O som da cidade abaixo a embalou, em mais uma noite. Sempre dizia a si mesma que seria a ultima vez, mas a emoção era muito boa. Tinha que ter cada vez mais daquilo.

Mexeu no cinto, vendo se estava certo. Uma chance, um salto. Só precisava disso. Um único movimento que durava longos quatro segundos. E nesse tempo, sua vida estava nas mãos da Cidade das Trevas.

Ria daquele nome. As luzes que corriam pelas ruas eliminavam qualquer treva que tentava surgir. Vidro, metal e pedra erguiam complexos e monstruosos prédios, sumindo aos poucos com toda a vida natural. Talvez fosse por isso que a temessem.

Mas era por esses motivos que ela a amava. A cidade sempre a protegeu. Ninguém mais lembrava do nome original daquele local. Não era preciso, na verdade. Ela era mesmo a Cidade das Trevas, e continuaria assim para sempre.

Parou de devanear. Sorriu para a lua, refletindo em seus olhos negros, sombrios, perfeitos. Ela os adorava, assim como diversos que caíam a seus pés. Talvez desse um pouco de atenção à eles, só que seus olhos pertenciam a apenas um...

Começou a correr. Doze passos para seu destino. Sem medo, sem terror. Apenas mais um momento que sempre anseia, e a cada dia pede por mais.

A corda estalou, iniciando o movimento de pêndulo. Esticou a perna, começando a correr pela fachada do septuagésimo oitavo andar. Três placas de vidro, três janelas escuras. Elas não interessavam. Seu alvo era a quarta, ao quarto segundo, às quatro horas da manhã.

Noite e dia começando a se mesclar. Adorava aquela hora. A Hora Mais Negra. Dizem que a noite é mais escura um momento antes de amanhecer. Gostava de pensar em quantas vezes já tinha visto aquele momento, mas nunca prestou atenção para saber se era verdade. Apenas adorava o manto noturno que a protegia e a abraçava.

Bateu em um pequeno botão no sapato, liberando uma finíssima lâmina, perfeita para cortar o vidro, o único sem blindagem. Um círculo perfeito, no total alongamento de sua perna. Girou o círculo recortado, sem tirá-lo da moldura. Pisou no carpete enquanto soltava o fio metálico. Tinha pouco tempo, observando as sombras ficarem longas e destacadas.

Em um pedestal, ali estava seu desejo: O Coração do Demônio. Uma jóia enorme, negra, cortada com diversos fios de ouro e prata, como se uma garra metálica segurasse o coração de ônix e rubi, numa mistura de vermelho quase negro, sangrando. O medo que a jóia inspirava a fez ficar isolada das outras. Agora estaria bela e perfeita em sua coleção.

Haviam, na outra parede, diversas gavetas. Puxou pela memória as numerações e abriu quatro delas. Uma era seu pagamento, e as outras eram seu trabalho. Desarmou todos os alarmes e pegou os conteúdos, em geral jóias belas e caras. Mas nenhuma que igualasse a beleza daquele tesouro assustador.

A olhou por mais algum tempo. Olhou pela janela e viu que não tinha mais tempo. Correu a mão pela pilastra que a sustentava, desarmando as defesas e armadilhas para ladrões. Porque sempre a nivelavam por baixo? Ela era a melhor, uma lenda. E adorava aquilo.

Tirou a caixa blindada que o protegia. Era pesada, e realmente dava medo, mas fascinava. Aquela jóia sempre fora sua. Era como se o próprio Demônio tivesse mesmo lhe dando seu coração. E ela o aceitaria, sem pestanejar.

Guardou com cuidado na bolsa a tiracolo. Beijou o vidro, deixando a marca de seus lábios belos e perfeitos. Estaria longe dali quando o guarda viesse fazer sua ronda. Correu até o vidro novamente e conectou o cabo de aço. Com dois puxões, a roldana montada e fixada no terraço começou a puxá-la. Mais dez segundos com sua vida sob a vontade da cidade. E mais uma vez ela ficou a seu lado.

Olhou para o horizonte, apreciando a jóia. Sob a luz do luar que ia embora e do sol que teimava em nascer, aquilo parecia pulsar. Era incrível. Que força obscura residia ali? E porque ficou tão fascinada? Talvez seja por suas memórias, vindas de um passado difícil, que queria muito reconstruir.

Deixou aquilo de lado. Arrumou a bolsa e recalçou os scarpins vermelhos. Combinavam perfeitamente com o vestido de gala. Pegou um pequeno espelho e retocou a maquiagem dos olhos. Como sempre, lindos. Soltou o cabelo e voltou à festa. Empresas gostavam de exagero. Ninguém percebera sua saída. Talvez estivesse acompanhada por um dos milionários. Talvez fosse apenas uma das várias que ali trabalhavam, e teve sua noite de estrela, de glamour. Pena que não fazia parte dali. Tinha apenas um desejo, e o cumpriu. A Musa novamente teve o que queria. Ninguém poderia lhe negar aquilo. Ninguém era melhor do que ela...

—x-X-x-

O taxista olhou novamente pelo retrovisor. Aquele italiano dava muito medo. Grande demais, forte demais, calado demais. O sobretudo negro cobria o corpo descomunal, mas não escondia sua forma. Os olhos estavam fechados desde que entrara no carro, com os braços semi cruzados sobre as pernas, como se meditasse.

— Pare aqui.

A voz era ainda pior. O tom era pesado demais. Desacelerou o carro e parou no acostamento. Um dos muitos prédios gigantescos da cidade. Entregou uma nota por sobre o ombro, agradecendo com um aceno de cabeça, ainda de olhos fechados. Quando ele desceu, teve certeza do seu medo. Ele estava armado. Acelerou pela noite, tentando esquecer o gigante.

Enquanto isso, o italiano abriu os olhos. Respirou fundo, recuperando o controle. Tinha que ter foco. Achava aquilo errado, mas era a única forma de manter sua honra. Todos estranhavam que ele, um europeu, de linhagem nobre, seguia com tamanho afinco os ideais orientais. Era como um samurai, um guerreiro japonês. A espada em sua cintura fora feita pelo melhor dos ferreiros, vindo de uma tradicional família de artesãos. Aquilo era uma obra de arte feita para a morte.

Começou a andar, fechando os olhos outra vez. Seu alvo era claro. Não queria fazer isso. Roubar era um erro, mas pelo menos tinha uma justificativa: roubaria de ladrões. Sua honra seria mantida.

Dois guardas na porta. Armas de fogo perto de suas mãos, prontas para responder a qualquer coisa com violência. Podia eliminá-los. Estavam prontos para jogar fora suas vidas para defender seu senhor. Pelo menos serviriam para algo: testar o fio de sua arma.

A espada saiu da bainha e retornou em segundos. O sangue só começou a correr quando ele estava longe. Ninguém desconfiaria de suas habilidades por sua aparência. Todos julgam que era um lutador, um dos cachorros de briga de algum rico empresário. Todos tolos. Ralé.

Sons ao redor. Uma festa, talvez. Não eram alvos. O caminho que decidira tinha poucos desvios.

Duas salas, com poucos seguranças. Talvez um tiro raspou seu rosto. O medo que causava em muitas vezes era o suficiente para se proteger da sorte repentina dos tolos destreinados que colocavam em seu caminho. Eram apenas mais coisas para sua arma retalhar.

Continuou a caminhar. O sangue já encharcava o chão. Não se importou com aquilo. Seu destino estava logo em frente. Desta vez, porta trancada. Respirou fundo outra vez, retesando todos os músculos. Tomou pose de combate e apertou o cabo da espada.

O movimento em arco riscou o chão, porta e teto, cortando-a em duas. Nada podia parar seu fio, nada podia impedir de cumprir sua palavra. O sangue que veio junto com o corte denunciava que realmente havia um último segurança. Morreu como um covarde, escondido, sem honra. Poderia tê-lo enfrentado. Talvez o destino finalmente o derrotaria, usando as mãos de um garoto.

Mas não foi daquela vez. O destino lhe permitiu cumprir sua palavra mais uma vez. Estava ali, a jóia que lhe fora indicada: os Olhos Sombrios da Musa. Era um colar grande, de ouro puro e maciço, decorado com jóias negras e verdes. Era lindo, fascinante, como os olhos de uma bela e perfeita mulher. Não entendeu porque ficou tão impressionado. Talvez aquela jóia o lembrasse de algo, mas do que seria...?

Afastou tais pensamentos. Tinha que terminar sua trilha. Um caminho lateral o levaria a uma rua movimentada, livrando-o dos olhos que lhe trariam problemas, misturando-se à massa que dava vida à grande Cidade das Trevas.

