Duas Vezes Amor
5 CAPÍTULO V
Notas iniciais
Foi durante a consulta do quarto mês que eles descobriram o restante da história.
— Gêmeos? — ela repetiu olhando para o médico.
— Não há dúvida disso.
Sam deixou o consultório aturdida, mais do que quando ele confirmara a gravidez, dois meses antes. E agora, o que faria?
Freddie estava fora, fotografando, e ela correu para casa esperando ter algum tempo para si mesma antes de encontrá-lo. Já sabia que ele faria perguntas sobre a consulta, como acontecia depois de cada visita. Chegara a dizer que a acompanharia, caso não ficasse satisfeito com os relatórios.
Era surpreendente como sua vida havia mudado em apenas dois meses. Em alguns sentidos era como se sempre houvesse estado grávida, e em outros, como se Freddie houvesse se mudado há apenas alguns dias.
Cumprindo a promessa, ele não voltara a insistir no pedido de casamento, e também não tentara tirar vantagem do fato de estarem dormindo na mesma cama.
Sam parecia estar sendo mais afetada que ele. Dividir o quarto aumentara a intimidade entre eles, embora Freddie tivesse a consideração de deixá-la sempre com alguma privacidade. Por outro lado, não parecia perturbado quando tinha de despir-se com ela no quarto. Dormia usando apenas um short de corrida, pois não possuía pijamas e não pretendia comprá-los. Essa era a única concessão que fazia aos seus pudores.
Aos poucos Sam ia habituando-se à nova situação, e em alguns momentos não conseguia nem imaginar-se sozinha. Ultimamente vinha esforçando-se nesse sentido.
O médico a prevenira sobre um eventual aumento em sua necessidade de sono, e a previsão confirmava-se dia-a-dia. Sentia-se mais cansada, e podia até imaginar como estaria dentro de dois ou três meses. Gêmeos!
No quarto, trocou o vestido por um robe confortável. Dormiria um pouco e depois desceria para preparar o jantar, de forma que a refeição estivesse pronta quando Freddie chegasse. Essa foi a última coisa em que pensou antes de acordar sentindo um delicioso aroma vindo da cozinha.
Freddie estava em casa.
Sentada na beirada da cama, esperou alguns instantes antes de levantar-se, como acostumara-se a fazer nas últimas semanas. Aprendera que não podia mais saltar da cama sem correr o risco de cair.
Também aprendera a subir e descer a escada devagar devido a barriga de quatro meses. Quando entrou na cozinha, Freddie estava debruçado diante do forno, de costas para ela, mas olhou por cima do ombro e sorriu.
— Olá, dorminhoca. Como passou o dia?
— Bem — ela respondeu depois de sentar-se perto do balcão e bocejar.
— Isso foi tudo que o médico disse? Bem?
— Na verdade, ele pronunciou mais uma palavra. Freddie aproximou-se e abraçou-a, mais um gesto a que habituara-se nos últimos tempos.
— Que palavra foi essa?
— Gêmeos.
Sam observou sua expressão enquanto a palavra e seu significado eram registrados pelo cérebro. Freddie sentou-se no banco ao lado dela e refletiu por alguns instantes como se não compreendesse o que ouvira.
— Gêmeos? — repetiu pouco depois.
— Gêmeos.
— Meu Deus...
— Foi exatamente o que senti.
— Ele... tem certeza?
— Absoluta.
— Uau! Sabe o que isso significa, não?
— Temos de dobrar todos os itens da lista de compras.
— Também. Mas estou falando sobre o futuro. Teremos de encontrar uma casa maior. Não podemos deixar nossos filhos espremidos naquele quarto por muito tempo. É claro que ainda temos alguns meses, mas é melhor começarmos a procurar.
— Freddie... não. Esta casa é tudo que posso ter. Ficarei aqui mesmo.
— Não comece com isso novamente, está bem? Já disse que não está sozinha nessa história. Estou preparado para desempenhar o papel do pai responsável, e isso me faz lembrar que é hora de mencionarmos novamente aquela palavra cuja inicial é C. Ainda não se deu conta de que podemos dar certo? Estou feliz aqui. Não faço exigências ou cobranças, não reclamo e...
— Eu sei disso. É que... — e parou, sem saber o que dizer. Estava cansada de tentar entender tudo que sentia.
— O que é, meu bem? Do que tem medo?
— Não sei. De tudo, acho. Mas você está certo. Tem sido maravilhoso nesses últimos meses. Tudo que faço é comer e dormir, engordar e resmungar, chorar e...
