Dust in the Wind
4 A transformação
Notas iniciais

Washington — DC
— Do que está falando, Wendy? — perguntava Vanessa preocupada.
Wendy sentou na cama de Vanessa, apoiando os cotovelos nas pernas e afundando o rosto nas mãos. A garota chorava compulsivamente. Enquanto Vanessa ficou em pé a olhando muito preocupada, mas sem nada entender.
— Eu não queria que nada disso tivesse acontecido — dizia Wendy soluçando, mas ainda na mesma posição — eu só queria que o Daniel voltasse para mim.
— Quem é Daniel? — perguntou Vanessa sentando-se do lado de Wendy e passando as mãos nos seus cabelos.
— Daniel era meu namorado, ele terminou comigo para ficar com a Rachael... e eu não aceitei isso.
Nesse momento Ravenna entrou no quarto deixando as duas constrangidas. Wendy limpou as lágrimas, tentando disfarçar que estava chorando. Ravenna olhou desconfiada, mas nada disse. Então sentou na sua cama, enquanto as duas continuaram sentadas na cama de Vanessa praticamente imóveis.
— Vai ter uma festa hoje na cada do Craig — disse Ravenna quebrando o silêncio que havia se instaurado por alguns segundos no quarto — e ele disse que quer tiver, Wendy.
— Eu não sei vou — respondeu a garota controlando o choro — tenho muita coisa para fazer hoje.
— Bem, eu só dei o recado — falou Ravenna deitando-se na cama — ele disse também que você pode levar essa daí se quiser.
— Essa daí tem nome — retrucou Wendy irritada, mas Ravenna deu de ombros sem dar importância.
Vanessa e Wendy se entreolharam e resolveram sair logo do quarto e irem ao shopping.
Ravenna era muito amiga de Wendy, assim que esta última chegou de Londres. E quando Vanessa foi para o quarto, as três ficaram amigas, mas por algum motivo, que Wendy não sabia qual era, Ravenna havia mudado nos últimos meses e sempre que podia provocava Vanessa, não era na mesma intensidade que Michele, mas provocava muito.
Então era melhor sair dali e foi isso que fizeram. Quando ambas entraram no carro de Wendy, Vanessa resolveu voltar ao assunto que não haviam concluído no quarto.
— Do que você falava no quarto? — perguntou Vanessa — quem é Daniel?
Wendy ficou calada, mas Vanessa insistiu.
— E essa Rachael é a garota que você falou agora há pouco? A que morreu?
Wendy agora estava mais calma do que outrora, por isso tentou desconversar com Vanessa. Certamente a amiga não entenderia e a julgaria pelo erro que cometeu, por isso, por mais que a garota precisasse desabafar, não seria uma boa ideia.
— Desculpe, Vanessa — respondeu Wendy enquanto dava partida no carro — eu falei as coisas no calor da emoção. Nada disso faz sentido.
— O que aconteceu com essa Rachael? Como ela morreu? — perguntou Vanessa muito intrigada.
— Não importa — respondeu Wendy respirando fundo enquanto dirigia.
— E o Daniel? Quem é?
— DAR PARA PARAR DE FAZER PERGUNTAS — gritou Wendy já bastante estressada.
Wendy ficou nervosa por causa da reação que teve. E Vanessa ficou assustada com a atitude da amiga, que sempre demonstrava ser calma.
— Desculpe, eu não queria falar assim com você — disse Wendy — eu sinto muito de verdade.
— Tudo bem — respondeu Vanessa ainda um pouco assustada — eu não deveria ter feito tantas perguntas. Afinal, não é da minha conta.
O clima ficou pesado no carro, então as duas seguiram rumo ao shopping no mais completo silêncio.
***
Quantico — Virgínia.
Spencer ainda estava na sala de Hotch, o esperando. O rapaz por mais que tentasse se controlar, estava muito ansioso. Ele não tinha certeza quanto aos seus sentimentos por Wendy, foi tudo tão rápido e tão intenso, todavia ele sabia que sentia algo especial por ela. Já se passou sete meses desde que a conheceu e desde então, não houve um dia sequer que ele não tenha pensado nela.
Só que o rapaz nunca teve coragem dizer a ela o que sente. Ela era tão linda e tão doce, porém sentia que era utopia pensar em ter algo com ela. Certamente se tivessem se conhecidos na escola, ela seria a rainha do baile e ele somente o nerd desajeitado, sem a mínima chance de dar certo.
No entanto Wendy era diferente de todas as meninas que conheceu no pouco tempo que ficou na escola, já que ele se formou no ensino médio com 12 anos. Ela não julgava as pessoas pela aparência ou por qualquer outra característica. Sempre buscando fazer o bem para todos, apesar de ser uma garota triste.