Era por isso que amava aquele lugar. Havia tanta vida entre aqueles prédios e ruas que tudo tornava-se uma coisa só. Mesmo ele, tão único, tão icônico, desaparecia em meio ao caos que pulsava naquele lugar. Os carros eram como células correndo entre as veias do corpo daquele monstro de concreto, e as pessoas a poeira em sua pele, que logo passaria, mas que mesmo assim a cobria.

Olhou novamente a jóia, protegido pelos populares. Aqueles olhos eram lindos. Se uma mulher os tivesse, ele a serviria sem pestanejar. Eram mesmo olhos de musa, olhos que inspiravam e davam força. Permitiu um pequeno sorriso, enquanto outro taxi acendia sua lâmpada de “disponível”. Tinha que voltar logo. O Demônio sempre cumpre sua palavra, e apenas uma curta viagem de automóvel o separava dessa máxima...

—x-X-x-

Isolada em um recanto do mais nobre e caro bairro da Cidade das Trevas, estava a casa da maior família mafiosa do mundo. Seus negócios tomavam praticamente todo o continente, envolvidos em tudo que possa ser legal ou ilegal. Pessoas infiltradas, gangues sob controle, acordos mantidos por medo e dinheiro firmam o poder que só aumenta a cada dia.

Em um dos quartos da mansão, descansava um dos maiores soldados da família. De joelhos, em meditação, com sua espada descansando sobre um travesseiro ao seu lado, Lúcio Brigattore treinava seus sentidos. Muitos diziam que a alcunha de Demônio não lhe cabia mais. Ele era um monstro muito mais poderoso do que seu apelido indicava.

Com um movimento rápido, sacou a katana, dividindo uma mosca em duas partes iguais e simétricas. Seu perfeccionismo encaixava-se perfeitamente com a doutrina oriental que seguia. Sua retidão, orgulho e honra por vezes encerraram diversas contendas sem maiores problemas. Era um diplomata habilidoso, mas o medo que sua aparência inspirava também auxiliava em muito. Um italiano gigante, portando uma espada oriental mais cara e mais rara do que os tesouros de Roma, com mais mortes em suas costas do que soldados em uma guerra, com certeza, era um trunfo valioso.

Três batidas em seqüência na porta. Era a única pessoa que nunca ia ali. Surpreso, disse para entrar.

Buongiorno, ragazzo.— a voz parecia vir de uma caverna, rouca e pesada. Augusto Brigattore, líder da família. O corpanzil gordo de mais de um metro e oitenta lhe dera a alcunha de Sapo em sua tenra infância, onde o pescoço fora substituído por uma papada de dar inveja ao maior dos pelicanos. Com o tempo, verrugas e manchas na pele, junto com a calvice, transformou o apelido em uma imagem. – Novamente, um buono lavoro. Quelli maledetto Franchesco nunca mais nos roubará.

— Uma pedra solta derruba castelos, estimado tio. – indicou uma grande almofada, onde o velho senhor tentou se ajeitar – Tua guarda que fora por deveras falha. Disse que eu mesmo levaria a jóia.

— Por isto estou aqui. – entregou um pequeno estojo negro, onde os Olhos da Musa repousavam. Mesmo de olhos fechados, Lúcio reconheceu aquele pequeno tesouro – É sua, ragazzo. Fez por merecer.

— Não fiz mais do que minha obrigação, tio. – fez uma reverência, voltando à pose pétrea de guerreiro.

— O tempo entre os orientais te deixaram estranho, Lúcio.

— Apenas vi algumas verdades, estimado tio. Respostas e perguntas surgiram em meu caminho, guiando à iluminação que ansiava.

— Ainda não esqueceu quella ragazza?

A mão desceu sobre a espada, com os olhos injetados em fúria. Augusto ergueu as mãos, em sinal de desculpas. O assunto sempre fora um problema, talvez o único ponto fraco do rapaz. Ele fechou novamente os olhos, voltando à serenidade de sempre. Com dificuldade, o velho mafioso levantou, indo até a porta.

— Tenho outro servizio, sobrinho. Um problema de muito tempo, e só você pode resolver.

— Agradeço por vossa confiança. Em minha honra, cumprirei o que pedir.

La colpa di suo padre já foi paga. Pare com questto.

Sem responder, deixou que seu tutor saísse do local. A jóia que repousava entre suas mãos parecia olhá-lo diretamente nos olhos. Realmente aquilo lhe fascinava. Lembranças a muito enterradas, fantasmas que teimavam em retornar. As guardou em uma pequena cômoda e pegou o sobretudo, ajeitando sua espada na cintura. Mais uma mancha de sangue, mais mal para suportar. Suas costas, suas asas, suportariam todo o mal necessário. E faria isso por ela...

—x-X-x-

Esticou os braços, aproveitando os primeiros raios do pouco sol que insistia em bater na cidade. Suas torres de vidro e metal não deixavam o brilho da estrela-mor tocar toda sua pele. E ela adorava isso.

Natália saltou da cama, admirando suas últimas aquisições. Safiras de valores inestimáveis finalmente seriam transformadas em dinheiro. Correntes e anéis de ouro prontos para serem derretidos e remodelados. Mas sua preferida não sairia de seus olhos.

O Coração do Demônio era estranho, mas a fascinava. Adorava aquilo a seu modo, e o queria. Era como se a jóia tivesse sido entregue a ela. Mas o que a lembrava aquele tesouro maligno e bizarro? Porque gostava tanto?

Sorriu, alisando a peça. Muitos a queriam, mas nunca teriam. Era só dela. O próprio monstro lhe escolhera para possuir seu coração – pelo menos era o que sentia. Saltitou pelo quarto, até a pequena coleção de sapatos. Vários estilos e cores, todos para seus delicados pés. Eram pequenos tesouros também. Deixou o lençol cair, correndo por seu corpo lindo, moreno. Uma jóia esculpida em ébano.

O toque do celular ecoou pelo quarto. Terminou de calçar o último scarpin que adquirira e foi até ele. Na tela, um de seus contatos. Mais trabalho? Poderia ser problema. Tocou na tela e ligou o viva-voz.

Pensei que não me atenderia. É muito cedo.

A Cidade das Trevas não me deixa dormir. Eu só descanso um pouco entre meus serviços.

Ui... Que dramática.

— É brincadeira. Fala logo.

Pra variar, é trabalho. Quer aceitar ou já descarto?

— Pode falar. Estou me sentindo muito presa. Com o que posso brincar dessa vez?

Os Manevacchi vão brigar de novo. Querem que invada a mansão dos Ostormane e desligue os sistemas de alarme antes da Família perceber e revidar. Pode fazer isso?

Não está falando dos Brigattore, não é?

E quem mais é da “Família” por aqui?

Um frio subiu pela espinha da garota. Não sabia o porquê, mas tinha um enorme receio daquela família mafiosa. Lembranças de seu passado, a muito tomado por névoa e paredes. Mas seriam para sua proteção?

— Não quero fazer isso.

O pagamento é bom, e pode pegar o que quiser no caminho. Vai lá garota, aceita! É grana fácil para o teu jeito!

— Não me sinto bem com isso...

Você já fez coisa pior por muito menos.

É tão alto assim o valor?

Estamos tratando com a máfia. Adivinha...

Fechou os olhos. Abraçou os braços e tentou calcular os perigos. Eram muitos, talvez demais. Mas também seria uma superação. Descobriria um pouco mais sobre si mesma se tentasse evanescer as barreiras de sua mente. Respirou fundo e decidiu, fitando o céu com as jóias negras e sombrias que eram seus olhos.

— Diga que aceito. Quando a noite estiver alta, eles poderão invadir o que quiserem.

Valeu garota! O natal vai ser bem mais gordo esse ano! – sinais eletrônicos. Os dados estavam chegando – Está tudo aí. Se cuida!

Fim da chamada. Desviou os olhos das nuvens, que teimavam em criar formas estranhas, e que de alguma forma lhe chamavam atenção. Olhou na cômoda, nos pedaços de algumas fotos. O que faltava? O que não estava ali? O que ela não pôde roubar daquela vez?

—x-X-x-

Dezenas de homens ombreavam-se na pequena sala. Fumaça de charutos, cigarros e cachimbos davam um ar ainda mais pesado ao ambiente. Os Brigattore estavam todos ali. Até mesmo o estranho, o monstro.

Lúcio passou pela porta e a fechou. Sempre de olhos fechados, esquivou de todos ali presentes e ladeou seu tio, seu líder, seu mestre. Devia sua vida a ele, e por isso o obedecia. Ele era seu Shogun, aquele a quem jurou sua honra e lealdade. Não se importava o quanto lhe diminuíam por suas escolhas. A cultura que seguia estava certa a muito mais tempo do que os costumes da “Famíglia”, da máfia. E, além disso, Lúcio sabia, com plena e total certeza, que era superior a todos eles.

