Duo Reality
12 Capítulo 11- Jared
Notas iniciais
Enfim, aproveitem a leitura!
Leitores fantasmas podem virar seres humanos ok? Eu sei que vocês existem, então podem falar comigo que eu não mato ninguém! -na maioria das vezes-
Capítulo 11
Jared
Senti alguma coisa em cima de meu nariz e resolvi abrir os olhos. Fiquei de cara com um passarinho meio rosado que me olhava com curiosidade. Dei um salto e ele voou na direção da floresta.
Eu havia dormido na cadeira da varanda, claro. Ficara observando as estrelas e pensando em tudo o que havia vivido em tão pouco tempo, desde que comprara Duo Reality. Fora ficando mais tarde e mais tarde, então decidi: provavelmente nunca mais voltaria no centro, então, por que desperdiçaria aquela paisagem?
E foi com a vista dela, que acordei.
De manhã tudo era diferente. Peguei-me pensando o porquê de minha mãe ter saído de lá e ido para o sul. Nunca havia lhe perguntado. E agora, nunca saberia.
Ouvi passos e em seguida o clique da porta. Fiquei um pouco apreensivo, mas toda a tensão se esvaiu depois que vi os olhos cinzentos de Millie me encarando com uma mescla de surpresa e preocupação.
– Pensei que... — ela começou.
Contei a ela toda a história: havia caído no sono, admirando toda a beleza do centro...
– Você tem sorte de morar aqui. — terminei.
Ela me encarou, perplexa.
–Tem noção do que se esconde nessa floresta?
Balancei a cabeça em negação.
–O quê? — perguntei curioso.
Ela se virou de costas e abriu a porta. Virou-se para mim:
–Venha comer — disse – e... Daniel?
–Diga – respondi
–Só me prometa que se dormirmos na minha casa outra vez, não durma aqui fora. — ela disse.
Por que exatamente eu não poderia?
–Sim, prometo. — eu disse. Se ela estava fazendo isso, deveria ter, pelo menos, um bom motivo.
Entramos na cozinha, e senti a ausência de Robert.
–Eu iria te acordar primeiro. — Millie me disse. — Você pode ir lá em cima acordá-lo? Ele está no quarto dos meus pais.
Assenti, e, em seguida, saí da cozinha comendo um pouco de pão com manteiga. Senti uma diferença da comida do centro para a do sul. O sul era o próprio produtor, então lá a comida era fresquinha e sem conservantes. No centro, ela parecia mais... borrachuda. De qualquer forma, não havia do que reclamar.
Subi os degraus de madeira, que rangiam do mesmo modo que os de minha casa. Memórias começaram a se acumular em minha mente. Eu teria que esquecê-las, pelo menos por um tempo.
Resolvi me distrair, olhando para algumas fotos no corredor. Lá estavam Millie, Travis e mais dois adultos, ambos vestidos de preto com óculos escuros esverdeados sobre os olhos. Conhecia aquele uniforme... Não eram combatentes, tinha certeza. Aqueles certamente eram seus pais, mas o que faziam? Onde estavam? Aquilo puxava uma lembrança, mas simplesmente não sabia qual era.
Havia um diploma na parede.
“Travis Bartolomew González” estava escrito em letras garrafais. “Está certificado que o Sr. Está apto para trabalhar e exercer a profissão de DESENHISTA.” e terminava com uma assinatura do presidente Johnathan.
De repente, algo me inunda. Era aquele dia. Era aquele dia que eu receberia um diploma exatamente como aquele que determinaria minha profissão e o início da vida adulta. Era certo que eu seria programador.
Fiquei ligeiramente decepcionado. Trabalhei anos de minha vida para aquilo. Mas percebi que não trocaria tudo o que estava vivendo por um diploma de programador. Não. Nunca.
Além de que o atual presidente nunca assinaria um para mim.
Olhei para as portas e apontei para cada uma, sussurrando: “Millie.” , “Travis” , “Banheiro.”. Só sobrava uma, já que a sala de software era embaixo. Segurei de leve a maçaneta, e girei-a.
Robert dormia espaçosamente naquela enorme cama. Cheguei mais perto.
Seu cenho loiro estava franzido e ele pronunciava algumas palavras inteligíveis, que mais me pareciam gemidos de dor. Deveria ser um pesadelo.
Havia algo estranho. Ele parecia... não respirar.
“Está imaginando coisas.” ri para mim mesmo. Que tipo de ser humano não respira? Robert era diferente, eu sabia. Mas não tão diferente assim.
Cutuquei-o com o dedo indicador.
–Rob, Robert. — chamei.
