Dust in the Wind
50 A ideia de Emily
Notas iniciais

Washington — DC
~Uma semana depois~
Emily estava no aeroporto a caminho de Quantico com Evilyn e Wendy. Esta primeira ia apreensiva, enquanto a última parecia bastante irritada.
— Wendy, por que essa birra toda? — perguntou Emily em tom de repreensão enquanto passavam pelo portão de embarque.
— Por que eu queria ter visto esse empenho todo para pegar Phillip e não para investigar a morte dele — ela respondeu irritada —. Para mim, esse monstro já foi tarde.
— Filha, seu pai já conversou com você sobre isso.
— Ah sei: “toda pessoa acusada de um ato delituoso tem o direito de ser presumida inocente até que a culpabilidade tenha sido provada de acordo com a lei”, artigo 8º da Convenção Americana dos Direitos Humanos. Eu sei disso — ela respondeu —, a minha queixa não é contra esse artigo, mas é que parece que estão fazendo mais por Phillip do que por mim que sofri nas mãos dele.
— Meu amor, não se sinta assim — respondeu Emily —. Esse processo todo, é por que ele foi morto por agente da lei, é só um protocolo. Nós somos agentes da lei, mas isso não quer dizer que podemos sair matando por aí. Podemos matar somente quando não temos outra escolha. Mas tenho certeza que a versão de vocês se confirmará, será provado que a Evilyn matou Phillip, pois era a única alternativa que tinha e nos livraremos dessa história de uma vez por todas.
— Assim, espero — ela falou cruzando os braços enquanto se sentava na sala de espera.
***
Quantico (Virgínia)
Assim que entraram na BAU, as três deram de cara com Damon, que já as esperavam.
— Ora, ora — ele disse ironicamente encarando Evilyn que ficou ainda mais apreensiva —, finalmente nos encontramos Senhorita Blunt. Eu queria começar com a Senhorita Hotchner, mas como terminei de falar com o agente Reid, posso deixá-la por último. Eu quero você, Evilyn Blunt, que foge de mim há mais de uma semana.
— Vamos logo — ela falou firme —. Quero acabar com isso de uma vez por todas.
— Gostei de ouvir isso — ele falou pedindo que ela o acompanhasse até uma sala reservada depois da sala de Hotch.
Evilyn estava receosa, mas sabia o que tinha que dizer, por isso o acompanhou. Passados alguns minutos que os dois saíram, Hotch saiu da sala de reuniões com os demais agentes. Wendy assim que viu o pai correu ao encontro dele e o abraçou.
— Tem um tempinho para mim? — ela perguntou continuando abraçada nele.
— Depende de quanto tempo vai precisar, vamos partir em meia hora para a Filadélfia.
— Prometo ser breve.
— Então vamos na minha sala.
***
Logo que Evilyn e Damon entraram na sala, este sentou-se à mesa e pediu que ele se sentasse à sua frente.
— Tenho boas notícias — ele disse abrindo a pasta —. A perícia concluiu que você agiu na proteção da Senhorita Hotchner e que na posição que o agente Reid estava, ele não tinha ângulo para atirar. Parabéns, Senhorita Blunt, acho que você é uma heroína.
Evilyn tentava se animar com as palavras de Damon, no entanto, ela sentia um pouco de sarcasmo em suas palavras, por isso ainda não era momento de comemorar.
— Então — disse Evilyn percebendo o silêncio do agente à sua frente —, está tudo bem?
— Quase — ele respondeu fechando a pasta e apoiando os braços na mesa e a encarando —, só falta você me dizer o que fazia naquela esquina naquela noite? Por que no depoimento do agente Reid, ele disse que a encontrou por acaso no teatro e que depois você apareceu naquela esquina. Então agente Blunt, me diga, o que fazia lá?
— Isso é irrelevante — Evilyn respondeu nervosa.
Um silêncio se formou.
— Ao que tudo indica, o agente Reid está tendo um relacionamento amoroso com a filha do agente Hotchner. Eles foram a ópera juntos como um casal. Eles não te convidariam para segurar vela. Para mim, é óbvio que você não tinha que está ali.
— Mas eu estava, não é? E salvei a vida de uma pessoa muito especial para mim...
— A filha do Hotch? Uma garota que você mal conhece — ele foi enfático —. Blunt, sabe o que acho que aconteceu. Você é uma agente novata, que veio parar na BAU sabe-se lá por que. Você tinha que provar que era boa, mostrar serviço no seu primeiro mês de trabalho. Sabendo que Phillip iria atrás de Reid e da namorada, você os seguiu. E ficou esperando a oportunidade certa, assim que ele apareceu, você atirou e salvou o dia. Só que você esperava que fosse sair como uma heroína e não está aqui me dando explicações.
— Não foi nada disso.
— O que foi então? — indagou Damon abrindo os braços —. Me diz, estou querendo saber.
Evilyn baixou a cabeça por alguns segundos e depois levantou fitando Damon.