Signori, silenzio! Caspita!— Augusto bateu com o punho no braço da poltrona. Nenhum som mais ecoou por aquela saleta – Temos um problema. Um dos maiores. Quelli maledetti Manevacchi estão agitados. Parecem que querem nostra città.

— Então vamos acabar com eles, Don Augusto!

Aspetta, aspetta. Eles estão querendo chegar aos poucos. Vão derrubar os Ostormane primeiro. Deixe eles se matarem e depois acabamos com essa idéia besta.

— Então porque nos chamou aqui, Don?

Io vou mandar meu sobrinho para resolver questo problema. Preciso do apoio de vocês.

Silêncio novamente. Não era segredo que muitos queriam Lúcio, o Demônio, fora de combate. Ele era um trunfo e um problema ao mesmo tempo, de proporções épicas. O que todos queriam mesmo era deixar aquela imitação oriental invadir o campo de guerra e morrer.

— Se me permite, estimado tio... – a voz serena era pior do que a verdade. Todos sabiam que Lúcio estava furioso – Não preciso de covardes, nem tolos, a me acompanhar. Sou mais do que capaz para tal serviço.

Dois caíram no plano do monstro. Suas armas saíram dos coldres e logo caíram no chão, junto com suas mãos. Sangue escorreu pela sala, manchando a madeira um pouco mais, pois não foram eles os únicos que ali sangraram. Quantos teimavam em ir contra Lúcio? Quantos estavam apoiando o assoalho, com seus corpos adubando as terras da propriedade? Augusto viu que teria de comprar outro tapete.

— Como disse, sou mais do que suficiente. Seriam menos covardes para cercar o perímetro e não deixar nada me atrapalhar, ou terei que, novamente, agir sozinho?

Os mais espertos levantaram a mão, aceitando a proposta. Era melhor mesmo. Lúcio voltou a fechar os olhos, injetados com sangue, totalmente vermelhos. Era fúria demais para uma pessoa só. Quanto tempo mais ele sobreviveria? Poderia ser hoje a última noite do Demônio?

—x-X-x-

Barulho. Tantos que nem mesmo o melhor maestro conseguiria compreender. Aquele era o grito da Cidade das Trevas. Os seres que em seu corpo viviam ecoavam seus sons. Música, grito, riso e pranto. Tudo em um único tom: “Eu sou eterna”.

Sob o manto negro da nova noite, o metal não parava de correr por suas vias. Motos, carros, caminhões, trens, todos levando seus filhos, seus protegidos. Qual seria a alma que naquele luar seria destacado? E com o que seria agraciado? Sorte? Azar?

A cidade preferiu apenas sentir. Deixou que eles se movessem. Havia ali seres demais, probabilidades demais. Mas alguns se moviam para um espetáculo especial, sangrento, terrível, com um desfecho impossível de se prever.

Carros de luxo transportavam, em um estranho silêncio, diversos jovens. Uma festa, em um dos bairros mais caros da cidade. Bebida e diversão por uma noite, apenas para voltarem a suas realidades torpes quando o sol nascer.

Rogerio Ostormane sorriu de orelha a orelha. Estava desesperado, mas não queria pensar sobre aquilo. Era jovem, impetuoso, com a sensação de imortalidade que a tão pouca idade gera. Uma noite de festa iria diverti-lo antes do ataque. Sabia que os Manevacchi tentariam matá-lo. Só que ele ia avançar antes. Tudo estava pronto. E, na pior das hipóteses, teria vários escudos para defendê-lo.

Fachos de luz lançavam seus braços fantasmas aos céus sombrios, sem conseguir o que precisavam. Não havia destaque para o local. A casa era muito antiga, uma das relíquias que o jovem Don roubara de seu pai ao matá-lo. O gramado ali deveria ser vermelho por todo o sangue que o impregnava, mas era estranhamente verde, como algo verdadeiramente vivo.

Mais pessoas desceram das limusines. Entre elas, uma garota linda, que atraiu todos os olhares. Mesmo com jóias pelo corpo, os maiores tesouros eram seus olhos. O vestido deveria destacá-la da multidão, mas estavam tão fascinados por ela que não repararam. Poderia ela estar amarrada com andrajos e farrapos que ainda seria linda.

A passos rápidos, entrou na casa. Corpos moviam-se em todas as direções, embalados por cacofonias eletrônicas e algazarras vocais. Bebidas de todos os gostos e aromas corriam por aquele local, junto com itens do mais baixo nível, criadores de zumbis sedentos por cada vez mais. Seringas, colheres, pedras e fumos sem valor, mas procurados por todos os idiotas.

Ela repudiava aquilo. Naquele momento ficou feliz em ter aceitado o trabalho. Se matariam aquele traficante, ajudaria com prazer. Observou o ambiente, procurando por brechas e caminhos. Para olhos destreinados, seria como uma massa de areia movediça, inexpugnável. Para uma gatuna experiente, era apenas um simples jogo de trilha.

Algo subiu por sua coluna. Um sentimento ruim. Não era de acreditar em intuição, mas não custava nada prestar atenção nela. E era problema, dos grandes. O que poderia fazer? Sair correndo? Desistir de um trabalho que, claramente, seria resolvido com violência?

Preferiu o caminho mais longo. Ia fazer seu trabalho. Ia manter seu nome. Ela era a Musa, afinal. Uma lenda montada sobre anos de trabalho correto e perfeito. Não seria por um arrepio que isso mudaria...

—x-X-x-

O vento passava por ele como se o abraçasse. Aquela sensação perfeita, aquele poder imensurável. Sua lâmina saiu da bainha por instinto, apenas um pouco. Queria sentir a noite como ele sentia. Diziam que os grandes guerreiros orientais e suas armas eram como um só ser. Tinha mesmo alcançado tal honra, tal poder?

Afastou aquelas idéias. Não precisava de suposições. Sabia que era melhor do que qualquer um. Nas terras orientais, era o Akuma. Em outras terras, ainda mais distantes, chamavam-no de Oni. Em sua terra natal, era o Demônio. Achava graça daqueles que temiam tais palavras. Eram só nomes. Pequenos homens podiam ter grandes nomes, e mesmo assim morreriam.

Barulho. Não o som que tanto lhe agradava daquela cidade. Era um ruído, um chiado, que só aumentava. Aquilo irritava. Os olhos mantinham-se fechados para apurar os outros sentidos. Mas, naquele momento, só queria que o som caótico cessasse.

Pararam o veículo. Estavam perto. Nenhum problema chegava à sua pele. Nada havia ocorrido. Ainda era apenas mais uma noite na Cidade das Trevas. Por quanto tempo aquilo duraria? Seria apenas uma noite calada, que encerraria sem que ninguém soubesse o que aconteceu? Ou aquele monstro de concreto e vidro faria todos saberem dos atos daquele guerreiro?

Caminhou devagar. Protestos dos medrosos, como sempre. Já não bastava sua família, agora os pequenos servos teimavam em criticar. Poderia matá-los ali mesmo, mantendo a honra deles. Pois sabia que fugiriam, com toda certeza. Não manteriam sua palavra. Queriam vê-lo alvejado por todos os tiros que os inimigos poderiam disparar sob aquele luar rubro.

Ergueu a mão e abriu um pouco os olhos. Queria vê-la. A lua que tanto o encantava, assim como aqueles olhos. Não sabia bem porque, mas ficara com a jóia. Lembrava muito aqueles olhos que amara no passado, que amava no presente, e que amaria no futuro. Atados a seu pulso, os Olhos da Musa aceitaram aquela radiação rubra, revelando íris belas e infinitas, nascidas no âmago das jóias que as compunham. Perfeição dentro de perfeição. Assim seria ela? Seria por isso que sua mente era povoada por desejos que não entendia? E porque não lembrava totalmente de seus desejos? Seria um bloqueio? Ou seria uma proteção, para que velhas feridas não ressurgissem? Mas, acima de tudo: porque, sob todas essas ressalvas, não se importaria com o resultado destas descobertas?

Fechou os olhos novamente, guardando a imagem da Lua. Rubra como o sangue, perfeita como aquela que estava em sua memória. Estavam juntos em seu brilho maléfico. E em suas asas refletiu aquela profana luz.

Assustou os seguranças enquanto fazia isso. Pensaram besteiras improváveis, igualando-o aos viciados da festa. Queria matá-los por aquilo. Odiava aquilo que vendiam. Era sua única falha não suportar em silêncio aquele lixo. Seus sentidos alertavam a todo segundo, e ele fazia questão de destruir todo aquele dejeto em seu caminho.