Ele se virou para o outro lado.
–Robert! — o balancei de um lado para o outro.
E, em um segundo o punho dele estava acertando meu rosto, e no outro, eu estava no chão, com a minha boca escorrendo um líquido vermelho, quente, e com um terrível gosto metálico. Sangue.
Quando me viu, ele se levantou e começou a pedir desculpas quinhentas vezes, dizendo que não sabia que era eu, que se soubesse nunca faria isso comigo, e um monte de outras coisas.
Minha cabeça doía. Eu iria lhe balbuciar que estava tudo bem, que eu entendia; quando Millie apareceu, horrorizada.
–Daniel, por favor. Vá tomar um banho. Você não pode ficar um segundo sozinho que já começa a se machucar? Robert venha comer, enquanto explica todo esse sangue. — ela parecia zangada. Resolvi não discutir, e me dirigi ao banheiro.
Tirei minhas roupas e percebi que minha perna estava curada. Nem um arranhão, como se ela nunca tivesse sido atingida. Incrível.
Tomei, o que parecia, o melhor banho da minha vida. A água quente descendo pelo meu corpo, tirando toda a sujeira e o sangue. Lavei meus cabelos castanhos curtos, e percebi que tinha dado sorte: todos os meus dentes estavam ali. Eu havia apenas mordido fortemente o lábio, e o ferimento já estava coagulado.
Me sequei e coloquei as mesmas roupas. Meu reflexo agora estava diferente. Olhos sem olheiras, cabelo limpo. Sorri. O garoto no espelho sorriu de volta.
Estava descendo para a cozinha, quando vi meus companheiros no sentido contrário. Me pediram para ir junto. E eu o fiz.
Entramos no quarto de Millie. Em cima de sua cama haviam três mochilas negras.
Ela me deu uma, outra para Robert, e ficou com a última.
–Aí dentro tem uma pistola a laser, água, um pouco de comida, uma muda de roupas extra, e curativos. Não abusem da comida e nem inventem de se machucar toda hora – o último item parecia dirigido especificamente a mim.
Ficamos os três nos olhando por mais ou menos um minuto, até que interrompi:
–Vamos para casa de Robert, certo? — eu perguntei.
–Certo. — Millie disse. — se você não tiver mais nada para fazer antes... — ela alfinetou.
–Não tenho. — disse eu, um pouco envergonhado.
–Bom, qualquer coisa que acontecer, foi incrível conhecer vocês. — Robert disse. E nós três nos abraçamos.
–Ninguém aqui vai morrer – Era Millie, confortando a todos nós.
Era isso que eu também achava. Até que vi um pontinho vermelho que piscava, flutuando no meio do ar.
Eles estão sempre te observando.
–Câmera. — simplesmente falei.
Millie pegou sua pistola e colocou o pontinho quase que dentro do cano. De repente, o faixo de laser da pistola consumiu toda a câmera, e levando junto com ela, as provas.
–Eles já sabem que estamos aqui. — Robert falou. — a transmissão é ao vivo – explicou ele ao ver nossas caras de interrogação.- E temos que ir para outro lugar agora.
Millie pegou os capacetes e disse séria:
–Desejem ir para onde eu estou indo. Por favor.
Coloquei o capacete e fiquei pensando: Millie, Millie, Millie. Achei insuficiente. Millicent Anne González, pensei várias vezes enquanto a própria digitava as coordenadas no painel do Duo Reality.
Passos subindo as escadas. “Vamos, Millie.”
Passos no corredor. “Mais rápido, Millie.”
A maçaneta rangendo.
Caímos na mesma floresta na qual eu havia desmaiado, a mesma da qual Millie me implorou por manter distância.
Havíamos conseguido.
–Tirem os capacetes. — Millicent falava ao meu lado. — e joguem no lago. Não se esqueçam de desejar para ir ao mundo real antes. Ninguém quer ficar preso aqui não é?
Admito que fiquei com um pouco de pena. Estavam novinhos, tão brilhantes e reluzentes... Vi Robert e Millie desaparecerem então joguei meu capacete no lago cristalino e voltei, literalmente, à realidade.
De volta ao mundo real. O que faríamos? Foi exatamente o que perguntei a Millie.
–Nós descansamos. E esperamos toda a adrenalina ser drenada de nossos corpos.
E foi o que fizemos. Durante, 5 minutos, ficamos no mais absoluto silêncio. Até que resolvi perguntar:
–O que há de tão perigoso nessa floresta, afinal?
Ao longe, vi enormes vultos se aproximando e rugindo. Finalmente, entendi o que era.
–Isso. — ela apontou.
