Dublê de pai!

16 Capítulo 16


Notas iniciais
Eu sou apaixonada pela Sabrina

Regina acordou em pânico. O bebê. Onde estava o bebê?

Aliás, onde ela estava?

Então começou a reconhecer a sala, os pedaços foram se juntando em sua cabeça.

Sofá de couro. Mesa de mogno. Lareira de pedra. Ela estava na casa de Robin. No sofá dele.

Robin?

Ah, Deus. Revirou a memória, mas ficou aliviada. Eles não haviam feito nada. Ainda assim, onde estava Sabrina?

Levantou-se e caminhou pela casa escura.

— Robin?

Sem resposta.

— Sabrina?

Nenhuma resposta.

Entrou na cozinha, mas estava silenciosa e vazia, como a sala. Ninguém na sala de jantar nem no banheiro, não que esperasse que tivesse alguém lá.

Sobrou o andar de cima. Hesitou um momento no primeiro degrau, escutando, mas não ouviu nada.

— Robin?

Subiu um degrau, outro, chamando Robin algumas vezes. Finalmente, parou diante do primeiro quarto à direita. A porta estava ligeiramente aberta, mas bateu mesmo assim.

— Robin?

Ouviu-o se mexer e chamar seu nome de um jeito tão suave, íntimo, como se fossem casados e tivesse chegado em casa.

— Regina.

— Eu... Eu... Ah... Acordei e estava... — Esqueceu tudo menos o fato de que estava na frente do quarto de Robin Hood, enquanto ele estava deitado a alguns metros de distância.

— Você estava aqui — terminou por ela.

Entrou no quarto. Ele estava sentado na cama king size com lençóis e travesseiros brancos. Um edredom escuro e grosso cobria a cama, parecendo convidá-la para se deitar. Mas, mais importante, Robin estava lá, sem camisa e muito sexy.

Inspirou, mas não conseguia exalar nem respirar mais.

— Como... Por que ainda estou aqui?

— Você adormeceu no sofá. Não quis incomodá-la. Desculpe, deveria ter deixado um bilhete. — Ele escorregou para fora da cama e levantou-se. Para seu alívio e decepção, Robin vestia moletom. Ele cruzou o quarto, seus olhos pareciam mais misteriosos no escuro. — Você parecia um anjo deitada lá. Seria um crime acordá-la.

— Onde está Sabrina?

— No quarto de hóspedes. Dormindo no cercadinho. — A escuridão envolvia-os, como um cobertor, puxando-a para perto. Mas ficou onde estava mesmo querendo cair naqueles braços e sentir aquela pele quente contra a sua.

— Como você a fez dormir?

Ele havia diminuído a distância entre eles, e agora realmente não conseguia respirar.

Nem pensar.

— Devia estar com tanto sono quanto a mãe, porque dormiu em meu colo.

— Dormiu? — A surpresa aumentou o tom de sua voz. — E você... Bom, deixou?

Robin poderia achar que ela não notara, mas notou. Como era arisco com Sabrina, tentava não segurá-la muito perto nem por muito tempo. Evitava oportunidades de brincar com ela.

Era uma babá competente, mas não se envolvia. Achara que era por inexperiência, por ser homem, por não conhecer Sabrina muito bem.

Mas, no fundo, sabia que havia algo mais. Algo que englobava seus problemas em colocar emoção nos livros. Só não sabia o que era.

Disse a si mesma que não queria saber, porque significaria conhecê-lo, ver dentro daquele coração.

— A criança não é tão ruim — disse ele, estremecendo. — Ela tem uma risada fofinha.

Ficou boquiaberta.

— Você a fez rir.

— Brinquei de esconder o rosto. — Deu de ombros, como se não fosse importante, mas Regina sabia que era muito. Significava que Robin havia feito mais do que cuidar das necessidades dela: havia interagido com Sabrina.

— Esconder o rosto.

Ele sorriu.

— Vai repetir tudo o que eu falo?

— Só não consigo acreditar que você fez isso. Quero dizer, tudo o que você já fez foi alimentá-la e embalá-la. Colocá-la para dormir.