Sim, ela sorria, brincava, mas não tinha um brilho nos olhos. Seu olhar era de tristeza. Algo dentro dela, a atormentava.
Ele a conheceu assim, mas ela havia sido sequestrada pelo ex-padrasto e estava com uma bomba no corpo, era natural está assim. Porém mesmo depois de tudo isso, ela continuava com o mesmo olhar, com o mesmo incômodo.
Seriam resquícios dos anos de tortura psicológica que ela sofreu por parte do padrasto e do terapeuta? Ou havia algo mais? Eram perguntas sem respostas, das quais ele deveria descobrir as respostas.
Seus pensamentos estavam longe quando Hotch entrou, que este teve que chamá-lo várias vezes para que o olhasse.
— Perdão. O que estava dizendo? — perguntou Spencer vendo o chefe mais uma vez sentado na sua frente.
— Que a Strauss concordou com suas férias — respondeu Hotch — você já está com muitas acumuladas, por isso, ela concordou.
— Então, eu posso ir? — perguntou Reid entusiasmado.
— Eu vou resolver algumas burocracias, porém acredito que nada será impeditivo. Então já pode ir se quiser — respondeu Hotch em um tom sério, mas feliz pelo entusiasmo do rapaz.
Rapidamente Reid pegou o celular para ligar para Wendy e contar a novidade.
***
Washington — DC
Wendy e Vanessa entravam no shopping ainda caladas. Caminharam um pouco no mais completo silêncio, até que Wendy resolveu quebrar o silêncio.
— Está chateada comigo? — perguntou Wendy.
— Não, está tudo bem — respondeu Vanessa triste — eu só estou pensativa mesmo.
— A forma como eu falei, te magoou?
— Esquece, Wendy — pediu Vanessa forçando um sorriso — você não queria falar e eu estava insistindo.
— Esquecer como? Se você parece está chateada.
— Não é você, não é por sua causa ou por causa do que aconteceu agora há pouco. Eu entendi sua reação, eu que me intrometi demais.
— Mesmo que você tivesse se intrometido demais, você não pode deixar as pessoas falarem com você dessa forma. Você merece respeito.
— Mas Wendy...
— Até quando você vai deixar as pessoas te rebaixarem? — perguntou Wendy parando e fazendo Vanessa parar. As duas ficaram frente a frente se encarando.
— O que eu posso fazer? As pessoas não querem me respeitar?
— O respeito é um direito seu, se as pessoas não te dão de livre e bom grado, você tem que se impor.
— Parece tão fácil na teoria... porém na prática, contrariar essas pessoas é deixá-las ainda mais irritadas.
— Irritadas por quê? Por que elas não podem te humilhar e você aceitar quieta? — Wendy falava irritada e voltou a caminhar e Vanessa acompanhou seus passos.
— Você demonstra ter um ódio de pessoas que humilham as outras? E olha que não acho que você faz o tipo que sofre ou sofria nas mãos desse tipo de gente.
Wendy nada respondeu, foi salva pela ligação de Reid que lhe contou a novidade e estava indo viajar para vê-la.
Após isso, as garotas continuaram caminhando até chegarem a praça de alimentação, onde haviam marcado com a Senhora Baxter. Que estava sentada bem no começo, no primeiro restaurante, então não tiveram muito trabalho para achá-la.
Ela continuava vestida de preto, mas seu semblante estava mais alegre e esperançoso. Wendy se aproximou e logo Mary foi a seu encontro e a abraçou. Um abraço forte e acolhedor.
Wendy se sentia culpada por estar abraçando aquela a quem ela tanto fez mal, mas retribuiu o abraço na esperança de levar paz ao coração tão angustiado daquela mãe.
***
Londres — Inglaterra.
Lilly caminhava ansiosa por seu quarto. Um quarto com a estrutura parecida com o de Daniel, a única diferença, era que o dela não tinha TV, no lugar havia uma estante com vários livros.
Ela deitava e se levantava, estava inquieta e seu coração estava aflito. Então pegou o celular e fez uma ligação. Em poucos segundos a outra pessoa atendeu.
— Alô! — falou a voz feminina do outro lado da linha.
— Jessyca? Sou eu, Lilly.
— Lilly? Por que está me ligando? Não se lembra do que a gente combinou?
— Eu sei, mas é urgente...
— O que foi?
— É o Daniel... — ela respondeu indo em direção ao banheiro e praticamente sussurrando no telefone — ele está indo para a América, ele vai atrás de Wendy.
— Mas o que deu na cabeça desse “bitolado” do seu irmão?
— A mamãe morreu está com dois dias... e agora ele cismou que precisa fazer justiça pela morte da Rachael.
— Isso é ruim... muito ruim!
