Dusk (Sombrio)
55 Ciclo
Notas iniciais
—Seth!_ chamei delicadamente. —Seth!_ toquei seu ombro e o sacudi um pouco. Ele quicou na cadeira me fazendo dar um passo abrupto para trás.
—Desculpe_ balbuciou grogue, segurando minha mão como que para me impedir de cair, afaguei sua mão na minha e aquiesci dando uma olhada em sua irmã, que dormia na cama.
—Leah vai ficar bem, porque não procura um lugar mais confortável para dormir?_ olhei para a cama avaliando e concluindo que ele não caberia lá sem incomodar a irmã doente. —A cama lá em cima está vazia.
Ele balançou a cabeça, parecendo despertar de vez.
—Jake mataria qualquer um que dormisse na mesma cama em que você deita.
Expirei com surpresa, achando um pouco engraçado, mas deixando isso para depois.
—Ainda assim, o tapete da sala parece mais confortável que essa cadeira.
—O tapete da sala..._ resmungou me fazendo corar, suspirei.
—Se você procurar um lugar onde Jake e eu não... Bom, lamento informar, mas não poderá ao menos comer à nossa mesa_ sorri com sua expressão envergonhada e resignada.
Ele rolou os olhos.
—Certo, vou procurar um lugar e dormir. Obrigado.
Quando ele alcançou a maçaneta, o chamei e esperei que me olhasse:
—Como está Jen?
Seu cenho franziu, infeliz.
—Tão bem quanto possível. Ela e os irmãos estão com os Cullen. Esme ofereceu estadia, disse que precisam de uma família nesse momento, sabe como sua avó é_ anuí, sem deixar passar que Nahuel estava lá também.
—Obrigada, Seth.
—Disponha_ murmurou em meio a um bocejo e saiu fechando a porta.
Parei e avaliei que talvez não fosse o melhor momento, mas acabei sentando na ponta do colchão, grata pela vida da mulher na minha frente. Leah se moveu e me percebeu ali.
—Não queria acordá-la. Desculpe_ sussurrei. Ela balançou a cabeça debilmente, estava pálida e uma camada de suor deixava a pele cor de bronze, antes viçosa, com uma aparência doentia. —Precisa de algo? Ainda dói?
—Água.
Fui até o banheiro e busquei um copo com água.
Sustentei sua cabeça enquanto ela bebia, trêmula de fraqueza. Quando terminou, coloquei o copo ao lado do abajur e voltei a sentar. Leah suspirou, os olhos bonitos cheios de uma intensidade ardorosa.
—Você me odeia agora?
Senti minha testa franzir.
—Claro que não, Leah_ assegurei encarando minhas mãos, em meu colo.
—Ouvi o que você disse, antes... Sobre ele ser meu, mais que seu_ disse devagar, parecia muito esforço falar, ergui os olhos para seu rosto. —Não é assim.
Quase rolei os olhos para mais uma explicação sobre imprinting.
—Olhe, Leah...
—Me deixe falar_ mesmo baixa e falha, eu a conhecia o bastante para apreender a energia que ela quis usar na voz.
—Eu pensei, tentando me distrair dessa droga de queimação, nisso tudo o quanto pude... Não cheguei em muitas formas de falar com você que não parecesse que o universo estava me compensando por tudo de ruim que já passei. Talvez não. Talvez esteja. Talvez eu tenha que ter passado por tudo isso para estar pronta para alguém como Anthony. Assim como Jacob precisou para estar pronto para alguém como você.
Contive um suspiro entrecortado. Se ela estivesse bem, eu lhe diria como era jogar baixo falar do quanto Jacob sofreu, antes de mim. Apenas enxuguei uma lágrima solitária em meu rosto e esperei que ela tomasse fôlego.
—Além da consideração que todos sentimos por você pela ligação mental com Jacob, eu a vejo como uma amiga, Nessie. Você é a mãe de Anthony e nada vai mudar isso, nunca_ ela inspirou profundamente e fechou os olhos por um momento. —Nunca competiria com você por ele. Ele não é meu. Eu é que sou dele. Ele é seu filho e ainda que eu seja tão capaz de dar minha vida por ele quanto você, é de você que ele precisa agora.
Alcancei a mão que estava sobre sua barriga e segurei entre as minhas, notando como estava fria, mais gelada que um humano pareceria a mim. Ajeitei o cobertor em volta dela, puxando-o um pouco para cima.
—Só... Me deixe vê-lo de vez em quando, prometo que não vou atrapalhar vocês_ sua voz falhou e, dessa vez não foi de cansaço, seus olhos castanhos estavam úmidos e vermelhos.
—Não, Lee... Eu jamais afastaria você dele! Só estou cansada e confusa, é tudo muito novo. Eu..._ estava chorando também. —Confesso que cheguei a sentir raiva, mas... Nem mesmo posso ter certeza se era por você. Você o ama e isso é mais que o suficiente para mim. Não se preocupe, prometo que vou me acostumar, as coisas vão se ajustar e_ solucei, —continuaremos sendo boas amigas.
Ela chorou mais, apertando minha mão.
—Obrigada!_ balbuciou entre lágrimas.
Me inclinei e depositei um beijo em seu cabelo, tentando controlar meu choro.
—Eu... eu..._ ela me olhou envergonhada. —Posso vê-lo?
Eu ri entre lágrimas.
—Só um instante_ murmurei enxugando o rosto com as costas das mãos.
Sentindo-me estranhamente aliviada saí para a sala, onde Jacob dormia no sofá com o pequeno bebê aninhado em seu peito, protegido entre as duas mãos enormes. Seth dormia profundamente no tapete, a cabeça numa almofada.
Delicadamente tirei as mãos de Jacob e peguei Anthony, que gemeu um pouquinho. Instintivamente balancei de um lado para o outro, aninhando-o em minha clavícula enquanto caminhava de volta ao quarto.
Leah afastou, fazendo careta por se mover.
—Anthony, esta é a Leah_ sussurrei antes de depositá-lo ao lado dela.
—Oi, Anthony!_ murmurou ela, emocionada.
—Vou dar um tempo para vocês, em breve ele vai ficar com fome.
—Você não devia estar descansando?_ perguntou antes que eu pudesse me mover. —Já é bem tarde, não é?
—Sim, mas dormi a tarde toda_ acenei e saí.
Ao fechar a porta atrás de mim me deparei com os olhos de Jacob. Ele ergueu uma mão, me chamando. Quando a alcancei ele me puxou, meu aninhou junto de si, no sofá, e beijou meu rosto com um suspiro longo e pesado de alívio. Afaguei seu peito, partilhando do mesmo sentimento.
—Fizeram as pazes?_ disse muito baixo para que ninguém mais ouvisse.
—Não tínhamos brigado_ respondi no mesmo tom.
—Você a perdoou?
Dei de ombros lembrando de considerar Leah uma boa opção para levar Anthony para longe, caso ele nascesse antes do encontro com os Volturi.
—Não posso reclamar que ele tenha alguém que o ame e cuide, posso?_ suspirei.