O alvo era claro. Não deveria deixá-lo morrer – pelo menos por enquanto. Queria avaliá-lo. Sabia que seria atacado, e mesmo assim deixou-se indefeso? Ou planejava usar a massa? Um truque útil, mas falho. Com certeza já estavam ali, prontos para avançar. Ele também, afinal. Caminhou até um canto, isolado e encoberto. Ninguém o veria, mesmo com sua arma fora da guarda. Os olhos abriram, equilibrando os sentidos, deixando-o pronto. Nada ficaria vivo. Nascera para ceifar, para retalhar. Em suas costas, as marcas do mal de sua família. Era seu dever, sua essência. Ao Demônio fora entregue todo o mal do mundo. Em suas asas, o sofrimento de suas vítimas. E ele as guardaria, independente do peso, pois sabia que não seria afetado. Tinha que vê-la outra vez antes de ser condenado.

Mas quem deveria seus olhos cruzar? A quem pertencia seu destino, já que não mais seu era? A quem tal jura fora lançada?

Devaneios. Aquilo sempre acontecia. Os sentimentos criavam trilhas estranhas. Não iria percorrê-las dessa vez. Agiria como o monstro velho que era. Encerraria aquela noite, e teria alguma resposta, por mínima que fosse. Sob aquele luar sanguíneo, um tesouro seria encontrado...

—x-X-x-

O caos sempre lhe fora agradável. Muito se via, mas muito era esquecido. Poderia arrancar tesouros de cofres e caminhar por todo o salão que nem mesmo a veriam. Mesmo a beleza que irradiava de sua figura impediria seus atos.

Caminhou entre os alegres e descontraídos. Um foi atrevido o suficiente para tocá-la. Ah, tolo festeiro... Teu último pensar, teu último ímpeto.

Interrompeu seu passo, voltando-se ao tolo. Os olhos irradiavam ódio. Não havia medida possível para explicar aquele olhar, por detrás de finas lentes de cristal, molduras para as jóias diabólicas que criavam o rosto da Musa. O mal que deles saltava abriu uma clareira em meio ao povo. Os cabelos circundavam a face da fúria. Os lábios fechados apenas marcavam mais raiva. Outro passo, e o tolo caiu, de cócoras, arrastando-se até uma pilastra. Fúria, apenas fúria. Perfeito ódio encarnado, total danação demonstrada. Medo e mais medo influindo para o coração dele. O olhar fixo, como uma arma apontada. “Verme...”, ecoou baixo nos ouvidos dele, antes de gritar e desmaiar. A voz dela seria o último som que seu pobre coração pôde agüentar antes de parar de bater. Aqueles olhos de ódio eram a arma de uma divindade. Seu gracejo custou-lhe a vida.

Virou as costas e continuou seu trajeto. Como pensara, logo a multidão o encobriu. A festa não iria parar por causa de um idiota. Fora logo esquecido, obliterado. Não mais existia este pobre tolo...

Ao longe, alguém a observava. Olhos frios, malignos como os seus. Seriam iguais? Ou dele seriam? Estava ele ali? Não, impossível. Há tempos que a negativa imperava. Alterou seu caminho novamente, mas não estava mais lá. Aquele olhar sumira. Porque agora isso a assombrava? Seria questionamento de uma mente febril e preocupada? Ou era a realidade pronta para lhe afrontar?

Não, não podia nisso pensar. Havia uma missão, uma palavra a ser cumprida. Era sua vida ali em jogo, sua existência. Um caminho curto em troca de mais tempo como Musa. Sua fama era tudo. Não podia deixar aquela figura morrer. Perfeição acima da perfeição, como seus olhos. Nenhum mal a alcançaria naquela noite rubra.

—x-X-x-

O fôlego parecia querer abandoná-lo, mas não permitiu que ocorresse. Como pôde se descontrolar? Como pôde falhar?

Segurou o rosto com a mão. Não eram eles. Aqueles olhos não mais existiam. Em sua mente, a figura se repetia, impossível como deveria ser. Queria e não queria acreditar. Queria e não queria que fosse ela.

Liberou um pouco sua lâmina e passou o dedo pelo fio. Um pequeno corte para voltar à realidade. Só a dor poderia barrar aqueles pensamentos. Aprendera a duras penas esta máxima. Mas o que a dor em seu coração escondia de sua mente? Tão terrível era aquela memória?

Não podia pensar naquilo. Voltou-se à multidão, procurando por eventos. A hora estava próxima, tão clara quanto o raiar da lua. Ignorou o povo ao redor, e os gracejos da juvenília feminina. Não era hora para aquilo.

Mas sempre há um tolo nesses momentos. Um esbarrão, que para ele não fora nada, era uma chance de disputa de alfas. Disputa tola, é claro. Não havia ninguém ali superior a ele. Pena que o jovem não entendeu tal recado. Os músculos inchados por químicas duvidosas nada significavam perante técnica e poder, itens que preenchiam o Demônio.

Duas ou três ofensas, ignoradas. Um provocar corporal, inflando o peito. Queria ele algum tipo de combate. Teria mesmo que perder tempo com um infante? Bufou, abrindo os olhos. Um castanho-sangue brilhou no escuro da pista de dança. Olhos de um monstro, moldados na carnificina e na morte. Deveria ser suficiente.

Medo. A sensação que ele sempre trazia. Mas o jovem era o tolo o suficiente para ignorá-lo. Sem tempo a perder, Lúcio resolveu findar aquele assunto.

As vértebras do garoto trincavam entre seus dedos. A pele logo afinou, sem sangue a correr por ela. Respirar era impossível agora. Uma mão monstruosa apertava um fino pescoço, tornando um momento curto em um infinito lastimar. As veias explodiam, sob pressão nunca antes sofrida. Violência que semeara por tanto tempo agora contra seu corpo vinha. Era o fim.

Um, dois, três estalares. Três ossos esmigalhados, enquanto o corpo tombava sem força. Ainda estava vivo. Aquilo era tortura, castigo por ter afrontado o pior dos monstros. Os olhos, vidrados e quase cegos pela pressão, tentavam buscar pelo algoz, mas o corpo não respondia. Não havia mais conexão entre cérebro e corpo. A medula, naquele ponto, agora fazia curvas e caminhos não permitidos.

“Verme...”, ouviu o rapaz. A voz infernal e rouca, digna do pior dos carrascos, ecoou com força em seus ouvidos preenchidos por uma infinita gama de dores. Sentiu a sola do pé dele em sua pele. Seria um sapato mesmo ou a ferradura de um casco de bode?

Silêncio. Mais um corpo absorvido pela multidão. Sem nome o desonrado fora enterrado. Um fim indigno a um ser sem glória. E mais uma alma por ele fora tomada.

Olhou ao redor. Precisava de outro ponto de observação. Precisava de mais espaço e alcance. Logo o que desejava aconteceria. Já podia ouvir o engatilhar, o ferroar de diversas armas. Mais sons iriam se misturar àquele festejo. E de mais corpos a Cidade das Trevas se alimentaria...

—x-X-x-

O resto da mansão era um amálgama de silêncio velado e pontos de caos dispersos. Festas dentro de festas, com observadores e observados integrando-se à loucas danças e interações ainda mais íntimas. Uns serviam a vários, ou vários serviam a um. Não havia distinção entre sexo, idade, raça ou credo. Enquanto o prazer pudesse ser disperso, ele ali haveria. Aos interessados, tudo havia. Um pequeno paraíso àqueles que entregavam-se aos devaneios da perversão sem limites.

Mas não para eles. Mesmo distantes, achavam absurdo. Sem hipocrisia, sem o asco social inerente. Apenas concordavam que o exagero era tolice. Intimidades deviam ser mantidas em casal, entre aqueles que gostavam, não com aleatórios. Por um momento, seus pensamentos foram iguais, para logo voltarem a seus propósitos.

Em uma ponta do longo corredor que cortava aquele andar, Natália começou seu trabalho. Seus olhos perfeitos foram treinados para encontrarem brechas, falhas e possibilidades nos ambientes. Em poucos segundos, já sabia como sair daquele local. Ficou aliviada pela facilidade da rota. Agora tinha que achar as bases para seu serviço.

Na outra ponta, Lúcio arrumou o sobretudo, revelando a katana na cintura. Não era mais necessária a discrição. Já sabiam que estava lá. Os Ostormane eram aliados não desejados, e por isso a relação entre as famílias era falha, mas aceitável. E seu nome era conhecido o suficiente para afastar os traficantes e pretensos heróis, sedentos por fama. Vasculhou o lugar com os olhos, e já sabia como destruir todo o local. Haviam pontos demais para se proteger e destroçar. Batalhas curtas seriam eficientes naquela noite, e o corredor era ainda melhor para um guerreiro como ele. Não teriam tanta vantagem com suas inglórias armas de fogo. Se cruzassem seu caminho, seriam abatidos como moscas ao redor da chama.