— Sim, e ele pode descobrir que a gente também estava naquela noite na casa da Rachael junto com Wendy.
— Xiu... não fale essas coisas por telefone — pediu Jessyca fazendo uma pausa — tenta fazer ele mudar de ideia.
— Eu já tentei, ele não quer — Lilly respirou fundo ainda muito apreensiva — a Wendy assumiu sozinha uma culpa que é de nós três.
— Era mais fácil para ela se livrar das acusações... o padrasto dela era muito influente e a livrou não foi?
— Eu sei, mas e a gente? Daniel nunca vai me perdoar.
— Você e Wendy tem que colocar na cabeça de vocês que aquela garota não girava bem da cabeça... e o que aconteceu com ela foi fruto das doidices dela, não tivemos culpa.
— Não é assim que Daniel pensa. E se ele pressionar Wendy e ela entregar a gente?
— A gente diz que a ideia foi de Wendy e que só estávamos no lugar errado na hora errada.
— Mas não é bem assim que me lembro das coisas terem acontecido...
Jessyca respirou fundo, ela estava impaciente.
— Eu vou ligar para Wendy e contar que meu irmão está indo — disse Lilly.
— NÃO — gritou Jessyca, em seguida baixou o tom de voz — vamos marcar um encontro pessoalmente, assim podemos conversar melhor. Por telefone não dar.
— Tudo bem, vamos marcar!
— Daqui há duas horas no “Perkins Bar”.
— Está certo.
***
Washington — DC
Enquanto Vanessa estava no salão arrumando o cabelo, Mary e Wendy conversavam na sala de espera.
— E como você e o senhor Baxter faziam para manter o casamento com a senhora lá em Londres e ele aqui nos Estados Unidos?
— Na verdade, não há senhor Baxter, somente meu pai mesmo, mas que já está no céu. Eu fui casada com Bryan Collins, que é o pai da Rachael. Mas estávamos separado quando estava em Londres. Lá, eu morava com outro homem: Michael Scott. Mas nos separamos depois da morte da Rachael. Então resolvi voltar para o meu país.
— Nossa, desculpa a mancada...
— Não se preocupe — falou Mary ficando em silêncio por alguns segundos — pois, é... eu acho que Rachael não associou bem o fato de termos que ter ido morar em Londres, acabou ficando longe do pai. Ela tinha quinze anos quando fomos para lá. Rachael e Michael não se davam muito bem, então você pode imaginar a barra que foi.
— Imagino bem melhor do que a senhora acha — disse Wendy.
— Por que diz isso?
— Por que meus pais se separaram quando eu tinha oito anos. Assim que completei onze, minha mãe ganhou uma proposta de emprego em Londres e fomos morar lá e tudo que eu mais queria era voltar para cá e que meus pais se retomassem o casamento... todavia fiquei em Londres até completar o ensino médio, pois a mãe se casou com um homem que eu não suportava.
— Você e Rachael tinham muitas coisas em comum, deviam ser muito amigas.
Wendy sorriu sem graça para aquela mulher. Ela sentia que estava a enganando por não contar a verdade sobre como era seu relacionamento com Rachael.
— Não éramos tão amigas como a senhora imagina... mas ela sempre foi muito legal comigo. Ela inclusive me disse que o pai dela, Bryan Collins, conhecia meu pai...
— Seu pai? Quem é seu pai? — perguntou Mary curiosa.
— Aaron Hotchner, ele é analista de perfis e chefe da Unidade de Análise Comportamental do FBI...
— Eu sei quem é Aaron Hotchner — falou Mary empolgada interrompendo Wendy.
E as duas continuaram conversando... de certa forma, Wendy se sentiu aliviada em conversar com aquela mulher. Por alguns segundos ela esqueceu de tudo que a atormentava, mas foi somente por poucos segundos.
Ajudar aquela mulher a superar a perda da filha, seria outro voto que faria consigo mesmo na tentativa de diminuir sua culpa.
Na sua lista já tinha a Vanessa, o Spencer, a sua mãe e seu irmãozinho, além dos idosos da Fundação George Washington, onde ela prestava serviço voluntário. Agora Mary Baxter entraria para a lista.
As duas conversaram bastante. Wendy contou do seu envolvimento com Spencer Reid, do sequestro que sofrera há alguns meses. Sobre o vôlei. Ela também ouviu bastante as histórias da Senhora Baxter. Porém omitiu a parte das humilhações que fazia a Rachael, apesar de ter vontade de contar tudo e se ajoelhar aos pés daquela mulher e implorar pelo perdão dela. Porém a garota chegou à conclusão que seria uma dor desnecessária que causaria ao coração daquela mulher que já sofria tanto.
Foi uma tarde muito boa para ambas as almas atormentadas.
