Durand
1 Capítulo 1 - Eu e todos os meus amigos
Capítulo 1 – Eu e todos os meus amigos
Se você achou essa história, então creio que você está com uma grande responsabilidade em mãos. Eu quero que você saiba a verdadeira história da minha vida, eu quero que você saiba como acabou acontecendo por minhas próprias palavras e não das palavras dos outros, todo mundo está contando várias histórias diferentes e nenhuma delas creio que seja a verdadeira. Então meu caro, ou minha cara, espero que ao acabar de ler essa minha história — que você leia por completo — você diga para o mundo o verdadeiro final sobre tudo isso, então preste bastante atenção.
Tudo começa com um sonho. Os campos verdes se estendiam até onde a minha vista alcançava, onde máquinas faziam o trabalho agropecuário o qual outrora já foi feito por homens, -uma situação que confesso ser bastante estranha para mim- no meu colo havia um pequeno dispositivo, com o qual eu controlava todas aquelas máquinas que estavam diante de mim, era só eu abrir o dispositivo horizontalmente, como aqueles piratas quando abrem o mapa do tesouro (só que com a posição diferente) e tudo aquilo poderia ser controlado, mas eu não queria aquilo.
Eu adorava isso, era como se eu fizesse aquilo todo santo dia durante alguns anos e nunca seria algo tedioso para se fazer, era um momento particular muito único, não haviam pessoas chamando ou barulhos irritantes das grandes cidades, por mais que todos os carros sejam elétricos e a poluição sonora passou a ser evitada por leis. Não, aquilo ali era diferente, sentir o vento no rosto enquanto balançava a cadeira debaixo da árvore e sentia o ar fresco enchendo meus pulmões dando uma sensação de alívio e paz que eu tanto buscava, era reconfortante.
Sabe quando o sonho é tão real que você sente todos os sentimentos, todas as sensações, como se estivesse realmente lá? Bom, esse era um desses sonhos, como se aquilo fosse parte da minha vida há alguns anos.
Mas todo o silêncio foi cortado quando o meu cachorro do sonho que estava deitado ao meu lado começou a latir, e não, eu não tenho cachorros na vida real, embora goste bastante deles, mas no sonho ele era meu fiel companheiro, meu guardião. Ele rosna e late para algo que estava atrás de mim e quando me viro para ver o que é, uma figura misteriosa fala:
— Está na hora, vamos.
Eu não consigo ver o rosto daquela figura, pois o sol estava atrapalhando minha vista, por mais que eu forçasse para ver, não conseguia.
— Hm... então você finalmente chegou? — eu falei para a figura misteriosa – Estou pronto!
Uma sensação ruim começa a tomar conta do meu corpo, era como se eu estivesse prestes a fazer algo ruim, ou simplesmente partir para o paraíso, como se fosse minha última missão na Terra, mas eu não sei o que é, tão pouco sei quem é essa pessoa que está comigo e muito menos onde eu estou. É como num pesadelo, que você sabe o que vai acontecer, mas aí você acorda e aquele algo ruim não acontece, e foi assim que eu acordei, com aquela sensação.
Eu abro os olhos e me deparo com os projetores do teto ligando e formando uma imagem repleta de pixels de um rosto feminino no teto, era minha IA (Inteligência Artificial, não subestimando a inteligência de vocês, mas talvez isso seja necessário) que batizei de “Shaw” em homenagem a primeira mulher a trabalhar na Atari participando do desenvolvimento do Vídeo Game “River Raid”.
Sim, eu gosto de coisas super antigas, antigas ao ponto de serem de antes mesmo dos meus pais terem nascido, me julgue...
Meu quarto era todo branco com pôsteres e hologramas projetados pelo mesmo dispositivo da Shaw, como um todo o quarto não era tão grande, mas também não era tão pequeno pra mim, na verdade é até reconfortante e a vista dava para o mar, o que na minha humilde opinião era a melhor vista para se ter quando se acorda logo pela manhã. Mas vou falar do meu quarto: possuía meu guarda-roupa, o meu notebook repleto de coisas em cima, é bastante bagunçado — como a minha cama estava bagunçada naquela manhã — e o teto era projetado para que aparecesse diversas paisagens, pois eu fiz questão de que cada dia fosse uma paisagem diferente, me fazia sentir que todo dia era algo novo e diferente. Já o chão do meu quarto era um piso de madeira e, sinceramente, eu adorava isso, o ar-condicionado do meu quarto é projetado justamente para que assim que eu acordasse ele fosse desligado automaticamente como em toda casa inteligente atualmente é.
Havia algumas prateleiras também nas paredes com meus livros de história e algumas action figures de filmes, jogos e quadrinhos dos quais eu gostava ou era fã. — Fala sério? Se você tivesse dinheiro e trabalhasse como um condenado para no final do mês você comprar tudo que você quer e colocar no seu quarto em cima da sua prateleira, vai me dizer que você não compraria?
— Bom dia, Nicolas – falou Shaw com seu rosto projetado no teto olhando para mim – O senhor está bem? Vejo um aumento significativo dos seus batimentos cardíacos e uma sudorese elevada.
Sim, de fato, eu estava super suado e meu coração estava batendo muito forte devido ao susto do latido do cachorro no sonho. Típico pesadelo.
— Sim, Shaw estou bem. — eu respondi, enquanto sentava na beira da cama.
— Tem certeza? — perguntou ela – Posso chamar um médico se quiser.
— Sim! — eu repensei no que disse por um segundo – Quer dizer, não! Não preciso de um médico, estou bem. Além disso, tenho um médico na minha casa, esqueceu?
— Como uma IA, não esqueço das coisas, meus arquivos ficam armazenados na nuvem para que...
— Era uma pergunta retórica, Shaw! Meu Deus...
— Ah... Bom, nesse caso deseja receber as informações do dia?
Eu tinha programado a Shaw para me dizer as informações do dia, tempo, trânsito e coisas assim toda vez que eu abria os olhos pela manhã, mas o sonho me deixou com uma sensação ruim e como acordei suado e com o coração a mil a Shawn saiu um pouco da programação normal dela. Devo dizer também que não falo assim com ela sempre.
— Não, obrigado Shaw, pode se desligar. — eu disse me sentindo mau pelo jeito que falei com ela. Dá para acreditar nisso?
— Tenha um ótimo dia hoje, senhor!
Shaw desligou e começou a tornar as películas das janelas visíveis, fazendo o sol da manhã entrar no quarto, como sempre fazia. Eu esfreguei as mãos nos olhos, bocejei e olhei para o relógio que era projetado pelo mesmo dispositivo da Shawn, só que na parede. Eram 5 horas da manhã. Estava cedo.
Eu fiz a minha rotina como sempre; me levantei da cama, tomei um banho, vesti minhas roupas do trabalho e me olhei no espelho, olhando para mim mesmo, me pegando preso ao pesadelo. Aposto que você deve estar se perguntando como é a minha aparência, bom... sou um jovem de 23 anos, branquelo e magro com cabelos castanhos lisos que constantemente caem nos meus olhos, que por sinal são castanhos, e claro, sem barba. Nada demais. Depois de ficar preso ao espelho, fui para a cozinha, ter o típico café da manhã da família Nascimento.
Quando cheguei na cozinha me deparei apenas com a minha mãe sentada a mesa enquanto a Shaw projetava um holograma parecido com uma televisão na mesa de jantar. Ela estava vendo o noticiário.
— Bom dia, coisa linda! — eu disse para ela. — Cadê a melhor mãe do mundo?
— Bom dia. — disse ela. — Estou lendo as coisas horríveis que acontecem nessa cidade todo santo dia.
