Dust and Gold

16 XV. So rescue me


Notas iniciais
The End Para ver as imagens de Flamebird e Nightwing com mais detalhes, aqui: twitter.com/jonslilaceyes/status/1282315989003231232

Meses depois

A minha hora favorita do dia é o alvorecer. Quando novo, eu adorava ficar saltando pelos telhados até poder ver o sol nascer. Era estranhamente calmante e nostálgico. O alvorecer sempre me lembrava a minha mãe, assim como o calor do sol me saudando como em um abraço.

Abraços são subestimados.

E eram esses pensamentos errantes que circulavam a minha cabeça enquanto eu estava sentado no telhado do prédio onde eu morava. Tecnicamente ninguém é permitido aqui em cima e eu já tive minha cota de transgressões então não deveria estar forçando a minha sorte, no entanto...

Eu dei todo o meu esforço, suor e sangue para todas as pessoas ao meu redor. Lutei e sangrei para conseguir estar bem comigo mesmo e vez após a outra apenas fui derrubado e decepcionado. Depois de um tempo, você aprende a se tornar anestesiado com os próprios sentimentos. Afinal, todos aqueles que me amavam me abandonaram de um jeito ou de outro.

Não era... saudável a forma como eu dedicava toda a minha energia para os outros. Seres humanos estão destinados a irradiar ou drenar, e mesmo que o que eu mais queria era irradiar, no fundo eu sempre soube que apenas drenava. Era difícil definir em que pé eu estava com as pessoas ao meu redor, independente de quem seja, pois de onde eu estava tudo parecia a mesma coisa. E no final só restavam cicatrizes. No meu corpo, no meu coração e na minha alma.

Respirei fundo, apenas absorvendo o calor do sol em minha pele. Eu senti falta disso... De poder ficar simplesmente parado, sem estar sempre preocupado e em guarda, apenas esperando um ataque. Acho que essa é a melhor parte.

Então escuto um barulho bem leve, sutil, vindo de trás do mim e reprimo um sorriso. Na verdade, essa é a melhor parte.

— Cara, você acorda cedo demais. — Jon disse enquanto vinha trôpego até mim.

— Você quem deveria acordar cedo. — Disse, ríspido. — Seus poderes vêm do sol. Que tipo de kryptoniano é você que não o aproveita ao máximo? É um desperdício.

— Você está falando isso porque está com inveja, baixinho.

— Sei não. E se o preço pelos poderes ser a estupidez inerente? É um preço alto demais para se considerar.

— É, e você sabe nada sobre alto, né.

— Ah, cala a boca! — O empurrei de lado, mas não estava com raiva.

Meu peito sempre esquentava nesses momentos roubados que conseguimos ter. Mesmo tecnicamente morando juntos, não é como se Jon e eu tivéssemos muito contato. A culpa disso, eu sei bem, é toda minha. Demorei semanas para conseguir o encarar direito desde que cheguei apenas com a roupa no corpo. A sra. Lane-Kent costumava vir bastante no começo, acho que para tentar quebrar o gelo entre nós, mas serviu apenas para me deixar mais retraído.

Era difícil manter contato com Jon por longos períodos sem me sentir engasgado com milhares de coisas não ditas entre nós e eu já tinha coisas demais para lidar sozinho.

Ainda assim, Jon estava se mostrando impressionantemente paciente comigo. A felicidade dele ao me ver todos os dias era tão forte que era uma força física. O que era honestamente intimidador demais, então preferi continuar retraído. Não é como se eu não apreciasse o esforço dele, eu só... Tinha muito no que pensar. E decidir.

— Então... — Seu tom era sério e automaticamente fiquei tenso. — Agora que todas as crianças da Liga dos Assassinos já têm suas devidas famílias, o que você pretende fazer?

Ah... Sim, devia imaginar que em algum momento eu seria confrontado sobre isso.

— Não sei bem quanto a isso. — Respondi, sincero. — A Liga da Justiça sequer vai deixar eu me aventurar longe demais daqui? Não se passou tanto tempo assim para eu testar a benevolência deles.

— O que é isso? — Dessa vez foi Jon quem me empurrou de leve com o ombro. — Você está querendo pagar de bom moço? Será que fui uma influência tão boa assim?

— Pelo contrário, creio que você está mais rebelde do que jamais fui.

Ele jogou a cabeça para trás em uma gargalhada e me forcei a ignorar a sensação de agito que veio em meu estômago. Deve ser fome, comi nada desde que vim para o telhado.

— Falando sério agora. Um dia a sua prisão domiciliar vai acabar e você não mais precisar morar aqui. O que pretende fazer?

— O que você pretende fazer? — Desconversei. — Quando não tiver mais que ser minha babá, vai continuar a faculdade sem ser a distância?

— Hah, não sei. Talvez, mas não vou morar no campus. Eu ouvi histórias...

Não consegui reprimir um sorriso zombeteiro diante disso.

— Histórias? Da grande e malvada faculdade comunitária? Ora, conte, por favor.

Jon me olhou feio, não estava achando graça disso tanto quanto eu.

— Para de fugir do assunto! Eu quero saber de você. Você vai para a faculdade? Vai voltar para as empresas Wayne ou vender suas partes para o Luke? Afinal, ele é o CEO faz anos.

