Dungeoneer - Interativa
2 O som de uma mão batendo palmas é o mesmo que o de um galho quando cai em uma floresta sem ninguém para ouvir.
Notas iniciais
Junpei e Kon dormiram ao relento e, quando os primeiros raios de Sol atingiram seus corpos, foram acordados por Sortudo.
– Acordem seus preguiçosos, já é um novo dia! – gritou o macaco mágico.
– Caramba, isso é jeito de acordar as pessoas? – reclamou Junpei.
– Eu não me importaria em acordar cedo e com gritos se se tivesse dormido no colo de uma garota, mas no chão duro e cheio de mato já é sacanagem – completou Kon.
– Tanto faz. Como falei com vocês ontem, estou sem magia suficiente para trazer os heróis restantes, então temos que partir em busca de alguma fonte poderosa de magia que eu possa sorver – explicou Sortudo.
– Tá, mas que fonte será essa? – perguntou Kon.
– Já ouvi falar que nas Terras Natais há uma pedra que tem o segredo de toda a sabedoria do mundo, e que obviamente ela é mágica. Como essas terras ficam no caminho entre aqui e o castelo da rainha, não custa nada verificar se a lenda é verdadeira ou não – disse Sortudo.
– Castelo, rainha, me explica melhor – pediu Junpei.
– Não. Quando chegarmos lá, vocês saberão de tudo –finalizou Sortudo.
O grupo seguiu andando pelo campo, até que este deu lugar a um deserto, onde só havia areia, pedras, e raramente, cactos. Além disso, o calor era insuportável, fato agravado pelo fato desse mundo orbitar ao redor de uma estrela binária. Após horas de caminhada, a sede castigava os heróis.
– Água, preciso de água – resmungava Junpei.
– É sério, se não encontrarmos água logo vamos morrer – completou Kon.
– Já sei, vou cortar um cacto e beber a água que tem dentro – Junpei pegou sua espada e cortou um cacto que estava perto deles.
– Eu não faria isso se fosse você. Aqui em Dungeoneer, o líquido que sai do caule de um cacto é um veneno poderoso, capaz de matar um elefante de duas cabeças – advertiu Sortudo.
– E agora, o que vamos fazer? – perguntou Kon.
– A única fonte de água que podemos encontrar por aqui são as lesmas do deserto. Elas vivem em baixo da areia, e se cortarmos seu corpo gosmento, podemos beber seus fluidos corporais, que são ricos em água – contou Sortudo.
– O quê? Quer dizer que vou ter que beber água que vem de dentro de uma lesma? – surpreendeu-se Junpei.
– Exatamente. E não se assuste, lesmas são iguarias muito apreciadas em algumas regiões de Dungeoneer – disse Sortudo.
– Af, já tô começando a odiar esse mundo – reclamou Junpei.
– Tá, tô com muita sede pra ficar com nojo, onde encontramos essas lesmas? – perguntou Kon.
– Vocês terão que cavar a areia e pegar qualquer coisa que se mexa.
Os amigos começaram a cavar a areia com as mãos. Como estava muito quente, logo elas estavam queimadas, mas como eram muito habilidosos, em pouco tempo conseguiram capturar algumas lesmas. Cortaram algumas e guardaram outras para consumir mais tarde.
– Agora é só beber esse líquido – disse sortudo.
Os garotos beberam o líquido esverdeado que saía de dentro das lesmas, que tinham aspecto parecido com as do nosso mundo, só que bem maiores.
– Eca, que gosto horrível – reclamou Kon,
– Temos que admitir que mata a sede, mas com curry ficaria bem melhor – falou Junpei.
Após essa pausa, os aventureiros continuaram caminhando até que ao anoitecer, avistaram luzes no horizonte.
– Olhem aquelas luzes, devemos estar perto de alguma cidade – disse Junpei.
– Sim, aquela é a primeira vila das Terras Natais. Se nos apressarmos, conseguiremos encontrar pessoas nas ruas e quem sabe, descobrir algo sobre a pedra que falei – disse Sortudo.
– Tomara que tenha garotas bonitas por lá – torceu Kon.
O grupo apertou o passo, e em menos de meia hora chegaram a uma pequena cidade. Era um lugar bem simples, porém muito bonito, com ruas estreitas pavimentadas com pedras circulares pouco maiores do que um paralelepípedo. Haviam construções, porém nenhuma porta aberta, provavelmente era um centro comercial que só funcionava durante o dia.