Um som, no andar de baixo. O tempo de paz acabara. Um desentendimento iniciara a guerra. Musa e Demônio perderam-se na multidão assustada. Teriam que agir, e rápido.

—x-X-x-

A família Ostormane tinha um histórico que muitos chamariam de violento. Os que estavam nos negócios das “famíglias” afirmavam que eram um bando de loucos. Viciados em carnificina sem sentido.

Rogerio caminhou por sua mansão satisfeito com suas vendas. O estoque que mantinha no porão começou a rarear. Teria tanto dinheiro ao raiar do sol que poderia comprar os Manevacchi, livrando-se do problema.

Em meio ao caos, esbarrou em um rapaz. Ele gritou algo, mas aquele jovem mafioso não se importou. Era só um dos moleques com nariz platinado. Acenou para os seguranças, que começaram a atravessar o mar de pessoas.

Dor. Instantânea e irrefreável, como deveria ser um tiro. Sua perna não existia mais, mesmo ainda ligada ao corpo. Gritou, e gritou muito. Nunca levara um tiro, mesmo tendo disparado tantos. Puxou a pistola do coldre nas costas e a descarregou no rapaz. Dezessete balas transformaram o alvo em um farrapo, com partes de sua carne espalhadas pelo calibre exagerado. A festa desapareceu, dando lugar a um caos generalizado.

Mandou fecharem as portas. Os inimigos estavam ali. Aqueles idiotas seriam seus escudos enquanto ia para o cofre. Nem mesmo dinamite abriria uma porta de titânio com quase meia tonelada.

Começou a acenar, chamando pelos protetores, mas eles não respondiam. Tiros começaram a voar pelo local, acertando os convidados. Sangue já decorava a maior parte do ambiente. Tentou levantar, mas escorregou em um pedaço explodido de um drogado. A raiva só aumentou, enquanto recarregava a pistola e disparava a esmo.

A luz sumiu. Trevas, o elemento daquela cidade maldita. Era o troco dela por tantos anos empesteando sua pele com drogas e sujeira. Uma vingança de um ser antigo e terrível, controlador de vidas.

Não iria se entregar. A derrota era impensável, assim como a fuga. A juventude sempre fora impetuosa, e sempre falhava. Talvez, se tivesse parado por um momento, teria ativado os alarmes, chamado por reforços. Mas não. Era Rogerio Ostormane, e venceria mais uma vez.

—x-X-x-

Natália começou a correr. Não gostava de tiros, principalmente quando não era ela que os estava efetuando.

A sala estava ali, a poucos metros. Tinha visto a caixa de força. Usaria o que a cidade mais tem à disposição, seu símbolo: as trevas.

Com um mover de dedos, tinha todas as chaves elétricas à sua disposição. Sem pensar, desligou todas. Não podia dar chance aos seguranças. Havia poucos naquele andar, mesmo com tanto movimento. A área de segurança também era próxima. Recordou o caminho e começou a correr, como uma iniciante. Sentia-se impotente naquele local. O que acontecera ali para lhe afetar tanto? E porque aquelas lembranças enevoadas continuavam a incomodá-la no pior momento?

Passou por uma janela, e observou a lua com o canto dos olhos. Tinha a proteção e as bênçãos daquele luar rubro. Sim, teria sucesso. Sem medo, sem receio. No meio segundo que perdera nesse olhar, quase tropeçou com um enorme rapaz. No caos que estava lá, não seria reconhecida. Desviou com perfeição, movendo o belo e perfeito corpo para o lado, aproximando-se ainda mais da janela. Poderia usá-la para fugir, se preciso. Arquivou a informação e voltou à missão.

—x-X-x-

“A certeza de um tiro sempre prenunciou desastre”. Uma frase estranha, mas que ficava perfeita na voz de Franchesco Brigattore. E ela explicava o momento que Lúcio estava vivendo.

Tinha que descer. Aquele andar não lhe daria o acesso que desejava. Não houve tempo hábil para estudar com perfeição as rotas. Teria que aceitar a fúria, retornar ao monstro, e deixar que o metal de sua katana ficasse bêbado de sangue. Ninguém sairia vivo dali.

O primeiro corte dividiu dois seguranças em pedaços iguais. Um metro e vinte de lâmina perfeitamente criada para a morte. Uma ferramenta diabólica nas mãos de um ser demoníaco. Por um momento entendeu o temor daqueles que o enfrentavam, pois observou o reflexo de seus olhos na espada. Não eram mais humanos, não eram mais reais. A fúria os deixava na forma de armas, cortados. Nada mais de mundano residia em seu ser. Seria mesmo um monstro abissal? Seria verdadeira sua nominação?

Moveu a arma em arco, espalhando o sangue dos alvos abatidos na parede. Tinha que correr. Tiros demais em pouco tempo. Alguém estava desesperado. Idiotas covardes, incapazes de lutar com seriedade por suas vidas. Usavam de ferramentas inglórias, desonrosas. Não tinham capacidade, habilidade, nem mesmo a seriedade para suportar o ceifar de uma existência. Faziam aquilo sem motivo, como um ato aleatório. Fracos. Vermes.

A luz sumiu. Era a cidade gritando naquele local. Ela gritava que Lúcio Brigattore teria a maior das vantagens. Havia um monstro naquelas trevas, sedento por carne, sedento por morte.

Enquanto avançava, uma garota entrou em seu caminho. Por um capricho do destino, ela desviara com perfeição de seu fio sanguinário. Surpreso, deixou-se rir. Ela merecia viver após aquilo. Talvez a encontrasse novamente. Agora, sua trilha era clara. Aqueles que portavam armas eram alvos. Aqueles que estavam de mãos vazias eram obstáculos. Iria eliminar a ambos, sem distinção...

—x-X-x-

Talvez a sorte estivesse mesmo ao lado da Musa. Os seguranças tinham deixado a porta da sala de segurança aberta, pronta para ser invadida.

Várias telas brilhavam fracamente, apoiadas pelas baterias de emergência e geradores. Fechou a porta e a escorou com uma cadeira. Precisava de calma e cuidado agora. Haviam tantos sistemas independentes que poderiam acabar por acionar uns aos outros. Respirou fundo e começou a desmontar as máquinas e os controladores, revelando mares de fios e luzes.

Tirou uma delicada pinça dourada dos cabelos, finamente decorada, mas totalmente funcional. Sabia disfarçar seus equipamentos. Tinha aprendido isso a muito tempo, com alguém que tinha que se esconder o tempo todo. Mas porque ele fazia isso?

Não, não iria iniciar um novo questionamento. Tinha muito a fazer e pouquíssimo tempo. Teria que fugir daquela casa. Uma guerra estava a ponto de iniciar, e não queria ser parte daquilo. Não queria mais problemas para si do que aqueles que a assombravam.

Tomou um choque. Estava tremendo. A raiva lhe subiu pela garganta, mas voltou ao normal. Controle ali era tudo. Voltou a mexer nos fios, e informes de “desativado” começaram a aparecer na tela central. Estava a um passo de concluir.

Mas algo teimava em lhe atrapalhar. Batidas na porta, nada convidativas. Um inimigo. Calculou mal trancando a porta. Não havia ali nenhum lugar por onde fugir, a não ser a própria porta. O som de metal a alertou. Estava armado. Era seu fim.

Dois tiros. O primeiro foi na parede, estourando-a, e desviando um pouco só a cadeira. No segundo, era perdeu sua função. A porta abriu em um estrondo, permitindo que um dos seguranças invadisse o local.

Natália teve pouco tempo para se mover. A pinça em suas mãos seria sua única chance. Escorou-se na parede, agachada, e deixou que o homem entrasse. Rapidamente, enfiou a pinça no tendão dele, rasgando a pele, descontrolando-o. A arma caiu, quicando duas vezes. Ainda tentou esticar a mão para recuperá-la, mas a pinça varou seu pescoço, rasgando a faringe, atingindo uma artéria, transformando-o em um grotesco chafariz.

Os olhos, agora sem vida, fixaram-se nos da Musa. As jóias negras de tamanha beleza foram sua última visão. Talvez fosse um prêmio ser morto pela mulher mais bela que existe, ou uma chacota apenas, pois nunca a teria. Aquele era um tesouro inalcançável para alguém como ele.

Natália começou a tremer, soltando a pinça. Mesmo tendo feito poucas vezes, gostava daquilo. A sensação era boa, mas perigosa. Não podia ser tomada por aquilo. Segurou a mão, controlando a respiração. Calma era tudo o que precisava. O perigo estava perto demais. ele estava perto demais. Sabia que era verdade. Mas quem seria ele?