—Há um “porém” aí, não há?_ ergui a cabeça para olhar seu rosto. —Você sempre suspira nesse tom quando algo a incomoda.
Parei refletindo sobre o futuro de Anthony, com a ameaça sempre presente do interesse de Aro, Leah ao seu lado... Eu era capaz de imaginar apenas parte do que o reservava e certamente haveria coisas maravilhosas, no entanto...
—E se ele não a quiser? E se ele magoar Leah?
Surpreendentemente, Jacob gargalhou, há alguns metros Seth nem se abalou, seu ressonar continuou rítmico.
—Você não deve se preocupar com isso. Já tivemos essa conversa antes_ balancei a cabeça contrariada com o rumo provável da conversa: Leah estará feliz de qualquer maneira. —Honestamente, eu não quero pensar nisso pelos próximos 16 ou 18 anos.
Outra coisa veio à minha mente:
—Acha que ele vai crescer a um ritmo humano?
—Acho que sim, mas vamos saber logo, de qualquer maneira.
Sua resposta me fez ter esperança, agora que sobreviver não era uma preocupação imediata: eu queria muito que Anthony tivesse uma longa infância, amigos de uma vida inteira, pensei nele e em Matt crescendo juntos e sorri, queria que ele frequentasse a escola... uma vida comum, tanto quanto possível tendo uma pai transfigurador e uma mãe meio vampira.
—Sobre o assunto anterior, é diferente, Jacob... Uma mulher estando à mercê de todos os desejos de um homem, pode ser muito perigoso.
Fiquei aflita, eu provavelmente devia estar preocupada com o que Leah seria para ele, mas eu nem ao menos conseguia questionar isso, sabendo absolutamente que ela seria a melhor pessoa no mundo de Anthony.
—Vamos ensiná-lo a nunca pedir que ela se esfaqueie_ sussurrou com diversão. Fiz um muxoxo e tentei levantar irritada, mas ele me segurou e quando fiquei quieta continuou, a voz séria e muito baixa:
—Faremos dele um bom homem, Ness. Um homem de caráter. Claro que ensiná-lo não vai garantir nada, mas Anthony será o melhor namorado e marido para qualquer mulher que escolha, se for isso que ele quiser.
Aquiesci, ele tinha razão, nós íamos ensiná-lo respeito e amor.
Jake beijou o alto de minha cabeça e tocou meu queixo para alcançar minha boca, minha respiração acelerando, ele riu contra minha boca, mas algo pressionou meu quadril muito à sério.
—Céus, Nessie! Você acabou de parir uma criança de três quilos!
—Bom saber que algumas coisas estão funcionando normalmente, mas não se anime, Black, vai ficar de molho algumas semanas.
Mesmo no escuro, seus dentes cintilaram.
—Já falei como adoro quando me chama assim?
Um gemido agudo e irritado deixou a intenção de um beijo pairando no ar.
*
Sue estava no quarto com Leah, meus pais saíram no meio da manhã a fim de buscar trocas de roupa na mansão Cullen e Jacob saíra havia alguns minutos para ir à reserva para uma rápida reunião com o conselho, de maneira que eu estava quase sozinha com Anthony quando ouvi a tímida batida à porta.
—Entre_ murmurei e esperei sentada numa poltrona da sala até que Jennifer surgiu as mãos nos bolsos da trás da calça, parecendo um pouco abatida. —Jen..._ me ouvi dizer consternada.
Ela sorriu um pouco e se aproximou ainda mais, os olhos no bebê em meu colo.
—Desculpe incomodar, eu preciso falar com você_ embora baixa, sua voz continha um tipo de urgência que eu não soube compreender.
—Não incomoda.
—Está sozinha?
—Sue e Leah estão no quarto_ gesticulei para a porta alguns metros distante, ela olhou na direção e mordeu o lábio, insegura.
—Não podemos sair, não é?
Olhei por sobre o ombro, para a janela e vi que não estava mais chovendo.
—Na verdade, Anthony precisa tomar sol, quero dizer... qualquer coisa parecida com isso que o céu de Forks possa oferecer.
Para minha surpresa ela sorriu, um sorriso de verdade, enquanto eu levantava ajeitando o pinguinho de gente nos braços.
—Ele é lindo, Nessie_ sorri por ela também me chamar de Nessie, provavelmente pela convivência com Seth, ele e os outros lobos me chamavam assim, invariavelmente.
—É, não é? Às vezes me pergunto se só eu o enxergo assim_ ela sorriu de novo, vacilante dessa vez e deixei o silêncio perdurar enquanto atravessávamos a casa em direção ao quintal dos fundos.
Quando descemos a escada de acesso aos fundos a olhei, mas ela nem pareceu perceber, caminhando lentamente, cabisbaixa.
—Você está bem? Sinto muito por seu pai_ pareceu adequado dizer, embora eu não tivesse certeza sobre como me sentia quanto a isso. Obviamente eu nunca desejei a morte dele, mas de alguma maneira me sentia um pouco mais segura agora.
Ela encolheu os ombros e seu rosto bonito se contorceu por um segundo enquanto ela olhava para a copa das árvores que separava o quintal da praia.
—Estou, acho que estou_ resfolegou e então me olhou nos olhos. —Não é como se eu tivesse perdido um pai. Quero dizer, um pai de verdade, como Edward é para você.
Senti minha testa franzir com a surpresa por sua resposta e ela se apressou em dizer:
—Eu amava Johan, mas não sou tola de acreditar que ele teria feito o mesmo por mim ou minhas irmãs. Ele amava Nahuel, por ser homem, seja lá porque isso parecesse mais interessante_ rolou os olhos. —A única razão para ele ter sido mais próximo de mim foi para que eu não o desprezasse como meu irmão fez, como se nenhum de nós fossemos capazes de perceber..._ ela balançou a cabeça com desgosto.
—Sinto muito_ não imaginei outra coisa para dizer.
—Você tem muita sorte, por ter uma família de verdade. Nunca achei que me importaria, mas acho que eu gostaria de ter tido também.
Aquisci.
—Talvez agora possamos ser, meus irmãos e eu, mais como uma família ou ao menos como um clã_ deu de ombros. —O que me leva ao assunto que me trouxe aqui.
Senti um frio na barriga ao imaginar que ela fosse falar sobre Nahuel, mas seus olhos suavizaram demais para ser isso, principalmente quando ela olhou para Anthony, adormecido no meu colo. Sua cabecinha cheirosa e avermelhada recostada em minha clavícula.
—Gostaria de falar com você sobre imprinting.
Resfoleguei, mas contive a risada inquieta e a olhei à espera, afinal ela não tinha culpa nem conhecimento de minha recente sensibilidade ao assunto.
—Você me disse que hesitou quanto a Jacob e que ele foi paciente e a conquistou... Não me importei quando Seth contou, mas à luz dos acontecimentos... não sei o que fazer.
—Falando por mim, Jennifer: eu não queria magoar Jacob e levou algumas semanas até resolver as coisas com seu irmão. Mais alguns meses até... Jake ser baleado num assalto idiota_ a raiva pela lembrança distorcendo minha voz, — e seu coração parar. Eu tive uma reação terrível, matei o assaltante, bebi seu sangue e percebi quanto tempo havia perdido.