— É claro que vou voltar para as empresas Waynes. — Disse ríspido. — É o meu legado, não de outro qualquer. — Pausei, refletindo um pouco sobre o assunto. — Isto é, se o conselho aceitar a minha palavra de que Damian Wayne voltou...

— Se é o que você quer, tenho certeza de que o Luke vai te apoiar! — Jon me olhava sorrindo e dava para perceber em seus olhos que ele verdadeiramente acreditava nisso.

Eu riria na cara dele se não estivesse tão impressionado. Não é frequente que isso acontece, mas quando Jon me elogia ou faz algum comentário tão ridiculamente otimista, não consigo nem debochar dele. Fico me perguntando o que exatamente ele enxerga quando me vê – eu sei o que eu vejo e não é nada agradável. As vezes penso que se eu pudesse começar a ser metade do que ele pensa de mim, eu poderia fazer qualquer coisa.

Eu gostaria de saber o que o faz pensar que eu sou tão especial.

Desde criança eu pensava que talvez o meu passado fosse pesado demais para ser ignorado com minhas ações futuras, no entanto me esforçava para não ser refém do meu sangue. Eu queria ser mais. Até que deixei de ser. Sempre pensei que eu talvez pudesse ser mal, e então vi que era verdade. Porque Jon era tão bom e eu não era nada como ele.

— É... Talvez. — Falei enfim, me retraindo.

Alguma coisa em minha expressão deve ter denunciado que eu estava prestes a sair dali e me trancar em meu quarto pelas próximas horas, pois Jon imediatamente ficou agitado.

— Uh, espera! Eu queria saber sobre- sobre Robin. Você... Pretende voltar a ser um herói? Sabe, quando puder.

Isso me fez parar para pensar. Mas mesmo dando a ideia reflexão, eu já tinha a resposta na ponta da língua.

— Eu... Não sou um herói faz muito tempo. Não posso mais ser Robin, e não acho que posso ser o Batman. Não seria certo, ou apropriado.

Jon abriu a boca para argumentar, mas levantei a mão para o impedir. Eu não havia terminado.

— Além disso... Mais importante que isso, antes de eu colocar um uniforme colorido e ir salvar alguém, eu preciso salvar a mim mesmo. Estou... Trabalhando nisso. — Olhei então para as minhas cicatrizes, que iam até os braços.

Eu perdi quase toda a minha sensibilidade nos braços com as queimaduras e estou fazendo fisioterapia para conseguir recuperar toda a mobilidade delas. A minha médica, Dra. Brown, disse que minhas mãos nunca mais seriam as mesmas. E estou em paz com isso, cada cicatriz em meu corpo serve para me lembrar de minhas punições e provações. De todos os meus sacrifícios em minha eterna batalha de fazer a coisa certa.

Esse tipo de mentalidade também estava sendo trabalhada com o meu terapeuta. Demorei... um tempo até aceitar fazer a terapia. Minhas prioridades eram unicamente as crianças do Berço e deixar a minha única pendência, minha única missão em check. Toda e qualquer outra coisa além disso era perca de tempo. Porém, a Liga da Justiça havia deixado claro que a terapia não era uma escolha. Logo, demorei ainda mais a me abrir de verdade nas sessões. É um trabalho em andamento.

— Você não tem que fazer isso, pode ser simplesmente um civil.

— Eu quero. Quando minha punição acabar... Preciso fazer isso. Por mim, pela minha família e por todas as pessoas que deixei de salvar quando abandonei o manto. Apenas... Não imediatamente.

Havia destinos piores e eu sabia que precisava abraçar essa terceira chance que a vida havia me dado. E fazer valer a minha existência.

★

Desde então, sempre que Jon me via fora do quarto ele me atacava com perguntas sobre o futuro. Seja herói, civil, hobbies... Sobre se eu pretendia continuar com a pintura, se eu construiria acessórios não-letais. Se eu ainda tinha meus poderes (sim) e se eu pretendia os usar (não).

Era... Esmagador.

Principalmente porque eu estava numa missão pessoal de evitar pensar demais nele. Claro, eu sabia que não seria fácil considerando que dividimos o apartamento, mas em algum momento eu comecei a ter pensamentos. Pensamentos que estou fazendo muita força em não pensar.

Chegou ao ponto em que tudo o que eu pensava era em não pensar em Jon. Estou em uma luta contra mim mesmo em não sentir o que acho que estou sentindo, mas nada está funcionando. Estou perseguindo elevações temporárias com literalmente qualquer outra coisa, no entanto é tão exaustivo. Se ao menos eu pudesse perder a cabeça... Me desse ao luxo de me render a essas sensações. Então, talvez eu iria encontrar uma maneira de sair dessa.

Meu terapeuta acha que é uma coisa boa, o tolo. Ele não entende quanto poder o Jon está ganhando sobre mim, sobre o que eu posso fazer. Eu poderia fazer qualquer coisa para sentir que estou fazendo algo certo para ele.

Eu olho para ele e vejo, quando ele acha que não estou olhando, o quão abalado ele realmente ficou com o tempo que levou para chegarmos aqui. Foram tantos anos de puro sofrimento e ressentimento. Como posso ousar sequer cogitar algo mais além do que já tenho, que é muito mais do que mereço?

