Dublê de pai!
21 Capítulo 21
Notas iniciais
O que Robin disse explicava tudo. O distanciamento dele de Sabrina, aquela indisposição de se aproximar. Regina observou-o atravessar a rua, uma figura solitária sob a iluminação fraca do poste de luz.
Robin tinha um coração partido. Não conseguia se perdoar por uma decisão feita na adolescência, uma decisão que qualquer um poderia entender e apoiar.
Regina nunca admirara tanto um homem. Ele fizera uma escolha extremamente difícil, que não tinha certeza se poderia ter feito, não agora que tinha uma filha e sabia das alegrias de segurar seu bebê.
Algum tempo depois, Regina alimentou Sabrina e colocou-a para dormir. Se fosse sensata, faria o mesmo consigo. Mas, em vez disso, caminhava pela casa, pensando naquele dia. Em Robin.
E em por que não tinha ido atrás dele quando teve a chance. Por mais que tenha entendido o que ele disse e por que ele agiu daquela forma, ainda estava em sua casa. Sozinha.
Pouco depois das 22h, a campainha tocou. Esperava encontrar Robin na soleira, mas era... A Sra.Belle.
— Ligue a televisão no canal 3, por favor — disse a senhora, enquanto entrava na casa, com a bolsa de costura no ombro e os chinelos na mão. Antes de entrar, trocou os sapatos pelos chinelos.
O que, diabo, estava passando?
— Canal três?
— Os comerciais já vão acabar e odiaria perder meu filme. — A senhora foi até o sofá, sentou-se e colocou a bolsa de costura a seu lado.
— Sua televisão não está funcionando?
— Claro que está. Mas não posso cuidar de minha vizinha-neta se eu ficar em minha casa enquanto ela está dormindo no berço aqui.
— Não precisa cuidar dela, Sra. Belle. Não hoje.
— Preciso, já que você vai atravessar a rua e acertar as coisas de uma vez por todas com seu vizinho bonitão. — A senhora balançou a cabeça enquanto tirava as agulhas e um suéter quase terminado da bolsa. — Honestamente, vocês dois são muito teimosos.
— Somos só...
— Teimosos. Querida, quando você chegar à minha idade, vai aprender que a vida é curta demais para ficar esperando um homem atravessar a rua novamente e dizer que não pode viver sem você. Você o quer, vá pegá-lo! E pare de ter tanto medo de mudar sua vida.
Claramente, a Sra. Belle não ia a lugar algum, não até que ela fosse. Deu o controle remoto à vizinha e ligou a televisão. No canal 3, ainda estava passando um anúncio sobre limpeza de carpetes.
— Para sua informação, não tenho medo.
A Sra. Belle arqueou uma sobrancelha.
Será que tinha? Pensou por um segundo. Será que esteve tão errada sobre isso quanto esteve sobre Robin? Regina estava tentando proteger seu próprio coração, usando a desculpa das “complicações”, porque estava aterrorizada de ser deixada sozinha novamente? Durante todo esse tempo, não tinha lidado com a perda de Daniel, porque tinha medo que doesse demais. Então, pouco a pouco, estar com Robin a forçara a fazê-lo.
E não havia doído tanto quanto ela pensara.
Então do que Regina tinha medo agora? De mudanças?
— Vá — disse a senhora, acenando para Regina. — E não se apresse para voltar. Tenho muito que costurar, e o filme de hoje é duplo. — Ela sorriu e podia jurar que viu um brilho naqueles olhos.
Robin estava sentado no escritório e percebeu que era um idiota.
Claro, provavelmente tinha sido um idiota a semana inteira. Só que, nos últimos minutos, a verdade apareceu. Como costumava acontecer com um escritor, ela saíra de seus dedos para a página.
Ele assistiu-lhe ir embora e sentiu algo se partir em seu peito. Ela desapareceu na chuva, engolida por uma poderosa tempestade. Mas não foi a tempestade que levou Regina embora, foram seus próprios medos. Seu próprio silêncio.
Não disse o que precisava dizer quando teve a chance, e agora não perdera só a mulher. Ele perdera a família que procurou por anos. Durante todos esses anos, achou que estivesse procurando seu filho, procurando seu rosto naquele garoto de bicicleta ou naquela criança no shopping. Mas, na verdade, tudo o que queria era a família dos sonhos, da qual teve que abrir mão porque era muito jovem para lidar com o erro que cometera aos 18.
E agora as palavras se instalaram em sua garganta, tarde demais.
Quero você. Preciso de você.
Amo você.
Levantou-se num salto e afastou-se.
Amava?
Ele pensou nos últimos dias. No piquenique. Nos sorrisos, nas torradas e, entre todas as coisas, no café.
E quase jogara tudo fora.
Mas como poderia fazer isso funcionar, ser o homem que ela queria, de que precisava?
Olhou pela janela, para a casa do outro lado da rua, a casa das duas mulheres que amava, e pensou...
Como não poderia?
Regina nem teve que atravessar a rua.
— O que está fazendo aqui?
