Duplo Prelúdio
17 Prefácio do Epílogo...
Prefácio do Epílogo...
Aonde os sentimentos acabam...
Aonde significados renascem...
Aonde tudo faz um pouco mais de sentido...
Duplo Prelúdio...
...
_Então, como eu dizia, já foi decidida a primeira viagem que iremos organizar como parte da atividade do Conselho Externo!
Dizia a pequena líder de cabelos ruivos.
_Nós iremos organizar a ida a um certo passeio, totalmente custeada pela Escola, e organizada de forma para que toda a escola participe!
Por mais chato que toda essa ideia de conselho externo poderia parecer, nunca achei que chegaria a esse ponto. São nessas horas que você se pergunta: “Por que diabos eu aceitei no começo?”, mas que é preciso continuar por sua responsabilidade como Vice Representante... Não creio que nada poderia ser pior do que isso... Hoje é Sábado, e eu estou na escola. Tenho a convicção de que isso faz parte do ‘pior’ da situação...
Rapidamente, olhei por toda a sala do conselho. Ainda era de manhã, o sol brilhava forte pelo fundo da sala. Não era tão organizada, apenas tinha umas caixas no fundo, empilhadas em prateleiras que parecia que não eram limpas faz meses. Na sala, tinha apenas uma grande mesa quadrada, onde se encontravam eu, a Representante, Raphael, Charlene, os irmãos Di Chevalier e Luana. A Representante, sempre parecendo desinteressada, mas prestando atenção mesmo assim; Raphael um tanto cansado, quase dormindo na cadeira; Charlene com a cara fechada, mas sempre dando olhadelas para Raphael, era de se esperar...; E os irmãos franceses um tanto que empolgados com tudo aquilo.
Por um breve momento, enquanto a líder falava me peguei em pensamentos do tipo: “Não tenho ideia de como as coisas mudaram tanto de uma hora para outra. Achei que não teria amigos por um bom tempo por causa da minha reclusão, mas acho que isso é bem que o suficiente”. Não consegui parar de sentir, ao menos que por um breve momento, um calor no coração. Eu gostava daquilo...
...
_Então, algum de vocês tem alguma duvida?
Perguntou Luana. A meu ver, todo mundo parecia muito desinteressado sobre o assunto, mas todos assentiram quando perceberam que ela havia parado de falar, algo que até eu comemorava àquele ponto.
Dei uma rápida olhada no recinto. O Vice parecia estar perdido em pensamentos com aquela cara de idiota de sempre. Além de preguiçoso, ainda é desatento...
No momento que Luana terminou de falar, Annelise se levantou e começou a falar:
_Creio que não, líder, e todos nós nos encontramos empolgadíssimos com a ideia de uma viagem de tamanha importância para nossa escola!
Luana Karfi, com um ar de desapontada disse:
_Sim, sim, claro. Imagino tal empolgação... _Então ela apontou para Raphael_ Tá escrito na testa roxa desse vagabundo que não consegue ficar acordado enquanto eu falo!
Raphael lançou um olhar furioso para ela.
_Não me interessa nada que sai dessa sua boca!
Os dois ficaram se olhando, furiosos.
_Ora, ora, me parecem empolgados sim! Porem, hoje venho fazer um anuncio muito importante!
Pronto, já vai começar... Até imagino o que seja isso.
_Hoje, quero convidar todos vocês para comemorar meu aniversário no karaokê hoje à noite!
Naquele momento, Leroy ficou com uma cara confusa, mas se limitou apenas a confirmar com a cabeça.
_E todos vocês estão convidados!
Todos pareceram estar empolgados com a ideia, inclusive o Vice. Não consigo não pensar que ela esteja planejando alguma coisa com tudo isso...
...
Depois de alguns minutos, todos já tinham ido embora, comentando como seria essa tal festa que eles estavam organizando. Estava apenas eu e a Representante do outro lado da mesa. Ela estava olhando para o nada, pensando em alguma coisa. O olhar dela naquele instante era um tanto assustador, mas exalava uma estranha calma... Algo que parecia que apenas eu entendia.