Obviamente, eu sei que na cabeça de Jon a história é outra. Ele já deve ter se resolvido a muito tempo, porque não sou um idiota. Jon sente muito mais o que diz, como sempre foi, e nunca conseguiu esconder. Acho que é isso que mais me deixa perplexo. Ele não tem um pingo de bom senso?

Então escuto uma batida na porta do meu quarto.

— Damian? Você está aí?

Resisto a vontade de revirar os olhos, principalmente porque ninguém estava ali para me ver tão exasperado.

— Quem mais estaria?

— Uh. Certo. Posso entrar?

Hesito, pensando bem sobre isso. Não seria a primeira vez que o Jon entraria no meu quarto. Na verdade, ele fazia isso bastante no início da prisão domiciliar já que ele tinha que “ficar de olho em mim”. Com o passar dos meses ele começou a respeitar meu espaço pessoal e esperava eu sair por conta própria com algumas exceções.

No entanto seria a primeira vez desde que meu terapeuta falou sobre sentimentos e como eu deveria confrontá-los ao invés de ignorá-los.

Que seja, eu não sou um covarde.

— Pode.

Quietamente, Jon flutua para dentro do meu quarto até o sofá da janela saliente. Levanto-me da cama para ficar sentado e poder olhar para ele. Me pergunto se ele percebe o quão irritante é ao ficar flutuando por aí quando ele tem duas pernas funcionais. Mas, pensando bem, se eu pudesse voar de novo, com certeza faria isso sempre que pudesse também.

— Sinto que acabei te jogando na parede com todas aquelas perguntas e acabei te assustando, vim pedir desculpas.

— Eu não estou assustado, Kent. Se enxerga! — O que é uma mentira descarada, pois ele me deixa apavorado. Só não pelos motivos que acha.

— Certo. — Ele sorri, parecendo achar graça. — Enfim, me desculpa. Eu não quero te pressionar nem nada do tipo, você é livre para fazer o que quiser agora e a última coisa que precisa é de mais uma pessoa no seu ouvido dizendo o que você tem que fazer...

Olhando para ele, não demonstro nenhuma emoção. Porém em minha mente tudo o que penso é que esse garoto não faz ideia do efeito de suas palavras em mim, do poder que ele ganha cada vez mais sobre mim. Do espaço que ele toma sem pedir licença no meu coração. Isso, acima de qualquer coisa, é que me assusta.

— Você não está me pressionando, Jon. Eu só tenho muito no que refletir, é por isso que medito. Algo que você deveria tentar, inclusive. Quem sabe assim você deixa de ser um cabeça oca?

Jon ri, aliviado. Suponho que ele estava preocupado de verdade e ignoro como isso me aquece. E daí que ele se importa tanto assim comigo? Isso não significa que ele deveria.

— Ok, que bom. Porque tenho mais uma pergunta... Mas você não precisa a ouvir agora se não quiser.

Suspiro, resignado. Já estamos aqui...

— Anda logo, Jon.

— Ok, ok... É que eu estava pensando... Que tal Asa Noturna?

Arregalo os olhos, assustado. Ele não precisava explicar do que se referia, eu ainda lembrava da nossa conversa semanas atrás sobre eu não ser nem Robin e nem Batman, mas querer ser algo. Passo a língua em meus lábios, que ficaram subitamente secos.

— Eu... Eu não sei se conseguiria, Jon. — Respondo honestamente. — O Richard... Não me considero digno de continuar o seu legado, não mais.

Não estava olhando para o Jon quando disse isso, e sim para o chão; por isso fiquei surpreso ao o ver subitamente na minha frente. Uma de suas mãos segurou a minha, enquanto a outra foi para o meu rosto, o que me fez prender a respiração. Sem saber como reagir, ou sequer como respirar, apenas o encarei de olhos arregalados.

— Que tal eu, então? — Ele perguntou carinhosamente.

— Perdão? — Honestamente, não sei o que está me deixando mais chocado: suas palavras ou suas ações.

Nunca Jon foi tão ousado ao invadir meu espaço pessoal, porém era difícil me concentrar nisso quando o significado exato de suas palavras começa a se instalar em minha mente.

Ele sorri de leve.

— Você sabe que Asa Noturna é um herói kryptoniano, né? Aposto que o Dick já te contou a história de Pássaro Flamejante e Asa Noturna.

— Ele... Sim...

— Um equilibra o outro, pois são duas partes de um todo. Sempre que Pássaro Flamejante escorrega, Asa Noturna está lá para equilibrar as coisas. Sempre. Sem Pássaro Flamejante para queimar, não há Asa Noturna para criar, e sem equilíbrio entre os dois há apenas desordem.

Eu não sei nem o que dizer diante disso. De repente, não confio muito em minha voz e como ela sairia se eu tentasse falar algo. Mordo o lábio com força, para o obrigar a parar de tremer e aperto a mão de Jon que segura a minha. Tento transmitir minha gratidão com os olhos, sem nem me preocupar com o que mais ele pode acabar vendo ali.

— Então — Jon abriu mais o sorriso, verdadeiramente feliz. —, quer ser o Pássaro Flamejante para o meu Asa Noturna?

★

Pela primeira vez em meses (nossa, já passaram quantos? Acho que já viraram anos.) me sinto empolgado com algo. Desde que Jon fez aquela oferta ingênua e tão genuína, não pude pensar em outra coisa. Era como se o Norte que eu sempre estive procurando finalmente estivesse à vista. Não era mais um futuro distante que eu planejo para “um dia”, de repente era uma possibilidade muito real.

