Duas Visitas: Misericórdia e Fogo

1 Duas Visitas: Misericórdia e Fogo


Notas iniciais
Único capítulo.

O conforto de um homem, principalmente um rei, é estar ao lado de belas mulheres. As servas preparam a água quente, as ervas e o aroma, depois, chamam as concubinas. Moças jovens e de boa formosura, sempre com um semblante alegre. Elas adentram a grande banheira, exclusividade de sua autoridade máxima, e aguardam a chegada do mesmo.

Sua majestade, chega logo depois, com um sorriso que cobre todo o rosto. As servas já haviam tirado seu grande manto, deixando-o nu, assim como as garotas que o acompanhavam. Não são necessárias palavras, o monarca simplesmente se junta a elas e curte o momento, podendo passar horas lá dentro.

Todos estavam sendo muito bem vigiados, havia ali naquela sala a presença de cinquenta homens. Treinamento especial, armas feitas pelo melhor ferreiro, guarda coletiva e exclusiva do rei. Eram proibidos de falar e até mesmo de observar, caso contrário: cortavam-lhe as cabeças. Com um pensamento único de defender a majestade acaba que não se preocupam tanto, deixando a curiosidade de lado.

Do lado de fora da mordomia, vivia o povo: aldeões, camponeses e vendedores, plebe rejeitada, cada um com seu pequeno pedaço de terra dado apenas após anos de misericórdia. Pessoalmente, o rei delimitava um pedaço de propriedade para cada um, agindo com ínfima vontade. O terreno, miserável, só agradava por que ficava dentro dos limites do reino, gerando uma segurança total.

Trabalhando no campo, um jovem, aproximadamente dezesseis anos, sente um estrondo. Ele tenta olhar além do horizonte, mas só enxerga os grandes vales que cercavam os domínios territoriais do reino. Ignorando, continua a trabalhar. Dessa vez, não foi só um estrondo, mas as copas das árvores se mexeram, como se um grande vento tivesse vindo do leste.

Mesmo sem o céu estar coberto por nuvens cinzas, ele larga ali mesmo a enxada e corre pra dentro de casa. Fecha as janelas e as portas e adverte a todos dentro de casa:

— Vamos nos esconder! Há uma tempestade vindo!

Sem falar mais nada, ele pega seus irmãos pequenos e se esconde junto deles debaixo da mesa de jantar. A mãe, teme pela vida de seu marido, que nesse momento estava vendendo os cultivos no centro da cidade. Mas nada podia fazer, apenas se proteger da fúria da natureza.

O silêncio predomina na residência. As crianças, que respiravam ofegantes de medo, já não tremiam mais. Talvez fosse um vento qualquer passando por ali, deixando sua marca. O pensamento se manteve esse, até que alguém bate na porta. Um olha para o outro, se perguntando: “quem pode ser?”. Como ainda não haviam indícios de uma forte tempestade, o rapaz, sem medo, atende à porta.

Do lado de fora, um homem com uma armadura tão brilhante que mais parecia como se uma estrela tivesse descido até a Terra. Depois de acostumar a visão, o jovem percebe que a armadura não havia sido feita por meros ferreiros, pois era encoberta por escama de dragão, mais resistente que qualquer muralha que os homens tentem erguer. No elmo, haviam os escritos: “Encare o cavaleiro…” e no peitoral, a extensão da frase: “…enfrente o dragão”.

O mancebo logo se arrepia, temendo por sua vida. Aqueles escritos representavam uma coisa: era Ehyeh, o Derruba-Tronos. Todos já ouviram falar de Ehyeh, o homem com sangue de dragão. Ele era homem, mas com poderes de dragão: controlava o fogo, tinha uma força descomunal e uma sabedoria incomparável. A história por trás desses poderes é um mistério pra todos, o que se sabe, é que de tempos em tempos, ele visita um reino, geralmente um reino tirano e injusto. Após sua rápida visita, tudo o que sobra são cinzas e vidas inocentes poupadas. O rapaz se ajoelha desesperado.