Ele chegou ainda mais perto, com uma das mãos surrupiando a cintura dela, puxando-a para perto. Arfou; as mãos automaticamente tocando aquele peitoral, quente e duro a seu toque. Ah, como queria beijar aquela pele e experimentar cada centímetro dele.

No escuro, tudo parecia muito mais íntimo, mais...

Com algo que um marido faria. O coração dela acelerou, e seu cérebro pegou fogo.

— O que posso dizer? Acho que vocês duas estão me conquistando.

Mais cedo, ela havia ido até ali para estipular regras. Sem beijos. Sem interação física.

Regina devia estar mantendo distância, porque era o único jeito disso dar certo.

E já estava em seus braços, desejando que ele a beijasse, que fossem casados, que esse fosse o quarto deles e que parassem de falar e pudessem só ir até a cama e acabar com o desejo dolorido e exigente que ardia dentro dela.

— Sabrina e eu... Devíamos ir.

— São três da manhã — respondeu ele. — Muito tarde para acordar a criança e depois tentar colocá-la para dormir novamente. Fique esta noite.

Ah, como queria. Mas onde? Aqui? Com ele? Ousaria?

— Você pode dormir no quarto de hóspedes com Sabrina — continuou como se lesse sua mente. — Há um despertador na mesa de cabeceira e lençóis novos na cama.

— Ficar aqui. Com você.

Ele segurava o queixo de Regina, passando o dedão pelo lábio inferior dela. Tão tentador. Ela queria se encaixar naquele corpo, esquecer tudo o que havia pensado mais cedo.

— Comigo — sussurrou ele. — Mas não comigo, por mais que eu queira. Porque estou tentando muito... — Beijou-a —... Ser um cavalheiro, mas não costumo ser. Pelo menos, não um muito bom.

Ficou na ponta dos pés e ô beijou, os dedos acariciando aquele cabelo. Ele era quente e tinha gosto de desejo adormecido, do tipo que encontraria se o acordasse, querendo fazer amor, em alguma hora incomum.

— E se eu não quiser mais que você seja cavalheiro?

Ele gemeu e segurou mais firme a cintura dela.

— Não preciso de muito mais para esquecer todas as razões que eu tinha para passar a noite em minha cama; sozinho. — Beijou-a novamente, desta vez, mais profunda, furiosa e longamente, com aquela língua dançando com a dela, atiçando o fogo em seu corpo, que se recusava a apagar. — Quero você, Regina, acredite. Mas você merece muito mais do que posso oferecer agora.

Então a soltou e afastou-se.

— Vá dormir Regina. Vemos-nos ao amanhecer. Bons sonhos.

Ah, sonharia mesmo. Mas duvidava que fossem sonhos bons. Ou sobre qualquer coisa tirando o que acontecera agora.

Passou o restante da noite fitando o teto, fingindo dormir. Pensando na mulher do outro lado do corredor e em como chegara perto de tê-la em sua cama.

Droga. Ou fizera a melhor decisão de sua vida esta noite ou a pior.

Finalmente, às 6h, desistiu e foi para o escritório. Ligou o computador, trabalhou um pouco no livro, seguindo a rotina matutina tradicional de escrever uma cena antes de checar os e-mails. Aprendera, há muito tempo, que a internet era um bom jeito de perder tempo, então a melhor coisa a fazer era trabalhar um pouco e depois premiar-se vendo as mensagens.

— Bom dia.

Virou-se na cadeira, encontrando uma Regina amarrotada e sensual como nunca.

— Bom dia. — Sorriu. — Uau.

— O-quê?

— Você está... Linda.

— E você é cego. Eu sou horrível de manhã.

— Se isso é horrível, então preciso checar meu dicionário, porque estive usando essa palavra de maneira errada. — Hesitou. Uma mulher não dormia em sua casa desde... Sempre. Estranho, nem começaria a descrever a sensação, mas, junto com ela, vinha um sentimento caseiro, de completude.

Os alarmes soaram em sua cabeça. Estava se aproximando de uma zona perigosa, que prometera não adentrar.

Regina entrou no escritório.

— O que você está fazendo?

— Trabalhando. Tentando, pelo menos. Mais perdendo tempo até checar meus e-mails.

Ela riu.

— Faço a mesma coisa. Só que comigo, é café. Ficaria tomando a cafeteira inteira e não trabalharia nada se não me apressasse.

