Dubai
6 Apartamento 170, o começo de um sonho.
Notas iniciais
Ana e Ellie dirigiram-se à recepção do hotel onde pegaram a chave do quarto 170 no 23° andar. No caminho do elevador, as duas contemplaram alguns homens, que pareciam estar em reunião de negócios, porque dois deles vestiam dishdashas brancas com keffieyhs de cores branca-e-vermelha e outros dois, estavam vestidos de ternos pretos, muito bem arrumados e tinham uma aparência de não serem naturais do Oriente Médio.
Os homens árabes geralmente usavam barbas e suas feições pareciam sempre muito centradas e serenas.
– Aqui você vai ver muito disso, Ellie. – Começou Ana, quando as duas pararam em frente ao elevador, esperando ele descer. – Homens em reunião de negócios. Dubai está sempre cheia de pessoas de todo o mundo. E os árabes, especialmente os mais velhos, por serem mais conservadores – religiosamente falando –, preferem tratar de seus negócios aqui mesmo. – Enquanto Ana falava, Ellie observava todo o movimento no hotel. De fato, havia pessoas de todos os modos ali, inclusive um casal de chineses, que estavam acompanhados de um homem vestindo uma dishdasha, só que o keffieyh que ele usava, era branco.
De outro modo, muitos homens falavam ao telefone, alguns em línguas estrangeiras, as quais Ellie só entendia inglês e espanhol. Da língua árabe ela sabia muito pouca coisa e olhando em volta, percebeu que seria essencial aprender, já que em toda parte, tanto no hotel, como na cidade, havia letreiros no idioma árabe.
– Hum. E também tem outra coisa: em Dubai existem muitas mesquitas, onde sempre está tendo alguma oração. E nas horas principais, os sinos da mesquita tocam. É gostoso de ouvir, parece que é para não te deixar esquecer de onde você está. E... – Ana fez uma pausa, talvez pensando no que mais gostaria de informar a amiga. Ellie, ao mesmo tempo que prestava atenção no que ela dizia, olhava o tempo todo ao redor, certamente encantada com a decoração atapetada do hotel. – E bem, creio que você vá gostar muito daqui. É comum as pessoas nos convidarem para tomar alguma coisa, principalmente chá. Faz parte da cordialidade local. – Ana expressava-se com alegria, deixando os fios loiros voarem com o vento, enquanto falava sobre Dubai. – E por falar nisso, devo ressaltar que a família aqui é essencial, a base da sociedade. Eles presam muito.
– Ah, claro. Concordo com eles. Sou cristã, mas concordo plenamente. Até porque, para nós, a família também constitui a base da sociedade.
Ana assentiu.
– Sim. Na verdade, eu gosto muito dos muçulmanos. Eles costumam ser pessoas muito cordiais e amáveis. Os radicais são uma exceção, como em toda religião. Mas não podemos generalizar. Se os respeitarmos, somos respeitados também.
– É, não sei muito a respeito da religião muçulmana, mas respeito eles. Sou cristã e isso não vai mudar, mas de qualquer forma, os respeito. – Assim que Ellie disse isso, o elevador chegou e as duas entraram.
Dentro do elevador, estava um rapaz vestindo uma dishdasha dourada e sandálias, como as que os árabes costumam usar no deserto. Na cabeça deste, porém, não havia keffieyh. Sorridente, ele segurou a porta do elevador para as moças entrarem. Sem que Ana precisasse dizer o numero do apartamento, ele automaticamente apertou no 170. Com um aceno de cabeça, as cumprimentou. Ambas sorriram de volta.
Aproximando-se mais de Ana, Ellie perguntou:
– Ele conhece você, não é?
– Sim, o nome dele é Brahim e ele sabe que sou funcionária da EnjoyTour e por isso sabe o numero do apartamento.
Ellie ergueu as sobrancelhas em resposta. Então, virando-se para o espelho do elevador, encarou-se pela primeira vez desde que chegara a Dubai. Reparou que os cachos de seu cabelo estavam alinhados, grossos, cheios de vida. O volume havia baixado um pouco, permitindo revelar o verde escuro de seus olhos, sem que o brilho dos mesmos, precisasse atravessar o emaranhado escuro do cabelo. Apesar das dificuldades que havia enfrentado há pouco tempo e de quase ter trancado a faculdade, ela parecia realmente feliz. Sua expressão não era mais aquela cansada e estressada de 1 ano atrás. Agora ela parecia até mais jovem. Aos 25 anos, de repente Ellie se sentiu uma menina outra vez.
– E então? Gosta do que vê? – Perguntou Ana, encarando-a através do reflexo do espelho.
– É, acho que sim. Não me achava bonita há muito tempo.
No momento em que Ellie disse isso, a porta do elevador abriu e ambas viraram-se para sair, despedindo-se cordialmente do rapaz. Segundos depois, as duas entraram no quarto mais bonito que Ellie já havia contemplado na vida. Por mais que tudo aquilo parecesse mentiroso ou até mesmo exagerado, ao entrar naquele quarto imenso, ela teve a certeza de que finalmente podia abrir o seu coração, depois de o ter selado por tanto tempo. O choque com a realidade quase fictícia, a fazia lembrar o quão longe ela estava de tudo o que há muito tempo estava querendo deixar pra trás.