— Pois é exatamente isso que deve fazer. Comer, dormir, engordar, resmungar... e só chora quando está aborrecida, cansada ou com fome, ou...
— Entende o que digo? Encare os fatos, Freddie.
— Digamos que é uma resmungona adorável e uma chorona muito charmosa. Tenho pensado que já passou da hora de fazer uma confissão.
— Que confissão? — ela perguntou desconfiada.
— Nunca pensou que voltei do Tibet com um propósito em mente, mesmo antes de saber que estava grávida? Já imaginou que posso ter vindo pedi-la em casamento?
— Não.
— Nunca pensou na possibilidade de eu ter descoberto que a amo?
— Bem, nisso eu posso acreditar, já que também amo você. Por que acha que tem sido tão difícil lidar com tudo isso? Não consigo me esquecer da segurança que demonstrou naquela noite quando disse que não pretendia se casar. Foi muito convincente.
— Porque precisava convencer-me do que dizia. Mas depois passamos a noite juntos e nosso encontro foi mágico, Sam. Nunca vivi nada parecido. E para completar a magia, descobrimos que nosso encontro produziu dois bebês. Mesmo que não estivesse grávida, aquela noite em seus braços me fez abrir os olhos para algumas coisas. Acho que a amo há muito tempo sem saber, mas depois do nosso encontro pude reconhecer meus sentimentos. Tenho tentado não pressioná-la, mas dormir a seu lado tem sido um verdadeiro exercício de autocontrole. Sei que fiz uma promessa e pretendo cumpri-la, mas nada me faria mais feliz do que ser seu marido, fazer amor com você e planejar o futuro a seu lado.
— Está aborrecido por dormir comigo todas as noites e não poder fazer amor?
— É claro que sim! Sou um ser humano de carne e osso, um homem de sangue quente, e você é a mulher mais sexy que já conheci. Levei alguns anos para crescer e apreciar esse fato, mas depois que a tive nos braços... Tenho de me esforçar para lembrar que está grávida.
— O médico disse que podemos manter relações até as últimas semanas de gravidez.
— Quer dizer que perguntou isso a ele?
— Talvez tenha deixado escapar algum comentário, não sei. O fato é que ele ofereceu essa informação e explicou que algumas mulheres experimentam um aumento no apetite sexual durante a gravidez, quando sabem que não precisam se preocupar com anticoncepcionais, por exemplo.
— E você sente essa... mudança de apetite?
— Como posso saber? Não tenho muita experiência nesse departamento.
— Podemos descobrir juntos, se quiser. Tudo pelo bem da ciência, é claro.
As palavras sussurradas e o braço em torno de sua cintura provocaram um arrepio.
— Depois de nos casarmos, naturalmente — Freddie concluiu. — O que as crianças pensariam se experimentássemos esse tipo de intimidade antes da cerimônia?
— Freddie, não seja...
— O que acha de telefonarmos para mamãe e Lewbert e convidarmos os dois para virem até aqui? Podemos ter uma cerimônia discreta numa pequena capela. Eles adorariam! Se não me engano, também se casaram na igreja do bairro. E não se preocupe, porque eu cuidarei de tudo. Só terá de aparecer na hora marcada.
— Está fazendo outra vez.
— O quê?
— Tomando decisões sem me consultar.
— Tem razão. Acho que toda essa conversa sobre sexo afetou meu cérebro. Desculpe.
— Tudo bem. Nesse caso, sou obrigada a concordar com você.
— É mesmo?
— A única razão pela qual relutei em aceitar seu pedido foi o medo de me envolver demais, porque quando partisse eu...
— Não vou a lugar algum. Será que pode enfiar esse dado em sua cabeça dura? Vai ficar tão cansada de me ver o tempo todo a seu lado, que fará de tudo para me convencer a deixá-la em paz, nem que seja só por alguns minutos.
— Não acredito que me considere sexy — ela murmurou, sorrindo ao ser abraçada com ternura.
— Então aceita meu pedido de casamento?
— Sim, desde que me prometa uma coisa. Se descobrir que cometeu um engano, será franco comigo e encontraremos uma solução razoável.
— Já estamos abrindo uma rota de escape antes mesmo de celebrarmos o noivado?
— Estou falando sério, Freddie.
— Eu sei, e é por isso que a amo tanto.
— Talvez queira viajar novamente.