— Piedade! Nada te fiz, sou um mero camponês.

— Se nada me fez, nada tenho contra ti. — Respondeu Ehyeh, sendo nuance ao falar. — Assuntos devem ser tratados aqui em Thanacla. É hora de seu rei perecer. Você me aparenta ser um mancebo promissor e corajoso. O sol já está quase se pondo, você tem até lá para bater de porta em porta e avisar sobre minha chegada. Caso contrário, todos morrerão. Essa é minha visita de misericórdia

Se levantando, ele correu pra dentro de casa, advertindo seus familiares. Depois saiu pela porta e clamou pela vida de seus vizinhos. Em pouco tempo, os sacos de comida e as botijas de azeite já estavam cheias. Todos desesperados deixando suas casas e correndo para além do vale, onde não dava pra se ver suas antigas casas.

A milícia logo percebeu o alvoroço, e enviou um centurião com uma terça parte de sua guarda para investigar o que estava acontecendo. Antes que saíssem, o Sol já havia se despedido.

A noite era traiçoeira e os soldados não se arriscariam. Ora, mesmo sendo organizados e fortes. Havia uma floresta que separava a cidade das fazendas, dentro dela havia uma estrada, por onde vinham todo tipo de visitante. Logo acendem as poucas tochas que tinham, e continuam até o lugar.

Uma tocha se apaga. Sem ventos, apenas uma brisa agradável e úmida, os soldados se perguntam como aquilo aconteceu. Todas as tochas se apagam. O centurião logo ordena:

— Nada temam! Ergam seus escudos e puxem as espadas, não são demônios nem criaturas da noite que irão tirar nossa coragem!

Alguns com medo outros confiantes, mas todos muito bem posicionados. Tendo como guia apenas o tênue brilho do luar, percebem uma luz à frente, no fim da estrada, vindo em sua direção.

— Será outro grupo? — Perguntou um deles.

— Só nós fomos enviados — respondeu o centurião. — São potestades sombrias! Lutem por suas almas!

A luz chegou mais perto, trazendo um calor tão intenso que eles cobriram seus rostos, pois estavam sem elmo. Quando chegou até eles, era um fogo poderoso, que os atingiu nas partes que estavam desprotegidas e vulneráveis. Não se queimaram, mas se coçaram um pouco, por que havia ardido. A escuridão prevaleceu novamente.

— Fogo? — Disse um deles novamente. — Como podem haver dragões nessa região?

— Não seja tolo! Dragões já foram extintos há muito tempo pelos imperiais da montanha.

— Há uma exceção — disse o líder. — Acredito que todos já tenham ouvido falar de Ehyeh.

Todos se apavoraram. Não tinham dúvidas que podia ser Ehyeh, afinal, o reino de Thanacla era tirano e injusto, características perfeitas para um extermínio da parte do Derruba-Tronos. O centurião largou o escudo, e se jogou sobre sua espada, se matando. Uns poucos o seguiram, os outros preferiram manter a vida.

O rugido do dragão foi ouvido, e surgindo das sombras, o Derruba-Tronos vem pela estrada. Ele para em frente a tropa, e faz uma pergunta:

— Onde posso encontrar Alnugo, o rei? — Dessa vez, seu tom de voz não era tênue e como o de um homem comum. O poder do dragão já havia apossado de seu sangue, e nele corria fogo. Sua voz poderia se comparar a de uma cachoeira, ou a de muitos cães latindo..

— Na sala de banho — disse um deles. — Ele sempre fica lá, com suas prostitutas. Maldito seja Alnugo — dizia isso por que estava com um medo anormal, e queria ser poupado. — Que o Derruba-Tronos faça seu trabalho.

— Que bajulação ridícula. Eu te fiz uma pergunta e só queria a resposta, nada mais. Suas vidas serão poupadas, tenho uma visita de Fogo para fazer.

Ele sai sem dizer nem ouvir mais nada. Caminha pela estrada, chegando ao portão da cidade. Sem ser percebido ele dá um grito, com sua voz tenebrosa:

— Alnugo pagará pelo que fez com o povo de Thanacla!