– Não tem ninguém por aqui – constatou Junpei.
– Verdade. Como vamos conseguir as informações de que precisamos? – indagou Kon.
– Bom, eu conheço uma taverna nessa vila, vamos até lá que provavelmente encontraremos alguém.
Eles andaram pelas ruas desertas até chegar a um estabelecimento com uma placa de madeira escrito “Taverna dos óculos do ciclope”. Era possível perceber que havia pessoas lá dentro, pois dava para ver que as luzes estavam acesas e música tocando. Os heróis entraram e puderam ver vários homens sentados em mesas de madeira bem rústicas e bebendo alguma coisa em grandes canecas de barro, enquanto um bardo estava em um pequeno palco tocando um alaúde e cantando.
– Agora só precisamos buscar as informações sobre a tal pedra – disse Kon.
– Eu tenho um plano – falou Junpei.
Quando a música parou, o grandalhão levantou-se e bradou.
– Ei, alguém sabe de uma pedra mágica que fica nas Terras Natais?
Imediatamente, todos que estavam na taverna saíram correndo, com exceção do atendente, que se escondeu atrás do balcão, e de uma garota de cabelos pretos curtos e ligeiramente espetados, tendo aproximadamente quinze anos de idade.
– Uau, que gatinha, vou lá falar com ela – empolgou-se Kon, que sentou ao lado da garota.
– O que você quer? – perguntou a menina, bastante mal-humorada.
– Apenas conversar. Posso saber o seu nome?
– Tatsuki.
– Um nome tão bonito quanto sua dona. Meu nome é Kon, prazer.
Kon inclinou-se para beijar o rosto da menina, quando ela acertou um soco nele, que o arremessou até o outro lado da taverna e fez o nariz do rapaz sangrar.
– Ai, eu fui tão gentil, por que você fez isso? – choramingou Kon, com a mão no nariz.
– Não gosto que me toquem.
– Hum, uma garota que luta, isso é muito sexy sabia? – observou Junpei.
– Quer levar uma bifa também? – ameaçou Tatsuki, mostrando o seu punho.
– Perdoe os meus escravos, eles não tem modos – disse Sortudo.
– Ei, quem você tá chamando de escravo? – protestou Junpei.
– Só viemos até aqui porque estamos procurando por uma pedra mágica que esconde o segredo de toda a sabedoria do mundo, e rumores dizem que ela está nessa região. Você sabe se ela é verdadeira ou apenas uma lenda? – perguntou Sortudo.
– Me pague uma bebida que eu falo o que sei.
Sortudo pegou uma moeda e entregou para o atendente, que mesmo assustado e tremendo, serviu uma caneca com alguma bebida para Tatsuki.
– Não se trata de uma lenda, ela existe de verdade. Ela se chama pedra filosofal.
– Pedra filosofal? Já vi isso num filme, é uma pedra que guarda o segredo da vida eterna não é? – falou Junpei.
– Eu que bebi e você que tá falando merda? Não, é só uma pedra mágica.
– Ótimo, mas onde podemos encontra-la? – indagou Sortudo.
– A última notícia que tive é que ela está nas ruínas de Plunct Plact Zum, na colina mais alta da cidade. Mas cuidado, ela é protegida por um gigante.
– Muito obrigado – agradeceu Sortudo.
– Foi bom conversar com você – disse Kon, rapidamente beijando o rosto da Tatsuki quase no canto da boca. Imediatamente, ela deu vários golpes que fez o garoto de cabelos laranja ficar gravemente ferido e ter que sair carregado da Taverna.
– Valeu a pena – sussurrou Kon com a pouca força que ainda tinha.
Sortudo ordenou que Junpei colocasse seu amigo deitado no chão, estendeu as mãos em sua direção e recitou.
– Curatis idiotis!
Os ferimentos do Kon se curaram e logo ele levantou.
– Caramba, o que foi isso?
– Usei um feitiço de cura. Cuidado, você não pode ficar se machucando a toa, te curar me consumiu muita magia e ainda tem a possibilidade de eu sofrer epa.
– Epa? O que é isso?