— Se não vai me indiciar, eu tenho que pedir licença — ela respondeu levantando-se —. Parece que apareceu outro caso.
— Eu ainda não terminei, por isso sente-se — Damon esticou-se na cadeira ficando bem relaxado —. Evilyn Blunt, sem uma explicação plausível para sua “aparição” naquela esquina, só posso concluir que agiu de forma premeditada. Você seguiu o agente Reid e a namorada com a intenção de matar de Phillip e sair como uma heroína. E não podemos ter esse tipo de agente no FBI, por isso vou recomendar sua demissão. E vou passar o caso para o Ministério Público para responder o processo na justiça comum e você certamente será indiciada por homicídio doloso.
— Demissão? Eu vou ser demitida?
— Sem você me dizer o que fazia lá, não tem como defendê-la. Tem certeza de que não quer falar?
— Eu já posso ir?
— Já, mas fique sabendo que esse é o fim da sua carreira no FBI.
Evilyn levantou-se e saiu da sala deixando Damon sozinho concluindo seu relatório. Quando chegou lá fora, Emily a esperava.
— O que aconteceu? — perguntou Emily.
— Eu vou ser demitida — Evilyn respondeu totalmente desnorteada.
— Mas você disse que o Hotch te orientou por telefone.
— Não adiantava dizer que Wendy era minha irmã.
— Por que você acha isso?
— Ele diria que eu agi por vingança pelos anos de abuso que ela sofreu de Phillip.
— Poderia ter ao menos tentado.
— Quanto mais Damon me pedia para falar, mas eu sentia que ele queria usar qualquer coisa que eu dissesse para me complicar ainda mais. Eu já estava condenada antes de entrar naquela sala e agora vou ser indiciada por homicídio doloso.
— Eles vão te indiciar também?
— Sim, mas não quero pensar nisso agora — ela respondeu tentando respirar calmamente —. Onde está Wendy?
— Ela foi falar com o pai — respondeu Emily —. Se ela já dizia que a justiça só defende bandidos. O que ela vai dizer quando souber que vai ser indiciada?
— Wendy só reproduz o que maioria das pessoas pensam.
— A maioria das pessoas pensam — Emily repetiu a frase de Evilyn e ficou pensativa —. Eu acho que tive uma ideia.
— Que ideia?
— Vamos, eu preciso falar com aquela analista.
— Garcia?
— Sim, essa mesma.
***
— É sobre minha mãe — disse Wendy olhando para o pai que assinava alguns papéis —. Dar para olhar para mim enquanto falo?
— Wendy, eu aceitei falar com você, mas estou no meu horário de trabalho e vamos ter que viajar daqui a pouco.
— Okay — ela respondeu convencida —. Eu tenho visto como tem agido com minha mãe nos últimos dias. No começo achei que fosse por minha causa. Afinal, vocês sempre brigam por minha causa.
Nesse momento, Hotch colocou a caneta sobre a mesa e olhou para a filha franzindo a testa.
— De onde tirou isso? — indagou Hotch.
— É só analisar tudo. Por que vocês se divorciaram a primeira vez?
— Por que eu era um marido e pai ausente.
— Não. A minha mãe entendia suas ausências, ele sempre entendeu. Foi por que eu sofria com suas ausências que ela se separou.
— Wendy...
— Pai, eu não estou aqui para falar disso, eu já superei isso, eu acho — ela falou estando confusa —. Mas o que queria dizer é que sei por que está magoado com ela.
— Sabe?
— Sei, é por causa da Evilyn, ela é minha irmã, filha da mamãe.
— Como você soube?
— Eu não sou boba, papai. Nos últimos dias percebi que as duas estavam bem próximas e também de como a Evilyn se parece com a mamãe, digo não só fisicamente, mas a postura, o modo de falar... e com a sua frieza com ela, o afastamento da vovó Liza e a Evilyn já havia me dito que era filha adotiva. Juntando isso tudo, vi que tinha algo errado ali. Pesquisei na internet, mas não achei nada a respeito. Então me lembrei que perto da faculdade tem uma biblioteca que guarda jornais antigos. Só voltei nove meses da data de nascimento da Evilyn e vi o que os jornais diziam: Filha de candidata ao senado engravida de dono de cassino preso por lavagem de dinheiro. Isso foi um escândalo na época, os adversários políticos da minha avó quiseram ligá-la ao pai da Evilyn, mas ai quando disseram que o bebê havia nascido morto, a história esfriou.
— Wendy, você não entende.
— Você que não entende, pai. Me admira você, um homem do século XXI...
— Wendy, não tem a ver com quem ela ficava antes de mim, tem a ver com confiança. Um fato importante desses que ela escondeu de mim. Ela não confiou em mim. Nessa época, eu servi a marinha, por isso não vi a repercussão do caso. Ela não podia ter escondido isso de mim.
