Minha carreira profissional estava começando. Estava subindo um degrau de cada vez e o resultado foi satisfatório. Me formei a pouco tempo e já consegui um emprego na Paradise, uma das melhores empresas do mundo. Quer dizer, eu sabia que era boa, mas não tão boa assim. E desse jeito posso esfregar na cara de pessoas preconceituosas que pensavam que uma "mulher " de "vinte e um anos" não poderia chegar tão alto sem vender sua honra. Com muito orgulho, eu venci o mundo!
Confesso que tive que bater no duro, estudando incansavelmente e me afastar de qualquer distração, ou seja, homens, para chegar onde cheguei. Minha amiga Melissa nunca aprovou, mas, bem, a vida é minha e não dela. Eu faço o que eu quiser e sigo os caminhos que quiser.
Agora estou aqui!
Trabalhar na Paradise é o sonho de qualquer pessoa. É uma empresa que visa a proteção do meio ambiente, criando mecanismos naturais para que as pessoas possam viver sem ter que prejudicar a natureza. O meu chefe deve ter uns cinquenta anos e pelo que eu ouvi, é viúvo e tem um único filho. Mas isso não me diz respeito.
O celular me assusta por cima da minha mesa, já que estou tão concentrada no trabalho. E claro que é a minha amiga Melissa ligando. Não sei se é bom ou mal ela ligar sempre para mim.
— O que foi sua chata! — Atendo.
— Você não pode esquecer de passar na farmácia para comprar o analgésico para mim já que vai passar a noite no meu apartamento.
—Eu não esqueço! Você devia parar de ser tão dramática e ficar na cama por tudo e por nada. E seu namorado devia fazer isso. Eu não vivo com você! — Respondo, sendo grossa propositadamente.
— Você devia arrumar um namorado!
— Você devia deixar de ser tão idiota!
— Você devia deixar de ser solteirona! — Eu desligo na sua cara. O pior de tudo é que passo muito tempo no seu apartamento e mais tarde vou ter de aturar aquela mulher impossível.
Melissa York é pior do que piolhos. Ela não me deixa sossegada um segundo sequer, principalmente se for para falar sobre a minha vida amorosa. Parece que dói em seu coração de manteiga saber que a melhor amiga é solteirona.
— Você é uma pessoa muito estranha, mas ainda assim gostava que fosse com a gente na festa desse sábado. — Me viro para encarar Jake. — Por favor!
Jake também trabalha na Paradise, mas há bem mais tempo. Ele trabalha no gabinete jurídico da empresa comigo. Ele é meu amigo de infância e adoro ter ele por perto, quando não está me irritando, claro. Ele é um ótimo amigo. Ainda bem que o destino colocou ele no meu caminho.
— Não estou interessada!
— Você fica o fim de semana todo trancada em casa, Avery, vai ser divertido! — Continuo a olhar para o monitor.
— Se com divertido você quer dizer ver você e Melissa se divertindo a noite toda, então, não! Dispenso.
— Você só diz isso, porque não tem namorado, mas não se preocupe, que nesse sábado vou te apresentar a um homem... — Ele e Melissa estão super preocupados em me arranjar um namorado. Já sei onde a conversa vai dar, por isso eu o corto rapidamente.
— Também dispenso! — Bebo o café.
— Tudo bem. Vai ficar sozinha a noite toda!
— Correção, meu caro amigo: Vou ficar no apartamento com a doce companhia de Spike e de William Shakespeare nessa semana. — Ele revira os olhos.
— Não era Spike e Sun Tzu? — Cruza os braços.
— Já não. Eu acho que vou ficar com Shakespeare por um bom tempo.
— Você precisa mesmo de um namorado! Primeiro, Spike é um cachorro, e segundo não pode casar com livros de pessoas que já morreram!
— A conversa acabou, Jake, eu não vou a nenhuma festa! — Bebo mais um pouco de café. Eles sabem que nunca vão me convencer, não sei porquê não desistem!
Misericórdia, por favor!
— Tudo bem. Você vai perder a melhor noite da sua vida!
— Déjá-viu! Quantas vezes você disse isso? Muitas vezes, porém foram vocês que tiveram noites horríveis e monótonas.