– Um efeito colateral da magia. Quem usa um feitiço tem uma probabilidade pequena, porém não nula, de sofrer algum efeito indesejado, que pode ir desde ficar mudo por algumas horas até virar fumaça e desaparecer. Mas deixa de conversa, vamos atrás da pedra filosofal.
O trio perambulou pela cidade em busca da colina mais alta, o que era uma tarefa difícil, pois a escuridão aumentava conforme as horas iam passando.
– Não tem jeito, vou ter que usar isso, Iluminati a cidade todis!
Um enorme clarão saiu do corpo do Sortudo, fazendo com que a vila ficasse iluminada como se fosse dia por poucos segundos, mas tempo suficiente para que eles vissem um monte bastante alto, com algum tipo de construção no seu topo.
– É por ali – gritou Junpei.
Eles seguiram em direção ao seu destino, Sortudo voando, Kon saltando e Junpei correndo mesmo. Chegaram ao início da subida, era apenas um morro alto coberto de grama, então chegaram próximo ao topo sem grandes dificuldades, até avistar as tais ruínas.
– Chegamos, vamos entrar! – disseram os garotos.
– Espere, não estão achando que vão enfrentar um gigante assim de qualquer jeito não é? Precisamos de uma estratégia – sugeriu Sortudo.
– Tive uma ideia. Você é muito forte e eu salto muito alto, você pode me emprestar sua espada, eu pulo e dou uma espadada na cara dele, e enquanto isso, você acerta o joelho do gigante e o derruba – planejou Kon.
– Ótimo. Vamos nessa – chamou Junpei.
Finalmente, os heróis entraram nas ruínas. Estava muito escuro em seu interior, de forma que eles tateavam as paredes para conseguir guiarem-se.
– E aí macaco falante, não tem como fazer um ziriguidum pra iluminar por aqui? – pediu Junpei.
– Desculpe, mas o feitiço de luz produz uma luz muito forte, porém por pouco tempo, não vai ser muito útil agora.
– Vamos ter que seguir nossos instintos mesmo – disse Kon.
Eles seguiram atrapalhados, tateando e tropeçando por várias horas. Quando o sol já estava prestes a nascer, ouviram uma voz muito grave os ameaçando.
– O que querem estranhos, digam logo ou irão morrer.
O grupo procurou pela origem daquela voz, e conseguiram ver um monstro com uns dez metros de altura, com uma forma humanoides, com uma máscara de osso e um buraco no peito, sendo muito parecidos com os hollows que enfrentaram no dia em que chegaram neste mundo, porém muito maior.
– Minha deusa, não é um simples gigante, é um menos grande! – exclamou Sortudo.
– Menos grande? Não deveria ser menor? – estranhou Kon.
– Há, daqui a pouco vai aparecer um mais pequeno – brincou Junpei.
– Não é isso, ele é uma evolução dos hollows e é muito poderoso, vocês não vão dar conta dele, fujam – recomendou Kon.
– Digam o que fazem aqui, senão devoro os três – insistiu o Menos.
– Só viemos aqui atrás da pedra filosofal – disse Junpei.
O monstro pegou uma pedra pequena, que cabia na palma da mão de um humano, e perfeitamente esférica.
– Toma – ele jogou a pedra, que foi agarrada por Junpei – levem, mas não aceito devoluções. Agora vazem!
O trio saiu, carregando a pequena pedra.
– Não achei que seria tão fácil – surpreendeu-se Kon.
– Vocês tiveram muita sorte, se ele quisesse, teria devorado vocês dois em poucos segundos.
– Nós dois, não acha que ele ia querer um macaquinho como aperitivo? – provocou Junpei.
– Não, eu teria me teleportado – concluiu Sortudo.
Já estava amanhecendo e eles conseguiram sair das ruínas sem dificuldade.
– Uaah, finalmente acordei.
Os aventureiros se assustaram, sem saber quem havia dito aquilo. Olharam em volta e não viram ninguém.
– Ué, quem falou isso? – indagou Kon.
– Só falta dizer que essa pedra sabe falar – supôs Junpei.
– Saber? Só sei que nada sei.
Nesse momento, eles puderam constatar que realmente essa voz vinha da pedra.
– Interessante, você é uma pedra que fala – Sortudo dirigiu-se a pedra.
