Uma onda de preocupação tomou seu peito. Arrancou o celular da bolsa, ainda desligado pela reunião, uma regra de Killian. Droga. Enquanto ligava o celular, apontou para a palavra, “vizinho”.

— Vizinho? Que vizinho?

Mal conhecia alguém na vizinhança. Mudara-se há um ano e meio e não havia saído para fazer mais do que cortar a grama, e até isso era esporádico. Sua vida inteira se resumia ao trabalho e a Sabrina.

— Um cara chamado... Roge, Robin, acho. — Novamente, Killian gritou. — Desculpe. Mora... — Ruby tentou ler o que escrevera. — Do outro lado da ma? No... 529? Talvez 527? Desculpe Regina. O telefone estava tocando, e essa nova central telefônica é horrível, as ligações voltam para mim. Entre isso e Killian, não consegui entender.

Queria gritar com Ruby, dizer que isso não era desculpa para perder os detalhes, mas já trabalhara como secretária e sabia como era difícil. Além disso, não tinha tempo.

Sabrina estava com um estranho, e isso fez seu coração disparar. Provavelmente, sua bebê estava totalmente incomodada pela mudança de ambiente, horário, babá. Não devia ter ido trabalhar hoje. Devia ter ficado em casa com Bri.

Mas isso era um sonho impossível. Era a situação que sempre quis no trabalho, mas não podia ter.

Pendurou a bolsa no ombro e levantou-se, lendo a última mensagem.

— Tenho que ir. Avise...

— Killian — Ruby completou, tocando seu braço. — Lidarei com ele para você. Agora vá.

— Obrigada. — Já saíra da sala, apressando-se pelas escadas até a garagem. Em minutos, estava no carro, a caminho da casa, tentando se concentrar na rua, não no fato de não conhecer esse Roge ou Robin. Uma hora já se passara desde que a Sra. Belle deixara a mensagem. Mil coisas podiam ter acontecido nesse tempo.

Mas a Sra. Belle era responsável. Certamente, deixara o vizinho com seu telefone. Não deixaria seu bebê com qualquer um.

Deixaria?

Pela milésima vez desde a morte de seu marido, desejou ter um companheiro com quem pudesse compartilhar esse fardo, outro parente para ajudá-la nos momentos de emergência. Nas madrugadas. Na preocupação com detalhes.

Enquanto estava parada em um sinal fechado, ligou para o celular da Sra. Belle.

— Sra. Belle, ainda bem que você atendeu.

— Regina! Sinto muito por ter tido que sair. Não se preocupe, Robin Hood é uma ótima babá. Vem de uma família de 12 pessoas, sabe. Tem muita experiência.

— Que bom — respondeu aliviada.

— Você não achou que eu deixaria seu bebê com qualquer um, achou?

— Claro que não.

Ela riu.

— Ele é um homem ótimo, sabe. Ótimo.

— Aposto que sim.

— Ele seria bom para você. É hora de seguir em frente, querida. Lidar com... Bem, lidar com a perda de seu marido. Eu sei, porque perdi meu marido Gold e foi à coisa mais difícil pela qual passei. Você tem um bebê com quem se preocupar. Precisa de um homem em sua vida, não só para você, mas para seu bebê precioso.

Era uma discussão familiar, que já tivera inúmeras vezes com sua vizinha. Mas o que Viola não entendia é que seguir em frente depois da morte de Daniel envolvia mais do que conhecer um novo homem.

— Sra. Belle, não tenho tempo...

— Nenhuma hora é melhor do que agora — interrompeu. — Bem, querida, tenho que desligar. Minha irmã está mal, mas acho que ela ficará bem.

— Ah, Sra. Belle, sinto muito.

— Provavelmente terei de ficar aqui alguns dias. Talvez mais. Odeio deixá-la na mão, mas...

— Não se preocupe. Fique o quanto precisar. Cuide de sua irmã. Ficarei bem.

— Obrigada, querida. Ligo amanhã. Dê um beijo na menininha por mim.

Regina prometeu dar o beijo e desligou. Agarrou o volante e rezou para ter forças nos dias seguintes. Sem a bondade e a ajuda da Sra. Belle, estava perdida.

Estressou-se ainda mais. Podia contar às preocupações que se multiplicavam a cada minuto desde que ficara viúva.