— Nossas noites são monótonas? E o que chama das suas?
Dou um olhar malicioso para ele. — Noite sensata!
Ele ri. — Sério, Avery, você conseguiu me expulsar!
Ele se afasta de mim dando gargalhadas.
Conviver com ele e com Melissa não é para qualquer um. Eu devo ser masoquista ou super heroína para aguentar aqueles dois. Misericórdia é o que eu peço todos os dias por aturar aqueles seres insuportáveis, que feliz ou infelizmente são meus amigos.
Termino o meu café e me concentro no meu trabalho. Jake e Melissa já me incomodaram, por isso posso trabalhar à vontade. Bem, me deixaram em paz por enquanto, mas eu sei que quando eu for para o apartamento deles, vou precisar de um médico ou de um psicólogo.
Melissa e eu nos conhecemos na universidade. Ela é dentista, nós éramos grandes amigas desde então. Não posso esquecer do Gabbe, meu outro amigo, que também conheci na universidade. Ele é um doce e é lindo, se não fosse gay, eu namorava com ele. Estamos todos juntos há tanto tempo, que somos uma família, mesmo discutindo o tempo todo, somos uma família. Tivemos dias bons e maus.
Sorrio me lembrando de todos os momentos que passei com aqueles imbecis. Não sei o que seria de mim sem aquelas baratas tontas. Provavelmente estaria em Mississipi com os meus pais, sem incomodo nenhum. Só de pensar nisso, acho que a minha vida seria muito sem sal, quer dizer, mais do que agora. Agora estou vivendo com os meus tios e não vejo a hora de sair de lá. Preciso de mais espaço e mais privacidade.

Arrumo as minhas coisas quando encerramos o dia. Pego na minha bolsa e saio da Paradise. Jake sobe no carro e buzina mesmo me vendo. Eu reviro os olhos e me inclino para ver ele por detrás do vidro do carro.
— Então, gostosa, quer boleia? — Eu subo no carro e bato no seu peito. — Aí! Eu estava brincando, Ave!
— Nunca mais me chama de gostosa!
— Mas você é gostosa!
— Cala a boca e dirija.
— Você é muito sem sal, sabia? É o que dá ler Sun Tzu!
— Você pode dirigir, Jake? Apenas dirigir?
— Está bem. Avery sem graça! — Ele ri. Como é que eu ainda não fui para um manicómio?
— Você parece uma criança de oito anos. Por favor! — Digo. Ele liga a rádio e toca Love me harder de Ariana Grande e The Weeknd. Jake olha para mim com um olhar de expetativa.
Meu Deus! Essa viagem vai ser longa. Porquê tinha que tocar logo essa música?
— Antes vou para a loja. Tenho que fazer algumas compras. Você se importa?
— Claro que não!
Jake dirige até uma loja próxima e estaciona o carro. Peço para ele esperar e vou para a loja. Felizmente também tem uma farmácia aqui, assim mato dois coelhos de uma cajadada só.
Procuro por absorventes e cremes depilatórios, quando oiço uma frase que me faz tremer.
— Isso é um assalto! Dê todo o dinheiro que você tem aí!
Vou em passos lentos atrás da seção das bebidas me esconder e pego no celular. Não tenho muito tempo, então envio uma mensagem para Jake.
Avery: "Liga para a polícia agora!"
Guardo o celular e espreito para ver o que está acontecendo. O homem atrás do caixa dá todo dinheiro para o ladrão que tem uma arma, e este passa o dinheiro para o outro ladrão. Espero conseguir sair daqui viva.
Infelizmente, um deles me vê. Eu não sei o que fazer. Normalmente, quando essas coisas acontecem nos filmes, digo que o personagem é idiota por não conseguir fugir, mas agora eu entendo. O cérebro bloqueia!
— Não se mexa! — Ele chega até mim e me levanta.
— Por favor! Eu tenho filhos para cuidar! — Talvez ele acredite e me deixe ir embora.
Ouvimos a polícia. Nunca gostei tanto de ouvir aquelas cirenes se aproximando e tocando vezes sem parar. Acho que alguém ligou para a polícia antes de Jake.
— Vamos embora, cara! — O outro diz.