— Nesse caso, iremos juntos. Não sou seu pai, Sam. Não vou abandoná-la, nem morrerei como sua mãe. Pelo menos por enquanto...
Ao ouvi-lo mencionar o pai Sam experimentou uma intensa onda de dor. Por isso sentia-se mais segura sozinha. Por que assim não teria mais ninguém para perder?
— Alguma vez deixei de cumprir o que prometi? — ele perguntou.
— Não.
— Era só o que eu queria ouvir — Freddie concluiu antes de voltar para perto do forno.
Lewbrt e Marisa foram as únicas testemunhas do casamento, dez dias mais tarde. O pastor celebrou a união em seu escritório, satisfeito por terem preferido assim.
Marisa estava entusiasmada. Queria comprar móveis para os bebês, procurar uma nova casa e decidir quando poderia voltar para ajudar a nora com os netos recém-nascidos, mas Lewbert conseguiu acalmá-la fazendo-a ver que Freddie e Sam já tinham tudo sob controle.
Voltaram para Seattle naquela tarde, depois de Marisa deixar claro que estaria à disposição para o que fosse necessário.
— Pode imaginar o que seria de nossas vidas se ela ainda morasse aqui? — Freddie comentou quando voltavam do aeroporto. — Mamãe bateria na porta todas as manhãs para ter certeza de que já havia tomado seu copo de leite e as vitaminas.
— Conheço sua mãe desde que era criança, e nunca a vi tão excitada.
— É verdade. A notícia sobre os gêmeos a fez entrar em órbita.
— Ela também pareceu aliviada por termos nos casado.
— Eu sei. E por falar nisso, sra. Benson, o que gostaria de fazer no dia do seu casamento?
— Foi um dia agitado. Importaria-se se fôssemos descansar?
— Sente-se muito cansada? Acha que exagerou? Está com dor em algum lugar?
— Não! Pelo amor de Deus, Freddie, está falando como sua mãe!
— Deus me livre!
— Só quero ir para casa e descansar.
Sam já estava quase dormindo quando ele saiu do banheiro e deitou-se sem dizer nada.
— Freddie?
— Mmm?
— Agora estamos casados.
— Acha que eu poderia esquecer?
— Não precisa mais ficar encolhido em sua metade da cama.
— Pensei que estivesse cansada.
— E estou, mas não tanto assim.
Freddie tomou-a nos braços e, ao tocá-lo, Sam percebeu imediatamente que tipo de efeito exercia sobre esse homem. O calor que emanava da pele bronzeada a envolvia como um manto mágico, e as batidas aceleradas de seu coração confirmaram a excitação.
— Que bela farsa você é, Freddie Benson — ela provocou com um sussurro. — Fingindo não dar importância a tudo que está acontecendo entre nós, enquanto seu corpo mal pode esperar pelo que ainda vai acontecer... — Riu, tocando a região onde a evidência do que acabara de dizer se tornava ainda mais clara.
— Acho que acabei me acostumando à condição. De uns meses para cá ela tornou-se quase permanente, sabe?
— Mas nunca disse nada.
— Fico feliz.
— Por eu não ter dito nada?
— Por me desejar tanto. Pensei que já não pudesse mais atrair seu interesse.
— Se me atraísse um pouco mais eu acabaria explodindo, o que ainda é uma possibilidade bastante real.
Sam virou-se e pressionou o corpo contra o dele.
— Vamos ver se ainda consigo lembrar algumas daquelas coisas que me ensinou na primavera passada.
A julgar pela reação de Freddie, sua memória estava em perfeitas condições.
O som de uma porta se fechando devagar arrancou-o de um sono tranquilo e profundo. Freddie abriu os olhos e consultou o relógio. Pouco mais de cinco da manhã. A luz do dia podia ser vista no horizonte, mas ainda era cedo demais para pensar em levantar-se..
Acostumara-se a ouvir Sam deixando a cama todas as manhãs por volta desse mesmo horário. A Mãe Natureza era implacável com as mulheres grávidas!
Dobrando o travesseiro, usou-o como apoio para erguer o corpo e esperou que a esposa voltasse para a cama. Quando ela abriu a porta do banheiro, alguns minutos mais tarde, foi recebida por um sorriso radiante.
— Oh, Freddie, desculpe! Não queria acordá-lo! Ele estendeu os braços.
— Não tem importância. Venha até aqui e deixe-me abraçá-la, sim? Ainda é cedo demais para nos levantarmos.