Ana aproximou-se dela após verificar que as malas haviam sido entregues e depositadas no lugar específico. Ellie, com um sorriso largo no rosto, ultrapassou a segunda porta de entrada e girou flutuante nos calcanhares.
A decoração esplendorosa do quarto era extremamente árabe e tradicionalmente islâmica. Nas paredes, em tons suaves de dourado e púrpura, desenhavam-se esboços cintilantes de homens usando dishdashas e keffieyhs, ajoelhados e rezando, em frente a três grandes mesquitas, dentre as quais, a do meio, era a maior. Acima dos desenhos, abaixo de uma ornamentação moderna de lâmpadas, havia um letreiro com o nome da empresa EnjoyTour, em sua língua original e no idioma de Dubai.
Ellie sentou-se em um sofá de veludo, no centro do quarto, no formato de um quadrado, com almofadas no meio. Observando tudo, ela notou que em cada canto do quarto havia mesas com incensos e flores da flora mais bela de todo o Oriente Médio; desde as mais raras até as mais comuns.
As mesas eram ornamentadas com lenços finos, madeira polida e brilhosa, redescobrindo novamente um estilo próprio dos Emirados Árabes. Em frente ao sofá, para onde Ana havia se dirigido, havia um bar gigante, com chás, refrescos, refrigerantes e bebidas, das mais diversas. Os vinhos estavam dispostos em fileiras diagonais de madeira nas paredes, que possuíam uma pintura ao mesmo tempo que rústica, muito moderna também.
Os armários da cozinha, eram também de madeira polida e escura e estavam abastecidos de cima até em baixo. A cozinha misturava-se com o bar. E os lustres do quarto, pendiam delicadamente do teto, como pequenos candelabros, que iluminavam como abajures, ou seja, um pequeno espaço apenas. Por isso havia vários lustres estrategicamente pendurados por todo o quarto, em tons de luzes diferentes, que davam ao quarto, um requinte ainda maior. Ellie sabia disso, porque da cozinha mesmo, Ana havia baixado os blecautes, com um controle remoto. Depois de baixados os blecautes, parecia que já era noite.
– Isso aqui é maravilhoso Ana! Eu não consigo acreditar no que está acontecendo. É muito melhor do que eu imaginei. – Ellie exclamou, observando o cintilar suave das luzes nos lustres.
Ana sorriu, contemplando a felicidade da amiga. Em seguida, ergueu novamente as cortinas e falou:
– Bem, como temos ainda muita coisa a fazer, sugiro a você que vá olhar os quartos, cada um com uma cama de casal – fez um gesto de quem ostenta alguma coisa –, porque temos hora marcada na loja. Depois de compradas as roupas e o sapato, quero levar você a uma feira que acontece uma vez por ano aqui em Dubai. Por uma grande coincidência, ela está acontecendo hoje.
Mesmo antes de Ana concluir o raciocínio, Ellie dirigiu-se aos quartos, que eram outros deslumbres inquestionáveis. As camas eram enormes, os lençóis eram grossos, de tecidos de aparência maravilhosa e desenhos e ornamentações árabes lindos. Na parede, em frente à cama de Ellie, que Ana indicou, havia um espelho imenso, moldado ao redor com ornamentações dourada-fosca de flores e símbolos islâmicos. Acima da cama, na parede, havia uma frase em inglês, com letras folheadas a ouro puro que dizia: “presente do Sheik Khalifa Al Gala.” Ao olhar o letreiro e à menção ao nome Sheik, Ellie, sem saber porquê, estremeceu. Sentiu algo como se fosse um arrepio. Talvez porque lembrou-se imediatamente da festa para a qual estava prestes a ir. O peso da responsabilidade e importância a atingiu. Mesmo que não fosse encontrar com o Sheik, ainda assim, estar na mesma festa que ele era algo quase assustador.
Segundos depois, Ana entrou no quarto com as malas de Ellie, que as colocou em cima da cama. Nenhuma delas era de carrinho. Sorridente, como estava, ela abriu as malas na cama e começou a retirar algumas coisas.
– Lindo o seu quarto, não é? – Sorriu a amiga. – Parece que tudo o que tem a ver com Sheik Árabe te persegue, né? Só não digo que é o destino porque ele é velho.
Ellie franziu o cenho enquanto mexia em suas coisas.
– Sinceramente? Deus me livre.
Ana soltou uma gargalhada contida.
– Ai Ellie, enquanto as outras perseguem a fama e a riqueza, você foge delas.
Ellie concordou veementemente. Em seguida, aproximando-se dela, Ana acrescentou:
– E é exatamente por isso que essas coisas te perseguem. – E piscou pra ela com um sorriso sapeca no rosto. – Agora tome um banho, arrume-se e vamos às compras. Teremos um dia cheio. – Em seguida saiu, deixando Ellie com seus próprios pensamentos.
Balançando a cabeça como quem pensa que alguém nunca muda, Ellie pegou um vestido azul que havia ganhado da mãe, de mangas curtas e decote discreto e se dirigiu ao banheiro para tomar um banho. A banheira imensa de mármore a chamava irresistivelmente. Sem hesitar, ela se permitiu aproveitar aquele momento único de sua vida. Ou quem sabe o primeiro de muitos ainda melhores? O destino certamente nunca falha.
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