— Então nada fora do padrão.
— Infelizmente... — ela falou em tom baixo com tristeza
— Cadê o pai? — perguntei enquanto estava preparando comida.
— Ele foi mais cedo para o trabalho.
— Mas são 5:30 da manhã, ele saiu mais cedo?
— Hoje é o aniversário do Joseph Durand, esqueceu? — respondeu ela, e sim, eu esqueci esse detalhe. — Tem aquele monte de reuniões da empresa para comemorar o trabalho feito por ele.
— Ah, sei...
Minha mãe se chama Valentina Nascimento, tem 47 anos com cabelos castanhos escuros ondulados nas pontas e olhos de mesma cor — igual a mim – tendo um rosto mais quadrado que o meu e algumas rugas que denunciavam sua velhice chegando, embora tenha que ser muito atencioso para ver essas pequenas imperfeições, com lábios finos e uma pequena covinha no queixo. Estava vestindo um belo terno feminino azul marinho com uma camiseta social por dentro, aquela era a mulher que me deu a vida. Ela é médica neurologista num hospital muito renomado aqui no Rio de Janeiro, mas acredito que isso não seja relevante para a história, o que importa é que ela é neurologista.
Já meu pai, Eduardo Nascimento, é dono de uma empresa que cuida de viagens pelo SCM (Sistema de Continuidade Molecular, ou como são chamados: “Saltadores”) de pessoas pelo mundo todo e eu trabalho nessa empresa como guia dessas pessoas pelo litoral da cidade, principalmente por perto do meu apartando, já que moro no Leblon em frente ao mar, basicamente.
Meu pai viu quando eu era mais novo que eu amava histórias e viu uma oportunidade nisso e, voilá! Algumas aulas de inglês e francês aqui e ali e cá estou eu, trabalhando para ele. Não pense que isso é algo que eu não goste, pelo contrário, amo levar pessoas pelo Rio de Janeiro e demonstrar lugares maravilhosos da nossa cidade e contar histórias para turistas.
— Tem algo para me contar? — perguntou minha mãe.
— Contar? — fingi não saber o que ela estava falando enquanto colocava omeletes no prato — Eu? Claro que não...
— Nicolas... — a véia sabia.
— Eu só acho que eu diria se tivesse algo para dizer... sabe...
Eu me sentei na mesa, na frente dela.
— Nicolas... — disse ela mais uma vez enquanto fechava o noticiário da mesa.
Eu estava ferrado, ela já sabia sobre o meu sonho...
— Shaw, desertora... — Eu disse em tom baixo.
— Nicolas! — minha mãe exclamou, mas era porque eu não tinha falado ainda.
— Tá bom! — parei até de comer.
Minha mãe de alguma forma tinha configurado a Shaw para me monitorar durante o sono e enviar todo o resultado para o dispositivo pessoal dela. Então ela sabia toda vez em que eu tinha pesadelos ou um sonho bom e a pior parte disso tudo era que eu nunca consegui desabilitar essa função, por mais que eu tentasse, confesso que a véia era boa "nas tecnologia".
— É... E-eu sonhei que estava na fazenda — respondi.
— Uma fazenda?
— É, uma fazenda, sabe? — eu contei todo sonho para ela então não preciso dizer novamente aqui para você.
— Interessante... — disse ela ao acabar de ouvir a história.
Sabe qual é o pior problema de ter uma mãe médica? É que ela sempre vai estar preocupada com você e quando eu digo sempre não é como se fosse uma preocupação de mãe normal, é como se fosse algo bem maior. Por que? Porque minha mãe é neurologista e ela sabe muita coisa sobre o cérebro humano então às vezes fica meio chato já que ela sabe toda vez quando tem algum problema no meu sonho. Da próxima vez eu preciso aprender realmente a desligar essa função da Shaw.
Bom antes que eu me esqueça eu preciso detalhar um pouco da cozinha da casa, era grande, com diversas prateleiras de madeira na cor bege e branco, e algumas decorações de flores que minha mãe adorava, haviam algumas fotos na tela da geladeira que ficava mudando conforme o tempo, além, de claro, mostrar as notícias e a temperatura do Rio de Janeiro ao vivo. Havia um micro-ondas e outras coisas tecnológicas padrões de uma causa inteligente, como por exemplo a lâmpada, que aumentava ou diminuía a sua luz, ou até mesmo mudava de cor conforme a gente mandava a Shaw fazer.
Mas voltando ao assunto do sonho e a conversa entre eu e a minha mãe:
— O que é interessante? — eu disse.
— Sonhos em sua maioria tem certo significados em nossas vidas.
— Ah, então a senhora poderia me explicar porque na noite passada eu sonhei que estava montado em um Tiranossauro Rex e com metralhadoras em mãos enquanto pisava em unicórnios e nazistas alemães. — eu realmente tive esse sonho e confesso que se ela explicasse esse sonho para mim eu ia ficar muito feliz.
Mas ao invés disso ela simplesmente riu da minha cara e disse:
— Bom eu acho que por hoje já deu e já estou atrasada, eu preciso ir. Pode trancar a casa pra mim quando sair, por favor?
—A Shaw faz isso. — às vezes me pego perguntando como a minha mãe fez para que a Shaw monitorasse meu sonho sendo que nem eu sei desativar isso, mas ela esquece de que a Shaw fecha a casa sozinha.
A minha mãe botou o prato na pia e veio na minha direção, me deu um cheiro na cabeça. Coisa de mãe. E então ela se despediu e foi embora trabalhar. Eu terminei a minha refeição e então peguei minhas coisas, e sai de casa. Enquanto eu descia do elevador do prédio puxei meu celular abri o aplicativo de carona e fiquei no portão do meu prédio esperando o carro chegar.
Eis aqui o momento de silêncio, o momento em que eu me deparo com o Rio de Janeiro em sua forma maravilhosa. No Leblon os prédios eram altos, muito mais altos do que jamais foram, tão altos que o vento vindo do mar não chegava muito bem para quem morava atrás desses prédios. A rua era asfaltada possuía mais pessoas do que carros devido a época em que eu nasci, uma época onde o Saltador era real e não uma ficção e isso fez com que os meios de transporte fossem reduzido aos poucos, mas isso tem um porém. As pessoas precisam se deslocar para empresas como a do meu pai para que elas usem os Saltadores.
E embora ainda existam carros e ônibus, todo resto foi extinto por causa da invenção do século criada por Joseph. Os ônibus continuaram tendo seus terminais e suas paradas, como sempre existiu na humanidade, mas os carros, que não possuíam mais motoristas são movidos apenas por inteligência artificial e só são chamados através de aplicativos, como o que eu acabei de chamar e isso pode até ser maravilhoso porque você não tem alguém que vai ficar conversando com você, quando você não quer isso, ao invés disso você terá uma TV na qual pode assistir qualquer coisa enquanto você está indo trabalhar, estudar ou ir para casa do namorado ou namorada, enfim, é você que dita o destino e apenas o carro vai, simples assim.
Um carro então parou diante de mim e eu conferi a placa do veículo a minha frente,e a placa do veículo que estava no aplicativo, verificando se de fato era aquele carro que eu havia chamado. Entrei no carro no banco de traz e com a minha voz eu selecionei o destino que era a empresa do meu pai, assim o carro fechou as portas automaticamente e dirigiu. Os carros possuíam câmeras ao seu redor e detectavam pessoas objetos para que ele não batesse e danificasse ou machucasse as pessoas, enquanto eu estava indo em direção à empresa eu olhei na janela vendo aquela imensidão de mar e as pessoas fazendo suas caminhadas ou conversando, pois é, no meu mundo as pessoas acordam às 5h30 da manhã e vão conversar na praia, a vida no meu presente é bastante diferente do que talvez você esteja acostumado.