Levantou, devagar. A perna tremeu no primeiro passo, mas logo voltou ao normal. Terminou de desarmar a última defesa da casa, deixando os Ostormane à própria sorte. Mandou a mensagem para seus contratantes. Sua missão estava concluída. Era a hora de ir embora. Olhou uma última vez para o cadáver e começou a andar. Havia tanto sangue e pedaços de corpos pelo caminho que temia por si mesma. Quem estava fazendo aquilo? E porque, no fundo, aquela cena terrível lhe trazia sensações boas?

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A mesa não suportaria muito mais. Vinte mil em madeira e metal jogados fora. Porque estava dando importância ao dinheiro naquele momento? Não devia dar importância apenas a acertar o próximo tiro?

Rogerio fez mira através de um dos buracos, derrubando mais um atirador. Porque diabos o alarme não estava apitando em sua orelha? Onde estavam os seguranças de ronda? E, ainda mais: porque eles continuavam a chegar? As cercas elétricas não levantaram?

Era impossível. Nem mesmo a queda de energia iria impedir aquilo. Instalara vários geradores na casa para esse tipo de problema. E porque eles não estavam ativados? O que deu de tão errado?

Tomou fôlego e saltou, usando os corpos como escudo. Três lances de escada. Sessenta e dois degraus separando-o de um refúgio. Tinha que chegar nele. Tinha que viver. Queria trucidar os Brigattore. Aquilo tinha cheiro e jeito de traição. Alguém anulou seus sistemas de segurança.

Primeiros degraus atravessados, e logo viu que fora um erro. Quase caíra de cara no sangue. Havia uma camada de quase três centímetros de sangue em todo o corredor daquele andar. O medo subiu por sua coluna. Só um ser conseguiria fazer aquilo. Quando viu a marca de corte na parede, teve certeza. A arma escorregou de seus dedos, mas a pegou antes que caísse, tremendo. A chance de ficar vivo estava próxima ao zero. Não tinha para onde correr. Os poucos seguranças que estavam na casa quando o ataque começou, e, pelos gritos, eles começaram a rarear.

Queria chorar, voltar para seu quarto e esperar a bagunça acabar. Não tinha matados seu pai para passar por isso. Queria passar a vida sem fazer nada, como o velho tinha feito desde que o vira pela primeira vez. Queria passar o dia com prostitutas seminuas, cobertas de cocaína e bêbadas com o melhor whisky que o contrabando poderia arranjar, e não ficar trocando tiros com bastardos de outro continente.

A raiva costumeira dos Ostormane tomou o lugar de sua consciência. Estava na hora de sair matando o que estivesse na frente. Chutou uma das paredes, revelando uma janela escondida por papel de parede e gesso, onde diversas armas estavam dispostas. Carregadas e prontas, os calibres mais altos eliminariam mais inimigos. Tudo ou nada. Vida e morte. Um último movimento antes do fim da noite, e nada mais.

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Um último grito, secamente interrompido. O som de metal cortando o ar era como um fúnebre hino ecoando pela mansão. Lúcio ficou a lâmina no chão, totalmente encharcado por sangue e vísceras. Um fim inglório a seres inglórios. Sua espada era o último resquício de honra em uma família destruída por suas falhas.

A sala onde estava não sentia o ar a algum tempo. Carlos Ostormane, pai de Rogerio, estava ali, apodrecendo, voltando a sua origem pútrida. Um ser nojento, viciador e violador. A garganta cortada estava bem marcada. Um abridor de cartas fora seu algoz.

Os olhos já não existiam, órbitas vazias fitando a lua rubra daquela noite. Morreu com uma bela imagem, pelo menos. E aquela imagem lhe trouxe algo, uma memória enterrada e proibida. Mas quem a proibiu? Fora ele? Alguém podia mesmo mexer com a mente dos outros?

Segurou a cabeça com as mãos, tentando recuperar-se da vertigem rapidamente. Não podia, naquele momento, pensar em tão distante passado. O presente era o único momento. Sua mente deveria manter-se focada. Sua fúria tinha um motivo, um caminho.

Passos. Quem estaria ali ainda? Era claro que uma garota estava no corredor. Saltos finos, em um compasso claro de sobriedade. Não era da festa. Mandariam mesmo uma mulher? A família não era conhecida por isso. A elite sexista ainda as inferiorizava. Tal tolice ainda lhes cobraria caro em algum momento.

Apurou a audição. Não estava armada, pelo menos com algo de disparo. Certo do sucesso, embainhou novamente sua lâmina, arrumando o sobretudo. Acenou para o cadáver, em um deboche engasgado a tempo demais.

Sem luz, só ele podia ver. A lua era quem parcamente iluminava aquele caminho estreito. Estava procurando algo, e não tinha medo. Sabia o que estava fazendo. Sabia perfeitamente o que queria. Era uma profissional feita para situações de inteligência. Gostava de trabalhar com pessoas com tais habilidades. Seria algum tipo de apoio de seu tio? Ou uma inimiga que trocou sua palavra? Estaria mesmo do seu lado ou sabia que ele era a única opção para sair viva dali? Resolveu esperar. Caminhou devagar até ela. Queria saber quem realmente era...

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Problemas. Ao redor só saltavam problemas. A pequena lâmina que arranjara em um escritório no caminho estava lascada. Não sabia se conseguiria sobreviver na próxima vez. Além disso, todo seu plano fora por terra.

Estava no terceiro andar. Era um espaço de difícil acesso, apenas uma entrada e uma saída. Podia usar as janelas, mesmo as blindadas. Arrancá-las do batente e usar como escudo em algum ambiente até a polícia chegar. Porque alguém, com certeza, já os tinha chamado.

Uma porta entreaberta. Um quarto grande, um tanto diferente. Entrou rápido e trancou a porta. Devia ser um quarto de casal, por itens diferentes dispostos de forma ordenada. Quem morava ali? Algum parente do dono da casa? Ou o próprio dono usava aquele espaço para se isolar?

Vasculhou as gavetas, encontrando tantas jóias femininas que não sabia o que pegar. Havia ouro suficiente para comprar um pequeno país. Recolheu o que podia, escolhendo pedrarias esculpidas com esmero. Porque as pedras estavam lhe fascinando tanto? Desde que roubara o Coração do Demônio, imagens tentavam atacar sua mente, como se o passado viesse contra o futuro. O que estaria certo? Aquelas imagens bloqueadas ou seus pensamentos atuais? O que tinha de tão terrível escondido em sua cabeça?

Escorou-se no pequeno armário. Uma faca tilintou entre os dedos. Seria útil para seu caminho. Tinha que voltar às... Origens? O que fizera em seu passado? Havia mesmo algo escondido em seu passado? Não podia pensar naquilo. Tinha que sair dali.

O barulho estava menor no corredor. Podia sair sem ser vista. Respirou fundo e saiu, mas percebera seu erro em tempo para perfurar a garganta de um pistoleiro. Ele caiu, alertando o parceiro, que perdeu o olho esquerdo antes que o dedo direito pressionasse o gatilho. Sentiu um trincar na lâmina, mas ainda estava utilizável. Podia continuar andando. Tinha que continuar andando.

Escuro demais. A noite sempre lhe ajudara, mas ali de nada serviria. Pediu que a lua seguisse seus passos, iluminando um pouco que fosse. E nesse momento viu a silhueta assustadora.

Alto, forte, terrível. Já tinha passado por ele aquela noite, e algo dera errado. Seria um inimigo? Um segurança enviado pelos Manevacchi? Ou mais um dos assassinos que povoavam por aquela casa, matando tudo que estava vivo?

A rubra luz revelou o caminho por completo. Menos de dez passos para a escada. Empunhou a pequena faca e tomo coragem. Mostraria que a Musa não era apenas uma garotinha com mão leve. Era a maior das ladras, e ninguém a impediria de terminar um trabalho.

Dois passos. A lua moveu um pouco sua face brilhante. O homem estava armado também, mas com uma espada. Uma arma que já tinha visto. Uma arma que já tinha tocado. Um item que já tinha amado...

Os olhos se cruzaram. As perfeitas estrelas sombrias contra os poços de fúria infernal. Não desviaram o olhar, por mais que suas mentes gritassem para que fizessem isso. Era o fim de uma trilha desviada a tanto tempo.

Ambos ergueram suas armas, prontos para se atacarem. Moviam-se como espelhos, os mesmos músculos com as mesmas ordens. Um iria contra o outro. Um passo falso, e a verdade descortinou-se.

Saltaram para lados opostos, trocando de lugar, matando aqueles que tentaram tirar suas vidas. Mais corpos para pavimentar a casa. E uma última barreira fora quebrada. As perfeitas jóias no rosto de Natália brilharam como nunca, assim como a fúria de Lúcio por um momento desapareceu. Um procurava o outro ha muito tempo. Queriam novamente unir-se. Os corações bateram em ritmo igual, acelerado. Algo em seus corpos começava a mudar. Finalmente, o destino perdera. Mais nada iria separar o Demônio e a Musa...