Existem certos momentos da vida em que você olha para algo, não acredita, e olha mais vezes para se certificar de que não está sonhando, ou tendo alucinações. E foi isso que eu eu fiz. Eram monstros, criaturas enormes.
Millie foi puxando meu braço, enquanto corríamos desesperadamente entre as árvores, diretamente para o âmago da floresta, onde não poderíamos ser encontrados. E infelizmente, os “animais” foram atrás, e nos cercavam como uma criança cerca um bolo de chocolate: com desejo e fome. Muita fome. Os olhos vermelhos brilhavam, e o pelo marrom escuro estava eriçado. Uma saliva espessa escorria de suas enormes e dentudas bocas. Me deu mais medo do que qualquer coisa já me dera. De repente, me lembrei:
–As pistolas!
Todos nós pegamos nossas pistolas a laser, fizemos um círculo, cada um de costas para o outro e atiramos. Cada bestante precisou de, no mínimo, três tiros para perecer no chão.
Quando o último mostro morreu, todos os nossos joelhos cederam, e caímos no chão, um de lado para o outro.
– O que... foi... aquilo...? — Robert perguntou ofegante.
– Alterações genéticas feitas pelo governo para guardar a floresta e evitar fugas. — a voz dela estava muito baixa.
Então finalmente entendi sua preocupação. Aqueles monstros me devorariam vorazmente durante a noite de uma vez só, e ainda lamberiam os beiços. Nunca mais duvidaria de Millie.
Nos levantamos e nos vimos de frente para uma casinha de madeira. Era pequena, parecia um chalé, de algumas histórias que meu pai me mostrara quando eu era bem pequeno. Ouvia que era confortável. Mas uma coisa era certa: aquilo, na nossa frente, era ilegal.
– Vamos bater – eu disse – e ver o que conseguimos.
Millie e Robert ficaram olhando para mim com os olhos arregalados como se dissessem “quase morremos e agora quer bater em portas alheias?”
– Não vamos conseguir ir para o norte- expliquei – se não tentarmos.
Eles assentiram. Colocamos nossas pistolas no bolso: perto o suficiente para pegar.
Bati só uma vez, forte. Algum tempo depois, a portinhola se abriu e um olho mel-esverdeado nos observou.
–Hum. Olá! — disse eu.
Ele fechou a portinhola. Era isso. Iríamos ficar ali até o governo nos encontrar e sentenciar nossa morte.
Incrivelmente, comecei a ouvir barulhos de correntes e em seguida, o rangido da porta ao se abir, revelando um homem alto, com rosto familiar, que tinha idade para ser meu pai.
–Entrem. — disse com uma voz meio rouca.
Passamos pelo umbral, hesitantes.
–Vocês devem ser Daniel, Millicent e Robert, certo?
Olhamos uns para os outros, abismados.
–C-c-como você sabe?- Millie perguntou gaguejando, amedrontada.
–Calma. Ouvi vocês falando, lá fora. — ele riu.
Finalmente conseguimos respirar.
–Hum... obrigado Sr... — Robert começou.
–Jared. — o homem disse . — me chamem de Jared. E qualquer coisa que precisarem, passem aqui.
–Muitíssimo obrigado Jared.- eu agradeci.
–Por nada. E acho que tenho algo que pode ajudar vocês- Jared disse. — sentem-se, fiquem à vontade, já volto.
Como ele sabia o que poderia nos ajudar? Iria deixar a pergunta para depois. Desde que ele realmente nos ajudasse, tudo bem.
Ele desapareceu por uma porta. E nós três nos sentamos meio desconfortavelmente nas poltronas.
–Como podemos confiar nele? — Millie sussurrou.
Também havia pensado nisso. Mas era nossa única esperança.
–É a nossa única opção – Robert lera minha mente.
Um pouco depois, Jared voltou com um console do Duo Reality e três capacetes.
Nossa salvação.
–Coloquem os capacetes, deixem que eu configure. — ele falou. — Para onde querem ir?
–Casa de Robert. Norte. — Millie disse.
–Ah sim. — ele confirmou. — Limpem bem o subconsciente de vocês!- tudo parecia uma indireta direcionada a mim.
Fiquei pensando direto: casa de Robert – norte – casa de Robert – norte. Uau, era a primeira vez que iria para o norte, e percebi, que Sarah era da lá. Não! Não podia pensar em Sarah. Era isso que eles queriam.
Tudo a minha volta desapareceu. Tarde demais.
E eu não apareci na casa de Robert.
Apareci no meio de combatentes com várias armas apontadas na direção de minha face.
Era uma armadilha.
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