O carro então saiu da avenida principal do Leblon e adentrou por estes prédios do Rio de Janeiro e no teto do carro que era transparente eu vi um outdoor sobrevoando por entre os prédios, enquanto passava o noticiário daquele dia, foi então que percebi que naquele dia é o aniversário ou, seria o aniversário, do criador do Saltador, eu era fascinado por ele, na minha humilde opinião ele era o maior cientista do século, ele ajudou milhares de vidas, já que qualquer matéria, qualquer alimento que é objeto ou até mesmo pessoas poderiam passar pelos Saltadores, isso quer dizer que as pessoas famintas da África não existiam mais, pois todo aquele trabalho de colocar diversos alimentos em aviões e então decolar em direção ao continente africano para lá serem descarregados por caminhões e levados até as pessoas, não existe mais, agora você simplesmente entrava em uma empresa e colocava o alimento ali e dessa forma qualquer pessoa poderia doar alimento de maneira barata e que fazia toda diferença para muitas vidas.
Mas não pense que o Saltador serviu apenas para fazer o bem, muitas pessoas usam pra fazer coisas ruins, o comércio de drogas, o tráfico de pessoas e todas aquelas atrocidades que as pessoas fazem durante gerações ainda continuavam, só que de uma forma bem mais simples e como elas faziam isso entrando em empresa sem ninguém saber, eu não faço ideia, algumas pessoas dizem que esses traficantes compravam esse material de empresas ameaçavam as pessoas que trabalhavam lá pra ter aquele produto e um dispositivo e assim conseguiam o que queria. E sim, eu sei, o mundo continua uma grande merda.
Mas voltando ao assunto. Assim que o outdoor desapareceu eu fiz com que a tela do carro aparecesse na minha frente, à televisão vinha do chão do carro, por assim dizer, e se estendia por toda a dianteira do carro de ponta a ponta simplesmente por comando de voz, assim fiz com que o mesmo canal do outdoor fosse parar naquela televisão para poder ver o noticiário.
— Sejam muito bem-vindos a todos que nos assistem, pois hoje nós temos uma notícia muito importante para dar. – disse um dos jornalistas olhando para a câmera. — Após cinco anos da morte do cientista do século, hoje ele estaria completando 70 anos e é com grande pesar que nós temos uma matéria exclusiva do nosso canal para você telespectador que está assistindo.
A matéria do jornal começa mostrando a mansão do Joseph na França o local era um ponto turístico e todos adoravam visitar a casa dele, imagine que Newton estivesse na mesma época que você, e bom, é só trocar o Newton por Joseph e você entenderá o que estou dizendo. Apesar de ser uma mansão linda e grande, de acordo com advogados do Joseph o atestado de óbito dizia que em nenhuma hipótese alguém poderia tentar entrar naquela mansão e todos os móveis e a mobília estão exatamente do mesmo jeito que o Joseph deixou antes de partir.
Um fato interessante sobre a morte de Joseph, existem diversas teorias sobre como aconteceu, alguns dizem que ele morreu de causas naturais já que ele havia completado 95 anos, outros alegam que ele cometeu suicídio, o que foi desmascarado pela própria família, na verdade pelo próprio irmão, que era a única família. De qualquer forma eu acredito que isso não seja muito relevante já que a morte do Joseph é a grande verdade disso tudo, há quem diga que ele realmente não está morto, mas escondido o que na minha opinião não tem sentido nenhum.
A reportagem mostrava as pessoas sendo entrevistadas na frente da mansão e a repórter perguntava o que elas achavam, como era a sensação de estar ali, e quão gratificante era estar no mesmo lugar de um gênio. Eles respondiam rindo, alguns até sérios, outros tiravam bastante fotos da casa, ou como diriam “selfies”, para mostrar a todo mundo pelas redes sociais que estavam ali na mansão da França do Joseph Durand.
A reportagem começou a mostrar a história do Joseph dizendo tudo que eu já sabia, na verdade, tudo o que todo mundo já sabia. Mas eu vou explicar aqui pra você. Joseph era um gênio, você já sabe disso, mas o que você não sabe é que ele odiava fotografias tendo apenas as fotografias de quando era bebê e de documentos as quais poucas pessoas viram e apesar de tudo, para piorar a situação, em um dos testes dos Saltadores, logo no começo, Joseph sofreu um acidente nos seus 30 e poucos anos que deformou seu rosto, os amigos mais próximos dizem que a deformação não foi tão grave assim, mas como isso aconteceu? Bom, quando Joseph e seus amigos que trabalhavam no projeto, viram que a máquina estava dando certo e fizeram uma coletiva de imprensa, porém, nenhum dos jornalistas que estavam ali presentes poderiam filmar ou tirar foto daquilo, mas existe um vídeo vazado com uma péssima resolução do momento exato em que o rosto Joseph foi danificado. O vídeo de alguns segundos mostra o Joseph, ainda bem jovem, consertando a máquina e de alguma forma começando a pegar fogo e então ocorre uma explosão e logo em seguida a gente vê o Joseph deitado no chão com ambas as mãos no rosto enquanto grita de dor. As pessoas ali presentes dizem que os estilhaços da máquina junto com a explosão voaram em direção ao rosto do Joseph fazendo com que ele tivesse o rosto danificado.
Jornalista voltava para os vídeos de diversos momentos em que o Saltador é apresentado pro público, mas não pelo Joseph e sim pelos cientistas que trabalhava junto com ele e a jornalista também falou de que havia uma pintura que do próprio Joseph que ele mesmo pediu para pintar e há quem diga que existem duas pinturas na casa, uma antes do acidente quando Joseph ainda era jovem e a outra após o acidente no qual acreditava-se que o Joseph passava horas olhando aquilo e dizendo que sua vida mudou muitas vidas, mas não a dele mesmo como se fosse uma perca de tempo o que ele fizera, mas que morreria feliz já que fez uma grande diferença no século.
E então a reportagem mostra uma entrevistava com Jack Bryan, um dos amigos do Joseph, ou pelo menos um dos cientistas que trabalhou com ele.
— Como era sua relação com Joseph? – pergunta a repórter.
— Sabe, o Joseph era um cara muito na dele. – respondeu Jack, um americano jovem e elegante de olhos azuis e cabelos loiros cortado de uma forma bem militar americano, que hoje é um senhor de idade com diversas rugas e cabelos brancos, caindo aos poucos. — Mas adorava quando nos reuníamos e fazíamos aquilo funcionar. Ver o rosto dele, ver aquela cara de felicidade ao ver a sua obra funcionar mais uma vez, não tem preço.
— Dizem que o acidente no dispositivo fez com que ele raramente fosse visto por vocês, é verdade?
— Bom... na verdade não, nós conversamos muito com ele, sabe? Dizemos para ele que não poderia parar agora porque estávamos perto do fim e seria loucura se ele parasse, não é? – Jack começou a rir de uma forma leve e tranquila – Era a obra da vida dele e não podíamos ver ele parar ali. No fim ele fez aquele acidente um marco em sua vida e isso como aprendizado, digo.
Confesso a você que eu poderia simplesmente passar toda minha vida falando Joseph, porque eu realmente admiro esse cara, mas não tenho tempo para isso e de certa forma também não tive tempo para ver a reportagem completa. Foi então que eu cheguei no meu destino a televisão do carro abaixou e eu simplesmente passei o meu relógio de pulso em um local específico fazendo o pagamento via conexão do carro com meu relógio que estava ligado a minha conta no banco, então as portas se abriram e eu cheguei na empresa.
