Duas Metades
2 Primeiros passos
Quando acordei já era quase dez horas da manhã, não lembro direito que horas fui dormir ou como cheguei na minha cama. Estava tão cansada e os pensamentos da minha família tinham invadido minha cabeça e até desmaiar não consegui parar de pensar neles.
Depois de resmungar muito levantei da cama e fui até o banheiro, lavei minha face, meu rosto estava um pouco inchado de tanto ter chorado durante a noite, mas pelo menos dava para disfarçar. Ajeitei meu cabelo num coque e depois de colocar um calção e uma blusa velha e resolvi arrumar minhas coisas.
Comecei pelo closet, que era o que mais iria demorar, tantos sapatos, roupas, bolsas e joias para colocar em ordem não era algo que eu podia fazer sem prestar atenção. Eram quase três da tarde quando finalmente terminei.
Fui até a cozinha e peguei uma garrafa de agua, juro que esperava que nova York fosse menos quente, estava um forno naquele apartamento e não tinha nenhum vento saindo das janelas, até pensei em ligar o ar condicionado, mas infelizmente nunca aprendi a usar direito.
Depois de terminar de arrumar meu quarto, fui para o escritório, tirei das caixas que meu tio tinha mandado uns dias antes e coloquei meus livros nas prateleiras e só então, quando me estiquei para pegar o ultimo na caixa que vi um porta retrato.
Era uma foto do meu último aniversário com meus pais, nunca esqueci aquela festa. Tudo tinha dado errado, meu vestido rasgou, o bolo veio errado, não tinha salgadinhos suficientes, o palhaço não tinha vindo e eu ainda derrubei toda a cerveja em cima do chefe do meu pai.
Por mais que aquele dia tinha sido terrível, foi o melhor que eu tive. Só de pensar já dou risada do papai usando maquiagem tentando imitar um palhaço. Eu sabia que ele podia simplesmente ligar para outro lugar e arrumar outro palhaço, mas ver ele se esforçando era melhor.
Coloquei o porta retrato na mesa, junto com meu notebook, uma luminária e meu porta-canetas. Tudo parecia em ordem e então a campainha tocou. Fiquei imaginando quem poderia ser. Quando abri a porta dei de cara com Felix e Jason.
-Então o casamenteiro e o perseguidor retornam.
-É como você disse, eu caso as pessoas e ele as persegue e some com elas, não há coisa melhor que isso.
-Podem entrar meus queridos e por favor me digam que trouxeram comida – eu estava faminta, não comi nada o dia inteiro.
-Pizza serve? Eu queria fazer algo mais sofisticado, mas o revoltado aqui disse que pizza é simples e não tem quem não goste.
-Não ouse usar minhas palavras contra mim, você sabe que eu não gosto.
-Meninos, eu amo pizza, se acalmem. Vou pegar uns pratos, por favor não se matem e o primeiro pedaço é meu.
Lancei um olhar serio para eles e sai rindo maleficamente, mas em vez de assustar eles, só consegui que eles dessem mais risada. Tive que ficar na ponta dos pés para pegar os pratos e copos, não sabia se eles iam querer agua, mas pareceu rude demais não oferecer.
-Desculpa não ter refrigerante, mas como cheguei ontem não tive tempo de ir no mercado e também não sei onde tem um.
-Se quiser te levo depois, como disse moro aqui faz tempo.
Jason parecia um rebelde sem causa com aquela jaqueta de couro, uma blusa branca e jeans rasgado enquanto seu irmão era seu oposto, estava com um terno engomado, de gravata e com o cabelo perfeitamente penteado, fiquei olhando os dois e comecei a notar algumas semelhanças, o cabelo podia ter cor diferentes, mas eles tinham algo que os fazia parecer iguais.
-Nós somos gêmeos – Felix cortou o silencio – Pode parar de encarar agora.
-Desculpa, não era minha intenção é que eu notei algo em vocês dois e não sabia o que eu era.
