Duplo Felino
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Boa leitura!
Refri era um gatinho de gente. Tinha os olhos amarelos esverdeados e seu pêlo era negro como a noite (ou como refrigerante). No ninho de Duas-Pernas (humanos) onde morava, sempre houve comida e conforto, resultando em uma vida tranquila e relaxante. O gato tinha, inclusive, muito afeto pelo seu dono.
Mas o mais intrigante daquele gato era o fato de que sempre que ia dormir, ele acordava no meio de uma floresta. Lá haviam clãs de gatos selvagens, e Refri fazia parte do Clã do Trovão. Ele tinha construido toda uma vida ali. Já era um guerreiro formado, sabia lutar e caçar muito bem. Nesta realidade, ele tinha o pseudônimo de Escuridão da Noite, como era típico dos gatos de lá se chamarem.O fenômeno do duplo felino acontecia com Refri desde que nascera. Quando pequeno, ele acreditava que o que acontecia na floresta não passava de um sonho, porém recentemente as sensações que ele sentia quando estava na floresta estavam cada vez mais intensas. Ele ficava se questionando sobre suas duas vidas e chegava a ficar em dúvida de qual era real. Várias vezes se repreendera por levar tão a sério o seu suposto sonho na floresta. Mas era tão interessante, ter uma vida dupla, que ele não podia deixar de gostar.O felino nunca comentou com seus companheiros de clã o que acontecia. Receava que tivessem preconceito com ele por ser parte gatinho de gente, um grupo que desprezavam tanto quanto era possível. Ou talvez o achassem maluco e o mandassem para o exílio. Ao contrário do que se poderia esperar, Refri gostava muito de ser gatinho de gente. E o melhor era que ele podia aproveitar o melhor dos dois mundos. O conforto e tranquilidade de viver junto aos Duas-Pernas e a adrenalina e aventura de ser um gato de Clã. O problema era que nas últimas luas (meses) o gato estava cada vez mais cansado. Ele tinha dois corpos, duas vidas, dois mundos, duas realidades, mas apenas uma consiência. O coitado nunca teve a chance de experienciar a sensação de adormecer e descansar, e por fim de acordar renovado. Ele não parava, não dormia e desse jeito estava ficando cada vez mais exausto. Pensamentos e mais pensamentos o tempo todo, sem pausa.Refri não compreendia por inteiro os misteriosos paradigmas do fenômeno do felino duplo, e cada vez mais se sentia curioso a respeito do que aconteceria se ele tentasse causar um encontro entre os dois corpos. Morreria? Perderia um dos corpos? Seria obrigado por forças maiores a escolher apenas uma vida para manter? E se assim fosse, qual ele escolheria?A vida de gato de clã era única, porque ao mesmo tempo que oferecia uma experiência arrebatadora e cheia de adrenalina e empolgação, oferecia também o perigo mortal presente nas batalhas. Morar na mata, em liberdade, era uma sensação maravilhosa. Poder correr por entre as árvores, inspirar o frescor matutino, e até mesmo se encolher de frio em uma noite da estação sem folhas... Tudo isso eram coisas insubstituíveis. Entretanto, a vida de gato de gente tinha suas vantagens. E não era só ter conforto, comida e segurança. Não, ser gatinho de gente era muito mais do que apenas isso. Ser gatinho de gente era recusar a ousadia selvagem e trabalhar sobre o conhecimento mútuo de conviver com os Duas-Pernas. Os gatos de clã só os temem porque não os compreendem. O convívio contínuo com esses seres diferenciados abria os olhos dos gatos e os fazia ver muito mais além. Estes seres não eram tão malvados quanto era dito, eles apenas têm propósitos de vida diferentes. Eles pensam diferente, de uma maneira completamente nova. Eles eram seres realmente fascinantes, embora o senso de coletividade deles seja tão mal desenvolvimento. (Mas o ponto de vista dos animais em relação aos humanos já é outra história, em tão vamos voltar a focar em Refri/Escuridão da Noite.)Certo dia, ainda pensando sobre o encontro dos dois corpos, Escuridão da Noite informou falsamente aos seus companheiros de clã que iria sair sozinho para caçar. Porém, em vez de se concentrar em detectar uma presa, o gato tomou rumo em direção a vila dos Duas-Pernas, para finalmente poder matar sua curiosidade sobre o seu outro eu. Ficar remoendo as possibilidades não fez bem a ele, e agora nada podia detê-lo. Ele ia descobrir o que aconteceria, porque estava cansado de viver duplamente. Perder uma de suas vidas era um risco que ele tinha que correr.Quando Escuridão da Noite chegou bem perto de sua outra casa, seu coração acelerou. Não havia nenhum gato a vista, é claro, pois os vizinhos não tinham animais e o próprio Refri devia estar dormindo.O felino prosseguiu e pulou a cerca, planejando entrar na casa e acordar a si mesmo. Uma pertinente sensação de que nada daquilo era real e não se passava de um sonho cutucava sua mente e lhe dizia que ele se sentiria muito pacóvio (idiota, imbecil, estúpido) depois daquilo.Prosseguindo, o gato entrou na casa. Era tudo tão familiar, mas ao mesmo tempo tão estranho. O que ele estava fazendo não era certo, ele pressentia isso.