Desenho febrilmente designs diferentes para as roupas e mesmo que tecnicamente eu não esteja nem perto de ter completado a minha sentença, não me importo com isso. Este era o meu futuro, o futuro que eu escolhi e não que me foi imposto.

Ibn foi uma máscara que usei durante muito tempo e que escolhi para me infiltrar, no entanto não era eu. Não era Damian Wayne sendo ele mesmo.

Pássaro Flamejante seria.

Jon passou a entrar mais vezes no meu quarto, o que sempre me deixava um pouco tenso. Ele insistia em me ajudar com os designs, mesmo eu deixando claro que eu era perfeitamente capaz de fazer isso sozinho.

— E qual seria a graça disso? Tudo fica melhor quando ficamos juntos!

Eu amo e odeio quando ele diz essas coisas.

Ele tagarelava sobre mais e mais histórias dos heróis kryptonianos, algumas que eu já conhecia, mas não tinha coragem de falar para ele. No fundo, eu gostava de o ouvir falando.

Jon também falava da mãe e sempre me mostrava quando alguma notícia dela parava na primeira página. Notei que ele evitava falar do pai, o que me deixava grato e incomodado ao mesmo tempo.

Não sou uma bomba relógio que vai o separar da família, se ele quer mesmo que essa... Essa dupla funcione, então precisamos ser sinceros um com o outro. Não era justo com Jon, ele se sentir obrigado a separar-se da família dessa forma.

Por isso, a tarde depois do almoço, enquanto eu lavava a louça e Jon voltava a tagarelar sobre o artigo que viu na internet da mãe dele, pergunto quietamente:

— E o seu pai? Ele escreveu alguma coisa também?

Não desviei os olhos dos pratos, por isso não sei qual foi a reação de Jon. Ele ficou em silêncio por alguns segundos, acredito que surpreso, até me responder bem lentamente.

— Ele... Escreveu sim. Você... Quer ouvir?

— É sobre o quê?

— Eu posso te mandar o link, então você lê quando quiser...

— Não. Eu quero ouvir você.

Novamente ele ficou em silêncio e tive que usar todo o meu autocontrole para não me virar e o encarar.

— Tudo bem... É sobre, uh, como um cara não pode se esconder para sempre e que Metrópolis é uma cidade forte e unida e que não deveria mais ficar nas sombras sobre as tramoias de um mafioso. Uau, eu nem sabia que Metrópolis passou a ter mafiosos! Assim, eu sabia da Interpol, mas eles são mais globais...

Reprimi um sorriso.

— Agora que você já resumiu tudo, pode simplesmente o ler agora, ou é um trabalho difícil demais para você?

Eu podia praticamente sentir ele apontando a língua para as minhas costas.

Mais tarde, fiquei refletindo enquanto meditava sobre meus sentimentos com o Superman. Não acho que algum dia deixarei de me ressentir com ele, mesmo entendendo que ele apenas fez o que achava certo. Mas além disso, ele é um bom herói – sempre foi. E é um bom pai para o Jon, dá para ver que por mais que Jon esteja feliz em morar comigo, ele também sente falta dos pais. Clark Kent sabe mais do que vir para o meu apartamento sem ser convidado e Jon não pode sair pois é minha babá.

★

Eu não estava exatamente confortável ao pedir para Jon que o pai dele viesse pois eu precisava falar com ele. Mesmo eu não... O querendo morto, por assim dizer, não é como se fôssemos próximos. Ainda assim, Jon, um pouco desconfiado, fez o que pedi.

Eu precisava falar com ele sobre duas coisas importantes. Nenhuma seria fácil, mas precisava ser feito. Tanto por mim quanto por Jon.

E foi exatamente por isso que pedi para Jon aproveitar que o pai dele estava vindo e ir comprar mantimentos.

— Mas eu já fiz as compras na semana passada!

— É, só que estamos em falta de algo muito importante.

Jon revirou os olhos. — O quê?

— Sorvete.

Isso o que fez pausar, como eu sabia que faria.

— Mentira! Eu comprei um de 20kg, como diabos você conseguiu consumir tudo isso de uma vez? E sem me chamar?!

Dei de ombros, despreocupado.

— Eu estava com bloqueio criativo e os altos níveis de glicose me ajudaram a ser mais eficiente.

Jon abriu a boca para discutir, mas foi interrompido com o nosso interfone tocando. Inocente, sorri para ele.

— Anda logo, o sorvete não será comprado sozinho.

— Não sei se isso é uma boa ideia-

— Jon. — Meu sorriso desapareceu. — Por favor? A conversa não é para você e não consigo ter privacidade com a sua super audição bem do lado.

Jon resmungou para si mesmo e concordou, finalmente. Acho que esse é o lado bom dele ter crescido com alguém com os mesmos poderes irritantes dele: saber exatamente quando a privacidade é necessária. Então ele enfim foi embora e tentei não pensar demais no sentimento desagradável que apareceu ao vê-lo saindo pela porta.

Pouco depois, o pai dele apareceu.

— Você queria me ver? — Kent perguntou, desconfiado.