Jennifer me encarava boquiaberta, eu parei no meio do terreno úmido de frente para ela.
—Por sorte, alguma coisa aconteceu e seu coração foi capaz de se curar e voltar a bater, mas poderia não ter acontecido_ olhei para o rostinho de Anthony com angústia ao imaginar a possibilidade de ele não existir, passei um dedo delicadamente no pequeno nariz redondo. —Eu não teria conhecido essa felicidade que valeu à pena enfrentar Aro Volturi. À luz dos acontecimentos recentes, talvez nenhum de nós tenha tanto tempo quanto pensou que teria.
—Não imaginei que você tivesse bebido de alguém.
—O pior é que eu faria de novo. Por Jacob e por Anthony, eu mataria quantas vezes precisasse. A partir daí deixou de importar quão diferente eu me sentia, quanto eu não me reconhecia, porque qualquer coisa que fosse por Jacob valeria à pena.
Visivelmente comovida por seus próprios conflitos Jennifer assentiu, os olhos azuis brilhando com a claridade difusa e as lágrimas.
—Nada disso nunca me importou. Honestamente, entre Seth e eu, o sexo é inacreditável, mas eu não dei a mínima quando me disse que iria comigo para onde fosse, contudo agora... _ ela enxugou algumas lágrimas e tomou fôlego antes de continuar. —Influenciada pela forma como vocês, todos vocês, se protegem e amam ou por perder a mais ridícula proximidade disso que eu já tive... De repente, quero tanto ter uma família com Seth, que me assusta!_ rindo e chorando ela moveu, impacientemente, o peso do corpo de um lado para o outro.
—Ah, Jen_ me precipitei para abraçá-la um pouco de lado, mantendo meu bebê num braço só.
Por alguns segundos, ela chorou em meu ombro.
Conversamos um pouco mais sobre como imprinting não nos influenciava e como a dedicação dos lobos sim, sobre a maneira como sentíamos a ligação, provavelmente por sermos mais sagazes que humanos... ela parecia mais segura do que quando chegou.
—Penso em tirar férias, uma volta ao mundo quem sabe... _ sorriu, o rosto um pouco vermelho pelo choro.
—Seth me falou a respeito disso meses atrás. Ele teria feito isso depois da formatura, não fosse pela crise com os Volturi.
—Vai ser divertido_ falou pensativa e sorridente.
Nesse momento senti uma gota de chuva em meu ombro e virei para começar a voltar, Jennifer me acompanhando.
—Nessie_ sua voz parecendo relutante destoou da leveza com que soava um minuto atrás. A olhei. —Não tive certeza sobre dar o recado, mas Nahuel pediu para falar com você.
Desviei os olhos para minha casa, percebendo mais presenças.
—Espero que Jacob não me odeie por isso.
—Não vai_ sorri tranquilizadoramente para ela. —Vou falar com Nahuel. Obrigada pelo recado.
—Eu quem agradeço_ ela sorriu.
*
—Afinal, o que houve entre você e Bella para que ela estivesse irritada com você?_ perguntei me inclinando para ver o rosto de Jacob, ele sorriu um pouco e olhou para trás por menos que um segundo.
Mais uma vez olhei para o bebê na cadeirinha, ele não havia gostado muito, mas adormeceu assim que o motor foi ligado.
—Não sei muitos detalhes, mas ela organizou tudo para que pudéssemos fugir, dinheiro, documentos falsos e tudo o mais... Tentou me convencer a levar você e ficou furiosa quando falei que não a forçaria nem nada assim_ então ele riu. —E ficou ainda mais furiosa com seu pai porque concordou comigo.
Senti meu rosto cair um pouco e não pude deixar de olhar Anthony... ela deve ter ficado desesperada ao me ter em perigo.
Jacob tocou meu joelho estendendo o longo braço para trás enquanto dirigia até a casa de meus avós. Não dissemos mais nada. Eu sabia que ele estava irritadiço pela conversa que eu teria com o híbrido, mas eu não conseguia pensar em nenhum motivo para não fazer isso. Precisávamos encerrar esse ciclo da melhor forma possível.
Havia um zumbido baixo de conversa quando chegamos e mais sinais mentais do que esperei, rapidamente isolei-os para um canto sem atenção em minha mente, enquanto subíamos a escada da varanda da frente, Anthony em meu colo e um braço de Jake protetoramente (e eu tinha certeza: possessivamente, também) em volta da minha cintura.
Olhares vermelhos e curiosos junto de sons expressando admiração vieram até nós quando passamos pela porta que Rose abriu. Sorri e agradeci os elogios a mim e ao meu filho, imaginando pela primeira vez se eles sabiam todos os detalhes do que levou Aro a nos deixar vivos, pareceu pouco provável que soubessem do que involuntariamente fiz.
—Como se sente, querida?_ indagou Carlisle me abraçando.
—Muito bem, vovô. Viemos para que Anthony seja examinado_ ele assentiu, com um sorriso e afagou a barriguinha do pequeno, tendo cuidado de tocar apenas onde estivesse coberto.
Ele indicou a sala familiar onde costumava me examinar e eu hesitei. Embora quisesse participar da consulta, também queria falar com Nahuel com mais garantia de que Jacob não estivesse prestando atenção. Não é que houvesse algo que ele não pudesse saber ou ouvir, mas me sentiria mais à vontade.
Olhei para Jacob por sobre o ombro e quando ele se aproximou lhe passei o bebê, que não se abalou com a troca, enquanto o pai me olhava reticente. Fiquei na ponta dos pés para alcançar sua boca e ele se abaixou um pouco para que eu alcançasse.
—Não demoro_ sussurrei contra os lábios grossos.
Segui a mente familiar em direção aos fundos da casa e caminhei até a borda da floresta, onde ele estava sentado sobre um tronco caído quase seco. Ao erguer a cabeça e me ver, antes que eu o alcançasse, se levantou.
Embora sentisse o bastante de raiva pela estupidez e pelo perigo e angústia aos quais todos fomos expostos, enquanto caminhava em velocidade humana em sua direção concluí que não valia à pena me ater a isso pois por sorte, milagre ou destino fora estávamos todos viso e ele próprio foi quem mais sofreu. Assim, ao me aproximar o bastante eu simplesmente o abracei.
Nahuel levou dois segundos para retribuir, o mesmo tempo em que ficou com a respiração presa, para soltar na mesma proporção em que seus braços me envolveram e me apertaram contra si.
—Sinto muito por Joham_ murmurei ainda dentro de seu abraço.
Ele afrouxou os braços lentamente depois de alguns segundos e deu meio passo atrás se afastando cerca de 40 centímetros, seus olhos hesitaram para além de mim antes de fixarem em meu rosto.
—Não sinta. Ele não merece_ sua voz falhou no final.
—Era seu pai, Nahuel, independentemente da forma como tenha sido_ vendo a dor em seus olhos tentei validá-la. Seu queixo se tencionou e avaliei o hematoma que ainda manchava sua pele escura.