Na verdade, não sei muito bem o que dizer sobre a empresa do meu pai, mas irei por partes. A empresa se chama RDG (Recurso de Deslocamento Geográfico) que meu pai diz ser uma referência a uma fan fic que ele fez e é uma empresa terceirizada que fornece um serviço para pessoas viajarem através dos Saltadores. De forma leiga, é como se fosse um aeroporto, só que ao invés de aviões, temos teletransporte e sempre mantemos aberto 24 horas, já que o fuso horário existe. De certo modo se alguém mora num país distante do Brasil, por exemplo, e quer curtir uma noitada nas praias cariocas é só ir na nossa alfândega e usar. Quer fazer um pedido de casamento de dia e está de noite no seu país? Sem problemas. Só usar os Saltadores e ir para algum lugar que esteja de dia.
Existem diversas empresas como essa que me encontro espalhadas pelo mundo, dizendo “Ei! Nós cobramos o melhor preço e fazemos com que você dê um salto sem vomitar!”. Dar um “salto” significa que você vai usar os Saltadores e o mais bizarro sobre esse termo é que ele é usado por todo mundo e tem origem em assassinatos. Bom, pessoas que querem livrar o corpo de alguém e possui os Saltadores a disposição é só jogar o corpo para dar um “salto” e então está tudo limpo, o corpo pode estar em qualquer lugar do mundo e ninguém saberia, entretanto, os Saltadores tem como obrigação por lei mostrar o que foi transportado e para onde foi, mas nesse caso só se a polícia encontrar. Como eu sei disso tudo? Todo mundo sabe, está nos noticiários sempre, não é novidade.
A empresa do meu pai era gigante, como um aeroporto de antigamente e sempre haviam pessoas ali. China, Nova York, Nova Zelândia, haviam pessoas de todos os lugares do mundo, de todas as cores, sexos e culturas diferentes, era algo realmente impressionante. Haviam drones sobrevoando por todo o prédio, gravando e reportando qualquer problema que houvesse, no teto, lá no alto haviam um círculo em vidro com a bandeira do Brasil, como se fosse uma igreja católica e no piso haviam setas e palavras sendo passadas de diversas línguas diferentes sendo mostrado para uma pessoa em específico, isso quer dizer que se você fosse russo e chegasse ali, ao olhar no chão, todos as orientações de onde é cada coisa estariam em russo e caso seu amigo fosse americano, tudo bem, para ele estaria em inglês
O espaço da empresa tinha que ser gigante para comportar várias pessoas e haviam salas privadas com armários para as pessoas se trocarem e ficarem de acordo com o clima daqui do Rio de Janeiro. Possuía detectores de metais perto dos Saltadores e televisores que ficavam flutuando acima de nós, passando o mesmo noticiário que eu estava vendo no carro a caminho daqui. Eu fui cada vez mais adentrando a empresa e me deparando com o barulho dos Saltadores funcionando, trazendo cada vez mais pessoas. Fui então para a sala de espera dos guias da empresa.
Ao entrar na sala pela porta de vidro um holograma atrás do balcão foi acionado e secretaria estava ali, sentada na cadeira.
— Bom Dia, Nicolas! – disse o holograma da secretaria com alegria. – Uma reunião para os guias turísticos está para começar na sala 17.
—Reunião? – perguntei surpreso. – Ninguém me disse nada.
— A reunião do dia do aniversário do Joseph Durant sempre acontece no dia 28 de julho, como você deveria saber.
—Ah é... — confesso que toda vez esqueço que hoje é um dia bastante importante na empresa. – Bom, então já vou indo.
— Não tão rápido! – uma voz gritou atrás de mim. – Me espera, cuzão!
Eu me virei para ver quem era e lá estava Owen. Quer saber mais do Owen? Acredito que não seja relevante para a história, mas ficaremos apenas com o nome dele: Owen Pendragon, como o Rei Arthur dos livros, ele veio de algum lugar da Europa para trabalhar aqui e é meu parceiro no trabalho. Com cabelos pretos e ondulados na parte de cima da cabeça e um pouco mais curto dos lados, tinha óculos com lentes extremamente fortes que disfarçavam seus olhos azuis que pareciam estarem mortos e sem vida. Era mais baixo do que eu, mais gordo também eu diria, mas não tanto apenas o suficiente para eu chamar ele de “Bolo Fofo” ou de “Cara de Biscoito” já que tinha uma cara redonda.
— Chegou meu enteado! – exclamei e depois ele falou um palavrão. – Reunião na sala 17, vamos.
Seguimos pelo corredor e o holograma desapareceu enquanto sorria.
— Como foi a festa da Sabrina ontem? — perguntou Owen enquanto andávamos em direção ao elevador pelo corredor.
Sabrina era uma garota que nós conhecemos no trabalho, Owen conseguiu derrubar o celular da garota e eu tive que conversar com ela e quando demos conta ela estava amiga da gente e convidando nós dois para a festa de aniversário dela, loucura né? Uma grande habilidade de Owen, eu chamo de “Derruba e viram amigos”.
Antes de prosseguir com a conversa quero avisar a você que eu e Owen temos uma amizade um pouco estranha a base do xingamento, não sabemos muito bem como começou ou o porquê só ignoramos e fizemos um acordo para não xingar durante o passeio com os turistas para que nem eu, nem ele percamos o emprego. Dito isso:
— Não fui, estava ocupado na cama da sua mãe a noite toda.
— Rá! Muito engraçado. — retrucou ele. — Pena que ela não está no Rio de Janeiro e você não pode usar o teletransporte.
— Não preciso, eu tenho um teletransporte no meu quarto e ela dá um salto no meu quarto e outro na minha cama.
Chegamos ao elevador e o sensor de presença detectou que nós estávamos ali e começou a descer um elevador que estava apenas com uma mulher, dava pra ver por uma pequena tela que ficava ao lado da porta.
— Sério, por que não foi pra festa? — perguntou Owen novamente.
— Era tarde demais. — respondi. — Não queria perder a hora para ir trabalha.
— Desde quando passou a ligar para horário? — ele parecia indignado. — Pois eu fui e estava contando que você fosse e adivinha? Depois da festa eu fui para sua casa e enquanto você estava brincando com sua mãe de médico e paciente!
Nessa última frase a porta do elevador se abriu e a mulher que estava dentro ouviu.
— Nossa Owen! — eu virei para ele falando como se fosse algo que nunca havia ouvido dele. — Que coisa feia, você beija sua mãe com essa boca suja? Tenha mais respeito pela minha mãe!
Owen ficou sem graça e sem entender o que estava acontecendo.
— Credo! — falou a mulher do elevador andando a passos largo para fora.
Eu entrei no elevador, falei o andar para o elevador subir e em seguida Owen também entrou. O elevador começa a subir.
— Eu te odeio... — disse ele para mim enquanto eu ria. — Acha que vai estar lotado hoje? — Perguntei.
— Com toda certeza. Festa de 70 anos de um dos maiores cientistas de todos os tempos é difícil pensar que ele morreu só faz 5 anos.
— Doideira...
— Pois é! Sabe o que é doideira? Eu ir numa festa sozinho ontem de noite e ficar no mini bar bebendo sozinho enquanto diversas garotas lindas e gostosas estavam dando bobeira.
Embora Owen diga algo dessa forma no fundo ele é só um cara tímido que queria fazer maluquices igual aos seus outros amigos, mas duvido que ele chamasse uma garota de “gostosa” frequentemente, provavelmente só para mim e não sei o porquê.