Ser mãe solteira. Pagar as contas, a hipoteca da casa, um risco que haviam corrido juntos, com dois salários, e não com um só. Cuidar de sua filha sozinha, amamentando-a e trocando as fraldas de madrugada, enquanto trabalhava, e ter um desempenho ótimo de oito a dez horas por dia. Ao mesmo tempo, o desejo maior de ser ainda uma boa mãe. De dar tudo à sua filha, que precisava e dependia dela para tudo. Toda manhã, acordava mirando aqueles olhos azuis que confiavam que era uma ótima mãe, que podia fazer tudo.

Agora sentia se como se mal estivesse fazendo uma dessas coisas.

Finalmente, chegou. Estacionou e ficou entre as casas 527 ou 529.

Devia ter perguntado á Sra. Belle. Meu Deus.

O choro respondeu à sua pergunta. Podia ouvir sua filha chorando pelas janelas abertas da casa 529, uma casa contemporânea e gigante, com dois andares e com a fachada de tijolos, na qual já reparara. Uma casa bonita, uma das melhores da vizinhança. Tocou a campainha, bateu na porta, resistindo ao desejo de entrar.

Sem resposta. Sabrina continuava chorando.

Seu peito encheu-se de ansiedade. Tocou a campainha outra vez, bateu de novo, mais forte, mais urgente.

— Robin? É Regina Mills. A Sra. Belle deixou Sabrina aqui, sou a...

— Vá embora. Estou ocupado.

Sabrina chorava alto.

Ah, céus. Estaria machucada? Que tipo de homem era esse? Apesar da garantia da Sra. Belle, ele parecia ranzinza. Uma babá horrível. Girou a maçaneta, rezando para que abrisse e...

Abriu.

Sabrina chorava, contorcendo-se na cadeirinha. O cheiro de fralda suja enchia a sala.

E, no canto, com uma das mãos tapando o nariz, a outra segurando a fralda como se fosse lixo tóxico, havia um homem alto, moreno e carrancudo.

— O que está fazendo com meu bebê?

Ele jogou a fralda no lixo e, quando a tampa fechou, virou-se para ela, ainda mais carrancudo.

— O que eu estou fazendo? Você deveria perguntar o que ela está fazendo. Essa criança devia vir com um aviso de “interditado”.

Mirou-o aterrorizada, depois correu até Sabrina, tirando-a da cadeirinha, e colocou-a no colo. O cheiro de pó de bebê encheu suas narinas, doce e puro. Segurou sua filha firme, o corpo quente e familiar encaixando-se perfeitamente em seus braços.

— Mamãe está aqui, querida, mamãe está aqui.

Ter sua filha em seus braços a fez sentir-se em casa. Como se o mundo estivesse fora de controle o dia todo e, repentinamente, tudo voltasse ao normal. Respirou calma.

E sempre esperava que Bri se derretesse com seu toque, se acalmasse suavemente, como outros bebês. Ficasse feliz, contente, como num comercial de TV, como sonhara quando estava grávida. Mas nunca funcionava assim.

Como sempre, Sabrina não se acalmou. Continuou chorando, mais alto. Fez tudo o que os livros e a Sra. Belle recomendaram. Acariciou as costas. Sussurrou no ouvido. Andou de um lado para o outro. O bebê ainda chorava e chutava. Claramente, ter sido deixada nas mãos de um estranho não havia deixado Sabrina feliz.

Tentou não levar para o lado pessoal, mas... Levou.

— Vamos querida, está tudo bem.

Sabrina não concordava. Chutava. A boca abria e fechava, chorando. Regina caminhava pelo carpete.

Ainda assim, Sabrina não se acalmou.

— Shh... Tentava, — quase chorando também. Tentava tanto sei uma boa mãe e ainda tinha que se conectar a criança, fazer o bebê feliz. Era porque trabalhava muito? Porque chegava cansada no fim do dia? Ou porque não era uma boa mãe? — Shhh...

— Não pode fazê-la ficar quieta? — Robin terminou de lavar as mãos e saiu da cozinha, deixando a toalha na bancada.

— O que acha que estou tentando fazer? — disse ela e continuou caminhando.

— Aliás, já a vi do outro lado da rua, mas acho que nunca nos apresentamos. Sou Robin Hood — se apresentou, estendendo a mão. — Babá temporária relutante.

Apoiou Sabrina no outro ombro, esperando que ajudasse. Não ajudou.

— Regina Mills. Obrigada por cuidar dela. — Expirou. — Desculpe pelo jeito que o tratei antes. Sei como é difícil balancear mil coisas de uma só vez, especialmente com um bebê de oito meses. As fraldas, o choro. Pode cansar até a mim.

