Dupla de Três
19 Uma última chance
Assim que o menino sai do ginásio, Tamsin se vira para a gente e arregala os olhos. Ela está no meio de uma das metades da quadra, a que fica mais perto de nós três. Não sei se felizmente ou infelizmente, ela me reconhece.
– Emma Holt – ela vocifera.
– Oi, Tamsin – respondo, com a voz tão alta quanto a dela, porém mantendo a calma.
Ela faz um gesto com a mão para porta pela qual entramos, e a porta bate estrondosamente, ecoando pelo ginásio coberto. Ela faz a mesma coisa com a porta dos fundos, oposta à anterior, e nas duas portas na lateral da quadra que levam para os vestiários.
– O que você quer comigo? – pergunta Tamsin. – E quem são esses? Seus guarda-costas?
– Eu prefiro a palavra "amigos" – Dustin murmura.
– Nós viemos em paz, Tamsin – digo, num volume mais alto que o normal. – Nós só vamos te levar para o Acampamento Meio-Sangue!
– E quem disse que eu quero ir para o seu acampamento? – ela rosna, extremamente irritada.
– Nós vamos te salvar – Tom vocifera.
– EU NÃO QUERO SER SALVA! – Tamsin berra, cheia de rancor e raiva. – Incantare: Gelu Semita!
Calma. Isso não estava nos planos. De repente, a temperatura do ginásio cai absurdamente e parece que estamos num frigorífico. Uma fina camada de gelo cobre o chão, e pedaços bem pequenos de granizo começaram a cair (considerando que estamos num local fechado, isso é preocupante). Uma camada mais grossa de gelo gruda nossos pés no chão, menos os de Tamsin.
Eu, Tom e Dustin entramos em desespero enquanto Tamsin desliza até nós, como se estivesse acostumada a fazer isso.
– Se eu fosse vocês, iria embora agora – diz ela. – Vocês não me conhecem.
– Ah, eu conheço sim – rebato.
– Ela conhece seu lado normal, e não esse psicótico – diz Tom.
– Calem a boca! – grita Tamsin, perturbada. Ela aponta para a porta e berra: – Incantare: Aufero Sarcina! Pronto, vão embora!
O gelo some e nossos pés são soltos, secos e em temperatura normal, como se nada tivesse acontecido.
– Nós não vamos embora – diz Dustin, sacodindo os pés.
– Se você não vier conosco, vai morrer – avisa Tom. – Os monstros vão te matar.
Tamsin sacode a mão e uma espada surge do nada. Assustador. Aí ela coloca a ponta da espada no meu queixo e rosna:
– Vão. Embora.
Tom joga sua mochila no chão, desembainha sua espada e diz, com um tom ameaçador que eu nunca tinha o ouvido usar antes:
– Se você tocar nela, eu mesmo te mato.
Tamsin joga a própria espada para o alto e ela desaparece. Ela usa as duas mãos para fazer um gesto de empurrar na direção de Tom, encostando os pulsos e abrindo as mãos. Ele voa para trás até bater na parede dos fundos do ginásio com toda força e cai sentado no chão.
– Tom! – eu grito, desesperada, e corro até ele, ignorando que a maluca pode nos atacar pelas costas.
Eu me jogo no chão ao lado dele, que, graças a todos os deuses, está consciente, mas com certeza tem um ou vários machucados internos.
– Emma – ele murmura, gemendo de dor, som que quase me faz chorar.
– Calma, calma, estou aqui – digo, apesar de eu mesma estar zero calma. – Você vai ficar bem, ok?
Ele geme de dor de novo e se contrai. Eu entro em desespero e faço o pouco de primeiros-socorros que sei. Passo a mão no pescoço dele para ver se está tudo bem ali, e depois no peito e na barriga. Rapidamente percebo que há uma costela quebrada, se eu não estiver enganada.
Eu plho para Tamsin, e ela se vira para Dustin, preparando o mesmo gesto com as mãos.