—x-X-x-

A noite pareceu parar, desesperada. A cidade sentiu dor, perigo. Duas forças que não deveriam mais estar juntas. O Destino era inimigo daquele casal. Ele fez de tudo para separá-los, em uma história enterrada por tanta dor que nenhum mortal poderia sequer suportar, muito menos entender...

Cercados por corpos, os dois se olharam. Espelhos refletindo espelhos, em uma infinidade de possibilidades incalculáveis. Um tentava buscar no outro algum motivo, alguma coisa que explicasse aquela sintonia. O passado estava voltando, junto com as memórias. E com elas o sofrimento.

Somente sofrimento os preencheu. Muito mal, muitos momentos que não deveriam ser ruins foram maculados. Lúcio golpeou a parede, criando uma rachadura. Natália perdeu a força nas pernas, escorando em um aparador próximo.

— Não pode ser você...

A voz era a mesma, ela tinha certeza. O monstro que amava. O monstro que guardava seus sentimentos. O monstro que, anos atrás, morreu por ela.

Pegou a faca novamente, e foi contra ele. Se fosse qualquer outra pessoa, o metal invadiria sua carne e a rasgaria. Mas só bateu em seu peito, sem força. Ficava assim perto dele. Só dele.

— Porque...

A lâmina da katana voltou para sua bainha, gritando para que não fizesse isso. Algo ruim aconteceria, e ela sabia. Podia ouvir a cidade gritando sobre esse ato. Não podia acontecer. Era um erro dos dois. Por isso suas memórias estavam enterradas.

Com um movimento, a fechou em seus braços. Lúcio não sabia o que fazer. Só queria ficar daquele jeito para sempre. Perdeu por um momento toda a diplomacia e honras que sua educação de guerreiro oriental formou.

Tiros. Alguém estava subindo. Tinham que sair dali. Tinham que esquecer o mundo, para poderem novamente ficar juntos. A guerra não tinha terminado. Correram juntos até o quarto maior, trancando a porta e a escorando com o que pudessem usar depois.

— Precisamos falar. Tenho que ter certeza que... — Lúcio foi calado pelos lábios de Natália. Um beijo que o corpo deles desejava mais do que a vida. Um beijo que selou seus destinos.

— Sou eu mesma. Não tem que duvidar. Eu estou aqui...

Lágrimas. Não paravam de descer dos olhos dela, como uma cachoeira manchada por sangue, ela chorava. Aquele gigante também queria chorar, mas não sabia mais como fazer aquilo. Carregava muito mal nas costas para se permitir sentimentos puros ou atos verdadeiros.

Gritos. Ambos voltaram a ficar alertas. Estavam perto, prontos para atacar. Um indicou silêncio para o outro. Demorou, mas os passos sumiram. Os tiros voltaram ao andar de baixo. Estavam sozinhos novamente.

Os olhos uniram-se mais uma vez. Como queriam fazer aquilo! Pela primeira vez o Destino fora vencido. O mundo nada mais podia fazer contra os dois. Estavam novamente unidos, e, aos poucos, o sentimento refazia seus laços, refazia seus corpos, quebrados e remontados pelo sofrimento e a desgraça.

O brilho da lua invadiu aquele quarto. Sua luz rubra agora era mais fraca, voltando ao negrume da noite. Só as estrelas dos olhos dela iluminavam a cidade. Os olhos pelos quais se apaixonou, se entregou.

Ela também sentia isso. Sentiu suas almas tornando-se uma, como a tanto tempo era. A paz estava a um passo. Sorrisos estampavam seus rostos cansados.

Sempre pensaram o porque de sua separação. Agora, estavam prontos para retornar. Tinham que ser um novamente. Tinham que entender um ao outro e ouvir tudo, até saberem o quanto fora errado aquele tempo de hiato.

—x-X-x-

Ódio. Seu sangue fervia e seu corpo tremia. Quase não conseguia mais segurar as armas. Aquele metal todo estava tirando sua força. Precisava de mais, muito mais.

Não lembrava do que usara para apoiar a perna ferida, principalmente depois do segundo tiro. Seu tempo agora era curto. Muito de seu sangue estava misturado ao que inundava sua casa. Os Ostormane eram raridade agora. Não queria sumir como o resto daqueles que considerava sua família.

Ouviu um barulho, e descarregou o pente da pistola. Doze tiros sumiram com uma mesa e o lado esquerdo do rosto de um Manevacchi. Sorriu enquanto recarregava sua arma. Quantos mais viriam? Quem mais mandariam? E porque aquele monstro vindo dos infernos não estava ali ainda?

Agradeceu por isso. Se o Demônio estivesse ali, seus pedaços fariam parte da decoração da mansão. Repensou isso ao tropeçar em um cadáver perfeitamente dividido em dois. Não quis acreditar. Atirou no cadáver, apenas para acalmar sua mente febril. Foi um tiro. Foi uma bala que dividiu aquele corpo, não uma espada curvada.

Segundo andar. Tinha que chegar ao terceiro. Tinha que voltar para seu quarto. Tinha que sobreviver. Tinha que parar de tremer de medo e enxugar as lágrimas. Tinha que trocar as calças imundas de urina ao lembrar do espadachim gigante...

—x-X-x-

Os lábios voltaram a se distanciar. Finalmente todo o bloqueio de suas mentes desaparecera. Terrores e maldades tomaram suas mentes ansiosas e apaixonadas.

Anos. Muitos deles, ainda na tenra idade dos dois. Quando erros eram permitidos, usados para se ensinar, não para punir. A primeira vez que ele empunhou uma arma. A primeira vez que ela tomou algo que não era seu. A primeira vez que se viram.

Uma viagem. Negócios escusos entre dois sindicatos criminosos. Brigattore e Yakuza seriam aliados. Uma troca de técnicas foi proposta. O rejeito dos europeus foi escolhido. Um bastardo nobre por um aspirante à liderança oriental.

Dias infernais forjaram um monstro, o pior deles. Lúcio aprendeu a dura vida de um guerreiro, enquanto o príncipe desfrutava das riquezas e regalias da Famíglia. Sofrimento em troca de conforto. Aquilo o saturou.

Na mesma época, uma lenda começou a ser forjada. Falhas sobre falhas, desastres sobre desastres. Pela segunda vez, na sarjeta, Natália estava. A garrafa seca em suas mãos pesava mais que o vestido surrado, mas eram mais leves do que as feridas pelo corpo. Sua família a abandonou, outra vez. Colocada de lado por aquele que julgava um amor. Trocada, humilhada, espancada.

O ventre doía, mas o que realmente estava ferido era seu espírito. O que poderia ela fazer agora? O que afanara não duraria para sempre. Era boa naquilo. Rápida, inteligente e bonita. Requisitos para uma ladra. Mas não qualquer ladra. Queria ser a maior de todas. E assim faria.

O treino dos dois foi simultâneo, mas distante. Nunca tinham sequer se visto. Não sabiam da existência um do outro. O Destino escolhera aquelas almas para brincar. Tornou-se inimigo daqueles pobres mortais.

Mas tinham algo em comum. Um lugar de origem igual: a lendária Cidade das Trevas. Fora ela que originou aqueles seres. E ela, mais uma vez, os protegeria.

Não demorou para seus nomes virarem boatos, e de boatos passarem a lendas. Um europeu que seguia os códigos de conduta dos guerreiros orientais, que ostentava suas armas e sua diplomacia. Uma ladra que nunca falhava, que nunca era encontrada, capaz de qualquer ato para cumprir seu objetivo. Um foi tido como monstro e temido. A outra tornou-se inspiração e desejo de muitos. Seus nomes foram cunhados na história enquanto se transformavam, enquanto amadureciam.

O raquítico bastardo tornou-se um ser de força e sabedoria. Sua mera figura agora encerrava combates. Músculos expostos desproporcionais. Uma face assustadora. Uma voz que fazia céus e terra tremerem.

A perdida enganada tornou-se uma jóia, lapidada por agilidade e inteligência. O corpo mudou, ficou maior e curvilíneo, e seus olhos finalmente alcançaram a perfeição. Tesouros impossíveis. Estrelas invencíveis. Ela era a encarnação divina, e por isso teria tudo o que quisesse.

Estavam prontos. Demônio, o guerreiro sanguinário, um ser guiado pela morte. Musa, a ladina suprema, guiada apenas por sua vontade. E por acaso suas vidas se cruzaram, mas sem terem conhecimento.

Fora ela contratada para roubar a arma que Lúcio usaria. Na primeira vez que se viram, seus olhos desviaram. Um mero relance de cada plantou em suas mentes fascinação e interesse.

As vidas continuaram. Ambos inspiraram artistas, que criaram itens amados pelo mundo todo. Não deram a devia atenção, achando apenas graça daquilo. Um colar e uma jóia. Pequenos mimos para os de posse abastada.