Pelo menos ele não veio vestido como Superman, suponho que devo considerar isso uma vitória. Jon nos deu licença e saiu para o mercado. No entanto, estou disposto a apostar todas as minhas ações nas Empresas Wayne de que ele estava usando a super audição em força total para ficar de olho em nós.

— Querer não é a palavra certa. — Respondi. — É mais uma necessidade.

— Depois de dois anos? Bem, você certamente tem minha curiosidade. Que necessidade é essa?

Não o respondi imediatamente, usando o meu tempo para o encarar. Esperei que aquele fogo escaldante de ódio viesse enquanto eu o olhava, esperei que meus punhos automaticamente se fechassem, e, no entanto... Nada. Eu sentia nada.

— Para ter certeza de uma coisa, e acho que agora tenho. Aliás, você quer tomar alguma coisa? Se sim vai ter que fazer você mesmo, eu não cozinho.

Por um segundo Kent pareceu perplexo, como se tivesse visto um fantasma, antes de rir.

— Afinal, Jon saiu para quê?

— Ele precisava comprar os mantimentos.

Kent pausou, passando os olhos pela cozinha.

— Mas os seus armários e geladeira estão cheios.

— Tinha acabado o sorvete.

Um músculo no rosto dele tremeu, tentando não sorrir.

— Damian, você pretende explicar o motivo de ter pedido para o Jon me chamar e então o mandar sair?

Suspirei. Sempre o jornalista, não é mesmo?

— Não quero que o Jon se afaste de você por minha causa, isso não seria bom para ninguém. Eu... — não te odeio mais — não acho sua presença completamente intolerável mais.

— Sei. — Não tive dúvidas de que ele estava ouvindo meus batimentos cardíacos para ver se eu estava mentindo. — Bem, nesse caso acho que vou esperar ele voltar com o sorvete.

— Você só quer o sorvete. — Rebati, arqueando a sobrancelha.

— Culpado. — Ele deu de ombros, sorrindo.

Não sorri de volta, mas não acho que isso o incomodou. Era nítido que ele estava empolgado em poder voltar a ter mais contato com o filho. Senti uma pontada de culpa por ser a razão de os manter separados, mas tentei ignorar. Como é mesmo que meu terapeuta diz? Não há nada a fazer com o passado além de o deixar ir para poder confrontar o futuro.

— Além disso, eu quero te pedir algo... Sei que ainda estou em prisão domiciliar, e juro que não estou tentando fugir ou algo assim. É só algo que preciso fazer e tem que ser sozinho.

Kent levantou a sobrancelha, desconfiado.

— Você não é exatamente a pessoa mais fácil de se encontrar quando decide desaparecer, Damian, então tem que entender o motivo do meu receio aqui.

Mordi o lábio, pensando. Ele tinha um ponto aqui, mas mesmo assim...

— Não vou fazer isso com o Jon. Não de novo.

Kent me encarou, como se estivesse me decifrando, e pela primeira vez, não escondi minhas emoções em minhas expressões. Eu precisava ser o mais honesto possível se queria o meu pedido atendido.

— Certo, vamos ouvir...

★

Encaro os quatro túmulos abaixo de mim. Um ponto distante de minha mente se pergunta se eles sequer estão aqui mesmo, se Superman devolveu os corpos para os devidos lugares. Bem, não importa.

— Olá, pai. Grayson, Todd... Até você, Drake. — Digo para o nada.

Pauso, pensando no que dizer. A última vez que falei com os mortos desse jeito foi com meus avós, e na ocasião eu só queria xingar o meu pai.

— Ah, como sequer começar isso? — Me pergunto em voz alta. — Aposto que os decepcionei. Mesmo em vida eu os decepcionava, não é?... Que seja, eu vou só... Só colocar para fora. Não sei se vocês vão me ouvir ou não, e não vou perder tempo pensando em metafísica.

Respiro fundo, organizando meus pensamentos.

— Grayson. Richard. Eu te amo mais do que você jamais soube, eu sou um homem porque você me ensinou a ser um. Você colocou toda a sua fé em mim, me deu o mundo que eu queria. O que eu sequer fiz para te merecer? Eu era um fedelho mal agradecido e mal educado. Eu... Sinto muito que nunca disse isso para você em vida, mas eu preciso que você saiba que eu sempre te escutei, mesmo quando fingia que não. Cada palavra. E agora eu... Eu sigo seus passos do jeito que posso. Espero que não se importe de eu não seguir o seu legado, não acho que... Que seria apropriado. Mas Jon será um bom Asa Noturna. Você sempre gostou dele, não é?

Droga, começou a chover.

— Todd. Jason. Nós éramos os Robins Mortos. Não é irônico que agora você esteja morto e eu não? Por que diabos você foi morrer de novo? Sua vida já não tinha sido picotada o suficiente? Odeio que você tenha passado por isso de novo. Você era o meu irmão mais velho descolado, que não se importava de me ver treinando com adagas, que entendia quando tudo o que eu queria era gritar e esfaquear o primeiro vilão que aparecesse na minha frente. Você sabe disso, não é?

— Drake. Timothy, Tim. Quantas vezes eu te disse que queria você morto? E desde quando você escuta o que eu digo? Acho que um dos meus maiores arrependimentos é que eu nunca sequer te dei a chance de nos aproximarmos, eu pensava que você nunca mudaria a sua opinião sobre mim e não fazia questão de trabalhar nisso. Só que isso era uma mentira, eu queria a sua aprovação. Eu gostava de você Tim, e odeio que você tenha morrido sofrendo em um hospital. Droga, eu nunca te odiei. Você sabia disso, não é? Droga, espero mesmo que saiba, porque não vou repetir essas coisas piegas.