—Obrigado_ sussurrou, o olhar baixando.
Aquiesci buscando algo para lhe dizer, mas sem chegar numa conclusão sobre isso, afinal ele pediu para que eu viesse. Dei dois passos em torno dele e sentei no tronco úmido onde estivera.
—Parabéns pelo nascimento do seu filho_ sua voz soando fria, ele não olhou para mim e eu só conseguia ver seu perfil.
—Obrigada_ murmurei desconcertada.
Houve alguns segundos de silêncio e quando estava quase cogitando perguntar pela intenção de mandar o recado por sua irmã, ele falou baixo e pausadamente:
—Você rompeu comigo para ficar com ele, Renesmee?_ por um momento estranhei alguém não me chamando pelo apelido, depois o fitei em silêncio até que ele me olhasse de cima, o rosto impassível.
—Eu disse que não_ lembrei-o. —O que eu falei quando rompemos, era verdade.
—De alguma forma, parece menos pior que você tenha encontrado em outro algo que não encontrou em mim, do que ter apenas acordado um dia e percebido que não me queria.
Vasculhei em minha mente todas aquelas conclusões, parecia tanto tempo atrás, na verdade menos de um ano e meio...
—Quando provei o vestido, eu não consegui conceber a ideia de casar.
Ele me interrompeu:
—Está casada agora. Com um filho!_ acusou, o ressentimento claro nos olhos escuros. Não me permiti recuar ante sua censura.
—Não quero ser rude, mas o que eu posso dizer para que você entenda além de dizer que nunca amei você dessa forma?!
Pude perceber como ele se esforçou para não fazer ou dizer algo tempestuosamente. Seu rosto lindo se retorceu por menos de um segundo e ele respirou fundo enquanto eu o encarava. Quando se controlou, sentou ao meu lado.
Embora eu pudesse compreender que ele estivesse à flor da pele e como era difícil contornar alguns impulsos e sentimentos, não deixei de pensar como não conhecia esse lado dele, lembrando por um momento da sua fúria ao chutar meu sofá quando rompemos. Ele nunca dirigira diretamente a mim tal sentimento, mas ainda assim, o conhecimento me incomodou.
—No fundo, acho que eu sempre soube, mas pensei que poderia amar por nós dois. Sendo tão jovem, poderia aprender a me amar também.
—Eu amo você, Nahuel, mas não dessa forma. Acreditei que fosse, eu quis amá-lo assim_ me virei um pouco para ele, queria de verdade que visse que estava sendo honesta. Eu não havia mentido durante nosso relacionamento, acreditei mesmo que o amava.
Ele torceu a boca de lado, numa expressão insatisfeita.
—Quando você chegou e eu a esperava na sua casa, em Seattle... Você e o lobo... Parecia haver algo.
Eu não queria mentir para ele, mas dizer o que houve entre mim e Jacob no primeiro dia parecia muito cruel.
—Havia. Atração, amizade, ternura... Tem certeza que saber sobre minha história com Jacob vai ajudar você?
Ele me encarou sem dizer nada.
—Você sempre foi meu amigo, Nahuel. Quando me vi de noiva percebi que o que eu sentia não era o bastante e, no entanto, eu não te amava menos. Quando conheci Jacob..._ parei sem ter certeza se era a coisa certa a dizer, eu nunca saberia de qualquer maneira. —Só tive mais certeza. Embora você ocupasse um lugar tão importante quanto sempre, havia esse novo lugar. Um lugar que sempre esteve vazio em mim. Nunca foi uma troca, nunca houve como comparar realmente, porque são dois sentimentos diferentes. O que sinto por você ainda está aqui, embora, honestamente eu seria capaz de socar você por ter arriscado nossas vidas assim.
Eu ia pedir desculpas, pela última frase, mas ele resfolegou um riso, com tristeza e uma pitada de humor. Parei avaliando-o, por alguns segundos.
—Eu decidi romper antes de conhecer Jacob e quero que você saiba que eu nunca teria certeza sobre ter feito a coisa certa, se não fosse por ele. Talvez eu cedesse e voltasse, mas eu nunca seria inteira para você. Eu quase o chamei de volta naquele dia, mas eu soube, tanto quanto queria chamá-lo, que mais cedo ou mais tarde isso seria uma questão entre nós.
—Acho que não dá para entender mais claro que isso_ murmurou, fitando as próprias botas.
—Desculpe.
—Tudo bem. Dói, sabe? Dói muito, porque eu amo você. Mas realmente prefiro que haja alguém melhor do que a simples conclusão de que eu não sou bom para você. De qualquer maneira, não a chamei aqui para que se explicasse, não apenas _ele ergueu a cabeça e os olhos tristes vieram para mim. —Quero pedir perdão, Renesmee.
—Vamos esquecer isso, por fav-
—Não, eu preciso. Só poderei esquecer depois de ouvir que você me perdoa. Mesmo que sua família tenha perdoado, mesmo que minhas irmãs tenham me perdoado, só poderei começar a me perdoar pela morte do meu pai, também, depois que você me perdoar por tê-la colocado em risco.
Ele segurou minhas mãos.
—Pensei, imaginei qualquer coisa... Nunca foi uma retaliação ou vingança, não de propósito, imaginei que você estava em perigo, que fossem filhos da lua, que havia algo que eu não entendia que a estava impedindo de ficar comigo. Quando a verdade, finalmente, me atingiu era tarde demais. Fui um tolo, um cego, e peço perdão. Antes de qualquer coisa devia ter falado com você ou com alguém de sua família... Fui desleal e não honrei a confiança que depositaram em mim ao me aceitarem como parte do clã, como da família.
—Ah, Nahuel...
—É terrível dizer que a amo quando a coloquei em tanto perigo. Nunca soube do passado dos Cullen com os Volturi e me sinto muito mal com isso. Por favor, Renesmee, me perdoe.
—Eu o perdoo, Nahuel_ falei com toda sinceridade, entendendo que na verdade, nunca o culpei realmente, havia coisas além dele desde muito antes e minha culpa nisso provavelmente era muito maior.
O choro já tão familiar ecoou longínquo, na casa, e antes que eu pensasse a respeito estava de pé. Hesitei precisando muito ir, mas em dúvida se a conversa havia encerrado.
—Aí está um homem com o qual nunca terei intenção de competir_ referiu-se ao bebê chorando com um sorriso honesto, lembrando-me o homem com quem eu quis descobrir mais de mim mesma um dia. Ignorando as possíveis implicações em suas palavras, retribuí seu sorriso e falei, apressadamente:
—Espero que um dia possamos ser amigos, de novo.
—Também espero, embora não acredite ser possível.
Não havia nada que eu pudesse dizer quanto a isso, senti minha boca se contrair muito duramente para ser um sorriso e me virei partindo, insegura sobre correr pouco mais de 24 horas após o parto.
Na casa, o clã irlandês e metade do clã egípcio (Ben e sua parceira, Tia), ainda estavam conversando, como antes. Meu pai, Emm, Rose e Esme estavam na sala também.
