Duo Reality

10 Capítulo 9- Procura


Notas iniciais
Oláá! Eu demorei bastante pra postar esse, mas culpem meus professores! Ele ficou um pouquinho maior, vejam se gostam! Estou muuuitoo feliz que tem gente que tá curtindo de verdade a história :) Obrigada! E mais uma coisa: o que vocês acham de eu reescrever o capítulo 1 transformando-o em 2? Falem nos reviews! Beijoos e boa leitura!! :3

Capítulo 9

Procura


Já estava saindo do quarto quando percebi que seria uma boa ideia levar o manual. Não sabia o quanto mais esse jogo tinha a esconder. Há alguns dias eu só esperava me divertir e quebrar códigos, como sempre. E de repente, tinha que salvar o corpo de minha mãe, e basicamente, salvar o resto do mundo.

Digamos que haviam pessoas com uma vida mais fácil que a minha.

Mas eu não podia falhar. Não depois de tudo isso.

Desci as escadas devagar escutando aqueles rangidos que a madeira produzia. Antes eles eram irritantes. No momento, eram um pedaço da minha vida que eu estava escolhendo abandonar.

Cheguei ao primeiro piso. Olhei aquele corredor. Cheio de fotos que eu havia derrubado antes. Cheio de mim. Decidi apanhar uma, na qual estavam minha mãe, meu pai e eu, anos mais novo. Uma criança pequena e feliz. Só que com família.

Percebi que estava enrolando. Por medo, insegurança, saudade... Não sabia. Só sabia que tinha de sair.

Cheguei na calçada e olhei toda a vizinhança. Casas iguais, cores diferentes. A minha era fácil: azul cobalto. A cor favorita do meu pai. Descobri, destravando uma vez um programa de dados, que meu pai era a única pessoa do lado ocidental que tinha essa cor como favorita. Não era à toa que o governo nos achou tão facilmente.

Tranquei a porta e arranquei a maçaneta brilhante e dourada. Joguei-a no bolso. Qualquer coisa para atrasá-los.

A rua estava fria e escura. Que horas eram mesmo? Seis, no mínimo. Talvez as sanfonas voadoras já tivessem sendo recolhidas. Torci para que fosse o contrário.

Sanfonas voadoras eram transportes públicos. Na verdade, não se pareciam com sanfonas e nem realmente voavam. Nós as apelidamos assim porque levantavam uns 5 metros do chão e podiam se esgueirar facilmente por ruas estreitas ou coisas do gênero.

Por sorte, uma parou bem na minha frente. O condutor era um velho funcionário com uma barriga protuberante à amostra.

–Onde? — me perguntou de má vontade. Era provável que essa era a sua última viagem do dia e seu desejo era estar em casa.

–Centro. — eu disse.

–Tem certeza? As coisas não estão muito bem por lá.

–Absoluta.- falei.

Ele não me respondeu, mas colocou as coordenadas no painel holográfico e saímos a toda velocidade. Essa era a vantagem de estar a 5 metros do chão: podemos atravessar a grande divisão do sul em alguns minutos. Claro que ela não era tão grande como há centenas de anos atrás. Meu pai me contou que geleiras derreteram, o nível das águas subiu, e encobriu boa parte das divisões. Mesmo assim , a do sul é a maior de todas, e é bastante cansativo e demorado atravessar ela a pé. Por isso, sanfonas voadoras são praticamente essenciais.

Chegamos lá em menos de 15 minutos. Estava saindo do transporte quando o funcionário me chamou:

–Ei, garoto. Espera aí. Você me parece familiar. Qual é o seu nome?

Pensei por alguns rápidos instantes. Não sabia quem aquele homem era.

–Linos. — menti. E em seguida percebi que deveria ter falado um nome mais comum. Só conheci um Linos na vida e ele era proveniente da divisão do centro.

O homem olhou para mim com desconfiança. Ele sabia muito bem que esse não era meu nome. Ele era um funcionário, não um combatente.

Há grandes diferenças entre funcionários e combatentes. Nos exercícios do software nos ensinavam que a única semelhança entre ambos era que trabalhavam para o governo. Porém, combatentes tem permissão para portar armas, matar e outras coisas. Funcionários desempenham uma única função. Meu pai era um. Mas para mim, a diferença se tornou simplesmente: os que têm consciência, e os que não tem.

Depois de me analisar por mais ou menos um minuto, seu rosto relaxou e me deixou ir. Eu agradeci e saltei para fora.

Sangue. Sangue por toda parte.

Minha mãe não fora a única.

Ainda haviam pessoas gritando e correndo. Pedindo ajuda. E eu não podia fazer nada.

Vi uma mulher com cabelos ligeiramente grisalhos no chão, agonizando. Seus olhos azuis me fitaram e em seguida, se fecharam.

Mas no meio daquele turbilhão não conseguia achar minha mãe. Não poderia ser tão difícil assim! Estava na praça central, um lugar plano onde os principais prédios da divisão estavam. Mas todos aqueles corpos me impediam de localizar o que eu realmente precisava. E havia quase me esquecido: combatentes. Combatentes para todos os lados.

Vi um clarão em um canto e algo desfigurado caindo molemente no chão duro. Mais uma baixa. Queria ver qual seria a população da divisão quando tudo isso acabasse.