— Ora, ora, parece estar de bom humor esta manhã — ela respondeu com ar divertido, acomodando-se na cama com cuidado e relaxando ao encontrar o apoio do ombro forte.
— É impressionante como uma boa noite de sono pode fazer maravilhas pela disposição de um homem. Não dormia tão bem há meses — e Sam pousou uma das mãos sobre o ventre arredondado num gesto carinhoso e possessivo.
— É estranho. Sempre tive a impressão de que dormia muito bem. Qual era o problema?
— Oh, sim, eu dormia como qualquer pessoa normal, mas meus sonhos eróticos eram definitivamente prejudiciais ao repouso da mente. Agora posso admitir. Dividir uma cama com você e não poder tocá-la era um verdadeiro tormento.
— Foi você quem estabeleceu as regras, lembra-se?
— Teria aceito minha presença em seu quarto e nesta cama se não existissem regras para protegê-la?
— Honestamente?
— Sempre.
— Não sei. As coisas estavam acontecendo muito depressa quando se mudou para cá. Você pode não ter percebido, mas tive dificuldades para lidar com a pressão.
— Oh, eu notei — Freddie respondeu com um sorriso. Ele acariciava seus ombros enquanto falava, e ajeitou-a entre os braços de forma a alcançar a parte mais baixa das costas e aplicar uma massagem relaxante. A recompensa foi um suspiro profundo e delicioso.
— Já havia pensado em oferecer esse tipo de massagem, mas tive medo de sugerir e dar a impressão de estar usando o método de relaxamento como uma desculpa para tocá-la.
Sam encarou-o com os olhos muito abertos.
— Eu? Suspeitar de seus motivos sempre tão altruístas? Como pode pensar em algo tão egoísta e cruel a meu respeito?
A brincadeira foi recompensada por um beijo que prolongou-se e o fez esquecer a massagem em poucos minutos.
Fizeram amor devagar, explorando e descobrindo partes sensíveis de seus corpos sem se deixarem apressar. Freddie adorava ouvi-la suspirar de prazer, pois saber que era capaz de levá-la a tão elevado patamar de excitação era inebriante. Jamais imaginara que o ato sexual pudesse ser tão rico e cheio de novas possibilidades quando partilhado com alguém a quem se ama de verdade.
Amava Sam, e nunca se cansaria de expressar esse amor.
Mais tarde, depois de um café da manhã farto e prolongado, foram trabalhar juntos no jardim. Enquanto Freddie arrancava as ervas daninhas dos canteiros, Sam o seguia com um saco plástico onde ele depositava as folhas inúteis.
— Algum dia imaginou que poderíamos estar juntos dessa maneira? Quero dizer, quando éramos jovens, adolescentes, chegou a pensar nessa possibilidade? — ele perguntou à certa altura.
Sam ajeitou o chapéu com que protegia-se do sol e pensou um pouco.
— Não sei — concluiu. — Se pensei, devo ter esquecido depois de adulta. E esse esquecimento devia ter servido como indicação de que algo acontecia com meus sentimentos.
Os dois foram sentar-se nas espreguiçadeiras dispostas no pequeno pátio coberto, e Freddie serviu limonada gelada em dois copos.
— Estava aqui sentado, pensando em como brigavamos quando adolescentes. Lembra-se?
Ela riu.
— É claro que sim! Teve uma vez em que eu rasguei todas as suas roupas!
— É verdade. Meu Deus, não me lembrava disso há anos!
— Não sei por que nunca nos desentendiamos e ficavamos sem nos falar depois de tantas brigas. Acho que sempre contamos um com o outro na nossa amizade.
— E o iCarly, como era divertido. Pena que os dias de glória acabaram. Web-stars!
— Nunca mais vi a Carly!
— É verdade! Como seria bom reve-la.
Sam aproximou-se para depositar um beijo no rosto do marido e riu.
— Quero que saiba que não lamento a maneira como as coisas aconteceram. Talvez não quisesse me acomodar há alguns anos, mas agora somos mais velhos. Já construímos uma vida de trabalho e realizações, tivemos uma infância maravilhosa e uma juventude repleta de aventuras, é hora de seguir em frente nesse processo de desenvolvimento. Na verdade, acho que trouxemos grandes contribuições para esse relacionamento. Pense só nas histórias que teremos para contar aos nossos filhos!
— Está quase conseguindo me convencer, Freddie. Talvez as coisas tenham mesmo um jeito todo especial de acontecer para cada pessoa, afinal.
Fale com o autor