“Acha que ele vai ficar bem?” pensei em como Nahuel parecia arrasado. Edward caminhou até mim e me abraçou.
—Ele só precisa de um tempo_ murmurou de forma que só eu ouvisse.
As reclamações de Anthony soaram de novo, junto dos murmúrios delicados de Jacob tentando acalmá-lo.
—Tem alguém faminto_ meu pai sorriu indicando o consultório.
Jacob balançava de um lado para o outro, nosso bebê parecia absolutamente menor nos braços do pai, Bella os olhava parecendo admirada, antes de olhar para mim.
—Como está, amor?
—Estou bem, mãe_ respondi automaticamente, todo meu foco no bebê choramingando. —Desculpe, bebê, estou aqui.
Jacob me passou ele e o acalentei colocando ao seio enquanto me escorava na maca, ali perto, Jake me imitou, um braço envolveu meus ombros e sua boca tocou minha têmpora longamente.
—Então, Anthony está bem?_ ergui a cabeça para olhá-lo.
—Ele não cresceu de ontem para hoje_ respondeu com um sorriso tranquilo.
—Preciso verificar até o fim da semana, para termos certeza_ completou Carlisle, que anotava coisas num caderno.
—E todo o resto?
—Ele é saudável. Sua coordenação motora é ligeiramente mais desenvolvida que a de um recém-nascido de 24 horas, assim como seu tônus muscular e, por tanto sua força, que é bem pronunciada, mas não é nada alarmante. Suas repostas reflexivas são rápidas. Vou desenvolver gráficos para vermos como isso vai evoluir conforme ele cresce.
Concordei aliviada.
*
A cena se formou e parte de mim sabia que era uma lembrança enquanto outra parte assistiu a conversa com curiosidade: a moça, uma vampira muito bonita com longos cabelos negros, falava comigo. Estávamos num pátio florido próximos a uma fonte, o cenário purpúreo pela anoitecer e cheiro de flores e ervas frescas acentuado pelo calor. Então tudo se desenvolveu rápido demais.
Eu gritei com a dor.
Meu próprio grito me despertou.
O homem apavorado e trêmulo falou comigo atabalhoadamente, seu rosto distorcido pelo susto e pela luz baça de um abajur, enquanto se movia e alcançava a criança muito pequena que chorava com desespero. Algo dentro de mim se agitou, eu sabia que isso devia importar, mas havia uma infinidade de sentimentos muito mais intensos do que eu podia administrar que jorravam incontinentes, transformando-se em lágrimas e soluços que me faziam tremer.
Muito torturada levantei, chorando de maneira barulhenta e descontrolada.
—Não, não, não... Sinto muito! Foi preciso, eu também a amava, eu também sinto muito. Ah, Deus! Deus!_ minha voz soou estranhamente, as palavras distorcidas de um jeito que parte de mim achou desconhecida, olhei em volta tentando entender onde estava.
—O quê? Nessie, olhe para mim! O que está falando?
—Não posso... Foi preciso, tinha que ser feito! Foi terrível e o eu sinto muito, mas... _ solucei e disparei pela porta, deixando para traz o homem com o bebê no colo.
—Nessie!_ chamou a voz em desespero. —Edward!_ chamou novamente por cima do choro infantil.
Corri pela casa que eu sabia ser familiar, mas havia estranheza naquela sensação, era como um sonho. Corri pela chuva fria da madrugada, chorando e contendo gritos de agonia, que saíam como gemidos e rosnados... Aquela dor, aquela perda!
Me ajoelhei na areia à beira mar, tentando acordar daquele pesadelo e encontrar meu lugar dentro de minha própria mente, mal conseguia alcançar meu nome no turbilhão de sentimentos e lembranças.
Braços frios me envolveram e uma canção conhecida foi cantarolada enquanto eu encontrava conforto no peito marmóreo.
—Pai!_ minha voz sufocada soou com alívio, a expressão “luz no fim do túnel” nunca fez tanto sentido para mim.
—Estou aqui, Nessie, vai ficar tudo bem_ a voz que me embalou tantas vezes em doces sonhos infantis funcionou como uma âncora, me firmando a mim mesma, me guiando para que me encontrasse por um caminho tortuoso por vários minutos enquanto a chuva caía.
Levantei o rosto de seu peito encarando os olhos dourados que brilhavam mesmo no escuro, eles estavam em agonia, mas seu rosto, o primeiro rosto que vi, me fez lembrar quem eu era.
—Eu lembrei, pai! É horrível! _ minhas mãos foram ao meu peito como se pudesse arrancar dali aquela perda, aquela saudade e a contraditória sensação de que apesar de doloroso, eu havia feito a coisa certa, porque havia uma coisa que eu amava mais... Não. Não eu, Aro fez!
—Sim, meu amor! É mesmo terrível!_ meu pai.
Eu chorei mais e deixei que as coisas se organizassem minimamente, separando o que era meu e o que era de Aro. As lembranças, os sentimentos... A maior parte indistinto demais. Eu não tinha como fazer uma limpeza, tirar da minha cabeça cada século de pensamentos e ações que não eram meus, contudo precisaria aprender a separar o que era meu. O pensamento me angustiou, principalmente ao perceber que não sofreria isso sozinha. O rosto de Jacob apavorado com meu despertar conturbado, o choro de Anthony (assustado com meu grito) e minha incapacidade de me controlar e cuidar dele me fazendo sentir péssima. Ainda assim, havia alívio nisso também: esse sentimento era inteiramente meu.
Meu amor por Jacob e por nosso filho não era nada como o as coisas que nasciam da mente de Aro.
—Eu preciso..._ balbuciei, ainda chorando.
—Anthony está bem. Jacob, Bella e Leah estão com ele.
Tentei parar de chorar por alguns segundos.
—Eles deviam saber!
—Não, Nessie!
—Não vou tomar como uma missão_ assegurei. —Na verdade, quero distância disso. Mas eles deviam. Seria bom para todo o mundo vampiro. Ninguém, nem as esposas, nem Marcus e Caius estão seguros. Mesmo daqui a mil anos, se qualquer um deles ameaçar o poder de Aro, serão executados. Eles não sabem com o que estão lidando. Se soubessem... O mundo vampiro seria mais seguro e mais justo.
—Provavelmente, mas não vale nossas vidas.
—Sim!
—Nessie_ meu pai segurou meu rosto, me olhando firmemente. —Tem que guardar isso. Por nada você pode falar isso para alguém, nem para Jacob. A segurança dele e de seu filho será garantida pela segurança desse segredo.
Balancei a cabeça positivamente e ele continuou:
—Talvez não entenda ainda, vai precisar de tempo até organizar todo esse novo conhecimento, mas para Aro, a não ser que o poder seja muito mais aprimorado do que ele já tem, não faz diferença deixar o vampiro vivo ou matá-lo. Então a não ser Bella, Alice, e talvez você, pois ainda não sabemos como seu potencial vai se desenvolver, todos nós somos descartáveis. Ele tem meios para mantê-las contra sua vontade.
—Não vou dizer nada. Eu queria esquecer tudo isso.