— ...Pai. Eu esperei tempo demais para dizer isso para você, tudo o que você significou para mim. Eu achava que você não me levaria a sério se eu dissesse essas coisas, e do que isso adiantou? Você está morto e nem sei se sequer está me ouvindo agora. — Tentei controlar minha respiração trêmula. — A verdade é que sou tudo o que sou por sua causa. Você me acolheu e me ajudou. E eu nunca fui bom para você, não é? Minhas expectativas sobre você eram tantas que nunca te enxerguei pelo que realmente: Só um homem. Mas, pai, você não era só um homem. Você era o meu herói e não falo apenas de Batman... E... Pedaços de mim sempre serão pedaços de você também, pai. Então... Enquanto eu estiver aqui como eu sou, como eu realmente sou, você também está. Porque não importa o que aconteça, no fim do dia eu ainda sou o seu filho.

Cai de joelhos, encarando as lápides. Maldita chuva, turvando toda a minha visão.

— Damian, querido? Eu suspeitei que te encontraria aqui.

Essa voz... Chocado, virei de supetão para ver a silhueta de minha mãe. Ali, no cemitério dos Wayne.

— Mãe? O que está fazendo aqui, nessa chuva?

— O quê? Mas não está- ah. — Suas feições se suavizaram. — Acredite, meu bem, eu queria ter te visitado antes, mas suas... circunstâncias, me impediam de te ver.

Ela veio até minha direção e se sentou do meu lado, junto as lápides. Ela olhou tristemente para a lápide que dizia:

Bruce Wayne
Amado pai, amigo e filho

As vezes era fácil esquecer que não foi só que perdeu alguém especial.

— Você está bem? — Perguntei.

Ela estendeu um braço e me abraço de lado, encaixando a cabeça no meu ombro.

— Agora estou.

— Eu estava preocupado com você, todos aqueles meses... Eu não fazia ideia de onde você estava ou o que tinha acontecido.

— Meu garotinho, preocupado comigo? Não sei se me sinto lisonjeada ou insultada. — Talia me apertou, então soube que ela não falava sério. — Eu passei um tempo ferida, mas Mara me achou e me ajudou. Aliás, espero que seus amigos heróis saibam que todos os esconderijos da antiga Liga foram trocados.

Soltei uma risadinha.

— Claro. No mesmo dia que nomeei Mara como Ra’s eles tentaram arrancar mais informação de mim, mas os avisei de que nada adiantaria, pois, nenhum Ra’s que se preze ia manter os mesmos esconderijos depois de os ter comprometidos. Ainda assim, os enrolei por mais alguns dias antes de falar os endereços de uma vez, só para os ver se decepcionando.

— Eu queria mesmo falar com você sobre isso. Sabe que sempre haverá um lugar para você na Liga, não sabe? Você é e sempre será o meu filho, independente do título. Tecnicamente você ainda está casado-

— Ugh, não me lembre disso...

— O quê? Você não gosta de estar casado com a nova Ra’s al Ghul?

A expressão no meu rosto deve ter dito o suficiente, já que minha mãe abriu um sorriso que ia até os olhos. O que, na linguagem Talia, era o equivalente a uma gargalhada.

— Não se preocupe, o casamento só vale nas leis da Liga, e pelo que estou vendo com a Mara, essas leis vão acabar mudando também. Ela vai ser grande, a minha sobrinha. — Notei o tom de orgulho em sua voz e não pude deixar de sorrir para mim mesmo.

Bom para ela, suponho.

Olhei para a grama abaixo de nós e comecei a brincar com ela, puxando para fora do solo.

— Você não está chateada comigo? — Perguntei.

— Por que estaria?

— Por ter abandonado a Liga, você, de novo.

Talia suspirou e levantou o corpo, ficando empertigada enquanto me encarava. Não consegui fazer o mesmo, receando a resposta.

— Damian, eu preciso que você me escute e me escute bem. Você é e sempre foi o meu maior orgulho. Eu te criei para ser grande e alcançar todo o seu potencial, mas também te criei forte e sábio o suficiente para tomar as próprias decisões, eu gostando delas ou não. Você não está me abandonando, está seguindo o seu caminho. — Ela segurou o meu rosto com uma mão, me forçando a olhá-la nos olhos. — Enquanto você viver em meu coração, você nunca terá me abandonado, meu Damian. É isso o que o amor é.

— Amor?

— É claro, meu querido. Eu amo você, mesmo longe de mim, mesmo quando você e eu não estamos do mesmo lado. O amor é um sentimento forte demais para ser abalado por causa de circunstâncias, mesmo quando ele se torna em outra coisa, mostrando o seu pior lado, o amor sempre acaba voltando para o estado original. Assim como sempre amarei o seu pai, eu sempre amarei você.

Ela sorriu, olhando para cima.

— Mas veja só, está chovendo de novo.

Mas no céu havia nenhuma nuvem.

★

Tenho a incômoda suspeita de que Jon achou que como eu pedi para o pai dele vir me ver, significa eu estava disposto a receber visitas sempre.

