Dunas de sal
1 Prólogo
Notas iniciais
O sol entrava delicadamente pelas cortinas, e trazia luz ao quarto simples onde repousava uma jovem moça dormindo. No ambiente havia uma cama de madeira de origem quase mística, por possuir entalhe herbáceos por toda sua extensão, e se mitificando ainda mais pela presença da jovem ruiva deitada ali. Ao lado da cama tinha uma cabeceira simples, onde se entulhavam livros e um cotoco de vela.
-Que bela sensação. –Verbalizou o irmão da jovem sentando-se na beirada da cama.
Ele não conseguia deixar de senti-la. Ele poderia estar trabalhando na oficina da família ou saindo com outra jovem, que a energia calma e equilibrada dela ainda o atingia.
Não resistindo à vontade de tocá-la, Sátir se inclina sobre a irmã e tira uma mecha de cabelo de seu rosto. Por um momento ele teve medo de ter acordado a mais nova, seus dedos eram calejados e duros, principalmente quando entravam em contato com o rosto macio da irmã.
Mesmo que a tivesse acordado, seria, de certa forma, normal para ambos. Lia gostava de abraçar o irmão e de estar perto dele, os dois eram parceiros inseparáveis desde a infância.
Sátir beijou a testa da irmã.
Na noite anterior, o pai dos dois havia anunciado o noivado de seus filhos. Irmão se casaria com a irmã, muito provavelmente no ano seguinte. Não era algo incomum na aldeia de artesãos onde viviam, mas mesmo assim não faltaram críticas e reclamações vindas de más línguas.
O motivo para o casório era puramente tradição. A família de Sátir e Lia, os Caramaq, descendia de uma linhagem de dracônicos, humanos com força, beleza e inteligência de dragões. O clã Caramaq, em especial, era conhecido pela habilidade dos membros de resistir ao fogo e as altas temperaturas, transformando-se em grandes ferreiros e cuteleiros.
Um jeito de preservar essa habilidade era fazendo casamentos incestuosos na família. Se por acaso diluíssem seu sangue com o de outras linhagens, até mesmo com humanos comuns, a habilidade seria perdida e o clã desintegrado aos poucos.
“Não posso sequer reclamar deste noivado” Pensou Sátir.A verdade era que ele era apaixonado pela irmã. Desde que ela nascera e desde que ele havia perdido a visão.
Ela era gentil, calorosa, e ele a defenderia de tudo indubitavelmente. Imaginar seus próximos anos de vida acordando ao lado dela, e acariciando seus cabelos. Era uma dádiva para o ruivo.
Lia soltou um suspiro:
-Bom dia Sátir. – A jovem se espreguiçou, e deixou os braços envolverem o pescoço do irmão. –Está acordado há muito tempo?
-Algumas horas, pode descansar mais se quiser.
A mais nova saiu da cama, se esticando e bocejou:
-Vou preparar o desjejum, isso sim.
Sátir murmurou um ‘vai lá’ e abaixou a cabeça.
-Espero que minha presença também lha traga felicidade, minha querida noiva. –Mas naquela altura Lia havia ido embora.
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