—Eu sei, bebê! Eu sei_ ele me abraçou. —Está mais calma agora? Acha que pode lidar com Jacob? Ele está enlouquecendo de preocupação.
Aquiesci e meu pai sustentou meu peso nos levantando da areia. Estávamos ensopados e num piscar de olhos chegamos à varanda dos fundos da minha casa. Deixei a sensação de posse e conforto se alastrar por minha mente, um tremor desconfortável passou por meu corpo ao recordar que vinte minutos antes eu passei ali como se não conhecesse nada. Céus, eu nem mesmo reconhecera Jacob e nosso filho! O olhei nos olhos e não tinha certeza de quem ele era.
Meu pai me guiou para dentro de casa. Podia ouvir Leah, Bella, e o pequeno coraçãozinho que as acompanhava no quarto do andar de baixo. Jacob, que estava junto à janela, tinha as duas mãos espalmadas em meu piano e a cabeça baixa, mas me olhou, quando chegamos à sala, seu rosto insondável. Dois segundos e alívio tomou sua expressão. Corri em sua direção e me joguei em seus braços deixando cada ínfima parte de mim reconhecê-lo.
Era Jacob, o homem que eu amava, o pai de meu filho, a pessoa porque eu matei um ser humano. O homem para quem eu entregava minha vida, para sempre, todos os dias quando acordava ao seu lado. Nós dois suspiramos, consolados, ele contra meus cabelos e eu contra seu pescoço.
—Precisa se lavar, Anthony vai estar com fome logo_ murmurou sem se mover. Assenti, eu estava cheia de areia, mas também não me movi e, nesse momento, o único movimento dele foi se inclinar e me pegar no colo. Fechei os olhos enquanto ele subia em direção ao nosso quarto.
Jacob tirou meu vestido de dormir e jogou num canto enquanto eu ia para o box. Me virei ligando o chuveiro e percebi seu olhar preocupado.
—Estou bem_ garanti e então corrigi ao ver que ele nem sequer tentou fazer de conta que acreditava. —Vou ficar. Prometo que vou ficar_ ergui meu dedo mindinho e ele o envolveu, me puxando para seus braços em seguida.
Estremeci pelo contato de minha pele nua e molhada com seu peito nu e quente.
—Fiquei com medo, Ness... _ sua voz falhou. —Você me olhou e, eu vi, não me reconheceu. Falando... Sei lá: grego! Não parecia você.
Engoli o nó em minha garganta e o ódio que fazia minha língua parecer brasa em minha boca. Aro merecia morrer, não bastasse tudo o que fizera, no momento: por fazer Jacob sofrer.
—Eu lembrei, Jake. Sei qual o maldito segredo. Sonhei com tudo. Não sei se estava totalmente desperta, antes. Minha mente está muito cheia. É estranho. Preciso lidar com o que é meu, o que não é e separar, não sei como, mas eu vou fazer isso_ falei devagar.
—Nós vamos lidar com isso_ murmurou contra meu cabelo.
—Desculpe assustar você e Anthony. Me sinto péssima por não ter...
—Não..._ ele segurou meu rosto e selou minha boca com a sua, energeticamente. —Vamos ficar todos bem. Anthony logo...
—Eu sei_ me afastei dele e voltei para o chuveiro.
***
Deitei, exausta e segurando o choro, observando o bebê dormindo na cadeira vibratória (que nunca era ligada), que bebê na face da terra não gosta de cadeiras vibratórias feitas para bebês gostarem?! O meu!
Meu estômago roncou, mas continuei imóvel sem energia para nada. Como era possível que um bebezinho fofo e humano conseguisse me deixar tão esgotada?! O dia já estava quase acabando e eu me sentia como se tivesse vivido um ano. Não consegui comer, não consegui fazer as tarefas que precisavam ser feitas e estavam acumuladas, não consegui acalmar Anthony o dia todo. Ele parecia acordar até mesmo com o som da chuva, só há 10 minutos finalmente dormiu e eu estava aqui temendo me mover e despertá-lo.
Foi com alívio e desânimo que ouvi a caminhonete de Jacob chegando. Encarei Anthony temendo que o mínimo barulho da porta fosse despertá-lo e esperei os segundos que Jake levou para chegar até lá.
—Hey, amor!_ sentei e o olhei com minha expressão mais assassina, alertando-o. Ele fez careta e fechou a porta devagar, vindo até nós pé ante pé. Não deixei de perceber a forma como ele me olhou e olhou tudo em volta (incluindo chocalhos e mordedores, almofadas fora do lugar, fraldas que não consegui ir jogar no lixo e a roupa que consegui tirar da secadora, mas não pude guardar). —Renesmee?_ me olhou preocupado, agachando na minha frente.
Só então percebi as lágrimas em meus olhos. Não consegui dizer nada, ressentida com ele de tão exausta. Jacob me abraçou e eu chorei, olhando por cima de seu ombro e achando muito injusto que o bebê tenha chorado horas seguidas com intervalos mínimos comigo, mas estivesse dormindo como um anjo quando ele chega em casa.
—Dia difícil?_ sussurrou e afastou para olhar meu rosto.
—Ele chorou o tempo todo..._ falei muito baixo, minha voz falhando. —Deve ser um salto ou pico de crescimento... Estou faminta, exausta, tem cocô na minha roupa e tenho certeza que vômito em alguma parte do meu cabelo, também.
—Nessie... Porque não pediu ajuda? Rosalie, Bella, Leah... Qualquer pessoa da sua família ajudaria com prazer.
—Não é da conta deles, Jacob. Eu sou a mãe e preciso poder cuidar dele sozinha.
—Não, amor, você não tem que fazer nada sozinha... Nós estamos aprendendo, tudo bem pedir ajuda.
Mordi o lábio para não falar sem pensar, mas a verdade é que havia quase um mês Jacob andava esquivo, chegando mais tarde, não vindo almoçar, trabalhando demais, eu sabia! Qualquer outra mulher (era tristemente comum nos grupos de mães pela internet) desconfiaria de traição, não fosse o imprinting eu pensaria nisso também... Não conseguia imaginar outra coisa que não fosse realmente o excesso de trabalho na oficina, que vinha crescendo. Então eu não quis soar acusatoriamente, mas não puder evitar.
—De qualquer forma, era você quem eu esperava que me ajudasse, Jake. Não minha família. Ou Leah, que tem uma vida em Seattle e, ainda assim, tem ajudado bastante nos últimos dias.
Seu rosto se retorceu numa careta aflita e seus olhos me encararam cheios de culpa.
—Sei que tenho deixado você muito sozinha nas últimas semanas. Eu sinto muito, muito mesmo e prometo que isso nunca mais vai acontecer.
—Não estou pedindo para abandonar seus projetos, mas...
—Sei que não, mas esses dias... Tive muito trabalho. Mas você_ segurou meu rosto entre as mãos grandes —é minha prioridade, você e Anthony, e isso nunca vai mudar. Prometo.
Balancei a cabeça positivamente, zonza de cansaço.