Os Kents revezavam para passar no apartamento pelo menos uma vez por dia, isso quando não vinham juntos e fui obrigado a interagir mais vezes do que precisava. Jon não entendia que estava ocupado costurando os nossos malditos trajes e que isso não era um processo fácil.

Só que até os Kents eram preferíveis às visitas de Maya. No minuto que ela descobriu de que ela poderia enfim poder vir me ver, ela não me deixava em paz.

Queria ver filmes juntos, trazia livros – que ninguém pediu! – para nós e ainda se ofereceu para ajudar na construção dos trajes, já que em um desses dias ela acabou entrando sem bater no meu quarto e me viu trabalhando.

Ela, assim como Jon, parecia incapaz de aceitar um não como resposta.

Rendido pela irritação, cedi e deixei que ela assumisse a parte da costura enquanto eu trabalhava na construção das partes mais... complexas. Não só de kevlar vive o homem.

Sem falar que além do meu traje, eu também estava mexendo no de Jon. Que deu a língua nos dentes para os pais, pois essa é a única explicação que posso encontrar para o pacote que chegou no apartamento cheio de materiais e tecidos kryptonianos. Francamente, ninguém sabe o que é discrição mais?

Porém, mesmo com essas visitas não solicitadas me incomodando – não tanto assim, mas enfim -, nada pode me preparar para o intenso desconforto que senti quando abri a porta do apartamento para receber Duke Thomas.

Arregalei os olhos, chocado. Que diabos ele estava fazendo ali? Pior ainda, quem o convidou? Olhei acusatório para Jon, que estava no sofá. Ele olhou para baixo, culpado, o que respondeu todas as minhas perguntas.

Esse cara...

Respirei fundo para não cometer um crime e abri passagem para Duke, que parecia tão desconfiado e desconfortável com a minha presença quanto eu com a dele.

— Ei.

O cumprimentei de volta com a cabeça e não disse nada. Estava ocupado demais olhando furiosamente para Jon, que intimidado, fez uma retirada estratégica para o próprio quarto, assim nos dando a ilusão de privacidade.

— Pela sua reação, devo supor que você não tava sabendo da minha vinda?

— Meus parabéns. — Vociferei. — Chegou nessa conclusão sozinho ou teve ajuda?

— Não seja um babaca. — Thomas rebateu. — Vim estender a bandeira branca e tudo o mais.

— Por quê? — Não vi sentido nisso, eu quase o aleijei permanentemente.

— Bem, primeiro, porque o carinha de azul que está escutando atrás da porta pediu. — Um barulho alto de batida, como se alguém tivesse caído, seguido por uma exclamação. — Segundo, porque fiquei sabendo o que você fez por Maya. Ela é uma garota legal, aquela sua amiga. Meio assustadora, mas com o coração no lugar certo.

Você não faz ideia.

— E?

— Terceiro — Thomas respirou fundo aqui. —, porque eu queria me desculpar pelas coisas que eu te disse naquele dia. Você me pegou em um mal dia e uma coisa levou a outra. Eu estava louco por uma briga e você apareceu como num presente embrulhado com laço e tudo. Tive muito tempo para pensar na fisioterapia, sabe.

Esperei ele continuar.

— Não vou mentir, tive muita raiva de você também. Por ter ido embora, por ter seguido aquele caminho, por ter quase acabado com as minhas pernas. Mas também tive raiva de mim, por não ter te ajudado mais quando o Bruce morreu, por ter dito aquelas coisas. Então... É, me desculpe.

Por três segundos inteiros não consegui dizer algo. Essas pessoas... São completamente loucas. Esse tipo de piedade e misericórdia jamais seria aceito na Liga das Sombras.

— Você tem certeza de que não bateu a cabeça naquela queda? Talvez no caminho para cá?

— Pfft. — Ele revirou os olhos, achando graça. — Sempre o bom e velho Damian. Tão charmoso.

— Suponho que você esteja esperando um pedido de desculpas de mim agora.

— Olha, seria bom.

Eu disse nada, apenas o olhando.

— E aí? — Duke perguntou, impaciente.

— O quê? Eu não disse que ia pedir, só disse que era o que você esperava.

— Ah, vai se foder! — Duke exclamou antes de vir em minha direção e puxar meu capuz para baixo e cobrir meu rosto inteiro.

O que foi bom, porque assim ele não pode ver o enorme sorriso que eu tinha nos lábios.

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Estou chegando em um ponto que acredito que tudo seria mais fácil se eu pudesse fugir. Correr para as montanhas, onde Jon não pode me achar.

Mas eu não quero apenas fugir, não quando Jon está bem na minha frente.

O problema é este... Este amor feio, que nunca foi embora. Ele foi direto para o meu coração como se eu o tivesse colocado em minhas veias. Desde quando exatamente eu sentia isso por Jon?

E todo esse tempo o atormentado e sendo o vilão, estive apenas o esperando? Para vir e me puxar de volta para o seu lado? Não sei bem como lidar com isso.

Uma vez minha mãe me disse que o amor nem sempre é bonito, as vezes é feio. Um sentimento tão forte e puro como o amor pode ser transformado para a sua versão feia, para o ódio e o desprezo.