Isto é: se eu sobrevivesse.

Avistei crianças saindo correndo da escola, desesperadas. Crianças! Até 10 anos elas iam a escola, para aprender a ter domínio sobre o software. É lá que praticamente conhecíamos todos os amigos que nos iam acompanhar a vida inteira. Estranhamente, não me lembrava de nenhum.

Mas no meio de toda a multidão que corria para fora, vi uma faixa de cabelo roxo escuro entrando.

Millie.

Como? Porque o subconsciente dela a trouxe até minha divisão?

Havia algo que precisávamos resolver ali. Mas aparentemente, Robert estava em outro lugar.

Estremeci.

E passando por todos os lasers, bombas, clarões e explosões, consegui entrar no edifício.

Onde ela estava?

Os corredores estavam vazios. Cada passo que eu dava ecoava pelo lugar inteiro.

De repente ouvi o clique de uma porta se abrindo. Tirei do bolso a única coisa que podia usar para me defender.

Uma maçaneta.

Ótimo.

Então, fui puxado com força para trás. Instintivamente fechei os olhos. Iria gritar quando senti uma mão pequena e feminina sobre minha boca.

Abri-os.

Millicent.

–Bela arma. — ela riu sarcasticamente.

–Olá, muito bom ver você e saber que está bem!– disse eu, irônico.

Ela revirou os olhos.

–Não é hora para cumprimentos.

Ela ainda estava brava por causa de nossa última discussão. Mas como não era hora para cumprimentos, também não era hora para desculpas.

–Seu subconsciente a trouxe até aqui. — disse eu, tentando parecer o mais sério possível.

–Aprendeu a ler o manual?

Ignorei-a.

–Por quê? — perguntei. Ela sabia muito bem do que eu estava falando.

–Bom, — começou ela – por mais que eu quisesse ir para o norte, você é... digamos, o líder. Então, parece que meu subconsciente te seguiu. Mas a pergunta é: o que se passa na sua cabeça?

O que se passava na minha cabeça? Demoraria dois dias para tentar explicar o quão complexo meu cérebro era. Então simplesmente respondi:

–Minha mãe.

–Ela ainda está lá fora? — perguntou Millie.

–Sim, mas está praticamente impossível localizá-la.

Ela ficou quieta e em seguida abriu uma mochila negra e tirou uma pistola a laser.

–Não são de longo alcance, nem muito mortíferas, mas tem recarregamento automático e foram as únicas que consegui achar.

Olhei-a e peguei com cuidado. Nunca havia segurado uma de verdade. Era amedrontador e emocionante ao mesmo tempo. Depositei-a cautelosamente no bolso da frente.

E então escutamos passos. Muitos rápidos, apressados e frios.

Passos de combatentes.

A porta se abriu lentamente. Eu e Millie nos esprememos em um canto. Foi quando vimos, na sala do diretor, do outro lado do corredor, a nossa salvação.

Um console novinho e brilhante do Duo Reality, com vários capacetes em volta.

–Vamos. — sussurrou-me ela.

–Não sem minha mãe. — falei. E em seguida, atirei na janela, estilhaçando-a em milhões de pedacinhos.

Olhei por cima do ombro rapidamente e vi o rosto de Millie concordando como se dissesse: “Agora que você já fez um pedaço da besteira, faça-a completa.” Sorri.

O caos reinava grandiosamente do lado de fora. Entre tantas pessoas fugindo e correndo, talvez não conseguissem me ver. O problema é que eu também não os veria.

E atrás de uma loja de flores, praticamente destruída pelo fogo, a vários metros de mim, vi alguns fios de cabelo castanho escuro, a mesma tonalidade do meu.

Minha mãe.

Atravessei rápido, na esperança de que nada me atingisse, mas não deu muito certo. Na mesma perna em que Sarah havia flechado alguns dias antes, algo entrou duas vezes mais forte. E quem foi o dono do tiro? Ela mesmo.

Sarah.

Mas tão rápido como apareceu, também sumiu, no meio da multidão.

Continuei correndo.

Finalmente, cheguei a minha mãe. Seu corpo inerte dava vontade cair, chorar, morrer ali mesmo. De dor, de perda, de saudade, de tudo.

Mas não havia tempo para isso. Precisava fazer o caminho de volta. Suspirei só de pensar. Minha perna doía como nunca, o que poderia acontecer na volta?

Lembrei que tinha uma pistola a laser no bolso e atirei em uma sanfona voadora. Isso distrairia a todos.

Atravessei de novo toda a extensão da praça, só que desta vez, muito mais devagar. Segurava um corpo e ainda tinha uma perna a menos. Não queria olhar o ferimento, não queria olhá-la. Só pensava em sair dali.

Entrei na escola.

Millie me esperava ansiosamente. Antes de ela dizer qualquer coisa,fitei-a e disse que explicava depois.

Colocamos os capacetes e segurei firme minha mãe. Millicent escreveu rapidamente as coordenadas e vi combatentes cada vez mais próximos de nós.

Foi quando eu o vi.

Robert.

Levando um forte soco na têmpora.

Então tudo a minha volta desapareceu.

Notas finais
Gostaram? :)