—Se estavam dando bobeira, por que não pegou uma delas? — Indaguei.
— Bom... é que... sabe... tipo, elas não...
Antes que ele terminasse a frase, debochei fingindo imitá-lo e me passando por retardado fazendo caretas e falando coisas sem sentido como “uta, uta, garotas... eita, eita, nossa... gostosas, não tenho coragem de falar com elas, sou um mongol!”
— Não tem graça, cara. — ele disse depois de ver minha belíssima atuação.
— Se liga, pentelho ralado, se não tiver coragem de falar com elas vai acabar morrendo sozinho. — as portas do elevador se abriram no andar certo e sai.
— M-morrer sozinho? — ele perguntou para si mesmo enquanto estava no elevador parado.
Eu virei para ele ainda andando e dei de ombros, então ele tomou coragem e saiu do elevador andando rápido para me acompanhar. Ele ficou pensativo por algum instante e quando chegamos na sala 17 Owen ficou na minha frente e disse:
— Na próxima festa nós temos que ir juntos, somos mais fortes assim!
— Se você citar mais uma vez a parada do graveto que são mais forte juntos eu juro que...
— Não! Não! Estamos mais para Will Smith e Martin Lawrence em “Bad Boys” ou Zack e Cody em “Gêmeos em Ação”!
— Eu, definitivamente, fico com a primeira opção...
— Tá bom. Tá bom. Que tal a festa do Rodrigo na semana que vem é perto da sua casa e é num sábado à noite, estão dizendo que ele vai chamar um monte de garotas e a casa dele é enorme.
— Cara, fala sério, você não está querendo namorar com ninguém, só quer enfiar a bisnaguinha em alguém.
— Exato! De preferência numa bem gata.
As vezes nem eu sei como falar com Owen, não que ele sempre fale de mulher ou sobre pegar uma, mas esses dias ele está assim 24 horas por dia, simplesmente não para. Eu chamo isso de “Owen Pedradura”.
— Olha cara, se eu estiver no clima de ajudar esse cara que mais parece um avestruz com óculos de garrafa eu te aviso, tá legal? — falei para ele. — Até lá, enfia essas banhas na cadeira de reunião antes que eu te dê um “pescotapa”.
“Pescotapa” era a pura arte de dar um tapa bem forte até ouvir o som ecoando pelo lugar no pescoço de Owen, era nosso passatempo.
— Só não te dou um “socão” aqui porque seria expulso por violência contra mulher e isso pegaria mal. — Owen disse para mim.
— Melhor ser uma mulher do que o Ursinho Pooh de óculos, e aí se eu te bater ao invés de sangue vai sair um mel de tanta gordura acumulada!
— Essa foi boa! Vou pensar numa melhor, vamos entrar.
— Primeiro os obesos... — fiz um gesto para ele prosseguir.
A porta se abriu e Owen adentrou a sala. Escutei alguém se aproximando por trás e me virei, acabei me deparando com um cara um pouco mais alto do que eu, com um terno preto e uma gravata branca, seus cabelos eram grisalhos e possuía óculos com armação de tartaruga.
— Aqui é a sala 17? — perguntou o homem. Eu só apontei para o número 17 na porta.
— Ah, que bom! Passei basicamente a manhã inteira procurando a sala.
— É novo aqui? — perguntei para ele.
— Sim. Na verdade, trabalho aqui faz tempo, mas fazer uma apresentação para os guias turísticos em pleno aniversário do Durand é coisa nova. — ele riu e então esticou a mão para me cumprimentar. — Me chamo Felipe Augusto, prazer.
— Nicolas Nascimento, prazer. — falei enquanto cumprimentava-o.
— Me falaram sobre você, o filho do dono da empresa, correto?
— É, mas só Nicolas é o suficiente.
Felipe riu daquilo e puxou um pequeno bloco de notas do bolso do paletó.
— Sabe Nicolas, me ajudaria muito se você dissesse o nome daquele seu amigo que acabou de entrar na sala, parece ser um sujeito inteligente. — ele falou enquanto anotava meu nome no caderno e esperava minha resposta. — Preciso de alguns nomes para fazer perguntas quando a apresentação acabar. Não se preocupe, são perguntas fáceis.
Eu pensei por um instante, olhei no fundo dos olhos daquele cara cansado que estava diante dos meus olhos pedindo ajuda e falei:
— Senhor Turbando.
— Esse é o primeiro nome dele? — perguntando inocentemente ele.
— O primeiro nome dele é Thomas.
— Certo. — disse ele escrevendo o nome no bloco de notas e depois guardando. — Vamos começar logo, já estamos atrasados.
— Depois do senhor. — eu disse fazendo um gesto para ele entrar na sala.
— Ah, obrigado.
Eu vou poupar você da reunião chata que tivemos depois disso até porque eu dormi por mais da metade da reunião, mas era basicamente sobre a empresa estar seguindo o legado do Joseph Durand e ganhando muitos fãs ao redor do mundo com seus preços baixos e por poucas complicações que tivemos durante todo o trajeto até aqui. Confesso que pelo pouco que eu ouvi posso dizer que foi uma bela apresentação para alguém que disse nunca ter feito isso antes.
— Bom, para terminamos, quero fazer uma pergunta para alguém aqui na sala. — falou em inglês (como na reunião) puxando o caderno de notas. — Para minha sorte, conheci 2 pessoas daqui antes de começar.
Ele olhou para o bloco de notas e chamou:
— Senhor, Thomas Turbando!
As pessoas da sala começaram a se olhar, todos sentados em cadeiras de ferro sem saber o que estava acontecendo. Eram cerca de 50 pessoas na sala.
— Thomas Turbando! — disse ele procurando na multidão.
Eu acordei Owen que estava dormindo sentado do meu lado e falei para ele que estavam chamando.
— Que nojo! — falou uma garota na sala. Todos começaram a rir na sala.
— Thomas... Turbando... — disse Felipe Augusto analisando a sua letra tentando entender a piada. — Ah, entendi. Muito inteligente senhor, Nicolas.
As pessoas e ele começaram a me olhar, alguns até falaram “Boa cara” atrás de mim.
—Já que é tão esperto, por que não me responde: Quais as qualidades que os guias turísticos devem ter?
— Ter paciência, compreensão, passar a informação correta sempre, além de ter boa comunicação e coerência no que se diz. — dei de ombros.
— Muito bem! — disse Felipe com um sorriso sarcástico no rosto. — Bom pessoal, acabamos por aqui. Estão dispensados...
Saímos da sala de reuniões e seguimos para os elevadores, no mesmo lugar em que eu e Owen subimos. Eram 4 elevadores e estávamos todos em frente, esperando alguém chegar para descer de novo.
Owen olhou em volta para ver se Felipe estava por perto, chegando à conclusão que ainda estava na sala, esperando sair.
— Ei! — chamou ele do meu lado. — O que achou do cara novo?
— Parece ser um cara bem legal... — respondi
— Tenho uma péssima sensação desse cara. — retrucou ele baixo — Me parece mais que ele vai ser bonzinho por um tempo e depois vai ser uma desgraça.
— O que você aprendeu hoje? — perguntei a ele.
— Sei lá, eu dormi a apresentação toda. Odeio reuniões...
— Então é só ele continuar a não reclamar de você dormindo e está tudo tranquilo. Além disso, o cara só faz reuniões com a gente, não deve ser um bicho de sete cabeças.
Foi então que o elevado que Owen e eu, além de algumas pessoas na fila estavam esperando chegou. Entramos e como nós dois estávamos por últimos na fila, acabamos ficando perto da porta do elevador. A porta se fechou e o elevador começa a descer.