—Que tal um vale de 1 hora para tomar um banho relaxante ou uma soneca? Vou fazer o jantar e tentar organizar as coisas antes que ele acorde e então eu seguro as pontas, descanse um pouco.
Quase me senti culpada por ele arrumar sozinho o resultado de um dia de caos. Quase.
*
Acordei um pouco desnorteada, rígida como se... Como se tivesse dormido demais. Sobressaltada, rolei na cama percebendo no processo que havia espaço demais e, em seguida, que o berço acoplado como uma extensão da cama estava vazio. Rapidamente me dei conta de que Jacob e Anthony estavam no andar de baixo.
Me permiti relaxar, mas não pude deixar de observar que estava claro demais e não chovia. Anormalmente descansada para o hábito dos últimos 3 meses (desde que dei à luz), não consegui voltar a dormir e levantei.
Depois de fazer todo o ritual matinal me obrigando a ter calma, já que parecia que Jacob tinha tudo sobre controle, desci ainda de roupão, encontrando a mesa posta e farta para um café da manhã.
—Bom dia, mamãe!_ disse Jacob acenando uma mão do bebê para mim. Parei observando-o alimentar Anthony com uma colher dosadora. —Leah tinha razão: estoque de leite é uma boa ideia.
—Bom dia, amor!_ me aproximei e o bebê virou a cabecinha para mim e se agitou balbuciando e cuspindo todo o leite materno que Jacob estava lhe dando.
—Ah, Nessie!_ reclamou. —Perdeu uma chance de tomar café da manhã com calma.
—Como se ele fosse me ver e não ter a mesma reação_ me inclinei para pegá-lo, enquanto Jake franzia o canto da boca. —Tudo bem, sério!
Sentei e Jacob começou a servir panquecas num prato, que direcionou a mim, em seguida. Encheu um copo de iogurte e colocou na minha frente.
—Suco ou batida?
—Os dois_ falei distraidamente aconchegando Anthony ao seio.
—Descansou?
—Sim, obrigada. Que horas são, não devia estar na oficina?_ sorri vendo-o fatiar minhas panquecas e derramar mel nelas, imaginando quão culpado ele não devia estar se sentindo para delegar uma manhã de trabalho, em plena quinta-feira.
—Quase 10 horas e não hoje_ ele sorriu quase maliciosamente. —Desculpe-me não ter cuidado mais de você nos últimos dias.
—Está desculpado.
Neste exato momento um carro que eu conhecia muito bem, mas não costumava ouvir no caminho de nossa casa, se fez ouvir. Senti minha testa franzir, enquanto esperávamos.
—Bom dia!_ cantou a voz de passarinho de Alice.
—Bom dia_ Jake e eu respondemos em uníssono.
—Vim raptá-la!_ anunciou alegremente, embora algo em sua expressão não desse margem para negativas.
Olhei para Jacob que sorriu encorajadoramente.
—Aonde?
—Pensei em um dia de meninas, mas vamos começar com uma excursão de caça na fronteira de Olympia.
—Ah_ olhei para Anthony imaginando se ele estava incluso no dia de meninas e como caçaríamos com ele, certamente alguém teria de segurá-lo enquanto...
—Desculpe, lindinho, hoje serão só garotas!_ Alice falou se inclinando, Anthony sorriu para ela sem jamais soltar o seio, sorri para a beleza da cena, mas depois franzi o cenho para ela.
—Qual é, Nessie? Vai fazer bem para você ficar sozinha umas horas. Quanto tempo faz que não hidrata os cabelos?_ fechei a cara ainda mais e olhei para Jacob que assistia indolentemente.
—Tem seu dedo nisso, não tem?_ inquiri.
Ele sorriu sem mostrar os dentes e encolheu os ombros, numa clara rendição antes de dizer:
—Anthony e eu teremos um dia de garotos.
Ele tocou um ponto entre minhas sobrancelhas.
—Sei que você nunca se separou dele, mas vai ficar tudo bem. Prometo ligar ou ir até lá se precisar, temos leite congelado e, afinal: eu sou o pai. Vá com Alice, aposto que vai ser divertido.
—Espero vocês terminarem seus desjejuns_ Alice anunciou puxando uma cadeira e sentando com a desenvoltura que faria uma bailarina morrer de inveja.
—Para Anthony é um lanchinho, ele tomou café às oito_ Jacob estava claramente orgulhoso por ter dado conta sozinho, isso me surpreendeu um pouco.
Ele era um pai dedicado e atento, sua devoção como pai equivalia à sua enquanto companheiro, bom exceto o último mês... Portanto o que me surpreendeu foi reconhecer que ele era muito capaz de cuidar bem de nosso filho sem me ter por perto, supervisionando e dando instruções... Para ser honesta, parte de meu cansaço era mesmo culpa minha, eu não havia dando muitas oportunidades para que Jacob exercesse plenamente sua paternidade. Ele havia sido muito paciente, claro, acatando cada minuciosa dica como sobre Anthony devia ser cuidado.
Um pouco contrariada, mas vendo uma boa oportunidade de deixar Jacob à frente, concordei em ir com Alice após o café.
*
A última vez que bebi sangue havia sido de Leah, na ocasião em que ela foi mordida por um vampiro, então caçar foi revigorante, de várias maneiras. Mas as surpresas do dia estavam só começando.
Chegando na casa branca, Hannah e Leah estavam lá e a sala estava transformada.
—Um dia de garotas não é um dia de garotas se não incluir rituais de beleza_ Alice explicou.
—Esme está okay com ter sua sala transformada num Spa?_ a encarei. —Leah está okay com ser embelezada por vampiras?
—Alice me ameaçou, caso eu não viesse_ Leah encolheu os ombros, estranhamente sorridente para quem havia sido ameaçada.
Olhei dela para Alice, chocada.
—Encare como uma despedida_ disse minha tia baixinha.
—Não podemos ficar na cidade por muito mais tempo_ os braços de minha mãe envolveram meus ombros, a fitei. —Não se preocupe, vamos nos visitar sempre.
—Ninguém vai perder as descobertas de Anthony e faremos chamadas de vídeo todos os dias_ Rose se aproximou.
Claro que eu sabia que eles não poderiam voltar para Forks, mas não consegui me impedir de chorar.
—Não chore, hoje é um dia de alegria. Vamos, vou tentar fazer seu cabelo voltar a brilhar como antes!_ o tom de Alice era o de alguém subitamente assoberbado de trabalho, rolei os olhos enquanto algumas das garotas riram.
*
—Céus, Alice! Tenho certeza de que perdi toda a primeira camada de pele_ ela havia me aplicado esfoliante e hidratante dos pés à cabeça, me sentia como nova.
Sua boca crispou de um lado só e ela desviou do trabalho em minhas unhas dos pés para me olhar com ultraje. Sorri amavelmente em resposta.
—Pense em como Jacob vai gostar. Pode fazer as coisas voltarem ao ritmo, se não tiverem voltado ainda. Ouvi dizer que a relação pode esfriar depois dos filhos.
—Jacob está subindo pelas paredes_ Leah riu.