— Se quer café, há uma cafeteira logo ali. — Sorriu. — Tenho o mesmo problema. Então trouxe a cafeteira até mim. Sem mais desculpas para ficar na cozinha e não trabalhar.

Ela riu e serviu-se com uma caneca. Enquanto isso se virou para o computador.

Agora ele estava empacado. Era a parte na qual a detetive deveria reagir à cena terrível do crime. Uma família assassinada, que ela não conhecia, mas despertava lembranças do passado. E, até agora, a escrita da manhã tinha sido... Terrível. Tão emotiva quanto uma planta.

Digitou algumas palavras. Odiou. Apagou-as. Digitou outras, odiou mais ainda, apagou novamente. Desviou o olhar para Regina.

— Pode me ajudar por um segundo?

Ela parou de colocar açúcar no café e fitou-o, o cabelo desgrenhado quase implorando que alguém passasse os dedos por ele.

— Claro. Do que precisa?

Você. Eu. Sozinhos por um longo fim de semana.

Pigarreou.

— Se você visse dois corpos mortos num quarto, com as gargantas cortadas, as entranhas nas paredes, e já tivesse visto o trabalho desse assassino antes, quando era...

Ela empalideceu.

— Hum... Do que estamos falando?

— Desculpe. Do livro.

— Ah. Por um segundo, fiquei preocupada. É um pouco cedo para entranhas nas paredes.

Ele riu.

— Esqueci que nem todo mundo vive em meu mundo.

Foi até ele, com a garrafa na mão, e encheu a caneca de Robin sem que ele pedisse.

Recostou-se, impressionado com aquele pequeno gesto, e como o fazia sentir bem cuidado. Poderia se acostumar com isso, mas não devia nem pensar nisso.

— Obrigado.

— De nada. — Ela puxou uma cadeira e sentou-se a seu lado, bebericando o café. — Então quer saber como eu reagiria?

Assentiu.

— Minha heroína passou por algo similar no passado. Portanto, isso traz à tona muitas memórias dolorosas. Ela vê o mesmo assassinato, na cabeça, quando entra e vê essa família morta.

— Robin, eu não sei se posso ajudar. Quero dizer, o que fizemos até agora foi bem simples, mas nunca vi nada assim e não sei nada sobre cenas de crime ou assassinato.

Aproximou-se dela.

— Você não precisa saber. Imagine uma experiência que já teve. Como... — Pensou numa palavra, gesticulando vagamente.

— Como perder meu marido — respondeu ela. A dor marcou aquele rosto.

O que estava fazendo? Por que estava abrindo aquela porta? Só para escrever um livro? Deveria parar agora mesmo. Ela importava mais do que um livro estúpido.

— Escute Regina, esqueça o que eu disse. Vou ficar bem. — Virou-se para o computador.

Ela segurou o braço dele.

— Não, tudo bem. Quero ajudar.

— Você não precisa falar sobre isso.

— Preciso sim. — E, naquela voz, ouviu que ela precisava. Inspirou e então falou. — Na verdade, ainda não conversei com ninguém sobre isso. Todo mundo à minha volta diz que tenho que lidar com a perda para poder seguir em frente.

Esperou.

— Preciso seguir em frente. Não só por mim, mas por Bri. Para fazer isso, tenho que falar. Por mais que eu não queira. — Inspirou novamente, e seus olhares se encontraram. — Nunca disse como ele morreu, não é?

Robin fez que não com a cabeça.

— Acidente de carro. Não um daqueles rapidamente indolores. Ele foi atingido atravessando a rua. Indo trabalhar. — Sua voz suavizou, com um tom de mágoa marcando as palavras. — Você nunca sabe quando vai morrer. E, para Daniel, foi simples assim. Algum idiota ao celular ultrapassou o sinal vermelho.

— Sinto muito mesmo, Regina. — Droga. Devia deixá-la continuar? Ou encerrar essa conversa agora, antes que a machucasse mais?

Mas ela continuou como se tivesse aberto a torneira e não fecharia mais.