— Procurando você — disse Robin. Quando ele sorriu, o coração dela acelerou. — E o que você está fazendo?
Sorriu de volta.
— Procurando você. A Sra.Belle está com Sabrina.
— Isso significa que estamos sozinhos?
Os postes de luz e as luzes das cercas quebraram a escuridão da noite. Um barulho de risos vinha de uma casa próxima, anunciando a presença de vizinhos. Um regador automático funcionava duas casas para baixo.
— Tão sozinhos quanto podemos estar no meio da rua.
Ele riu.
— Verdade. — Estendeu a mão e puxou-a para perto. — Por mais que eu ame sua filha, realmente não queria ter um público infantil ou nenhum público agora.
Regina ficou surpresa. Ouvira direito?
— Você... Ama minha filha?
— Sabrina me... Conquistou. Ela também vomitou e fez xixi em mim, mas compensou com o pa-pá.
Demorou meio segundo, então seu cérebro processou a palavra. Fitou Robin, lendo aqueles olhos azuis oceânicos, incapaz de acreditar no que ouvira.
— Você... Acabou de chamá-la de Sabrina. E não de criança.
Ele sorriu.
— Chamei, não é?
Assentiu, impressionada.
Robin apertou a mão de Regina e virou-se para a casa dele.
— Entre, Regina. Não vamos ter essa conversa na frente do bairro inteiro.
Assim que a porta se fechou atrás deles, Robin puxou-a para seus braços. Envolveu seu pescoço, os dedos apanhando algumas mechas soltas de seu cabelo.
— Fui um idiota.
Sorriu.
— Essa é uma primeira frase que eu nunca ouvi.
Ele riu, então ficou sério, com seu olhar prendendo o dela.
— Quase lhe deixei escapar porque pensei que seria a melhor coisa para nós dois. Não queria machucá-la ou desapontá-la.
— Ah, Robin, você não poderia...
Ele colocou um dedo sobre os lábios dela.
— Deixe-me terminar. — Ele inspirou como se procurasse as palavras certas. — Desde que Marian e eu decidimos colocar nosso filho para adoção, me senti um fracasso, como se o tivesse desapontado. E isso me fez pensar que nunca poderia ser um bom pai para outra criança. Ou um bom marido. Mas, depois desta noite, depois que conversamos, vim para casa e fiz o que faço de melhor para lidar com meus problemas: escrevi.
— Você escreveu?
— É, e dessa vez, coisas boas. Provavelmente nunca vou usar em um livro, porque não era ficção, mas derramei toda a angústia interior naquela página. — Ele segurou seu rosto gentilmente e vasculhou seus olhos. — Meu filho foi entregue a uma família amorosa, tenho certeza. A agência na qual o colocamos era muito boa. Você estava certa. Marian e eu nunca teríamos cuidado dele direito, não com 18 anos. Mas agora, tenho quase 30. Posso fazer um trabalho muito melhor.
Assentiu.
— Pode Robin. Vi como você cuidou de Sabrina.
Aquele olhar analisou o seu.
— Se não for tarde demais.
Ela balançou a cabeça, sorrindo. O coração de Regina voou tão alto, atingindo as nuvens, que pensou que nunca voltaria a Terra.
— Não, não é. Nem um pouco.
— Maravilha. — Inclinou-se e beijou-a. — Porque não amo só Sabrina. Amo você.
Agora o coração dela ultrapassou as nuvens, e o sorriso em seu rosto pareceu ser infinito.
— Você me ama? Mas mal nos conhecemos.
— Foi à torrada. O café. Seu sorriso. E, definitivamente, o chili.
Riu.
— Chili? E café?
Ele a beijou novamente, dessa vez longa e docemente.
— Na verdade, Regina, eu não quero passar nem mais um momento sem você e Sabrina em minha vida. Nem quero que você atravesse aquela rua novamente. — Ele hesitou o olhar vasculhando, então prendendo o dela. — Quer se casar comigo?
Casar? Ele acabara de pedi-la em casamento?
Repentinamente, o medo apoderou-se dela. Isso estava indo tão rápido, talvez rápido demais. Todos os “se” atingiram-na, então se desvencilhou dos braços dele e afastou-se.
— Deveríamos ir mais devagar, Robin. Parar para respirar.
— Você está com medo.
— Claro que estou com medo. Em alguns dias, você pediu para eu me demitir, disse que me ama e agora quer se casar comigo. Você revirou minha vida de cabeça para baixo entre segunda e quinta-feira. Isso é insano, Robin. Não é assim que funciona.
— Você não tem que se demitir. Trabalhe menos. Meio período, um oitavo do período, eu não ligo. Só fique comigo. Só não quero esperar. Não somos crianças, Regina. E fui um tolo, colocando minha própria vida na espera por todos esses anos, porque pensei que era a coisa certa a fazer. — Segurou sua mão. — Você colocou a sua na espera por tempo o bastante também. Está na hora de ter o sonho que sempre quis. Para você e Sabrina.