—Nessie, já faz três meses que... Nada?!_ Hannah parecia muito chocada.
Fitei as duas que tinham máscaras negras no rosto, atônita. Alcancei uma pequena almofada e joguei em sua direção, Leah foi rápida em pegá-la.
—Hannah, você...?_ não terminei vendo-a ficar muito vermelha.
—Sim! _Leah confirmou, seu rosto parecendo nauseado.
—Traidora! Você fez me contar cada detalhe e está aí me escondendo isso!
—Não parecia o momento certo: uma guerra de vampiros, você com o bebê tão pequeno, não tive oportunidade!
—Estão se protegendo? _ Esme interceptou a conversa, dirigindo-se pessoalmente a humana, que assentiu, constrangida.
—Nunca vou perdoá-la... Já faz meses!_ acusei.
—Se os Volturi viessem atrás de mim ou se morrêssemos todos... Eu não podia morrer virgem!
Todas riram.
—Parece que aprendeu com Bella_ Rose riu, minha mãe rolou os olhos, claramente envergonhada.
—Não mude de assunto, Nessie. Você e Jacob estão há três meses só... dormindo?
—Não que tenhamos dormido muito..., mas sim! Fica difícil pensar em qualquer outra coisa quando tudo que você quer é mastigar algo, tomar um banho e dormir antes que o bebê acorde_ me defendi, pensando comigo mesma que apesar da pouca disposição eu havia esperado alguma investida de Jacob.
Ele me abraçava sempre que deitava para dormir, me beijava candidamente todos os dias... Eu não tomei iniciativa, primeiro porque realmente não tive oportunidade nem energia, depois porque imaginei que seria atirar lenha numa fogueira para a qual não teria recursos para apagar.
Era muito diferente de antes, mesmo incluindo o período da gestação. Claro, agora éramos pais, nossas prioridades mudaram, no entanto... Apesar de todo o cansaço eu sentia falta dele. Era estranho pensar numa perspectiva futura, parecia desperdício não dormir em qualquer tempo livre que houvesse, mas eu sentia falta de como éramos antes.
—Que horas são?_ Rosalie indagou interrompendo meus pensamentos e as conversas baixas que haviam surgido.
—Três e meia!_ respondeu Hannah, chamando minha atenção com a estranha animação.
—Certo, meninas, subindo: lavem o rosto com água morna e depois apliquem água fria_ Alice instruiu Leah e Hannah sobre suas máscaras, sem desviar atenção do spray gelado que aplicava nos meus pés para secar o esmalte que deixara minhas unhas como porcelanas.
Me perguntei se seria uma boa ideia falar disso com elas, aproveitando que Hannah e Leah subiam... Com Rosalie esperando sempre uma brecha para alfinetar Jacob e Bella podendo puxar a orelha dele, aboli a ideia antes de considerá-la realmente.
—Maquiagem?_ Rose perguntou para Alice.
Senti minhas sobrancelhas unirem com confusão.
Então Alice me olhou, enigmaticamente por um longo segundo:
—Nessie, você precisa saber de uma coisa.
—Calma, amor, é uma coisa boa_ minha mãe garantiu, levantando, maravilhosa em roupão e pantufas, e se aproximando.
Olhei para Alice novamente, as sobrancelhas que ela havia moldado perfeitamente, se ergueram inquisitivas e impacientes.
—Jacob organizou todo o dia de hoje para vocês casarem no fim da tarde_ Rosalie anunciou de uma vez.
—O quê?!_ minha voz saiu estranhamente esganiçada.
—Você deve ter notado que ele esteve um pouco disperso nas últimas semanas_ Alice me olhava como se temesse que eu fosse sair correndo.
Encarei o anel de noivado, que pertenceu a Sarah Black (mãe de Jake), em meu dedo.
—Nessie, você não precisa. Jacob sabe disso e nada vai mudar se você não quiser. Ele só achou que seria legal fazer isso, agora, com todos nós aqui_ minha mãe se agachou ao lado da poltrona onde eu estava, os olhos dourados límpidos nos meus.
—Bonequinha_ Rosalie parou na minha frente, de pé ao lado de Alice, seu tom como ela falava quando eu era criança, —você quer casar com Jacob?_ estranhamente, não havia repulsa ou censura em sua voz, apenas sincera preocupação.
—Ele organizou casamento com uma festa, convidados e tudo mais?_ meu coração batia quase dolorosamente. Elas assentiram.
Nesse momento as meninas desciam as escadas.
—Não quero pressioná-la, meu bem, mas preciso que você nos dê algum sinal para que possamos dar continuidade nas coisas_ Alice falou com delicadeza.
—Ahan. Tudo bem_ todas me olharam fixamente por 3 segundos inteiros antes de relaxarem e voltarem a se mover.
Alice sacou um celular do bolso de seu roupão e sibilou por alguns segundos, me olhando sorridente em seguida, como se nada tivesse acontecido.
Ansiosa, levantei.
—Não se preocupe, Nessie. Jake tem um plano B se você não quiser casar, ele não vai ficar chateado_ Leah falou sentando numa almofada.
—Mesmo?_ mais uma incógnita somando-se à principal.
—É, mas não tenho permissão para dizer, sinto muito.
Rolei os olhos.
—Não tem que fazer isso, filha_ balancei a cabeça para Bella, concordando com suas palavras, reflexivamente.
—Você vai gostar, está ficando lindo_ Alice levantou-se indo avaliar o resultado no rosto de Hannah e Leah.
—Você cuidou de tudo, imagino!
Alice encolheu os ombros estreitos, um lado da boca se crispou por um momento.
—Na verdade, não.
Nesse momento, Rose, parou na minha frente, suas mãos frias tocando meu rosto por um momento, ela sorriu deslumbrante e altiva. Os cabelos úmidos e grudados com uma máscara, presos no alto.
—Jacob se esforçou muito, Nessie. Tem estado um caco há semanas sabendo que a estava deixando sozinha tanto tempo, só para organizar cada pequeno detalhe, para agradar você. Seja lá qual for sua dúvida, ela não importa, porque você tem certeza que o ama. Foque nisso_ Rosalie me abraçou e eu tentei não chorar.
—Tudo o que não queremos é uma noiva com os olhos inchados, então por favor, Renesmee, não chore!_ pediu Alice.
—Pense que é Jacob quem está esperando você_ disse Esme de algum ponto por trás de Rose.
Bella nos alcançou e tocou minhas costas.
—Quando vê-lo no altar todo o resto será esquecido. Vale à pena, amor_ disse-me ela.
Elas tinham razão, eu precisava ignorar esse medo irracional, porque eu o amava e não importasse o que acontecesse eu sempre o amaria. Pensei na expressão torturada dele me pedindo desculpas e me dei conta de que estava sofrendo por isso mesmo antes que eu percebesse suas falhas, imersa demais em todas as dificuldades de uma recém-mãe.
Afastei para um lugar distante de minha mente toda a experiência anterior ao me ver de noiva e deixei fluir toda a certeza de que eu queria atar minha vida à dele de todas as maneiras que pudesse.
Fale com o autor