— E que parada foi aquela do “Thomas”? — perguntou Owen para mim.
— Ei, Nicolas! — chamou um cara alto que estava no canto do elevador, cujo nome esqueço toda vez. — Essa foi boa, deu sorte dele não ter começado a ficar vermelho igual ao Senhor Anderson.
“Senhor Anderson” ou Anderson Silva foi o cara responsável por fazer reuniões antes do Felipe. Era um cara gordo e barbudo, bem mais velho que eu ou qualquer pessoa naquela sala, sempre ficava zangado com qualquer piada, embora eu não fizesse, já que meu pai havia falado que ele sofre por causa da ex-namorada que deu um pé na bunda dele até hoje, tendo ataques muito fortes de raiva, tristeza e essas coisas.
— Ei! Ei! — exclamou Owen. — Não foi legal, tá bom?
— Pior que foi, cara. — o cara começou a rir de novo e todos do elevador que entenderam a piada em português também riram. — Fala, Thomas! Tudo bom?
— Rá, Rá! — Thomas riu com sarcasmo, quero dizer, Owen. — Muito engraçadinho você...
— Senhor Turbando, mano... — o cara começou a rir mais alto.
— Eu te odeio. — disse Owen olhando para mim.
A porta do elevador se abriu e cada um seguiu para seu lugar na empresa, nem todos ali na sala de reuniões são do mesmo setor que eu e Owen, apenas são do mesmo horário e como são muitos fica difícil decorar o nome de cada um, além do fato de fazerem poucas reuniões por mês.
Seguimos em direção a entrada das pessoas pelos Saltadores seguindo as setas que indicavam no chão. Elas possuíam a cor vermelha para mim quando todos já saíram do Saltador e estavam esperando há alguns minutos, amarela para pessoas que ainda estavam fazendo o salto, verde significava que nenhuma pessoa ainda havia chegado e azul era porque precisava ir pegar o número do terminal para buscar as pessoas. No caso, estava azul para mim e provavelmente a mesma cor para Owen.
Atravessamos um mar de gente que estavam saindo da empresa indo contra todas elas. Há duas formas de se pagar para dar um Salto, a forma mais comum é fazendo isso sozinho, onde basta comprar os ingressos pela internet ou na empresa através dos computadores inteligentes e seguir por uma fila, dando um salto e chegando ao seu destino onde passará por uma revista de drogas e armas assim como nos aeroportos de antigamente. O outro modo, é nesse o qual sou pago para trabalhar, é por guias turísticos, através de condução de casal ou grupos de pessoas, seja família, igreja ou amigos, tanto faz, desse modo você terá um ônibus que passará por algumas rotas especificas e claro, terá o guia turístico, essa forma geralmente é mais usada por pessoas com mais condições financeiras ou visitantes de primeira viagem no país.
Owen e eu seguimos pelo nosso caminho que fazíamos todos os dias e chegamos a um pequeno balcão onde havia uma atendente. Você deve estar se perguntando: por que não é um holograma? Nós temos hologramas para isso, mas algumas pessoas idosas tem certa dificuldade em usá-los ou preferem pessoas físicas para ajudá-las com cargas ou dicas de pessoas da região. Meu pai sempre diz “Quanto mais opções houver, melhor será para todos”
— Sabrina! — exclamou Owen para ela. — Foi maravilhosa a festa ontem, obrigado por me convidar, eu realmente...
— Tá, tanto faz! — Interrompeu Sabrina enquanto tinha uma goma de mascar na boca.
Sabrina era um pouco sem paciência para as coisas, aparentava ser bem mais velha do que realmente era, possuía cabelos negros como carvão sendo raspado em um dos lados tendo algumas tatuagens nessa região. Era magra e possuía diversos piercings no rosto e argolas nas orelhas enquanto, seus olhos claros intimidavam qualquer um.
— Qual é o nosso portão de hoje? — perguntei para ela em inglês, já que a partir dali era obrigatório, norma da empresa.
— Portão 15. — respondeu ela para mim. — Senti sua falta na festa, por que não foi? Doente?
— É... — tentei inventar uma desculpa melhor para ela.
— Eu fui! — indagou Owen querendo atenção dela. — Foi bem bacana. Conheci um monte de gente, sabe?
— Foi mesmo? — perguntou ela sem a menor vontade de saber a resposta.
— Eu te chamei, mas você me ignorou... — falou Owen bem baixo, apenas para si e logo em seguida voltou com a sua voz normal. — MAS!... eu curti muito e fiquei super bêbado!
— Tá de ressaca agora? — perguntou Sabrina.
— Não...
— Então não bebeu o suficiente. — Ela estendeu um pequeno dispositivo no balcão onde eu e Owen colocávamos a digitais e permitia nossa entrada no portão 15. — Pode pôr a mão direita.
— Obrigado, Sabrina. — Disse para ela depois de colocar as digitais e ir em direção ao portão 15.
A RDG era enorme e se dividia no térreo em duas áreas, a de embarque e a de desembarque para evitar problemas de tumulto, essas áreas eram longe uma da outra, sendo uma de frente para outra com divisão apenas no espaço, já que possuíam duas áreas, as de plataformas com menores espaços que serviam para Saltos em menor quantidade (onde possuíam um maior número de plataformas) e as plataformas maiores eram para Saltos com maior número de pessoas que ficavam mais adiante tendo um menor número de Saltadores, já que era a menos usada mundialmente.
O número exato de Saltadores que haviam ali eu não sabia, mas era o suficiente para o mundo todo poder saltar para lá, então dá para imaginar como esse enorme “aeroporto” é. Havia uma passarela nas áreas de embarque e desembarque que permitia, após toda a verificação de documentação e reportagem de drogas e armas, que permitia o acesso direto a saída da empresa. Ao andar por essa enorme passarela era possível ver as pessoas dando Saltos, seja indo ou voltando dependendo de onde você está em relação a área.
O SCM (Sistema de Continuidade Molecular, ou Saltador para os íntimos) um era uma máquina branca retangular de cerca de 4 metros de altura e 3 metros de comprimento com um grande círculo no chão, bem no centro, que era onde o Salto ocorria, mas ver de fato a pessoa sendo teletransportada não era possível, já que nesse círculo era uma cabine com portas retráteis de vidro fosco, onde só era possível ver a luz branca e a silhueta da pessoa em poucos milésimos de segundo até desaparecer e a parte superior da cabine sugar o resíduo da pessoa e armazenar num local onde algum funcionário iria retirar e jogar num depósito de lixo biológico atrás da empresa com o devido cuidado.
Para entender melhor o Saltador você precisa tirar da cabeça que portais seriam abertos por onde você atravessaria e apareceria em outro lugar, isso meu caro, ou minha cara, é ficção. Aqui a pessoa é desintegrada e o Saltador irá replicar todas as moléculas outrora existentes em você em um outro aparelho por onde vai sair o outro você, até as suas roupas serão desintegradas. Entendeu agora o porquê de Joseph Durand ser um dos maiores gênios do século?
Caso você tenha alguma carga, como bolsas ou bagagem, então um dos funcionários da empresa, depois de passar pelo Raio-X verificará tudo o que tem ali, vai colocar num compartimento ao lado da cabine dentro da máquina, onde a bagagem também será desintegrada e ao chegar ao destino, é só retirar e levar com você. Caso seja uma mudança de casa, então seria preciso contratar uma empresa de veículos inteligentes para levar as mobílias, já os Saltadores possuem limites de espaço e no peso da carga, sendo que a cada peso é meramente calculado para poder funcionar e “remontar” você do outro lado.