Decidi quebrar o silencio com uma pergunta um tanto que sincera:
_Já está melhor?
Nesse instante, aquele mesmo olhar me fitou por um instante. Ela então fechou os olhos, e com um sorriso de lado, disse:
_Obviamente sim! Uma doença como aquela não pode me abater tão facilmente!
_Ah sério? Você me parecia bem abatida naquela cama...
O sorriso dela desapareceu e ela me atacou:
_Pfft... Eu estava apenas fingindo, idiota.
Então ela se levantou e disse:
_Isso apenas prova que eu não sou igual a você! Já ouviu falar no ditado que idiotas não pegam doenças?
Até aquele instante, não era estranho ela me chamar de idiota, mas é claro que eu achava ofensivo da mesma forma. Levantei-me e a ataquei da mesma forma:
_Porem eu ainda consigo me lembrar no quanto você estava indefesa naquela cama... Parecia um cachorrinho com medo...
Ela ficou um pouco corada e disse:
_M-me sinto na obrigação de lembrar que o cachorro aqui é você, senhor Vice Representante!
_N-Não me chame assim!
Nesse momento, percebi o tanto que éramos íntimos. A única coisa que fiz foi soltar uma leve risada da situação. Percebi que a Representante também se divertia com isso pelo leve sorriso que ela deu. Então ela foi caminhando para a porta e disse:
_Vamos logo, Vice. Não quero ficar nessa escola por muito tempo.
_Claro, claro...
_E como sempre, você vai me levar até a parada.
_Claro, você não consegue ir sozinha mesmo...
Percebi que ela não ficou ofendida com o que eu disse e apenas disse para mim enquanto passava pela porta:
_Me lembre de comprar uma coleira para você depois!
_Como é que é!?
Por mais que eu pensava o contrário, aquilo já estava ficando fora de controle. Maldita ainda me trata como um cachorro... Qualquer dia, ainda provarei que sou o melhor.
...
Aquele dia me parecia um tanto diferente dos outros...
Claro, eu me vestia com minhas roupas pretas de sempre, um tanto largas, mas confortáveis, já que não fazia tanto calor naquele sábado. Meus cabelos, ainda longos, continuavam pretos como sempre, mas algo parecia diferente... Isso me deixava um pouco incomodada...
Provavelmente deve ser esse idiota me acompanhando até a parada...
Devo dizer que muita coisa mudou até hoje. Olhei para ele e fiquei pensando: “O que será que significa ser amiga de alguém?”. Claro que eu também me perguntei: “Por que diabos eu estou pensando nisso agora?” Nesse instante, ele olhou para mim, mas eu desviei o olhar rapidamente. Acho que ele não percebeu...
Quando chegamos à parada, percebi que o clima parecia mais fresco que o normal, o vento do mar ainda ventava naquela parte da cidade, aquilo me impressionou bastante até... Os carros passavam rapidamente, refletiam a luz do sol por um instante, mas logo paravam. A parada era um pouco escura, imagino que aquilo deveria ser bem inseguro durante a noite...
Durante esses pensamentos, o Vice quebrou o silencio, como sempre:
_Mas, eai? Você planeja ir para essa festa?
Ah claro... A festa... Encontro entre pessoas em um lugar com, geralmente, musica muito ruim... O único ponto bom é se encontrar com amigos e conversar sobre várias coisas inúteis, porem ainda sim animado... Mas é claro que eu fico apenas com pensamentos, já que nunca tive amigos de verdade...
_Claramente, não pretendo. Isso deve ser apenas mais uma ideia sem nexo da Annelise.
_Não sei bem... Como ela é uma pessoa rica, acho que ela não deve ter muitos amigos... Acho que é uma bela oportunidade para ela, já que é aniversário dela.
Meu olhar de desprezo apenas atingiu o seu ápice naquele momento.
_Eu acho que você não conhece bem a Annelise, não é?
Ele fez uma cara de dúvida, o que servia bem como resposta.