Jon não precisa deste tipo de amor quebrado, que foi alterado. Será que eu sequer posso voltar a amar alguém direito? Será que sequer devo me abrir para isso, considerando o que sei? De como envenenei este sentimento?

O engraçado é que quando interajo com Jon, que provavelmente viu o lado feio do amor tanto quanto eu, ele não demonstra nenhum dos meus receios.

Continua fazendo piadas, enchendo o meu saco sem maldade e vindo com elogios aleatórios. Sem falar a forma como me olha, com tantos sentimentos girando naqueles olhos lilás que mal consigo respirar, sufocado.

E mesmo assim...

Mesmo assim...

Olho para os olhos lilases de Jon e me vejo refletido neles, me pego pensando que eu poderia aprender mais com você. A amar como você. A me amar como você.

Só que antes que eu me permita a amar de novo, até mesmo alguém tão amável quanto Jon, eu preciso amar a mim mesmo primeiro. E assim como ele, me perdoar.

Tenho muitos arrependimentos, é claro, mas olhando para a roupa que Jon me ajudou a projetar, a nós dois juntos e finalmente nos entendendo, penso que.... Valeu a pena.

Jon vale a pena.

Só não vou contar isso para ele... Ainda.

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— Olha só! São eles! Mamãe, olha, são eles! Asa Noturna e Pássaro Flamejante!

— Sim, querida, estou vendo.

— Eles são tão legais! Olha, mamãe, eles estão sentados naquele telhado! Puxa, do que será que eles estão falando?

— Talvez sobre algum vilão novo que eles têm que enfrentar em breve, querida.

— Mamãe, você tá vendo? Mamãe! Olha, o Asa Noturna deu um beijo no Pássaro Flamejante, igual o papai faz com você!

— É mesmo?

— Será que eles estão juntos igual você e o papai?

— Não sei se eu diria isso, querida.

— Por quê, mamãe?

— O Asa Noturna e o Pássaro Flamejante têm uma ligação forte demais, acho que nunca vi alguém tão conectado no outro como eles.

— Uau!

— Cheguei, cheguei! Desculpe a demora, a fila estava enorme.

— Papai! Olha, o- oh! Eles foram embora...

— De quem a nossa filha tá falando agora, Kathy?

— Ah, apenas alguns velhos amigos...

Notas finais
Ai ai, chegou num ponto que eu tive que fisicamente me parar de ficar adicionando coisas. Acho que no fundo nem eu queria dizer adeus para a história, então só ficava adicionando mais e mais cenas. Mas... É. Tudo chega ao seu fim eventualmente, e este é o fim de Dust And Gold. Sabe, esse epílogo foi reescrito várias vezes, mas não por causa dos eventos (esses estavam planejados desde sempre) mas por causa do ponto de vista. Comecei escrevendo no pov do Jon, pois foi ele quem começou tudo, achei que seria poético. Depois, larguei e coloquei em terceira pessoa. Aí achei muito impessoal. Então, voltei para a primeira, mas tive a grande ideia de fazer ser tudo do pov do Clark! Só que aí descartei, pois não seria a mesma coisa. Então, enquanto eu tomava banho e refletia sobre minhas escolhas de vida, veio a resposta: O epílogo seria todo em primeira pessoa, só que pela primeira vez, do ponto de vista do Damian. Afinal, Asa Noturna representa o começo. E Pássaro Flamejante representa o fim. Isso sim que era poético. Ah, Asa Noturna e Pássaro Flamejante! Eles são uma história real no canon, Jon não estava inventando nada. Quando o Clark contou sobre essa história pro Dick, ele o ajudou a indiretamente criar o Asa Noturna. Dick queria sair da sombra do Batman e representar outra coisa, assim Nightwing foi criado. Essa parada deles como esses heróis é puro headcanon meu, no entanto. Meu sonho de princesa é o Damian quando largar o manto de Robin virar Flamebird (Pássaro Flamejante) e então o parceiro do Dick. Ouuuu seguir o legado do Dick e virar o novo Asa Noturna, de qualquer jeito eu saio ganhando também. Agora, porque Damian não vira Asa Noturna para honrar o Dick em DAG se é algo que eu gosto de fantasiar? Porque o Damian não se considera mais digno para seguir nenhum desses legados. Ele iria se sentir sufocado pela roupa e pelas expectativas. Este Damian, marcado que só, precisava de algo novo. E foi aí que o Jon entrou. As roupas são total (e quando digo total, eu quero dizer TOTAL) invenção minha. Fiz duas comissions de concept art para a minha amiga @AroisuK (vocês podem ver ela no twitter) e passamos uns três dias para cada guri bolando o design. A do Damian foi mais complicado, foi uma salada mista das roupas de Batman que ele já usou com os design de Flamebird que existem nos quadrinhos e eu dando meu próprio toque pessoal. A do Jon foi beeem mais simples: o Chris, que, uh, deveria ser o irmão adotivo do Jon nos quadrinhos (mas isso é outra história) se torna Asa Noturna quando cresce e deixa de ser Superboy. Então a roupa do Jon foi beem menos complicado de fazer, eu só me baseei no que o Chris já usava, alterei algumas partes do símbolo para combinar com o Damian, adicionei uma capa e voi a lá! Caramba, é isso né? Que jornada que tivemos juntos. Espero que tenham gostado tanto quanto eu.... Eu vou... Sentir muita saudades de vocês.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!