– Cara, que frase, deve ser por isso que você se chama pedra filosofal – observou Kon.
– Filosofia...etimologicamente, amor à sabedoria, mas sabemos que além disso, é todo um conjunto de pensamento formal racional que surgiu da necessidade de explicar o mundo, tanto natural quanto humano, baseando-se no raciocínio e não em mitos – falou (pra caramba) a pedra.
– Caramba, não é que você fala mesmo, mas não entendi nada do que você disse – observou Junpei.
– Entender? O que é entendimento? – perguntou a pedra.
– Tá, já sei que você é muito inteligente, mas precisamos de muuuita magia para trazer dois humanos da Terra para cá. Sabe, Terra é o nome de um mundo paralelo ao nosso – falou Sortudo.
– Você disse mundo paralelo? Isso pode ser plausível para Leibniz, que dizia que vivemos no melhor mundo possível, mas não para Espinoza, que dizia que vivemos no único mundo possível. Obviamente, ambas as ideias contrariam a tradição e sua crença no pecado original.
– Puta merda, essa pedra fala fala e não diz nada – Junpei perdeu a paciência.
– A fala é a expressão da alma.
– O importante é que ela tem a magia de que precisamos. Já que ela não vai colaborar, terei que sorver sua magia na marra mesmo. Sugaste pedra chatis! – assim, a pedra começou a brilhar.
– Maneiro, vou fazer isso quando faltar luz lá em casa – brincou Kon.
– Agora estou cheio de mana, está na hora de trazer os heróis.
Sortudo recitou um longo feitiço, e após terminar, uma ofuscante luz multicolorida surgiu, e logo todos puderam ver dois vultos aparecendo em meio a ela, provavelmente os dois membros restantes do grupo.
*****
Enquanto isso, em algum lugar do planeta Terra.
Era manhã de segunda feira. Como todos os dias, Beatrice Armstrong, uma garota de dezessete anos de cabelos castanhos esvoaçantes e belos olhos violetas, esperava impaciente pela sua amiga Loren Raisen, que sempre estrava atrasada para a escola. Finalmente, dez minutos depois da hora em que deveriam estar entrando na sala de aula, chegou a estudante.
– Por que demorou tanto, não percebe que estamos atrasadas? – ralhou Beatrice.
– Todo dia você fala a mesma coisa, sabe o quanto eu demoro pra me arrumar – falou Loren calmamente – e além disso, estamos quase acabando o colegial, não deveria ficar tão neurótica com o horário.
– Não sei como você demora tanto pra se arrumar, você só faz um rabo de cavalo e bota uma saia três números abaixo do seu.
– Não é verdade. Passo muito tempo penteando meu cabelo e me maquiando, também tomo um banho demorado, passo perfume, boto pelo menos um par de brincos, por isso estou sempre linda.
Realmente ela era muito bonita. Seus cabelos dourados, mesmo amarrados, eram sedosos e brilhantes, combinando perfeitamente com seus olhos verdes. Seios fartos e quadris proporcionalmente largos, acompanhados de uma cintura fina e nenhuma barriga, completavam seu visual.
– Algum dos garotos te ligou? – perguntou Beatrice, enquanto caminhavam apressadas para a escola.
– Por que deveriam? – respondeu Loren com outra pergunta, sem parecer ligar muito.
– Nós marcamos com eles no parque sábado e não aparecemos, tá lembrada? E foi você que insistiu para que furássemos de propósito, será que estão com raiva da agente?
– Eu sei que você gosta do Kon, mas eu te fiz um favor. Se você fosse lá e caísse na primeira cantada barata dele o cara nunca ia te dar valor, mas como você não foi, ele vai ficar doidinho atrás de você, acredite!
– Ei, e quem disse que eu gosto do Kon? Tomara que ele tenha caído de cara depois de sair de um brinquedo que gira, ou melhor ainda, que tenha ido num túnel do amor e o Junpei violentado ele – disse Beatrice bastante nervosa.
– Tá bom, vou fingir que acreditei – concluiu Loren.
As amigas continuaram indo para a escola. Quando estavam atravessando uma rua, um tanto apressadas e distraídas, acabaram não vendo um caminhão em alta velocidade. As garotas apenas ouviram a buzina e a colisão do caminhão com seus corpos, e logo em seguida, elas perderam a consciência.
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