Na sala, o corpo de Refri estava desacordado, espalhado pelo sofá. Escuridão da Noite hesitou por um milésimo de segundo, mas reuniu coragem e soltou um miado alto e estridente.Os olhos do outro gato se abriram e um baque ecoou na mente dos dois. Ou seria um?O felino via frações de visões dos dois pontos de vista. Os dois gatos com o físico idêntico se encararam por alguns minutos, os quais pareceram horas. Aquele momento poderia ser descrito como confuso, principalmente, e o resto não importava, pois era confuso demais.Eles estavam tontos, e não conseguiam pensar direito. Eram duas linhas de raciocínio tentando atuar em uma única consiência, que logo se dividiu em duas.O processo de divisão foi muitíssimo doloroso, e logo ambos já berravam de dor, confusão, e arrependimento. Um saltou sobre o outro, e como gêmeos, já não era possível distinguir os dois, que lutavam com voracidade e força igualadas. Eles não tinham um real motivo para lutar, na verdade foi a confusão que levou a isso.Um dos dois parou de lutar. Refri, o gatinho de gente. Agora ele se debatia, agoniado, como se estivesse sofrendo a pior das torturas. Escuridão da Noite recuou, sem saber o que fazer. Não era possível que o surto tivesse sido causado pela disputa. Foi causada pela divisão de consiência. Refri estava tão mal que era evidente que morreria em breve. O gato selvagem saiu correndo dali, extremamente abalado. Ver a si próprio morrer só lhe causaria mais horror.Escuridão da Noite movia as patas com tamanha velocidade que logo já estava a centenas de metros do ninho de Duas-Pernas. Seus pensamentos ainda estavam bagunçados em constante confusão. Ele decidiu parar para descansar e tentar entender o que aconteceu. Alguns minutos se passaram e ele sentiu uma estranha e assustadora paz. Soube neste instante que Refri havia morrido. Agora ele estava entre os nobres e dignos gatos guerreiros do divino Clã das Estrelas. Sua vida nunca mais seria a mesma. Agora ele só tinha uma. Nem mesmo pudera escolher. Ele se castigou pela curiosidade, inconsequência e burrice que haviam resultado naquilo.Nunca mais poderia relaxar ao lado de seu dono. Ah, seu dono! Como sentiria falta dele. Mesmo que pudesse, Escuridão da Noite nunca ousaria voltar àquela casa e se fingir de Refri. Se sentiria como se estivesse traindo a si mesmo. Agora ele viveria normalmente sua vidinha penosa de gato de clã, se esquecendo aos poucos da sua outra vida que outrora havia amado e aproveitado tanto. Suas lembranças só lhe trariam a dor e ressentimento consigo mesmo. Nunca comentaria esses acontecimentos a ninguém, e tentaria ao máximo não pensar nisso. Se devotaria ao seu clã, mesmo que estando incompleto por dentro, servindo-o com lealdade até o dia de sua morte. Ah, morte. Quando toda a dor finalmente fosse embora e ele pudesse voltar a ser dois em um no Clã das Estrelas, junto com a sua outra metade: Refri. A partir desse dia, Escuridão da Noite seria um gato de Clã, e apenas isso.
Notas finais
"A curiosidade matou o gato."O que acharam? No final o gato não teve escolha, mas se ele tivesse, com qual vida vocês acham que ele teria ficado? Comentem, por favor. *Refri realmente existiu, e era um ótimo gato. Esperamos que ele esteja sendo feliz no Clã das Estrelas.
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