Uma lágrima escorreu pela bochecha de Regina. Mas, dessa vez, ela não estava chorando por frustração ou estresse, como quando conheceu Robin. Era uma lágrima de esperança. Poderia ter o que sempre quis o que sonhara para ela e sua filha. Robin lhe mostrara isso esta semana.
Se, ao menos, ela fosse corajosa o bastante para receber o que ele estava oferecendo, para abrir seu coração outra vez. Corajosa o bastante para dar as boas-vindas aos sentimentos que estiveram batendo em sua porta por dias. Levantou a cabeça e olhou dentro daqueles olhos azuis profundos.
— Também amo você — disse ela suavemente. — E não posso imaginar atravessar a rua sem você também. — Inalou profundamente, então exalou. — Sim. Eu aceito.
Ele sorriu; então a pegou nos braços e beijou-a, completa e profundamente. Dessa vez, andaram nas nuvens juntos.
— Então vamos para casa... — convidou-a. — Vamos buscar nossa filha. Já era hora de construirmos uma família. Juntos.
Alguns meses depois...
Sra. Belle estava sentada na igreja, vestindo seu melhor chapéu e um vestido novo.
Segurava Sabrina, que também estava com um vestido novo, branco e bordado com pregas rosa que Sra.Bella insistira em costurar. Do lado de fora, as folhas do outono caíam das árvores, como se Deus tivesse decidido criar seus próprios confetes amarelos e laranjas para a celebração.
— Estou muito feliz por você ter ficado do meu lado — agradeceu Penélope, segurando a mão da irmã. — O que eu faria sem você?
— Ah, você sobreviveria. Você tem Lenora. — A irmã mais nova morava no Arizona, mas era mais próxima de Penélope, que sempre idolatrara a caçula da família.
Penélope acenou em rejeição.
— Lenora enche a paciência. Ela fala demais.
Sra.Belle riu.
— Agora, silêncio, Penélope. O casamento já vai começar.
— Você realmente deveria parar de interferir na vida das pessoas — sugeriu Penélope, ajustando o chapéu amarelo bordado. — Apesar de ter me arranjado meu Harold, o médico mais lindo do terceiro andar, e justo na idade da aposentadoria, o que foi muito conveniente para mim. Agora precisa encontrar alguém para você.
— Bobagem. Estou bem. Tenho minha filha, minha neta e minha vizinha-neta. — Trouxe Sabrina contra o peito e beijou a testa do bebê de 11 meses. — É o bastante para mim.
Penélope assentiu.
Na parte da frente da igreja, Robin estava no altar, lindo num smoking preto, parecendo pronto como qualquer homem para se casar, nem um traço de nervosismo no rosto. De um lado, estavam suas oito irmãs e duas amigas de Regina. Do outro, os irmãos e os maridos das amigas. Apenas os padrinhos e madrinhas já eram uma parte significativa da lista de convidados.
A marcha do casamento começou. Sra.Belle levantou-se, virando-se para o fundo da igreja. Regina, resplandecente num simples vestido branco com um pescoço em forma de concha, começou a caminhar até o altar, escoltada pelo pai orgulhoso. Juntou-se a Robin no altar e, 20 minutos depois, estavam casados e compartilhando seu primeiro beijo como marido e mulher.
— Você tem um pai agora — sussurrou Sra.Belle para Sabrina.
— Papá — respondeu Sabrina.
— Sim. Uma mamã e um papá. Essas são as únicas palavras que precisa saber menininha. Agora seu mundo está completo. — Beijou a testa de Sabrina e passou-a para o casal feliz quando pararam ao lado de seu assento, criando o final perfeito.
Exatamente o que imaginou quando deixou Sabrina na casa de Robin. Naquele dia, poderia ter; claro, escolhido qualquer uma das mães da Rua Larch, que passam o dia inteiro em casa, mas nunca contaria isso a Regina ou Robin.
— Obrigada, Sra.Belle — disse Regina, com um sorriso quente.
Robin refletia o mesmo sorriso.
— Não há de quê — respondeu, então desejou felicidades enquanto eles saíam.
Regina e Robin percorreram o corredor da igreja, com a filha entre eles. Robin inclinou-se e beijou a testa de sua esposa.
— Ela acha que não sabemos.
— Devemos contar a ela?
— Não. Minha mãe quer conhecê-la — disse Robin. — Ainda tenho todas aquelas irmãs solteiras, lembra? Se a Sra.Belle pode fazer mágica com elas, Sabrina terá alguns primos logo.
Regina passeou os dedos pelo pescoço de Robin.
— Estava esperando dar a ela um irmãozinho primeiro.
Ele envolveu a cintura dela com um braço e puxou-a gentilmente para perto.
— Isso, Sra. Hood, é uma história que vamos começar a escrever agora mesmo. — Robin beijou-a, rápida, porém docemente, dando só um gostinho do que viria naquela noite, antes de soltá-la novamente.
Ela riu, e seus os olhos dançavam cheio de desejo e felicidade.
E assim, saíram da igreja e entraram no primeiro capítulo da nova vida deles, uma vida que, os dois tinham certeza, seria um best-seller.
Fim
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