Segui pela passarela, indo contra o mar de gente novamente enquanto as luzes dos Saltos piscavam de ambos os lados, vi no chão que as setas estavam amarelas, o grupo de pessoas já estavam realizando o salto. Cheguei ao portão 15, coloquei minha mão no dispositivo próximo a entrada, uma luz verde ascendeu e o portão de vidro foi aberto para minha passagem. Me deparei com Lara Rozensky, uma russa muito bonita, bastante corpulenta tendo cabelos negros amarrados com um “rabo de cavalo”.
— Bom dia. — perguntei em inglês. — O que temos aqui?
— Bom dia. — respondeu ela em inglês com um sotaque russo pesado. — Um grupo de 30 holandeses querendo conhecer o bairro do Leblon e suas praias.
— Mais um dia sem usar meu francês... — falei com tristeza.
Às vezes eu quero falar outro idioma como Francês, mas o idioma mais comum no mundo ainda continua sendo o inglês e para evitar problemas a RDG colocou inglês como seu idioma principal embora seja comum ouvir outros idiomas para fofocas por aí.
— Mais fácil aparecer franceses do que russos.
— Tem razão, quem sabe na próxima não sejam franceses, não é?
— Nunca desista! — respondeu ela soltando um risinho para mim e logo em seguida olhou para o pequeno dispositivo em suas mãos, muito parecido com um tablet antigo. — Bom, acho que já foram todos.
— Certo. Vou para a saída.
Lara acenou com a cabeça e foi para o grupo de turistas para fazer a verificação padrão, enquanto eu fiquei na saída do portão 15, esperando o grupo pegar suas coisas para sair. Foi então que me dei conta que Owen não estava do meu lado; só então ele surgiu no portão por onde entrei, e ao me avistar ele veio até mim ficando ao meu lado.
— De onde são? — ele perguntou já do meu lado.
— Holanda.
— Sempre quis visitar a Holanda. — ele falou, esperou alguns segundo pensativo e prosseguiu. — Dá para acreditar que a Sabrina disse que você ficava bonito de camisa vermelha? Todo mundo que trabalha aqui vem de vermelho, é o uniforme da gente, cara!
Vestimos camisa vermelha com nossos nomes no peito esquerdo abaixo do logo da empresa e os idiomas que falamos nas costas, nas mangas também haviam o logo da RDG, calças jeans era obrigatório e tênis fechado também.
— Eu perguntei se também estava bonito. — Continuou Owen. — Sabe o que ela me respondeu?
— Não faço ideia...
— “Tanto faz”. Caramba ela está afim de você...
— Não faz meu tipo.
— Por causa dos piercings?
— Não. Pela cara morgada dela.
Depois que falei isso o grupo havia acabado todo o processo de verificação e veio para a saída onde estávamos. Dei um passo para frente e me apresentei junto com Owen e disse:
— Sejam todos bem-vindos ao nosso querido Rio de Janeiro e obrigado pela preferência, nós da RDG somos eternamente gratos.
Essa frase era obrigatória para todos os guias. Foi então que abri a saída e fiz todos me seguirem até os ônibus elétricos autônomos que eles escolheram para o passeio. Um funcionário do terminal abriu a porta para nós e um a um o grupo foi adentrando o ônibus, antes deles entrarem um scaner na porta fazia a verificação física da pessoa confirmando seu lugar no ônibus com uma luz que piscava, eles então entraram e sentavam em seus respectivos assentos.
Owen e eu entramos por último passando pelo scaner também, mas a diferença era que não tínhamos assentos. Fui para o monitor de 17 polegadas que havia no painel do ônibus para ver a rota que eles haviam selecionado.
— O eles escolheram? — perguntou Owen.
— Nada demais. — respondi enquanto olhava o monitor. — Algumas horas na praia do Leblon, ir ao shopping para almoçar, o Parque Penhasco Dois Irmãos e por fim o mirante.
—Belo roteiro. — Owen falou impressionado.
Pedi por comando de voz para o ônibus dar início a viagem e fechando as portas, eram 8 horas da manhã, só então percebi que eles saíram da Holanda por volta das 4 da madrugada esperando para aproveitar a manhã no Rio de Janeiro. Virei para os turistas e perguntei, em inglês, claro:
— Quem está afim de conhecer o Rio de Janeiro? — Todos alegremente levantaram as mãos. — Ótimo. Computador, tocar Tim Maia — “Do Pontar ao Leme”
O ônibus começou a tocar a música que escolhi e então partimos. Expliquei para o grupo que a música era uma grande homenagem do cantor para as praias Cariocas e que foi um dos grandes cantores brasileiros.
Geralmente eu e Owen deixávamos o grupo na praia e ficávamos na orla da praia conversando enquanto o grupo tomava banho de mar, mas aquele grupo estava querendo muito conversar para saber mais sobre o Brasil. Foi então que expliquei sobre o Leblon:
—Bom, o Leblon ganhou esse nome devido a um grande empresário francês chamado de Charles Le Blond, ele foi dono de partes das terras daqui, além disso era dono de uma empresa de pesca a baleias. Mas foi só no século 19 que o bairro recebeu o nome de “Leblon” em homenagem ao francês e se tornou esse bairro nobre. Com o passar dos anos os prédios foram crescendo cada vez mais até chegar no que é hoje em dia.
Eles ficaram impressionados com a praia, o bairro e quando deu meio dia pediram para ir ao shopping almoçar. Seguimos para o ônibus que estava por ali perto e fomos ao shopping que eles escolheram, não era muito longe. Almoçamos num restaurante super caro, fizeram questão de pagar o meu e o de Owen, aceitamos, claro.
Conversamos sobres diferenças holandeses e dos brasileiros, rimos, debatemos e confesso que foi um ótimo grupo para ser guia, já peguei um que fazia questão de ficar longe de mim e de Owen e até deixaram o almoço deles para nós dois pagar, foi uma confusão.
Logo depois comprei uma garrafa de água, bebi metade e levei quando seguimos para o ônibus novamente, assim fomos para o Parque Dois Irmãos. O ônibus parou no primeiro mirante, descemos então para apreciar a vista.
— Galera, estamos no Parque Dois Irmãos no primeiro mirante dá para ter uma vista da orla onde nós estávamos, além da famosa praia de Ipanema. — Apontei para a orla que se entendia na nossa frente, era enorme. — Dá para tirar fotos ótimas e aqui.
Depois de todos eles tirarem fotos na paisagem e comigo e Owen, juntamos todos eles para explicar um pouco mais, foi quando Owen entrou em ação:
— Vocês estão numa área de preservação de 39,55 hectares criado em 1992. Em 2011 o parque recebeu baterias especiais capaz de manter energia no parque por 3 dias, hoje em dia nem se fala. — Ele riu. — Quero levar vocês ao último mirante onde a vista é a melhor, querem ir fazer uma caminhada ou ir de ônibus?
Owen criou uma discussão típica de grupos grandes, pois alguns haviam filhos pequenos e queriam aproveitar aquele tempo levando-os nos brinquedos do parque e tirar fotos enquanto outro grupo queria subir logo.
— Certo, então quem quer ir para o último mirante me siga. — Eu disse para o grupo e então virei para Owen. — Beleza? Te espero lá em cima.
— Certo. — respondeu Owen.
Uma parte do grupo foi de volta para o ônibus e pedi por comando de voz para prosseguir ao último mirante e assim fomos subindo ladeiras íngremes. Passamos por diversas árvores e espécies botânicas diferentes como: orquídea-das-pedreiras, o antúrio-das-pedras, a velózia-branca e as bromélias, além de animais como micos-estrela, esquilos e diversas espécies de pássaros sobrevoando sobre nosso ônibus enquanto víamos das janelas. Eles ficaram admirados com tanta beleza do lugar.