***
Mais tarde, naquele dia... depois de horas no salão e depois comprando roupas ao lado de Wendy e da Senhora Baxter, Vanessa finalmente havia “sofrido” a transformação.
Os cabelos que outrora eram longos e retos, ela cortou um pouco abaixo dos ombros. As sobrancelhas que estavam “por fazer”, foram pigmentas. Os cabelos que eram loiros, ficaram pretos, além de hidratados e com mais brilho.
Uma maquiagem leve, mas que fez muita diferença para quem não usava de jeito nenhum.
As roupas que eram sempre longas, deu lugar a um vestido preto, alça fina, até a altura dos joelhos, colado no corpo.
Tudo pago pela Wendy.
Foi uma transformação e tanto... estava linda e atraente. E o mais importante: ela se sentia assim.
Quando chegou na sala de espera, onde Wendy e Mary esperavam, estas duas ficaram de boca aberta quando a viram.
— Está linda, amiga — disse Wendy, levantando-se e indo abraçá-la.
— Você acha? — perguntou Vanessa insegura desfazendo o abraço — não está achando que ficou muito exagerado?
— Não, deixa de bobagem — retrucou Wendy — acho que nós vamos na festinha do Craig hoje.
— Festa?
— Sim, arrumada desse jeito, tem que arrumar um gatinho e qual o lugar melhor para arrumar um gatinho?
— Eu não sei, Wendy... eu quase nunca vou numa festa.
— Deixa de ser boba. Vamos aproveitar que você está linda.
— A Michele vai estar lá... melhor não.
— Para de deixar a Michele ditar as regras na sua vida. Ela pega no pé de todo mundo, inclusive das amigas dela, só que ninguém deixa ela impor nada... e você vai começar a fazer isso também, entendeu?
— Certo — concordou Vanessa, mas ainda insegura — e a sua mãe? Seu pai está viajando, não vai ter que dormir com ela.
— Sim, eu vou... depois da festa.
— E o Spencer? Ele não está vindo?
— Ele vai com a gente também — Wendy fez uma pausa percebendo a tensão de amiga — mais algum empecilho?
— Não, você derrubou todos — respondeu Vanessa sorrindo.
Em seguida, as duas se despediram da Senhora Baxter. O semblante daquela mulher demonstrava está um pouco em paz. E até mesmo Wendy estava mais calma, pois trazer paz para aquele coração aflito diminuiu um pouco sua angústia.
Apesar de que, depois, os seus pensamentos voltavam a lhe atormentar: “Qual seria a reação da Senhora Baxter quando descobrisse o que ela fez com a filha dela?”. Essa pergunta estava lhe deixando aflita.
Então Wendy se lembrava da promessa que fez a si mesma, que seguiria em frente independente de qualquer coisa, e essa era a única coisa que ela conseguia dizer a si mesmo. A garota sabia que nada do que ela fizesse traria Rachael de volta, porém ela tinha que arrumar um jeito de compensar isso.
Assim que saíram do shopping, Spencer ligou dizendo que havia chegado. Wendy falou sobre a festa. O jovem, no começo, se negou a ir, mas a garota insistiu tanto que ele acabou cedendo. Depois que desligou o telefone acabou se arrependendo, o que ele faria numa festa? Ainda mais de jovens universitários. Ele nunca tinha ido a essas festas, mas sabia o que rolava nela. Definitivamente não foi uma boa ideia.
***
Londres — Inglaterra.
Jessyca e Lilly conversavam num barzinho no centro comercial de Londres.
— Eu estou muito nervosa — dizia Lilly agitada — se Daniel descobrir meu envolvimento no que aconteceu com a Rachael, ele nunca vai me perdoar.
— Escuta, Lilly — pedia insistentemente Jessyca, já que a amiga não a deixa falar — a Wendy não vai trair a gente. Nós somos fomos lá naquela noite por causa dela, não tem por que envolver a gente nisso.
— Nós fomos cúmplice de tudo que aconteceu ali...
— Quantas vezes vou ter que que te dizer que nós não tivemos culpa do que aconteceu... nem eu, nem você e nem Wendy. A garota era doida. Não sei o que seu irmão viu nela.
— Rachael era muito legal... ela ajudou muito quando a mamãe foi diagnosticada com câncer. Mas eu não queria ela namorando meu irmão. Só que o que fizemos a Rachael foi muita maldade.
— Mas nós não a matamos. Ponha isso na sua cabeça...
— Só provocamos a morte dela, somente isso...
— Para de falar isso!
— Jessyca, eu pensei bem antes de vir aqui te ver. Então resolvi vim só para te avisar que eu vou contar a verdade para o meu irmão sobre tudo que aconteceu aquela noite na casa da Rachael...
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