Olhei de volta para a pista reluzente e continuei:
_Eu tenho certeza que hoje não é aniversário dela, o irmão dela deixa transparecer muito, principalmente se ele não está avisado dos planos dela de ultima hora... Enfim, essa festa tem outro significado, que eu ainda não sei...
Porem apenas imaginava o significado, mas não queria abrir discussões agora.
_E você, Vice, caiu que nem um patinho no plano dela. _Disse olhando para ele, que parecia estar mais confuso ainda.
Ele então estufou o peito e falou:
_Mesmo com suas teorias conspiratórias, eu me sinto lisonjeado por ser convidado a uma festa. _Ele olhou para a pista com um olhar meio perdido e continuou com aquele sorriso idiota de sempre _ Sabe, eu nunca fui convidado para nada disso antes...
Então ele me olhou, e eu com uma cara de decepção, apenas disse:
_Você é patético, sabia?
Ele riu nervoso e baixinho e disse:
_É, acho que sou mesmo. Hehe...
Estranho... Não esperava ele ser tão sincero consigo mesmo...
Nesse momento, o ônibus chegou.
...
Já era de tarde, e eu estava lendo meu gibi novo do Zé Carioca que eu comprei esses dias.
_Eai irmão, quando que a Emanuella vai voltar ein?
Minha irmã me perguntava enquanto estava com a cara praticamente grudada na televisão, assistindo Bob Esponja.
_Sendo sincero? Espero que não tão cedo... _Disse enquanto não tirava os olhos do gibi.
Ela não disse mais nada... Parecia estar entretida demais com o Calça-Quadrada...
Eu havia percebido faz um tempo, mas o clima dentro de casa estava muito abafado, não sei por que... Aquilo me deixava muito incomodado. É um grande desperdício vir para uma cidade diferente, com clima diferente, e não provar daquilo...
Então fechei meu gibi, arrumei uma roupa confortável e gritei pra minha irmã da porta:
_Vou sair pra pegar um ar, daqui a pouco eu volto!
Como era de se esperar, ela não respondeu.
Depois de alguns minutos andando, e sentido aquele ar gostoso, me aproximei da área comercial da cidade. Eu até que gostava de estar no meio de muitas pessoas, por mais que elas não gostassem do mesmo... É algo que eu nunca tinha percebido em mim mesmo. Chega até a ser estranho só de pensar...
_Ramon?
Ouvi alguém me chamar a distancia. Quando vi a figura de perto, ela me chamou de novo:
_Ah, você é aquele amigo da Emanuella não é?
Olhei direito e rapidamente reconheci a figura. Era a mãe da Representante. Ela era bem diferente da minha mãe, pois ela era bem mais magra, escondida em panos de lã, algo que a minha mãe nunca faria.
_Ah, senhora Oliveira! É um prazer encontrar com a senhora.
O sorriso dela era bem sincero, apesar de suas olheiras e sua cara cansada... Pareciam ser de uma mulher que sofreu bastante na vida, e eu até consigo imaginar isso...
_Ainda bem que eu te encontrei aqui, Ramon... Eu queria conversar com você. Você se importaria de tomar café comigo?
Bom, eu nunca fui de recusar coisas assim, principalmente de pessoas mais velhas do que eu ou tão gentis quanto a mãe da Representante, mas não pude deixar de imaginar o motivo desse convite... Claro que seria ruim perguntar, então eu apenas aceitei o convite.
_C-claro, por que não?
Minutos depois, eu estava em uma mesa de uma cafeteria, tomando café junto com a mãe da Representante. Sempre tento adivinhar como eu acabo nesses tipos de situação... Sempre falho nisso.
_Então, você é novo por aqui né? _Ela disse enquanto colocava açúcar no café.
_Ah sim, sou. Minha mãe se mudou recentemente para cá...
_Ah bom... _Ela mexeu um pouco do café, e depois perguntou, olhando bem fundo nos meus olhos_ Como conheceu a Emanuella?
O café tinha ficado um pouco mais quente naquele momento...
_Bom... Ér... Foi algo totalmente, como posso dizer... Estranho...