A guarda ficou com medo, o som os deixou aterrorizados. Logo levantaram suas armas para Ehyeh. Uma parte do exército se amontoou em frente o portão principal, com a intenção de bloquear a passagem de Ehyeh. Mas quase todos já haviam notado que era o Derruba-Tronos, e que o fim era iminente, mas não podiam desistir.

Ehyeh, após assistir todo aquele preparo, ergueu o braço direito e criou uma labareda de fogo com as mãos. Ele, com um golpe só, derrubou toda a tropa que defendia o portão. As flechas eram iminentes, mas Ehyeh as ignorava, pois nem se quer o tocavam. Elas eram incineradas em seu redor, pois dele emanava um calor imperceptível de longe, mas mortal quando de perto.

O banho do rei, que era feliz e aconchegante, não ia só ter água quente, mas o seu sangue. A defesa pessoal ficava de prontidão na porta. As concubinas todas fugiram do recinto. Alnugo sabia que seu destino estava já escrito.

Ele ouvia um grito e outro e outro, ouvia construções irem ao chão e ouvia o fogo consumir tudo pela frente. Ele tremia de medo. Não ousava chegar perto da janela, poderia morrer ali mesmo, incinerado. Inquieto e pensativo, não sabia nem quais seriam suas últimas palavras.

Depois de um curto período, o silêncio toma conta da cidade. Tudo o que era vivo, havia deixado de viver. Os únicos remanescentes eram esses da sala de curtição do rei. Mas isso estava prestes a mudar. A porta da frente recebe um contorno amarelado, e então ela explode! As lascas de madeira e estilhaços de ouro e prata, que compunham a porta, são lançadas por todos os lados.

Da fumaça que sai do corredor, a silhueta do Derruba-Tronos surge, fazendo o rei tremer as pernas tanto, que chegavam a tocar-se uma nas outras. Alnugo vê o quão poderoso é Ehyeh. Vê o fogo correndo em suas veias, que fazia seus olhos ficarem alaranjados de puro poder. Ele lê os escritos da armadura: “Encare o cavaleiro, enfrente o dragão”.

— Ehyeh, piedade para com o reino de Thanacla! — Suplicou Alnugo. — Posso te dar tudo o que quer: mulheres, ouro e todas essas riquezas.

— Essa não é a riqueza de justos, é a riqueza de ladrões — respondeu Ehyeh, com uma voz que assombrou os ouvidos do rei. — Imoralidade, luxúria, vícios e ganância, nada disso ao um bom rei pertence.

— Eu te peço: tenha compaixão de mim!

— Já fiz minha visita de misericórdia.

Ehyeh se aproximou do rei, e preparou um golpe poderoso com as mãos. Então atravessou seu punho no abdome de Alnugo, matando-o na hora.

Ehyeh vê seu trabalho feito, o trabalho do Derruba-Tronos. Não por ordem de ninguém, mas por sua própria vontade. Por que não há no mundo alguém que possa fazer dele seu servo ou ajudante. Ele faz o que deseja, se colocando debaixo da sabedoria.

O Derruba-Tronos se despede do corpo morto, mata o resto dos soldados que ali estavam, e atiça seu fogo, que consume praticamente qualquer coisa. Ele fez isso até o último pedaço de terra de Thanacla. Nada, simplesmente nada estava vivo. Ele havia feito sua visita de fogo.

Ele subiu o val até o topo, e deu um rugido poderoso, liberando o poder do dragão de seu corpo. Do topo ele pôde ver o grupo de camponeses e fazendeiros que não haviam saído dali. Pais e filhos, esperando a volta do Derruba-Tronos, pois precisavam de ordens, não sabiam o que fazer.

Ehyeh tinha todos os povos inocentes de tronos derrubados em lugares estratégicos, pra que assim ele seja o protetor pessoal de um novo povo, puro e simples, longe da imoralidade.

Notas finais
Espero que goste da pequena mas interessante perspectiva de um herói medieval. Ehyeh com certeza te fascinará.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!