— Vamos usar ela para sair daqui. — O homem que está comigo aponta a arma na minha cabeça. É a situação mais assustadora da minha vida, então começo a chorar.
O homem me leva brutalmente, apertando o meu braço. Algumas vezes, ele me empurra para que eu continue andando, sempre com a arma na minha cabeça. O outro homem sai da loja, mas é atingido e cai no chão.
Três policiais entram e tentam deter o outro ladrão. Talvez ele não faça nada comigo. Ele só quer sair daqui, não é? Ele não vai fazer nada comigo.
— Para trás! Senão ela morre. — Ele diz.
— Por favor, não quero morrer! — Choro. Porquê tinha que ser eu a refém? Porquê não fui numa outra loja? Porquê saí de casa hoje?
— Largue a arma! — Um policial ordena.
— Não se aproxime! Eu vou disparar! Me deixem sair daqui e ninguém se machuca!
— Vai correr tudo bem! — Olho para o policial que está dizendo isso para mim. Vai correr tudo bem? Ele tem uma arma apontada na minha cabeça! Como vai correr bem?
— Saiam do caminho e me deixam passar! — O bandido está ainda mais irritado. Ele é capaz de disparar mesmo sem querer.
— Vou dizer só mais uma vez. Pouse a arma!
O bandido começa a disparar, fazendo os policiais tentarem se proteger e me leva para fora da loja, controlando se tem mais policiais. E para a minha sorte, há sim, e ele dispara contra o ladrão, que cai no chão. Não sei se está morto ou não, mas eu começo a chorar e vou correndo para o homem que salvou a minha vida.
Não sei o que se passa, só que ele segura o meu ombro e limpa as minhas lágrimas. — Calma! Já passou. — Sua voz é agradável, reconfortante. — Você vai ficar bem.
Olho para ele.
— AVERY! — Jake vem correndo, fazendo o policial se afastar. Ele chega até mim e me abraça. — Você está bem?
Faço que sim porque já não tenho voz. Não quero imaginar o que teria acontecido. Ele poderia ter me levado e depois me atirar para a estrada com o carro em andamento.
— Devia levar sua namorada para casa. E da próxima vez, não deixa ela sozinha. — O policial diz como se não tivesse gostado da atitude do Jake.
— Ela não é minha namorada. É minha irmã. E tem razão. Devia ter entrado com ela. Não voltar a acontecer.
— Espero que não! Cuide bem da sua irmã.
— Eu vou. Vamos! — Jake me leva com ele, e olho para trás para o policial de cabelos castanhos.
Pelo menos, aprendi uma lição: Os filmes não mentem!

Depois do desastre de ontem, Jake me levou para casa. Nem tive como contar para Melissa e Gabbe o que aconteceu, mas não significa que eles não tenham ligado para mim a noite toda.
Hoje, estou melhor e vou para o trabalho. Atravesso a estrada e vou até o café Charlie's para comprar um café. Preciso de um bem forte essa manhã. Só espero que não tenha nenhum bandido aqui também e que só escolha a mim como refém.
Aguardo o meu pedido e tento não pensar na noite de ontem. Gostaria muito de ver aquele policial de novo para poder agradecer. Ontem, não consegui por causa do choque. Não é fácil se recuperar depois de ter uma arma apontada na sua cabeça.
A garçonete me entrega o meu pedido e me preparo para sair. Mas vejo um rosto familiar olhando para mim numa mesa perto da saída. Me concentro para não deixar o café cair no chão.
O policial que salvou a minha vida está aqui. E à luz do dia, dá para olhar para ele melhor. Cabelos castanhos, barba por fazer, olhos escuros e sedutores, músculos por toda a parte e um sorriso muito lindo.
Preciso me aproximar e conversar com ele. Mas aonde está a coragem? Não me sinto confortável com pessoas olhando assim para mim. Principalmente quando se trata de um lindo homem. O quê? Você chama ele de homem lindo, Ave?! Ele é estupidamente lindo! Olha para ele novamente!
Meu Deus! Agora estou falando sozinha! Espera aí! Ninguém está ouvindo mesmo! É normal.
Olho para o senhor bonito na minha frente. Seu nome devia ser Lindo. Quero rir por causa do que estou fazendo, mas me concentro. Ele está sentado, comendo e eu devia falar com ele. Ele salvou a minha vida.