Tomei meu tempo para tomar um gole do café sem açúcar, eu gostava sem açúcar, e também para pensar melhor na resposta, enquanto tentava desviar do olhar penetrante dela. Mas antes ela já perguntou outra coisa:
_Mas, vocês estão namorando?
Nesse momento, um pouco de café entrou nas minhas vias aéreas, comecei a tossir.
_Ops, me desculpe! _Ela disse, com uma cara preocupada.
_Não se preocupe... Estou bem... _Tossi mais um pouco, respirei fundo para não tossir novamente e respondi_ Não estamos namorando não, senhora.
_Ah, então vocês são só amigos...
Eu rapidamente me senti na obrigação de responder, enquanto colocava o café de volta na mesa:
_Não exatamente, senhora... Não somos tão próximos assim... Apenas fazemos parte do mesmo conselho escolar...
Ela ficou com uma cara confusa e disse:
_Bom, vocês parecem ser bem próximos...
Essa sentença dela me deixou pensativo por um breve momento. “Parece mesmo?” fiquei pensando comigo mesmo... É estranho pensar que você conhece uma pessoa do nada e fique amigo dela, sem nem mesmo saber quem ela é exatamente... Tomei mais um gole do café, um tanto pensativo ainda.
_Sabe, ela pode ser assim, do jeito dela, mas não a julgue... _Ela disse, e depois de uma golada de café, continuou, e eu conseguia sentir o clima pesar naquele momento_ Depois que ela perdeu o pai, ela ficou muito reclusa... Fechada... Não consigo saber se ela ainda está triste com isso, ou se ainda pensa nisso...
Enquanto ela falava, eu olhava nos olhos dela e conseguia ver um tipo de amor que eu nunca tinha visto antes... Era estranho, mas eu me interessava pelo que ela falava, e eu acho que ela percebeu enquanto continuava a falar.
_O pai dela morreu em um acidente de carro... Ela se culpa até hoje pelo que aconteceu. Ela nunca me contou, mas eu sei. Eu sou mãe, afinal...
Depois disso, ela se calou por um instante, pois estava quase chorando. Eu, apenas ficava triste com a situação, ainda mais por não saber o que falar. O silencio breve já estava ficando insuportável. Mas ela quebrou, depois de mais um gole de café:
_Mas, sabe... Algo mudou nela recentemente..._ Depois de dizer isso, ela deixou transparecer um leve sorriso no rosto_ Ela parece estar um pouco mais animada, um pouco mais viva... Ela está acordando no horário, estou conseguindo ver vida nela, algo que eu não via há anos... E eu acho que é por sua causa...
“Minha causa?” Fiquei a pensar enquanto ela falava aquilo. Eu já estava um pouco nervoso com a situação, mas eu reconhecia que aquilo era apenas opinião de mãe, elas sempre tendem a exagerar. Porem, me limitei a falar nada. Ela ficou alguns segundos sem falar nada, também, mas depois do ultimo gole de café, ela se levantou com um olhar bem sério:
_Eu tenho um pedido a lhe fazer, Ramon...
Eu me levantei também, aquilo parecia ser bem sério, então deveria me postar sério para a situação. Então ela disse:
_Não a deixe... Cuide de minha filha... Ela pode parecer forte, mas é frágil por dentro... _Então ela deu um tchau e foi embora.
Eu, atônito naquele momento, apenas me sentei novamente e fiquei pensando no que ela havia dito... “Ela pode parecer forte, mas é frágil por dentro...” Aquelas palavras ecoaram na minha mente como uma sala sem mobília. Minha mente estava vazia, apenas pensando nisso, eu não conseguia me mover bastante, estava sentado faz alguns segundos.
Droga... Acabei de perceber que meu copo está pela metade...
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O passado te persegue e o futuro te amedronta...
Ainda é difícil ficar em pé sem ajuda...
Andar reto é difícil com uma vida tonta...
Sempre devagar, para que ela mesma não se iluda...
Duplo Prelúdio...
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Próximo Capítulo: Festa em Adágio...
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