– Não, Tamsin! – eu berro.
Ela também o joga na parede, só que com muito menos força, de modo que ele cai e levanta na hora, assustado porém fisicamente bem, ao contrário de Tom.
Tamsin está mostrando a dor que ela pode causar a eles, e consequentemente, a mim também. É só uma demonstração idiota de poder.
– Eu posso matar seus amigos, Emma – diz ela. – Aí você vai sentir tudo que eu senti quando seu acampamento matou meus irmãos!
– Não, Tamsin – vocifero, quase debruçada em cima de Tom, que está com as mãos na minha cintura, como se me mantendo perto dele, enquanto eu me coloco entre ele e Tamsin. – Eu te conheço. Você não seria capaz. Você é boa. A guerra te tornou vingativa, mas você não é assim.
– A culpa é de vocês! – ela grita.
– A culpa é de você mesma! – rebato. – Olhe o que aconteceu com Ethan Nakamura! Ele se arrependeu do que fez, tarde demais. Foi morto por estilhaços da própria espada ao se virar contra Cronos. Você deu sorte, mas não vai durar muito. Nenhum semideus dura muito fora do Acampamento Meio-Sangue, quanto mais poderoso, pior, e se você sobreviveu, foi porque é poderosa. Eu estou te garantindo que ainda há uma chance de se redimir, antes que seja tarde. Você pode ir para o acampamento, há um chalé para você, meios-irmãos bons, novas amizades, e uma oportunidade de se virar para o lado certo; ou você pode morrer, porque isso não é dúvida. Você é forte, admito, mas ninguém dura para sempre. E você vai se arrepender se fizer a escolha errada.
– Quem você pensa que é para dizer que eu vou me arrepender? – diz ela, mas já é possível notar a mudança em sua voz. Ela não está mais gritando, não está mais tão confiante de si, e nem tão convicta de sua escolha.
Ela está cedendo.
Bem nessa hora, ouço outro gemido de Tom.
– Escuta aqui, Tamsin – preparo meu ataque verbal final. – Se você quiser ir, ótimo. Missão cumprida, você vai conosco para o acampamento, e vira uma pessoa decente, aquela pessoa que você era antes disso tudo. Se não quiser, eu lamento. Continue lutando contra dezenas de monstros, morrendo um pouco a cada dia, e boa sorte nos Campos de Punição. Sabe, se eu estivesse sozinha, você poderia já ter me matado, mas eles dois vieram comigo, e você os atacou só para me mostrar o que você pode fazer. Eu não vou ficar aqui sacrificando a vida dos meus amigos, se você quer repetir o mesmo erro. Mas no fundo, tanto eu quanto você sabemos que você não é a Tamsin Cage que eu conheci. Cronos te mudou, assim como aos outros semideuses... Que agora estão mortos.
Tamsin entra numa espécie de colapso nervoso, e começa a ficar sem reação. Eu não sei se ela vai chorar ou dar um berro. Parece que ela está em crise consigo mesma, como se a antiga Tamsin que eu conhecia estivesse brigando com a nova Tamsin pós-guerra. Só tenho certeza de uma coisa: se a Tamsin pós-guerra vencer, ela vai nos matar ou causar sérios danos permanentes.
Eu discretamente tiro minha mochila das costas e procuro um dardo especial, parecido com os tranquilizantes que eu usei antes, porém várias vezes mais potente. Pego a zarabatana, que estava enfiada na bainha junto com minha faca, e posiciono o dardo.
Eu o trouxe para o caso de nós precisarmos deixar alguém inconsciente, caso tivesse algum ferimento grave. Mas faço algo arriscado: uso-o em Tamsin.
Quando ela percebe o que eu vou fazer, é tarde demais. Já cravei o dardo na barriga dela.
Notas finais
Então, gente... esse é o fim. Eu não vou mais escrever essa história, sinto muito. :c
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