O parque é o encontro da beleza da natureza com a arquitetura humana, o parque era uma chácara comprada por um português chamado José Seixas que recebia e escondia escravos fugidos, além de produzi camélia que era o símbolo abolicionista usado pela Princesa Isabel, expliquei tudo isso para o grupo no caminho de ida até o último mirante.
Foi então que descemos do ônibus, levei minha garrafa de água e falei para o grupo ficar à vontade para tirar fotos e fazer o que quisesse enquanto eu estava observando a orla no mirante. Aquele mirante possuía uma vista onde era preciso a pessoa subir em um piso de madeira, bastante diferente do restante do parque que era só pedra sobre pedra, e fiquei apoiando os braços na beirada, recebendo o vento e o sol da tarde de um dia quente no Rio de Janeiro.
Enquanto eu apreciava sozinho na beirada a calmaria daquele lugar uma mulher apareceu do nada e vomitou para fora do mirante, colocando tudo que ela tinha para fora e caindo numa altura relativamente alta, foi um baita vômito.
— Nossa! Está tudo bem? — perguntei em português para ela surpreso com a quantidade de comida que um ser humano poderia colocar para fora...
— Está... e-está tudo bem, sim. — respondeu ela limpando a boca.
— Aqui, toma isso, vai melhorar. — estendi a garrafa de água.
— Não, obrigada, está tudo bem, sério.
— Eu insisto.
Ela olhou um pouco para a garrafa pensativa, demorou algum tempo e pegou.
— Obrigada. — disse ela abrindo e bebendo.
— Marinheiros de primeira viagem não aguentam tanta água assim. — brinquei com ela enquanto olhava para o mar logo abaixo.
— É. Digamos que foi essa água que me deixou com ressaca. — brincou ela também depois de beber toda a água que havia na garrafa.
Foi aí que eu pude observá-la bem. Era uma garota de mais ou menos a minha idade, asiática, olhos puxados onde o sol batia e revelava a cor castanha, seus cabelos eram pretos com as pontas pintadas de rosa, seus lábios eram finos, não o bastante para esconder o sorriso simpático que ela tinha, seu nariz fino e combinavam perfeitamente com as suas bochechas macias e que combinavam ainda mais com o sorriso que se alargavam em perfeita harmonia, eu senti um certo calor, talvez o sol na minha cabeça, ou talvez não...
— Não jogue lixo na rua. — disse ela estendendo a garrafa vazia de volta.
— Claro que não... — peguei a garrafa de volta. — Noite agitada?
— Ah... — lembrou ela. — Minhas péssimas amigas querendo aproveitar a noite em diversos países do mundo, bebendo tudo que puder e eu de besta seguindo-as.
— Faculdade?
— Por que teria que ser faculdade? — o sorriso dela sumiu e ela ficou séria. — Não poderia ser, amigas de trabalho? Despedida de solteira? Ou até quem sabe...
— Não, não pode...
— Tem razão, não pode. É acho que encontrei um “Xerox Holmis” aqui...
Eu ri daquela besteira.
— Eu até te daria uma pastilha, mas infelizmente e-eu não tenho...
— Ah, não se preocupa com isso não, já me ajudou muito com a água.
— É, hidratar é muito importante. Evita pedras nos rins
— Verdade – Ela riu.
— Posso chamar um táxi se quiser...
— Tá tentando ser um cavalheiro?
— Acho que sim, como estou indo?
— O melhor até agora.
Eu pude ver um sorriso suave no rosto dela, aquilo mexeu comigo, era como se fosse um código para fazer minha barriga encher de borboletas, minhas pernas tremerem e minha garganta se tornou seca.
— B-bom, j-já veio aqui antes? Para vomitar? — meu cérebro encolheu, só pode — Q-quer dizer... Além de vomitar?
— Na verdade, já vim aqui sim, para apreciar a vista. — ela então olha a vista do mar e olha novamente para mim. — Mas para vomitar é a primeira vez. Espero que não me expulsem.
— Então eu expulsaria eles!
— O que? — perguntou retoricamente ela enquanto rindo da piada.
— Me chamo, Nicolas. — estendi o braço para cumprimentar, ela que aceitou.
— É eu percebi pelo nome na camisa, Nicolas. — ela apontou para meu nome disposto no uniforme.
Ela ficou em silêncio enquanto ainda me cumprimentava, olhando para mim sorrindo e eu besta, sorrindo mais ainda feito retardado.
— Não vai dizer seu nome? — perguntei depois de soltarmos as mãos.
— Hm... não. Acho que não vou não... Deveria?
— Deveria. — eu então pensei no que disse, parecia ser uma ordem.
— Quer dizer... se quiser, sabe...? Seria legal e tudo mais...
Ela começou a rir de mim, eu não julgo, eu parecia um mongol sorrindo para ela sem saber o que falar direito. Confesso que estava procurando um buraco no chão para enfiar a cabeça, e o pensamento de me jogar do mirante atingiu minha mente, seria mais rápido do que procurar um buraco no chão, assim nunca mais me lembraria dessa cena vergonhosa.
— E se eu fizer o seguinte... — ela digitou algo em seu relógio e continuou. — ... te dou um endereço e meu nome, viramos amigos virtualmente e te convido no sábado, pode ser?
— O que tem sábado?
— Ai meu Deus... — ela começou a rir. — Estou te chamando para sair!
— Ah... claro, sábado! Dia maravilhoso, é... Digo, vai ser...
Senti meu pulso tremer, por um momento pensei que estava morrendo de uma causa incomum de paixão, mas era meu relógio recebendo mensagem. Quando vi era uma mensagem de uma garota chamada Akemi Watanabe, foi então que eu percebi que era ela e aceitei o pedido de amizade.
—"Akemi”, lindo nome. — falei.
— Obrigada. — ela começou a mexer no relógio de novo. — Bom, acho que minha carona está chegando. Até sábado, então.
— Até sábado! — confirmei.
Ela então foi embora e eu conferi a mensagem que ela havia deixado para mim e o endereço que ela falou estava localizado em Nova York, não faço ideia de como vou até lá já que não posso dar um Salto, mas uma coisa eu sabia, não via a hora do sábado chegar. Fui jogar a garrafa no lixeiro próximo e fiquei olhando pensando “garrafa da sorte” e então joguei ela no lixo.
Quando Owen chegou com o grupo, não falei nada sobre a Akemi. Voltamos para o ônibus e fomos ao mirante, a última parada do roteiro, o grupo tirou diversas fotos. O mirante é uma grande área que dava de frente ao mar, onde as ondas batiam nas pedras logo abaixo e havia um dispositivo em forma de monolito que tirava foto e mandava para o site online do mirante, foi uma baita foto. Voltamos pela última vez ao ônibus e voltamos para a RDG onde eu e Owen nos despedimos do grupo de uma forma bastante amigável devo dizer e nós dois fomos para casa.
Quando cheguei no meu apartamento, fiquei vendo aquela mensagem da Akemi como se minha vida dependesse daquilo, enquanto eu sorria alegremente. Tomei um banho e jantei, fui para o meu quarto e deitei na cama, acionei a televisão (que se baseava em um projetor que saia da parede e se transformava num holograma no formato de um televisor) através da Shaw e coloquei algum filme para passar enquanto ainda olhava para a mensagem dela. Não a tirava da cabeça e assim acabei pegando no sono.
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