Respiro fundo e vou até ele. — Oi! Lembra de mim?
Claro que lembra, sua estúpida!
— Sim, eu lembro. Você está bem?
— Bem melhor. Eu queria agradecer por ter salvo a minha vida. Sei que é o seu trabalho, mas preciso mesmo agradecer.
— Não foi nada.
— Mesmo assim, obrigada.
Saio do café um pouco envergonhada , mas ele sai também e segura o meu braço. Quase deixo o meu café cair no chão. O que está acontecendo?
— Espera! Você não me disse o seu nome. O meu é Dean.
— Sou a Avery! Muito prazer. — Apertamos as mãos.
— O prazer é meu, acredite! Você trabalha por aqui?
O prazer é meu, acredite!
— Na Paradise.
— Uau! Deve ser ótimo.
— É sim.
— Aposto que sim. — Ele diz.
Olho para o relógio no meu pulso. — Eu preciso ir trabalhar.
Infelizmente.
— Claro. Tenha um bom dia!
— Você também. — Digo depois dele se afastar e subir no seu BMW. Antes de ir embora, ele olha para mim e não sei o que está acontecendo. Só estou sentindo uma sensação estranha.
Eu vou à pé até a Paradise completamente corada. Jake acaba de chegar e fecha a porta do seu mini clubman, depois vem até mim para que entremos juntos. Ele sorri como se tivesse visto o que eu estava fazendo.
Entramos no elevador.
— Você está melhor?
— Estou bem.
— Tem a certeza? Se quiser conversar...
Sorrio. Às vezes, ele é muito fofo. — Não precisa. Mas obrigada pela preocupação.
— Sempre vou me preocupar com você. — Ele me abraça de lado.
— Eu sei.
— Então, quem é o sortudo? — Pergunta de repente. Como ele sabe? Ele me viu?
— Você estava me vigiando? — Dou um olhar frio para ele. — E nós acabamos de nos conhecer.
— Ah é? Eu nem sabia. Perguntei porque vi você corada quando chegou.
— Qual é o mal disso? — Cruzo os braços.
— Nenhum. Pelo contrário, acho ótimo que tenha um namorado. Melissa e eu já falamos isso com você mais vezes do que devíamos. — Finalmente admitiu.
— Que bom que acha isso, agora me deixa trabalhar. Imbecil!
— Tudo bem, linda!
— E ele não é meu namorado.
As portas do elevador se abrem e vejo senhor Bianchi conversando com um homem que está de costas para nós. Jake e eu trocamos olhares e saímos do elevador.
— Quem é esse? — Pergunto em um sussurro para Jake.
— Senhorita Sally, ainda bem que chegou. — Senhor Bianchi diz.
— Claro! Em que posso ajudar?
O outro homem vira para mim e dou de caras com olhos azuis frios, mas bonitos, boca bem esculpida, cabelos castanhos impecáveis, terno caro e uma expressão vazia. Só para não falar do perfume gostoso!
Bem GOSTOSO!
Uau! Do nada, o clima ficou estranho.
— Filho, essa é a nossa nova advogada. Está aqui há três dias.
Ele se aproxima e estende a mão. — Prazer! Sou Andrew Bianchi. Mas pode me chamar de Doutor Bianchi. — Desvio o olhar dos seus olhos para seus dedos compridos e bonitos, unhas bem cuidadas, e aperto a sua mão.
Mas pode me chamar de Doutor Bianchi.
Por favor!
— Avery Sally. Pode me chamar de senhorita Sally.
Oiço o riso baixo de Jake e todos olhamos para ele, que fica envergonhado e pára de rir.
— Prazer!
Volto a olhar para seus olhos. Porquê ele não solta a minha mão? Isso é estranho, não é?
— Vamos, ainda não conhece os outros empregados. — Senhor Bianchi diz, fazendo seu filho soltar a minha mão.
Que homem lindo!
Ele segue seu pai, mas antes de curvar pelo corredor, olha para trás para mim de um jeito estranho, depois vai embora.
Meu Deus! Em menos de vinte e quatro horas, minha vida ficou um pouco estranha. Espero que seja só impressão mesmo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.