-Sem problema – Jason falou enquanto pegava mais um pedaço de pizza – Várias pessoas fazem isso, eu e ele temos estilos completamente diferentes, mas se colocarmos a mesma roupa e o mesmo tom de cor no cabelo é quase impossível nos distinguir.
-Eu aposto que eu conseguiria.
-Senhorita convencida – Felix falou enquanto tomava um longo gole de agua.
-Não é ser convencida é uma questão de observação, você tem um jeito extrovertido e simpático que faz com que as pessoas se aproximem, enquanto Jason é misterioso e parece que ninguém pode se aproximar dele, se a pessoa prestar o mínimo de atenção em vocês consegue notar.
Os dois me olharam boquiabertos e voltaram a comer a pizza quietos, sem nem trocar um olhar comigo. Posso ter pegado pesado demais, mas hei é só o meu ponto de vista.
Depois de me ajudarem a lavar os pratos e dar uma geral na sala, os meninos foram embora, não sem antes claro pedirem desculpa por terem quebrado meus copos durante o processo.
Quando finalmente fiquei sozinha olhei para aquele imenso apartamento, não sei como ia conseguir viver ali, comecei a andar por um dos corredores e abri algumas portas. Na primeira era o banheiro com uma banheira e todo pintado de branco, logo depois tinha um quarto com uma mesa de desenho e em uma porta havia um envelope com meu nome escrito em cima, reconheci a letra da minha mãe na hora. Sem demora abri e comecei a ler o bilhete deixado para mim.
"Amy, assim que você ler isso eu e sua mãe não estaremos mais com você, mas não se preocupe estamos bem e sua tia vai cuidar bem de você. Nós amamos muito você e sabemos que você deve sentir muita saudade, mas também sabemos que você sabe se cuidar. Deixamos este apartamento para você poder fugir da rotina de vez em quando, sabemos que não tivemos um último adeus, mas nós te amamos filha.
Com amor seus pais. ♥"
Minha mãe havia desenhado o coração com uma caneta rosa como ela sempre fazia quando eu ia para a escola. Só não entendi o sentido da carta, será que eles haviam planejado me dar ao apartamento assim que eles morressem? Mas o que não fazia nenhum mesmo sentido era que ninguém entrou ali, mas ele parecia tão limpo e bem cuidado, nem parecia que meus pais haviam o comprado a anos atrás.
Passei o final de semana inteiro arrumando minhas coisas, coloquei tudo no lugar, fui no mercado com Jason e abasteci minha geladeira. Comprei mais algumas coisas para o apartamento já que mesmo meu tio tendo me mandado tudo que eu tinha na minha antiga casa ainda sobrava espaço.
Por um momento pensei em vender aquele lugar e comprar um menor e usar parte do dinheiro para pagar minha faculdade quando terminasse o ensino médio, mas achei que eu não estaria honrando a memória dos meus pais e por algum motivo me peguei pensando se não tem nenhum segredo escondido naquele lugar.
Na segunda feira acordei cedo para poder me arrumar para meu primeiro dia de aula, não estava nem um pouco a fim de começar numa escola nova no último semestre antes de me formar, mas era necessário se algum dia eu quisesse cursar medicina.
Coloquei uma saia preta com uma regata branca e um salto alto preto com uma tirinha na frente, me olhei no espelho e fiquei satisfeita com o resultado. Depois de tomar um café ajeitei minha mochila, peguei um taxi e fui em direção a escola.
Assim que cheguei perto notei uma senhora baixa, usando um casaco rosa que estava cumprimentando os alunos. Ela deve ser a diretora. Respirei fundo pelo menos umas duas vezes antes de sair do carro, não estava pronta para enfrentar o mundo real. Quando estava prestes a dar meia volta e ir para casa alguém me chama.
—Bom dia, você deve ser a aluna nova, certo? – diz a senhora do casaco rosa com o sorriso mais falso que já vi na vida.