— Pai, você é homem e talvez não entenda o que ela passou. Durante nove meses ela teve sua vida exposta pelos jornais, ela foi assediada de todas as formas e no final das contas ficou sem o que mais importava para ela, a filha. Com certeza ela suportou tudo o que suportou na esperança de ter a filha, e não teve. Então tudo que ela queria era esquecer e deixar tudo no passado. Tenho certeza que por diversas vezes ela deve ter tentado falar com você, mas acredito que para ela deva ser difícil reviver esse fato tão doloroso. E também para que ela falaria disso? Ela acreditava que o bebê havia morrido mesmo.
— Filha...
— Me escuta, pai. Eu vi o quanto minha mãe sofreu quando descobriu o que fizeram com a Ramona Bello, na época eu achei estranho e creio que o senhor também achou, mas depois de saber dessa história, dar para compreender.
— Eu sei que...
— Eu ainda não terminei — insistiu Wendy —. Ainda tem a Evilyn. Ela que arriscou a carreira para me proteger e agora para proteger sua carreira também.
— Minha carreira? Do que está falando?
— Pai, não me interrompa — ela pediu estando já exaltada —. Evilyn estava naquele dia naquela esquina por que eu pedi — Hotch olhou para a filha de boca aberta e antes que ele dissesse qualquer coisa ela continuou falando —. Naquele dia que a mamãe trouxe o Jack aqui para te ver, eu vim para a sua sala e mexi nas pastas que estavam sobre sua mesa, eu vi nos relatórios que Phillip estava solto e que na verdade eram dois. Eu entrei em desespero. Evilyn percebeu que eu não estava bem e eu acabei contando a ela o que havia descoberto. Ela se comportou como uma verdadeira irmã mais velha e quis me proteger. Sabíamos que vocês trabalhariam o fim de semana todo focado em Phillip e mesmo vocês achando que ele não viria atrás de mim, eu não conseguia deixar de sentir medo.
— Por isso você estava tão estranha, por isso acabei pedindo para Reid sair com você e ver o que você tinha.
— Mas eu já havia pedido ajuda a Evilyn. Ela prometeu que ficaria comigo até Phillip ser preso. Por esta razão ela apareceu no teatro e depois foi lá para casa. Evilyn estava esperando Reid sair para ficar comigo.
— Por que vocês não contaram essa história?
— Por que se eu dissesse que mexi nas suas coisas, o agente Damon iria dizer que o senhor não é cauteloso, sei lá, inventaria alguma coisa para te responsabilizar e não iria querer mais a cabeça da Evilyn, mas a sua, que vale bem mais — Wendy fez uma pausa para respirar e continuou —. Pai, o que quero que entenda, é que as pessoas que mais sofreram com essa história foi a minha mãe e a Evilyn. Não as façam sofrer mais.
— Tudo bem, filha. Você está coberta de razão.
Hotch abraçou a filha e após isso se despediram.
***
— Mas é loucura o que estão me pedindo — falou Garcia bastante nervosa —, eu não tenho autorização para isso.
— Entendi — falou Emily em tom de desafio —, eu só vim aqui porque me disseram que você era a melhor, mas acho que a pessoa que me disse estava enganada.
Garcia levantou a cabeça e abriu a boca perplexa quando ouviu o que Emily disse.
— Querida, você acha que não sou capaz?
— Se é tão boa assim, me prove.
— Ah, amorzinho, antes que você pisque, o relatório que me pediu estará saindo por aquela impressora.
Imediatamente começou a sair alguns papéis da impressora.
— Ainda duvida que sou a melhor? — perguntou Garcia.
— Claro que não — respondeu Emily satisfeita —. Você é a melhor.
***
Wendy saiu da sala de Hotch e tomou um susto quando percebeu que Reid estava lá fora a esperando.
— Spencer — ela disse surpresa.
— Eu queria te ver, parece que faz um século que a gente não se ver.
— Ultimamente vocês tem emendado um caso no outro e parece que já vão viajar de novo.
— Sim, mas ainda tenho alguns minutos. Vamos na copa conversar rapidamente.
— Vamos — ela disse segurando a mão dele.
Logo que chegaram à copa, Reid a abraçou e a beijou ferozmente. Estava com muitas saudades, tanto que ele a apertava contra seu corpo.
— Spencer, estamos no seu trabalho — Wendy disse enquanto ele beijava seu pescoço.
— Eu estou com tantas saudades.
— Eu também.
Ele voltou a beijar na boca da garota.
— Spencer, eu tenho uma coisa para te dizer — ela falou interrompendo o beijo, mas continuando abraçada nele.
— Pode dizer.
— Eu... eu... eu estou grávida.
Reid olhou para ela atônito e a soltou. Ele pareceu ter ficado um pouco tonto e apoiou o braço na parede para não cair.
— Grávida? — ele indagou incrédulo.
— Exatamente o que ouviu.
Ele levou as mãos a boca tentando assimilar a notícia.
— Então está ai — disse Morgan entrando na copa —, temos que partir agora, deixa para namorar quando chegar.
Wendy olhava para Reid esperando que ele dissesse algo. Por sua vez, Reid olhava para Morgan sabendo que tinha que ir, mas não podia deixar Wendy sem uma resposta.
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