— É. Bem, não me peça para fazer de novo. A menos que mande fones de ouvido.

— Desculpe. Ela não costuma ser tão difícil. — Bem, talvez não com outras pessoas. Mas não iria contar a verdade e mostrar que era a pior mãe do mundo. Mudou Sabrina de posição novamente, mas só ajudou a intensificar o choro. Respirou fundo, tentando encontrar mais paciência num dia tão frustrante. — Vamos lá, bebê, acalme-se. — Sabrina continuava chorando, contorcendo-se em seus braços.

— Ei, você — disse Robin com a voz grave e séria, aproximando o rosto de Sabrina.

Regina tentou não se concentrar nele, não notar a intensidade daqueles olhos azuis, as curvas do cabelo escuro. A deliciosa colônia. Ele repetiu, e uma terceira vez, sempre esperando o bebê parar de chorar. — Chega.

Sabrina virou-se e fitou-o. Então, para sua surpresa, soluçou e parou. O peito ainda pesado, como se estivesse prestes a chorar novamente. Mas não chorou.

— Isso mesmo. Já falamos sobre isso, não? — continuou. — Nada de choro... Não em minha casa.

Fitou-o. Seu peito encheu-se dor. Ele fez o que ela, como mãe, não pôde fazer. Em segundos. Com algumas palavras.

Ela era a mãe de Bri, deveria ter um toque natural com seu próprio bebê. E vinha esse cara, um estranho, que acalmou Bri com algumas palavras e um olhar!

O que isso fazia dela? Chegara ao ponto em que Sabrina era mais próxima das babás do que da própria mãe?

Esse era o preço que pagava por trabalhar tanto?

— Você a fez parar de chorar.

— Eu não a fiz parar. Só disse que chega. — Ficou carrancudo novamente, talvez não tivesse outra expressão facial, então se virou. — Agora que ela parou de chorar, podem sair de minha cola. E posso voltar a trabalhar.

Então subiu as escadas. Um segundo depois, uma porta bateu lá em cima.

Seu queixo caiu. Como ele era rude.

Ele não precisava ter aquela atitude, e Sabrina não precisava ficar perto de uma pessoa tão desagradável. Apanhou a cadeirinha e começou a recolher a bolsa com as fraldas, Então parou.

O que faria? Voltar a trabalhar, levando Sabrina?

Nunca funcionaria. Tentou uma vez, quando a Sra. Belle ficara doente, e foi um desastre. Sabrina era como qualquer bebê, dependente e exigente, e levá-la ao ambiente caótico e lotado da ABC Produções não foi uma boa idéia. Killian, a personificação do estresse, ficou pior ainda e quase a demitiu. Agora que Sabrina começava a engatinhar, levá-la ao trabalho seria um desastre épico.

Trabalhar de casa não seria muito melhor. Toda vez que houvesse uma ligação, Sabrina precisaria de uma mamadeira, de uma troca de fralda ou de colo. Um bebê chorando durante uma ligação: péssima combinação.

Diariamente, era forçada a escolher e, inevitavelmente, Sabrina perdia, porque, no fim, o que vinha primeiro era pagar pelo teto acima delas, o que mal dava conta de fazer sozinha. Tentava tanto e sentia como se falhasse todo dia. E agora...

O que faria?

Perderia o emprego?

A realidade bateu. A Sra. Belle não voltaria por vários dias. Não tinha um plano B. Na verdade, não teve tempo de pensar em um. Sempre pensava “amanhã, amanhã arranjarei outra babá para chamar num dia desses”.

Agora que esse dia chegara, estava no caos. Com Sabrina no meio da tempestade.

Enterrou o rosto no perfume doce daquele rostinho inocente e confiante, um rosto que acreditava que faria a coisa certa, que manteria o mundo girando perfeitamente.

E, novamente, estava sozinha, navegando desesperadamente por um rio bravo com um barco de um remo só.

Como resolveria isso? Apertou Sabrina mais, tentando controlar suas emoções, sua vida, sua sanidade. Repentinamente, tudo se afastou dela, escapando numa avalanche de lágrimas ao perceber a falta que a Sra. Belle faria.

Se não encontrasse um milagre nos próximos cinco minutos, perderia o emprego. E, na sequencia, tudo o que importava para ela.

Notas finais
aguardo comentarios :)