tem o direito de não gostar da minha arte e eu lhe asseguro que não me ofende de maneira alguma que você leia e não se identifique com o meu jeito de escrever, a minha personalidade, o meu jeito de amar, entretanto, aprofunde esse pensamento e se pergunte se sua crítica visa me invalidar ou mesmo impedir que eu possa me expressar ou se ela é pertinente.
Uma palavra destrói alguém, não seja filha da puta, o mundo já vai mal, ninguém tem certeza acerca do amanhã, se você é frustrada na sua área, em vez de descontar o recalque nos outros, lute mais e curse Direito, deixe Letras para quem tiver vocação para a docência e uma mente aberta porque uma professora bem-resolvida pode empoderar tanto quanto uma influenciadora famosa.
Eu gostaria de te dizer umas palavrinhas antes de prosseguir: você não é o centro do universo e as pessoas não têm obrigação nenhuma de te agradar. Não vomite o ódio que você sente por si mesma na arte alheia. A sua crítica construtiva é o machado que destrói sonhos e eu trombei com semelhantes vermes durante minha vida inteira, com máscaras e entonações diferentes, mas o propósito em comum: calar-me.
Amo exemplificar para auxiliar a compreensão. Até eu atinar o que significava invalidação do meu ser, eu era uma águia que por infelicidade do destino caiu do ninho e foi criada como pomba. Por ser diferente das outras, era vista com maus olhos. Ela não via outras águias e nunca seria um pombo. Sem saber da sua força interior, do quão alto poderia voar, mendigava grãos de milho no chão, amargando exclusão e outras formas de abuso.
Para te situar sobre a águia no meio das pombas, que tal uma continha simples: Bárbara Batista + Ensino Médio. O resultado, você saberá mais adiante, foi desastroso. Bendito seja quem concluiu que depois de tempestade vem a bonança. Alguns de nós se desesperam porque o temporal não cessa, o barulho do granizo tocando o telhado e rachando os vidros da janela é desesperador, tanto quanto não enxergar nada adiante. A vida ensina, aprende quem insiste e também quem se machuca, mas não desiste.
Ontem eu tive uma crise. Meu balde da paciência se encheu tanto que transbordei. Ainda dói. E chove tanto lá fora, faz frio, até o céu anda carrancudo. Entre alternâncias se dá o ciclo da vida, o sol voltará tão reluzente quanto aquele infinito azul que eu queria alcançar enquanto ela me empurrava no balanço, rindo junto comigo.
Eu já conheço os ventos que precedem grandes tempestades. O medo ainda me paralisa, porém eu já me desesperei mais, hoje mensuro que se não encontrar explicação lógica para tudo que me ocorre, posso extrair algum aprendizado e "passar de fase", detalhe que a Bárbara de dez anos atrás ignorava.
Um dia estaremos juntas novamente.
— Babs
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