—Isso mesmo, Amy. Prazer em conhece-la Senhorita...- sou puxa saco mesmo, porque pelo jeito dela meu último semestre podia ser no céu ou no inferno e tudo dependia de como ela iria me tratar
—Bearves e obrigada pelo senhorita. Como você é nova deve ir a sala do representante. É só ir reto a segunda porta à esquerda.
—Muito obrigada Senhora Bearves.
Enquanto dizia tchau a diretora notei um garoto ruivo encostado na parede alguns metros dali, ele parecia estar rindo de mim, não dei muita atenção e segui em direção a sala dos representantes.
—Olá eu procuro o representante...
Notei um garoto de cabelos loiros, olhos azuis e era bem alto, mas também parecia muito certinho, não era meu tipo, talvez eu e ele pudéssemos ser amigos, ele veio em minha direção:
—Oh olá, eu sou o Adam, prazer em conhece-la senhorita...
—Amy. Amy Lovers.
—Bom então como você é aluna nova precisamos que você assine este formulário comprovando que você pegou todos os livros da escola.
Me inclinei para frente e quase cai, mas ele me pegou pelo braço antes que pudesse cair. Olhei para ele e como o rosto dele está muito perto do meu vi que seus olhos estavam bem inchados, mas não deixavam de ser bonitos.
—M-me desculpe, eu não queria ter....
—Não se preocupe, acidentes acontecem.
Não sei se aquela frase era para mim ou para ele.
—Bom deixa eu assinar aqui e ir para minha sala que por acaso é que número?
—Deixe eu te dar seu horário.
Ele remexeu em alguns papéis e retirou um que continha todas as aulas que eu deveria ter até o final do semestre
—Parece que você tem trigonometria na 2B agora. É só você seguir reto e subir até o quarto andar é a terceira sala a direita.
Agradeci ele, peguei meu horário, os livros e sai, mas antes fui ao meu armário, demorei para colocar a senha mas assim que descobri coloquei meus livros dentro e decorei ele com algumas fotos dos meus pais. Quando fui fechar notei o ruivo escorado no armário ao lado.
—Bom, você deve ser a aluna nova.
—Isso mesmo. — Fui rude com ele pois ele não precisava saber quem eu era.
—E por acaso você tem um nome?
—Tenho
—Hum, fria como gelo. Eu gosto.
—Não me interessa do que você gosta, então, qual o esquema? Eu digo meu nome e você me deixa em paz?
—Talvez sim, talvez não.
—Meu nome é Amy, e pelo que eu vejo, estou atrasada para a aula de trigonometria
—Que coincidência, eu tenho a mesma aula agora. Amy.
Ai que ódio, já no primeiro dia tenho que me irritar com garotos idiotas.
Ouvi alguém me chamando, muito obrigada, olhei para atrás e vi que era Jason e Felix vindo em minha direção.
—Oi gente — cumprimentei os dois ignorando o garoto ruivo, que eu nem sabia o nome – Além de me seguirem onde eu moro também vem atrás de mim quando estou estudando? Acho que estou lidando com assassinos profissionais.
—Informação confidencial, minha cara e vejo que já conheceu o Ethan.
Felix falou olhando para ele com um olhar meio estranho, ele parecia ser tão legal com todo mundo, mas com Ethan parecia existir uma espécie de rixa.
—Então, Amy, gostei da sua roupa hoje, bem menininha estudiosa.
Eu e Jason demos uma risada, então notei que o ruivo havia ido embora, provavelmente foi para a sala de aula, não que eu me importasse.
—Obrigada Felix, é muito importante que você goste do meu look.
—Oh já disse que te amo? Sério, você é tudo que pedi ao deus dos gays.
—Bom o que vocês tem agora?
—Eu tenho literatura e o Jason tem trigonometria, porque a pergunta?
—É que eu tenho trigonometria também, agora sei que não vou ficar sozinha na classe.
O sinal tocou e nessa hora eu e os meninos fomos em direção a sala, aquela escola era gigante, teria me perdido na certa se não tivesse alguém me acompanhado.
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