Suas trilhas tornaram-se totalmente distintas. Lúcio retornou à sua família, e, pela primeira vez, retalhou um alvo. O príncipe oriental voltou aos pedaços para seu território. Os que foram contra acompanharam-no em caixas menores. Natália retornou àqueles que lhe fizeram mal e lhes tirou tudo, e de um arrancou até mesmo a vida.

Tomaram seus postos no mundo. Grandes atos dos dois lados. Eram mitos. Mas suas vidas foram quebradas novamente pelo Destino, e nesse ponto a Cidade interferiu, unindo-os. Ele, ferido gravemente, quase morto e cego. Ela envenenada e destruída, mais uma vez perdida, tomada pela bebida.

Chuva. Encontraram-se em uma tempestade. Ela tentando roubar sua arma, e ele quase tirando sua vida. Não podia mais ver nada, mas sentiu que não deveria fazer aquilo.

Algo também moveu a mente da Natália. Precisava fazer algo por aquele monstro. Algo em sua alma dizia aquilo.

Um tratou do outro. Ela o curava enquanto ele a reestruturava. Ela não confiava mais em si mesma, duvidando de tudo e todos. Ele estava destruído, avassalado por uma traição, das mais vis e baixas. E, aos poucos, um curou o outro. Quando puderam se olhar nos olhos, tudo fez sentido. A verdade estava ali desde o começo. Estavam apaixonados. Fora aquele sentimento que surgira no primeiro contato, ha muito tempo.

Aqueles olhos sombrios roubaram o coração do Demônio, e a alma da Musa inspirou e alimentou o monstro. Por causa dela ele retornou como o maior de todos os medos. Foi por causa dele que a ladina ressurgiu.

Seguiram suas vidas unidos por algum tempo. A paixão de ambos era verdadeira e única. Nada os impediria. Nada iria separar aqueles seres.

A não ser seu inimigo. O Destino não queria vê-los juntos. Houve interferência e ataques. Erros pelo lado dele, e temores pelo lado dela. Natália decidiu pela separação. Foi terrível para ambos. Não queria fazer aquilo, mas foi preciso. Iria machucá-lo se ficasse perto, e ele perderia a vida que fora reconstruída por seus olhos e mãos.

O grito de desespero deles foi ouvido e temido pelo mundo todo. Paredes foram criadas para selar as memórias, isolando-os. Nunca mais veriam um ao outro. Não podiam mais. O sofrer demasiado impediria. A felicidade sumiu dos dois. Perderam demais em uma única noite.

Mas essas memórias estavam queimando, transformando-se em cinzas. Nada mais iria separar aqueles corações. A Musa roubou o coração do Demônio, e o Demônio devorou a alma da Musa. Um era do outro. Ninguém diria ou faria o contrário. Aquela noite selaria o futuro do Destino. Não mais esse inimigo faria algo contra eles. Lutariam contra tudo por seu amor. E, juntos, venceriam. Nada pode superar a paixão daquelas lendas...

—x-X-x-

Ninguém mais respirava naquela construção. A Morte andava por ali como um convidado benquisto.

Rogerio Ostormane rangia os dentes, suportando a dor. Seus olhos já estavam turvos, e não duraria por muito mais. Seria mesmo seu fim? Depois de tudo o que fizera, seria mesmo seu fim?

Sabia quem estava no terceiro andar. Uma lenda viva. Um monstro sombrio e tido como invencível. O que poderia fazer? Não tinha mais muita munição. Seria seu último movimento. Se fosse morrer, levaria o Demônio para o Inferno junto consigo.

Chutava as portas dos quartos, mas sabia que não tinha ninguém. Havia tanto sangue no corredor que era prova mais do que suficiente da extinção de toda a vida. Só restava três portas. Três chances de morrer.

—x-X-x-

Ambos ouviram os passos. Sabiam o que ia acontecer. Só havia um caminho para longe daquele lugar.

Estavam prontos. Um segundo iria guiar suas vidas. Olharam-se novamente, em dúvida pela primeira vez depois de tantos anos. Talvez um pouco de medo, mas não sabiam explicar. Só queriam que aquele momento passasse. Queriam o resto de suas vidas juntos.

Tudo durou um segundo. Quatro explosões e o som de metal cortando o ar. Sangue. Sangue por todos os lados. Olhos vidrados, fitando o vazio, marcando na retina a última imagem de sua vida.

Rogerio caiu, o corpo para um lado, a cabeça para o outro. Quatro marcas na parede atrás de Lúcio revelara o erro. O líder dos Ostormane nasceu e morreu como deveria: como um erro.

A lâmina desceu com calma, finalmente. Missão cumprida. Uma rachadura correu pelo meio dela, como um raio cortando a noite. Era a marca do excesso. Estava bêbada de entropia. Uma ferramenta de destruição plenamente usada.

— Acabou. – Lúcio caiu de joelhos, cuspindo sangue. Vários machucados tomavam seu corpo. Recebera muito dano durante o tempo que empunhou aquela lâmina negra, e o excesso cobrou sua pena. Não duraria por muito mais. Mantinha os exercícios para curar seu corpo, mas daquela vez poderia não sobreviver.

— Ainda não. Está apenas começando, meu amor.

— Como posso contigo ficar se apenas erros cometo?

— Todos erramos. Por favor, fique aqui. Fique comigo. – Uma lágrima desceu pelo rosto perfeito. Tristeza sem fim. O gigante sentiu aquilo como um golpe ainda pior em seu corpo. Não queria vê-la daquele jeito. Tinha que sobreviver. Tinha que existir.

Apoiou em sua lâmina, deixando o sangue de seu corpo profano banhar a arma, preenchendo as rachaduras. Uma alegoria do caos, onde a Musa preencheu a vida do Demônio. Olhou-a novamente, e viu os machucados em sua pele. O que ela sofrera nesse tempo? Quanto ela também suportou? Será que esperou por ele, assim como tinha feito? Por uma chance sem precedentes?

Abraçaram-se. Não queriam se separar. Não podiam mais se separar. As lágrimas retornaram, sem fim aparente. Todo o mal começou a sumir do corpo de Lúcio, assim como o passado finalmente abandonou Natália. Estavam livres.

E por isso, não duvidaram em nenhum momento. Um esfaqueou o outro. O pequeno punhal dela varou o peito do monstro, enquanto a espada atravessava o ventre dela e quebrava. Caíram de joelhos, juntos.

— Ninguém mais irá nos separar.

— Nada nesse mundo e no outro, meu amor.

— Meu coração sempre foi seu, minha musa de olhos sombrios...

— Assim como minha alma, meu demônio protetor...

Os olhos fecharam pela última vez. Sabiam que o Destino iria contra eles outra vez. Lúcio já tinha visto os Brigattore chegando, assim como Natália reconheceu o carro de seu contato. Traição dos dois lados. Seu inimigo usaria todas as ferramentas e peças à sua disposição. Mas dessa vez ele perdeu.

Sirenes ecoaram pela propriedade. Armas foram erguidas, mas não podiam vencer. Tudo fora armado pelos dois, mesmo não tendo falado um com o outro. Era a última cartada do Demônio entregar a Famíglia se algo lhe acontecesse. Já Natália apenas deixou à mostra os documentos certos nos locais certos. Informação demais em pouco espaço. Tinham verdadeiramente vencido.

A cidade os acolheu, e finalmente os ceifou. Um monstro e uma deusa. Mais duas lendas para a antiga Cidade das Trevas. Ela vencera o Destino, que se recolheu aos confins do tempo, derrotado e humilhado.

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Ordens. Todas gritadas em uma só voz. Uma vitória incalculável perante o crime. Soluções surgidas em segundos.

Quando tudo estava calmo, com os bandidos presos, a casa começou a ser vasculhada. Augusto Brigattore gritou à noite suas bravatas de vingança e ódio, mas eram vazias. Estava com medo, pois fora vencido. Mesmo morto ele o vencera.

Sim, pois pôde ver os dois. Lúcio e Natália estavam ali, imóveis, sem vida, mas invencíveis. Finalmente juntos para sempre. Todos temiam, sem verdadeiramente saber porque, tocar naqueles corpos.

Foi quando a Cidade novamente interferiu. Seria ela que os sepultaria. Suas lendas seriam protegidas. E, em meio a um acaso, o fogo correu por aquele ambiente.

Foi rápido demais, impossível demais. Os documentos foram salvos, mas todo o resto fora perdido. Um estranho emaranhado de metal e pedra foi o que sobrou daquela mansão, um mausoléu criado pelo caos. E, no alto dele, a espada e os óculos deles, fundidos um ao outro naquela bizarra torre.

Para sempre juntos, para sempre invencíveis, para sempre lendas...

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