Notas iniciais
Mais um conto que estou passando para essa plataforma. Espero que gostem!

Sentado em frente ao meu computador, suspirava na tentativa de aliviar o que estava sentindo. A luz branca que a tela emitia já estava a machucar meus olhos, e a antiga cadeira de escritório com tecido cinza e aperto, furtada de meu pai há alguns anos atrás, não proporciona um bom conforto.

Quanto tempo eu estava ali? Horas, talvez. A noção do tempo já não fazia parte das minhas faculdades mentais naquele momento. Tudo que preenchia o meu ser era a necessidade de completar a obra que havia prometido. Eu não sabia como, e ver a forma digital de uma folha em branco fazia com meu desespero aumentasse.

Lia e relia os capítulos anteriores. Tão bem feitos, tão criativos… Sequer pareciam ter sido produzidos pela mesma pessoa que ali estava a encaram o computador, com olheiras profundas e uma caneca de café que já estava fria.

Regredi mentalmente para os dias em que tinha uma produção tão vívida. Via um sorriso em meu rosto e a sensação de que poderia dominar o mundo — até ser atingido por uma onda de depressão profunda.

Uma imaginação vívida é impressionante, uma imaginação maníaca é uma maldição.

A verdade é que tudo aquilo foi construído durante uma crise maníaca, e talvez eu só pudesse retomar a escrita na próxima crise, se assim minha mente decidisse.

Não era a primeira vez que a Bipolaridade atrapalhava meus planos, se é que posso dizer que eram verdadeiramente meus. E eu sabia, também, que não seria a última.

Em meio a tantas idas e vindas entre mania, ansiedade e depressão, eu já não sabia dizer quem eu realmente era. Não havia resquícios da minha essência que pudessem afirmar que, em algum momento de minha vida, um eu verdadeiro havia existido.

Me questionava incessantemente: Quais dos meus sentimentos são reais? Qual dos meus "eus" sou eu? O selvagem, impulsivo, caótico, enérgico e louco com sede de criação e poder? Ou o tímido, retraído, desesperado, suicida, condenado e cansado?

Provavelmente um pouco de ambos, mas, do fundo do meu coração, eu espero que não seja nenhum.

A bipolaridade rouba você daquilo que você é, arranca seu âmago e o substitui por algo completamente oposto. Bagunça seus desejos, sentimentos, memórias. Pode transformar um anjo em demônio, e vice-versa. Traz choros, compulsões, gritos…

Eu jamais desejaria isso para alguém. Nem mesmo ao meu pior inimigo.

Eu prefiro ser uma carcaça vazia do que essa bomba relógio em ameaça de explosão. Entretanto, minha insanidade não é algo que eu possa superar, ela já faz parte de mim, parte da minha sombra. Conviver com nossa sombra é uma árdua tarefa que deve ser repetidamente feita até o final de nossos dias.

Continuo encarando a tela, mais cansado do que antes. Tomo um gole do café e tento conter a careta pela temperatura do líquido.

Alongo meus dedos e os posiciono novamente sobre o teclado.

"Eu me comparo com meu antigo eu, não com os outros. E não só isso. Eu tendo a comparar meu eu atual com o melhor que já fui, que coincidentemente é quando estou levemente ou completamente maníaco.

Quando sou o meu eu "normal", estou longe de ser o mais vivo, mais produtivo, mais intenso, mais extrovertido e efervescente. Em resumo, para mim, sou um ato difícil de seguir.

Sou uma peça com um ótimo começo, um clímax meia-boca e um final decepcionante.

Talvez haja uma galáxia com um planeta um pouco mais deformado, com um sol que brilha um pouco mais escuro, e é nesse planeta que eu deveria estar. Onde de alguma forma faz sentido me sentir quebrado."

Com a tela ainda emitindo a luz branca, sendo a única a iluminar o quarto, termino com o café repugnantemente gelado em apenas um gole. Ando até minha cama com passos pesados.

Deito, cobrindo minha cabeça, na tentativa de fugir do mundo que me rodeia. Algumas pessoas dormem com um bom travesseiro e um cobertor fofinho; eu durmo apenas com um calmante pesado.

A minha luta é contra mim, eu sou meu próprio herói e também meu vilão. Ao mesmo tempo que me levanto, eu me destruo. Ao mesmo tempo que sorrio, me mato aos poucos. Uma via de mão dupla em uma rua sem saída.

Nada fazia sentido, nunca havia feito. Algumas lágrimas escorrem do meu rosto, mostrando a fraqueza que eu tentava esconder de um julgador imaginário.

Dois pólos, duas faces de um mesmo ser. Dividido, fragmentado, perdido em meio à um mar de desilusões.

Grito. a Psicose maníaco-depressiva vai me matar.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!