— Primeiro, pensamos que ele ficaria bem, mas, no fim, Daniel tinha muito machucados internos e alguns dias depois, se foi. Ainda bem que tivemos esses dias, porque, pelo menos, pudemos falar de nós, de Sabrina. Tivemos essas conversas, que muitas pessoas não conseguem ter. — Ele viu as lágrimas saltando daqueles olhos castanhos lindos, lágrimas que não podia secar desta vez. — Pelo menos, pudemos dizer adeus.

— Ah, Regina... — O que podia dizer? Ou fazer? Tentou alcançá-la, mas ela se afastou, como se dizendo: não me toque agora, não até eu ter dito tudo.

— Daniel me deixou com uma hipoteca... E nada mais. Sem seguro de vida e plano de saúde. Não foi culpa dele, sabe, ele era jovem. Quem imagina que vai morrer aos 29 anos? Ele queria fazer um seguro de vida, fazer um testamento, mas...

— Não é algo em que se pense aos 29.

— É. — Ela hesitou por algum tempo, depois gesticulou na direção do computador. — Não foi uma cena do crime horrível como a de sua heroína, mas foi horrível para mim. E doeu. — Fitou-o novamente, as lágrimas escorrendo agora. — Doeu tanto, Robin. Tanto. Achei que nunca seguiria em frente. Ou sairia da cama. Ou respiraria.

O coração dele partiu-se como gelo fino. Aproximou-se, sem deixá-la escapar dessa vez, e segurou aquelas mãos.

— Regina, queria saber antes. Eu teria... Bom, não sei o que teria feito, mas teria feito alguma coisa.

— Não havia nada que ninguém pudesse fazer. Era tudo minha responsabilidade. — Ela olhou para baixo. — Tinha que me forçar a sair da cama toda manhã. Colocar um pé no chão. Sair de casa. E sabe por que fiz tudo isso?

Balançou a cabeça.

— Por ela — disse, com a voz suave e as palavras sussurradas. — Se não tivesse aquele bebê crescendo em mim, aquela vida a caminho, não sei como teria conseguido.

Ele também não sabia como ela conseguira. Que mulher! Admirava Regina muito mais agora do que já admirava antes. Regina tinha seguido em frente depois de uma tragédia daquela. Era uma verdadeira heroína, mais forte do que qualquer mulher de seus livros. E ainda fazia aquilo todo dia.

— Você é mais forte do que pensa Regina

. Vai ficar bem.

Ela sorriu lentamente.

— Talvez eu fique.

— É sério, vai ficar bem — disse, puxando-a para perto.

Ela secou o queixo.

— Só sei que Bri me salvou. Ela me fez passar por um momento muito difícil, mas...

— O quê?

— Nada, sério. E só difícil sofrer uma perda dessas e tantas mudanças depois. — Então fitou a tela. — Você perguntou como eu reagiria se visse mortes que me lembrassem de uma morte horrível pela qual passei. Primeiro, congelaria. Não faria nada. Por algum tempo. Pensaria em tudo o que perdi e teria tanto medo de perder aquilo novamente, mesmo se não fosse a mesma situação. Há muita coisa em jogo quando você se aproxima de alguém, mas muito mais quando você perde alguém. Porque nunca pode dizer aquelas palavras. Não pode dar aquele abraço. Aqueles momentos acabaram. Foram-se. — As últimas palavras, adicionadas num sussurro, partiram seu coração.

Ela fechou os olhos por um momento. Pensou em todas aquelas palavras que guardara para si e não disse, porque era jovem e tinha medo.

— Mas, depois que aquele momento de medo passasse, teria que agir. Teria que me ocupar, fazer alguma coisa.

— Por quê?

— Porque, se parasse por um segundo, choraria. E eu... — Ela hesitou, e ele viu a Regina que conhecia que podia fazer tudo. Que erguia uma parede entre eles porque sabia que tinha que proteger a filha acima de tudo. — Não aguentaria aquele segundo.

Robin tinha as palavras que queria. A emoção que queria. A heroína que queria.

Mas ela estava ali, em carne e osso, e não em seu livro.

Regina havia descido para fazer torradas, deixando-o escrever, mas os dedos dele não funcionavam. Fitava a tela e pensava no que ela dissera como abrira o coração para ele.

Notas finais
Regina abrindo o coração!! Chorei